O sol cai sobre as ruínas da tarde. O canto das cigarras traz uma nota de desolação no centro de uma paisagem vazia. Vergalhando o raso chão um agoniado som seco introduz aquela mulher num mundo que não muda, apesar de alguns esforços. Exposta como sofrida ilustração de um expresso ensino que não deve jamais ser esquecido: “aquela que for pega em adultério deve ser apedrejada”. O véu violentamente arrancado, pudorizado arranjo da vergonha, despida até a cintura, sintoma da urgência do julgamento, na eminência da brutalidade mortífera à que será sentenciada, é colocada diante de um Jesus que está, ao que parece, ausente ao tormentoso alvoroço.
“Mestre, está mulher foi pega em flagrante adultério. E na lei nos mandou Moisés que tais mulheres sejam apedrejadas; tu, pois, que dizes?”. Ele como um conhecedor das mentes, seja porque era Deus ou porque como homem sabia demais, não dá crédito aos instrutores da lei, ele escreve algo no chão.
A mulher desliza um desolado olhar rente a terra sem cuidar que quem inclinado está é ninguém menos que Deus, ele mesmo, aquele que elaborara a lei que estava para selar seu destino.
Ele escreve. Mas o que escreve? Oportunidade rara e não sabemos o que diz o texto. A caligrafia de Deus a mercê do vento e do tempo, dois de seus mais eficientes aliados. Inclinado está, inclinado fica. De propósito? Ele concentra-se no chão. Depois de tantos séculos sem escrever nada – depois das pedras entalhadas por seu dedo lá no Sinai, só abriu exceção escrevendo na parede para assombrar um amaldiçoado monarca babilônico durante um banquete –, estará Deus distraído marcando na terra algum novo mandamento?
Seu dedo ara a terra com misericórdia, mas eles querem um julgamento enfim. Querem aqueles homens é derramar o vermelho sobre o cinza.
Jesus revela-se um caçador de abismos. Um declarante de planuras. Um ressuscitador de rosas tardias que ainda viçam. Na agonia do outro ele experimenta de perto todas as dores que envolvem o gênero humano. À ronda da morte bruta ele preside os últimos e os primeiros instantes da mulher. Os últimos estigmatizados pela vergonha. Os primeiros do bom futuro que se abre à sua frente.
Eles querem saber o que ele acha do mandamento de Moisés. Ela deve ou não ser apedrejada? Dependendo do que disser, eles o acusam. Caso ele confirme a Lei será entregue às autoridades romanas por instigar a violação de um decreto que impede que as autoridades judaicas apliquem a pena de morte em território ocupado. Caso subestime a Lei as autoridades judaicas podem matá-lo com as próprias mãos, pois, estará sendo contra a instituição Moisés. Mas o que está em jogo é algo muito mais elevado; o caráter divino. Absorto em seu sulcar o pó com o dedo, adere à insistência dos ardilosos senhores dos destinos alheios, mas de outra surpreendente maneira. Deus se levanta em defesa da culpada vítima, e algo que ninguém esperava ouvir, foi ouvido: “Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra”. Dito isso volta a sulcar o pó.Volta à lacônica imanência do texto.
Ao dizerem, "a Lei manda que se faça assim, mas o que você acha?”, escribas e fariseus se mostram os mais sutis oponentes que alguém pode ter. Mas o mestre de Nazaré pode ser mais sutil ainda. Ao final eles é que se retiram contrariados e entorpecidos, deixando os dois, Jesus e a mulher, repartirem uma inesperada privacidade momentânea.
Enquanto a turba se afasta e o tempo se adianta, ele promove a improvável união de esferas da existência; transfiguração das sombras. No imóvel ponto em que o mundo gira, onde só a dança se move, passado e futuro ali se envolvem, se enlaçam. Da queda à ascensão. Da compulsão à liberdade promovida pela graça dos sentidos.
Essa era a deixa para ele dizer qualquer coisa que desejasse à mulher. Poderia fazê-la sentir toda vergonha merecida por tamanha desonra ao leito conjugal. Poderia intimidá-la puxando qualquer assunto que encerrasse com o inferno por consequencia. Mas o que ele diz afinal? Ele prefere equilibrar a balança, não afirmando sua inocência nem diminuindo a seriedade do adultério. Ele não a condena.
Sendo ele Deus que pré-existia desde o início e quem tudo fez – como afirma o quarto evangelho –, então é exato dizer que a Lei do apedrejamento foi estabelecida por ele mesmo. Mas e agora, por que infringiu a Lei que ele mesmo estabeleceu para ser cumprida e que ainda vigora absoluta em seu ambiente? Que explicação pode ser apresentada quando a sós com a mulher, podendo desferir com um azorrague verbal tudo o que ditara no passado sobre as conseqüências para casos como esse, diz somente “Nem eu tampouco te condeno, vá e não peques mais”?
Uma leitura, seja da Tanach ou do Velho Testamento dos protestantes, não deixa dúvidas de que até então Deus não se utilizara muito desse padrão de comportamento.
Segundo o ex-jesuíta Jack Miles, a quem devo muitas das minhas insinuações, Deus agora está se tornando mais misericordioso, “Deus em sua longa vida, nunca permitiu que sua misericórdia superasse sua justiça...” Vejam, não que ele não se enternecesse raramente em alguns casos que constam na Tanach, mas é evidente que entre a misericórdia e a justiça (justiça essa punitiva bem ao estilo romano), ele preferisse a justiça.
