29 de janeiro de 2016

Das poucas coisas que deveríamos saber


Com que vida encherei os poucos breves
Dias que me são dados? Será minha
A minha vida ou dada
A outros ou as sombras
?


(Ricardo Reis)

Temos vivido como se fossemos viver sempre, e não nos ocorre os malabarismos que temos feito para driblar e resistir a morte. Temos desperdiçado nossos dias correndo atrás do vento, como se fossemos plenos de tanto tempo, como se este fosse abundante e que pudéssemos por luxo ou mero capricho, desperdiçá-lo. O tempo que desperdiçamos pode talvez ser o último. O tempo não nos é dado e sim tirado. Não fazemos anos, como disse o Rubem Alves, os desfazemos. Quem se defende por correr atrás do vento achando que faz grande coisa, deveria fazer o cálculo de sua existência. Conta os anos que já te foram e projete os que ainda te faltam – se é que o podes fazer. Aqueles com certeza os sabe e os tem todos na conta, mas e estes? Projeções não significam nada na conta do tempo. Pois então as únicas datas de que temos pleno conhecimento são as que nos foram subtraídas, as que denunciam que estamos nos extinguindo rapidamente.

Porque esperamos tanto para nos dedicarmos ao ócio? Cheios de júbilo dizemos: “Chegando aos sessenta, ou setenta anos – que alguns denominam “a melhor idade” – relaxarei de todas as minhas fadigas”. Mas podemos confiar que viveremos tão longamente? E que garantias temos de que os planos traçados e que as riquezas bem guardadas terão os desfechos que prevemos com tanto medo e ansiedade? E quem nos induziu ao grave erro de esperar chegar à idade avançada e isso com tantas certezas? Somos melhores em algum aspecto do que aqueles que morrem com a idade em flor? O que de tão especial temos que nos achamos no direito de folgar na confiança de que passaremos ilesos aos acidentes do acaso a que todo mundo está exposto e que interrompe vidas virtuosas e nobres projetos?

Não caiamos nessa de “a melhor idade”, isso não existe, o que existe são os melhores dias. E vivamos não de idades, mas de dias. Sêneca, esse honesto romano disse:
Do mesmo modo que uma conversa, uma leitura ou qualquer reflexão maior desvia a atenção do viajante, que, de repente, se vê chegando ao seu destino sem perceber que dele se aproxima, assim é o caminho da vida, incessante e muito rápido, que dormindo ou acordados, fazemos com um mesmo passo que, aos ocupados, não é evidente, exceto quando chegam ao fim”.

Devemos estar cientes de que, a única aposta certeira que podemos fazer é que contra o tempo estamos em desvantagem sempre. Quanto mais ocupados estamos, a vida ainda mais se apressa, e a morte mais se adianta. E não nos enganemos quem nos entregará à morte será a própria vida, quando se cansar de tanto pouco-caso.

De acordo com a sabedoria do Qoheleth – que não é exclusivamente sua – a vida se divide em três fases ou períodos: aquilo que foi, o que é e o que será. Certo é somente o que fizemos, breve o que agora fazemos e dúbio o que estamos por fazer.
Tão breve é o tempo presente que sequer é percebido, na verdade incorretamente dizemos “presente” quando ao terminar de dizê-lo já é passado. O presente só se faz notar em tese, como um mero conceito de intervalo entre passado e futuro, ou seja, entre o que é certo, pois já se foi e pode ser constatado pela recordação, e o que é posseiro das nossas dúvidas mais agudas já que o que está à nossa frente é completamente incerto.

O tempo passa e não se pronuncia audível, comunica-se por sinais, se deixa perceber através das marcas que vai deixando em nós impressa. Vendo as marcas e interpretando-as é que nos sentimos ir. Breve é o tempo da mais longa vida. A lei inexorável do esvair perpétuo que não cessa nos pesa e dói.

De tudo o que nos apaga a vida e nos rouba o tempo, o comprometimento com as coisas perecíveis são as mais estúpidas. Comprometidos com as coisas que estão fadadas a se extinguir e se invalidar tão rapidamente quanto nós, perdemos o agora, e não chegamos a viver o amanhã, pois o antecipamos em nossas mais solícitas preocupações e quando deveria ser o tempo de o vivermos ele já não está estendido à nossa frente, o consumimos mesmo antes que existisse.

Gastamos nossas fases mais produtivas da vida defendendo tolas idéias sobre as mais variadas bobagens, juntando cacarecos onde está o nosso coração que, não bastasse isso, está entulhado com todo tipo de merda de consumo a que, rilhando os dentes, damos tanto valor. Decidimos viver quando na verdade já deveríamos fazer planos e testamentos, e ensaiar uma digna despedida. Começamos a pensar em viver quando é tarde demais. Deveríamos, acredito com todas as minhas forças, usar o tempo para instruir-mo-nos no viver, e não acompanhá-lo em sua passagem enquanto desfazemos os anos que nossa ganância e avareza nos faz acreditar que lucramos.

Será que somos como aqueles que como disse o Sêneca, não viveram muito, apesar dos cabelos brancos e das rugas? Será que somos como muitos desses que apenas existiram por muito tempo? Existir é uma coisa, viver é outra. Para existir basta estar aí, na opacidade, inerte, uma criatura maciça, parafraseando Sartre; simplesmente um em-si sem projeção nem transcendência alguma. Ah, mas para viver tem de haver desenvolvimento, envolvimento, e a clara noção de que esta é, ao menos por enquanto, a única vida que podemos conhecer – embora eu gostaria, de coração sincero, que houvesse outra depois.

A vida é um sopro. Não é a toa que no Decálogo Deus sopra no nariz do Adão. Isso significa que lhe está sendo dado algo ao mesmo tempo poderoso, pois trata-se do fôlego de Deus, e volátil, pois expirar-se-á vagarosamente até voltar totalmente para Deus. O sopro que nos põe de pé será bem cedo requerido de volta e isso nos devolverá ao berço do pó. O tempo é incorpóreo e talvez esteja aí o motivo de não fazermos muito caso dele. Não o valorizamos devidamente e fazemos uso irresponsável da sua presença como se isso não nos custasse tão caro. Contudo, quando chegar o dia mal e uma doença nos invadir violentando-nos por dentro e por fora, correremos e nos jogaremos aos pés do sacerdote para que interceda por nós, para que possamos ficar um pouco mais. Quando não, nos lançaremos aos consultórios médicos e gastaremos todo o nosso rico dinheiro que afadigados guardamos por tanto tempo onde a traça rói e a ferrugem consome. Aquilo em que empatamos todo o nosso tempo e empenhamos toda a nossa vida será gasto para tentar viver mais um pouco e ganhar mais um tempo. Arre, para que gastar preces ou ouro que seja para prolongar uma existência tão medíocre? Se for pra isso que se vá de uma vez.

Ocupamo-nos tanto e tanto em trabalhar duramente para melhorar nossa condição sem nos darmos conta que por maior que seja uma conquista sempre haveremos de querer mais e mais e mais e mais... Essa é a nossa constituição mais básica; seres que jamais estão satisfeitos. Sempre dá pra ganhar mais, não importa a que custo, seja perdendo o nosso tempo ou arruinando o tempo dos outros. Viver desse modo é o mesmo que encher de terra um vaso sem fundo.

Morreremos empatados demais de coisas. Morrermos trabalhando demais por nada, buscando uma elevada posição para quem sabe ter no túmulo uma vã inscrição que, tarde demais, dirá tudo sobre nós, dirá tudo por nós: “morreu ocupado”. Pensemos agora se isso é agradável.
Das poucas coisas que deveríamos saber é que, tudo o que nos toca, e tudo o que tocamos, num momento qualquer, sempre inoportuno, com ou sem aviso, nos será tirado. Nossa curiosidade será satisfeita. Nossa euforia findar-se-á. Nossa ganância terá seu fim. Porém, tarde será. Para o lugar aonde iremos depois que findar a vida não haverá lembrança das coisas.