Sua ousadia me desnorteia quando afirma que,“Se o Senhor se tornou mais misericordioso, então aqueles que pensam estar fazendo sua vontade ao apedrejar uma adúltera agem a partir de uma premissa falsa (...) Ele estava, com certeza, suficientemente livre de pecado para jogar a primeira pedra, mas escolheu não fazê-lo”.
Como o que está em jogo é o caráter divino, Miles definitivamente me tira o chão e confidencia algo que suspeitamos sempre, mas a maioria não tem coragem o bastante para progredir e admitir.
“Até agora, a perfeita inocência de Deus foi a premissa para toda a violência que considerava adequada derramar sobre Israel. Ele era o noivo fiel, ela a noiva infiel. Mas a premissa ainda será adequada? Em suas relações com Israel, o Senhor era como um marido indignado que, pouco antes de rasgar a blusa de sua esposa e golpeá-la na boca, grita a palavras de condenação: “Prostituta!”. Ele insistia que não eram os assírios e os babilônicos que surravam Israel, era ele que o fazia; mas não teria esse direito? Que marido, traído como ele fora, teria deixado por menos? No passado, Deus falava dessa maneira, mas será que ainda o faz?” Avançando ainda mais, será que ele ainda age nesses moldes?
Na composição do quarto evangelho, João coloca logo após a salvação da adúltera um trecho em que Jesus afirma igualdade com Deus:
“De novo lhes falava Jesus, dizendo: [...] Vós julgais conforme a carne, mas eu a ninguém julgo; se eu julgo, porém, o meu julgamento é verdadeiro, porque eu não estou só, mas comigo está meu Pai que me enviou; e está escrito na vossa Lei que o testemunho de duas pessoas é válido. Eu dou testemunho de mim mesmo e também o Pai, que me enviou, dá testemunho de mim’. Diziam-lhe então: ‘Onde está teu Pai?’ Jesus respondeu: ‘Não conheceis nem a mim nem a meu Pai; se me conhecêsseis, conheceríeis também meu Pai’. Essas palavras, ele as proferiu no Tesouro, ensinando no Templo. E ninguém o prendeu, porque sua hora ainda não havia chegado” (João 8.12; 15-20, Bíblia de Jerusalém).
Estas palavras de Jesus literária e artisticamente elaboradas por João nessa ordem têm como objetivo dar relevo ao fato de que o próprio Deus foi quem poupou a mulher surpreendida em adultério deixando nas entrelinhas a sugestão de que Deus depois de longa data – mais ou menos quatro mil anos – deve estar definitivamente mudando. Quando Jesus diz que não julga ninguém, é o mesmo que dizer, eu não condeno ninguém. O Deus de Israel, o Senhor dos exércitos que fez sua fama como um juiz, ou como expõe Harold Bloom, um Deus à semelhança do de Platão, moralista ensandecido, dificilmente diria “Eu não condeno ninguém”. Mas agora ele diz essas coisas. Por quê? Porque Deus está mudando publicamente.
Jesus reivindica o direito de interpretar a Lei e também de revisá-la. E o faz de uma maneira desconcertante, insinuando que tudo o que foi dito pelo Criador lá nas origens do tempo deve agora ser passado a limpo invocando as novas intenções de Deus, as quais ele é o portador e está incumbido de revelá-las autorizado pelo Criador, como o próprio Criador. Bloom lembra que o argumento central do Testamento Tardio é que um homem substituiu as Escrituras.
Um dia Deus escrevera com o dedo suas Leis em pedra. Passado um bom tempo terrificara os convivas de um banquete escrevendo numa parede palavras ininteligíveis. Agora, com o dedo escreveu no chão algo que ninguém sabe e que talvez ninguém teve peito de ler. Pedra, parede, pó. Do mais resistente ao mais provisório. Não será carne e sangue o próximo material em que Deus escreverá seus desejos e vontades? Será que Jesus não está dizendo que é chegado o tempo em que ele escreveria a Lei em nossas entranhas?
Jesus reivindica o direito de interpretar a Lei e também de revisá-la. E o faz de uma maneira desconcertante, insinuando que tudo o que foi dito pelo Criador lá nas origens do tempo deve agora ser passado a limpo invocando as novas intenções de Deus, as quais ele é o portador e está incumbido de revelá-las autorizado pelo Criador, como o próprio Criador. Bloom lembra que o argumento central do Testamento Tardio é que um homem substituiu as Escrituras.
Um dia Deus escrevera com o dedo suas Leis em pedra. Passado um bom tempo terrificara os convivas de um banquete escrevendo numa parede palavras ininteligíveis. Agora, com o dedo escreveu no chão algo que ninguém sabe e que talvez ninguém teve peito de ler. Pedra, parede, pó. Do mais resistente ao mais provisório. Não será carne e sangue o próximo material em que Deus escreverá seus desejos e vontades? Será que Jesus não está dizendo que é chegado o tempo em que ele escreveria a Lei em nossas entranhas?
“Ouvistes o que foi dito [...] eu porém vos digo”. Deus está mudando e Jesus está operando esta mudança.
Alex Sandro Carrari
Referências:
Jesus e Javé: Os Nomes Divinos (Harold Bloom)
Cristo: Uma Crise na vida de Deus (Jack Miles)