O que é certo é que, por enquanto a única vida que temos nas mãos em nossa posse provisória, a única que parcialmente conhecemos, é essa que nos acorda dia após dia para fazermos o que tem de ser feito, e que deveríamos dar o melhor de nós para que tenha valido a pena a aposta que Deus fez na vida. Que ao final de tudo não haja tantos arrependimentos. Que nossos olhos tenham enchido os nossos corações das mais estéticas verdades. Que no momento em que a vida nos escapar e chegar a hora do barqueiro aportar na enseada da nossa finitude, haja envergadura suficiente para não lamentarmos tantos desperdícios. Caso haja algum lamento, que seja “por ter de deixar um mundo assim tão bonito”, como disse o poeta.


Alex Carrari

27 de janeiro de 2016

Tecitura de silêncio


No silêncio que marca o tempo é onde comungo
minha religião de esperas,
enquanto n’um ritual de brancura
a névoa me envolve numa camada funda
e leve,
fazendo mansos meus pensamentos.
No silêncio cultivo todos os devires,
debruço sobre uma verdade que cai em desuso
(A eternidade é feita de pedacinhos de vida breve).
Vou ficando enquanto passo,
prisioneiro e errante de amores
.
Rumo para longe de tudo percorrendo o mundo
sem sair de perto dos teus seios.

Onde todo o horizonte cabe em meu caminho?
Onde não há começo nem fim,
e a solidão torna ao pó.
Enquanto percorro meus desertos interiores 
absorto nas brancuras que me invadem,
há um breve instante para a poesia
e o meu corpo é um templo cheio
do vácuo de expectativas extravagantes.
Nele exploro minhas tristezas até a exaustão,
tento ver em que pocilga da lembrança
as saudades se abrigaram.
Delas não quero me despedir,
porque estão plantadas em um terreno só meu,
onde experimento a ressurreição das coisas
de sangue e carne entregue
aos caprichos desta vida provisória. 

Silêncio assim é tecido sob um sempre
e alonga-se na lenta paisagem onde me recomponho
e me cabe de novo ser criança,

condição que demorei uma vida quase inteira para alcançar.
E eu posso brincar de mim,
numa
 infância de branca névoa 
solta num jardim que nunca se tranca
.
Neste silêncio sou uma ciranda que sempre gira
pelas mãos da vida que não cansa de brincar de rodar.


Alex Carrari


24 de dezembro de 2015

Foi como gente que Deus bordou o véu do tempo


Os dias perdidos que comovem nossa memória
arrebatando o tempo que flui entre o sono e a vigília oculta,
são a expressão da tensão entre o nascimento e a morte,
espaço em que apreendemos o desvelo do Espírito
e o estar em sossego entre a hora justa
e algum sítio abençoado
carregado de significados invisíveis.

Condição imutável do mundo.


Percorremos rumo à porta que jamais abrimos
que aberta foi no tempo fora do tempo,
não sem sacrifícios, não sem sangue,
não sem carne, não sem a maldição da lei.
Entre clamores e súplicas,
o abandono experimentado no lenho
começou embrulhado em palhas numa estrebaria.

Sua constituição confunde-nos onde nossa memória naufraga.


Antecipado o fim em seu começo,
o seio da eternidade é todo o mundo de uma paixão,
e o aconchego de Deus, um cocho de animal como berço,
de onde a superfície da terra flamejou no coração da luz,
convertendo céu e terra num só fim,
convergindo céu e terra num só Ele,
transmutando para sempre Ele em todos.

O céu e a terra misturados, o mundo renasce certo.


Em Belém evaporaram-se os vestidos da Trindade
na paisagem consumada de Seu desejo de amor profundo.
E o vento, outra forma de Seu Ser,
levou Seu corpo por alamedas, becos e mares,
onde encontrou nossas dores, alegrias e sonhos,
e fez das nossas as Suas dores próprias de existir,
das humanas alegrias criou resistência ao desespero,
dos nossos provisórios sonhos cunhou sua divina fé na Vida.

Foi como gente que Deus bordou o véu do tempo.




Alex Carrari

4 de dezembro de 2015

A aurora de um novo tempo: a morte de um certo "Deus" e a coragem de ser



A aurora de um novo tempo de encontro com Deus já se anuncia na imensa profusão do mundo. Se tirarmos as sandálias dos pés nesta terra e reverentemente aprofundarmos o olhar na paisagem perceberemos lampejos de sua silente manifestação nos lugares mais inesperados, nos mais áridos e desconfortáveis recantos da alma seu Espírito escolheu fazer casa permanente. A inquietação que toma nossos corações e faz estremecer nossas frágeis estruturas corpóreas diante de enormidade da vida, são as substâncias da história divina em nós, do Êxodo ao Getsêmani, vividas em seu exílio voluntário na forja deste mundo de despedidas prontas a se cumprirem. É este e não outro Deus que convida a nos lançarmos de peito aberto na vida para encontra-lo no lugar de sua escolha eterna, no turbilhão das mais corriqueiras sensações humanas, sinalizando do meio das nossas efêmeras distrações, mergulhado nesse mar de gente onde nos sentimos por inteiro.

Aos pessimistas acanhados que odeiam tudo o que é humano, tudo o que é da Terra, tudo o que é fenômeno do corpo, os lampejos dessa aurora são vedados, pois, não percebem quando no horizonte, mesmo sombrio (Deus faz sua cama também no abismo) desponta a possibilidade de se viver uma nova consciência, livre das fábulas e medos que atormentaram nossos antepassados. É-lhes vedado não por um processo seletivo natural, mas por preferirem o consolo anestésico de projeções abstratas que lançam para o post mortem o início da verdadeira vida, nada mais que doses homeopáticas daquilo que Marx chamou de ópio do povo. Poucos são os que estão percebendo a chegada desse novo tempo, menos ainda são os sem-medo que despertando antes de todas as alvoradas do mundo com preces nos lábios e no coração a coragem de ser, saem descalços pelas calçadas da vida como pastores da terra lavrando ternura nas pedras do caminho.

*    *    *

Nietzsche proclamou a marteladas a derrubada de certo prédio teológico no qual morava um certo "Deus", em cuja placa de entrada do condomínio estava escrito, Platonismo para o povo. Derrubado o prédio, "Deus" morreu entulhado entre seus escombrosPregar a morte desse "Deus" inventado, legitimador da eufórica fuga da realidade, ainda causa furor nos membros de ambientes religiosos que detestam que gente seja gente, como se pecado fosse ser carne, ossos e emoções. Sendo esse "Deus" ensimesmado e manhoso o maior inimigo da vida.

Muitas almas crentes abatidas, temerosas de que seu "Deus" (que está morto) seja deposto de seu altar caseiro, se deleitam na sensação de segurança embutida num ídolo do lar, preferindo o medo à liberdade. Sobre esse tipo de medo o discípulo amado escreveu: "No amor não existe o medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor" (1 Jo 4.18).
A grande ironia dessa história é que a postura esquiva destes crentes em relação a absoluta e intransferível responsabilidade humana com a vida, foi o que os levou a usar Deus como uma muleta metafísica, que outrora foi chamada pelos filósofos de "ideia de Deus". Agora um movimento iniciado pelo próprio Deus há quase dois mil anos em um sensível carpinteiro de Nazaré está levando a se esvair da história os restos dessa ideia construída pelo imaginário humano, ficando para estes que persistem em recuar ao novo tempo de encontro, apenas a expectativa de um arrebatamento secreto ou pelo menos o reparador conforto momentâneo do dinheiro.

Deus navega por uma memória sem margens e aqueles que julgam defendê-lo escorados em proposições de mais de quinhentos anos, pensadas por homens idôneos e íntegros, porém falhos e temporais, como se estas fossem absolutas no que dizem a seu respeito, são constrangidos por Jesus – quando o levam a sério – de que Deus não pode ser estancado por nada que seja temporal e relativo. Estancar Deus, dizer que ele é desse ou daquele jeito, conferir-lhe uma personalidade estática, é fabricar um ídolo. E Deus em sua longa história proibiu que se esculpisse qualquer imagem que o colocasse dentro de um molde temporal; Deus não é um pedaço de pau ao sol.

O Deus verdadeiro se mostra vivo no vestido das paisagens, no vento levando seu corpo por entre alamedas de pedras, nas leves alvoradas de neblina, em cada flor, em cada perdão depois da mágoa, em cada abraço que leva alguém mais longe. Os que não o percebem são meros espectadores, porque desprezam a chance singular, irrepetível de ser gente, de se realizarem como seres humanos, único jeito de se aproximar de Deus, de ver Deus.

O novo tempo que se anuncia é tempo de gente que aceitou o convite do Deus que veio e ficou gente, Jesus, para construir a história a quatro mãos, gente que não se conforma em ser mero espectador na vida, que tampouco se esquiva das responsabilidades que demanda a parceria.

O novo tempo que se anuncia é um tempo não de chegada, mas de ida, e é no estar indo que se aprende um modo de ser, como escreveu Rubem Alves.



Alex Carrari


25 de outubro de 2015

A decisão entre o sucesso e a graça de sofrer por Cristo


O sucesso da empreitada cristã no ocidente se deve ao caso de a irretocável mensagem primordial e límpida da cruz do Cristo ter sido repelida, e em seu lugar estilizados discursos mais palatáveis, menos exigentes em práticas e mais sortido em verbalizações e abstrações piedosas. Se a incomum mensagem de Jesus não fosse repelida, os ideais de conquista territorial, cultural e política, pretendidos pelas organizações que capturaram indevidamente o nome “igreja”, não se consolidariam, pois, nada é mais antagônico do que tais ideais e o Evangelho.

Tendo o sucesso como meta, as credenciais que autenticam um seguidor de Jesus não são mais o testemunho de fé, quer dizer, ser provado e aprovado nos sofrimentos; um exemplo de prosperidade financeira é suficiente para alguém ser considerado um exemplar da benção seletiva divina, um elogiável modelo de seguidor de um “Jesus” líder de mercado.
Padrão é o vencedor. Referência é o vitorioso. Digno de reconhecimento é o vigoroso. O mérito está para os fortes.

A igreja (organizações conforme descrevi acima) chegou aonde chegou e o cristianismo deu certo porque se afastaram do essencial nos ensinamentos de Jesus. Enquanto era um movimento marginal perseguido, enquanto os primeiros cristãos congregavam a luz das lamparinas nas catacumbas sob os pés judeus e romanos que os caçavam até a morte, havia uma ligação com a mensagem de Jesus que dizia: “De todos serão perseguidos por causa do meu nome...”, “...vos envio como cordeiros para o meio de lobos”, “No mundo tereis tribulações...”. Havia algo de proximidade com a vocação evangélica inicial para a qual o Espírito Santo seria especialmente enviado: “Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra”.

Do ponto de vista do Novo Testamento, testemunha, do grego martys (mártir), é a qualificação que marca aquele que se entrega para morrer por sua fé no jeito de viver do Cristo. Mártir é aquele que com seus sofrimentos e morte declara sua fidelidade ao Cristo, e da maneira mais radical de todas, preserva a essência da verdade pela qual viveu, morrendo morte semelhante e pela mesma causa de seu Mestre.

Até o Espírito Santo, uma pomba delicada, um sopro suave que tem livre curso, perdeu sua vocação de ser o encorajador, a energia vital que anima o discípulo a perseverar no testemunho, para tornar-se um mero ponto de contato entre o céu e os desejos mais frívolos dos crentes, nada mais que o agente que cochicha aos ouvidos de Deus para convencê-lo a ceder às exigências mais banais de milhares de filhos mimados.
O Espírito Santo é hoje o meio de convencimento que os crentes usam para atingir o calcanhar de Aquiles de Deus, e alcançarem seus fins. Quer dizer, o orgulho que ele tem de ser reconhecido como Todo-poderoso e que por isso faz questão de demonstrar para o que ele serve quando é acionado. Querem convencer Deus de que ele precisa demonstrar que ainda é necessário, e calar a boca dos críticos que dizem que ele está morto.

*    *    *
Após a organização das primeiras comunidades cristãs, quando os ideais de vida de Jesus já começavam a arrefecer e se plasmar com rasos interesses privados, Paulo tenta recuperar entre os Filipenses a mensagem do Mestre que convocava aqueles que tivessem em mente andar de acordo com a sentença: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome sua cruz e siga-me” 
(Lc 9.23).
Paulo, que diferentemente de Jesus, mais ajuntava do que espalhava, escreveu também: “Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele” (Fp 1.29).
O sofrimento por causa do Cristo era recebido como graça de Deus, e Paulo chega a extremos ainda mais difíceis para as mentes evangélicas modernas que consideram a certeza do sofrer como uma injúria à fé: “Agora me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja” (Cl 1.24).

O apóstolo está dizendo que os sofrimentos do Cristo não cessaram com sua morte e ressurreição, eles são intermináveis na existência, e aquele que assume a vida que o Cristo viveu sofre o excesso de seus sofrimentos.

O racionalmente fraco argumento da loucura da mensagem da cruz que Paulo desenvolve na primeira carta aos coríntios, tem nesta sua fala aos colossenses, mais um extremo sinal de identificação com a vida e o destino de Jesus; alegrar-se nos próprios sofrimentos, voluntariamente oferecer seu corpo para receber as mesmas aflições que o Cristo e tudo em favor de um grupo de pessoas que ele chama de seu corpo, a igreja.
Com as palavras de Paulo em mente e o exemplo absoluto de Jesus como o servo sofredor de Isaías 53 – inteiramente re-significado aos crentes do Novo Testamento pelo episódio do encontro entre Filipe e o eunuco –, os primeiros cristãos contemplavam o sofrimento por causa da fé como uma honra, e a consequência mais dramática, morrer como testemunha, uma glória que todos os primeiros imitadores do Filho de Deus desejavam em vida para que pudessem, com fé, provar de forma gloriosa a morte reservada a todo homem.

A decisão de como viver sela um jeito assumido de morrer! Em suma é isso.



Alex Carrari


20 de setembro de 2015

O milagre vindo de fora apresenta Deus como um simples fazedor de coisas (última parte): O milagre brota do chão pisado por Deus



Jesus é homem que lida com a vida sem cortes. Para ele não existe essa inconsistência de mundo ideal superior ao mundo sensível, céu melhor que terra, transcendência separada de imanência. Para Jesus todas as dicotomias são falsas, tudo não passa de convenção de interesse humano para manter o status quo das estruturas de desigualdade exatamente como elas são, para benefício dos mesmos grupos que as estabelecem e que fazem do próprio ventre o seu deus e das instituições religiosas suas fortalezas virtuais. Por lidar com a vida sem cortes, o milagre para Jesus é um acontecimento da vida, e, mais que isso, em todas as ocasiões o que é de maravilhar ao final é a culminação de um movimento ligado à sua conduta de compaixão pelo gênero humano, que era o que o impulsionava. Aprofundando ainda mais, há na ocorrência do milagre, outro sinal surpreendente que, para o religioso médio que ainda não é suficiente para aceitar que Deus não age sozinho, deve ignorar por completo para seu próprio bem.

Deus precisa de parceiros.

Deus age em parceria e essa parceria acontece no centro da vida, brota no chão das nossas e das suas próprias andanças, vai subindo como renovo em uma terra seca, terra tocada pelo eterno feito gente, terra que recebeu seu suor, sangue e lágrimas – os fluidos do divino regaram o chão que pisamos tornando a terra eternamente sagrada. E o Verbo se fez carne nascendo da terra, o locus da peregrinação humana, estabelecendo um novo fundamento no relacionamento entre o Eterno e o finito, se fazendo um peregrino, assumindo o destino coletivo da humanidade, tomando sobre si as aflições próprias de ser humano, tocando todas as dores que alcança, e as que não alcança, pede para que seus discípulos o ajudem a tocá-las.

Contudo, lá em seu tempo como cá no nosso, a maioria da cristandade ainda não entendeu, ou se entendeu faz de conta que não, para não ter de reconhecer que a vida e o mundo têm absoluta prioridade na agenda divina, pois, reconhecer essa prioridade implica em tomar as dores do mundo sobre si, tornando-se responsável por sua cura, porque a vida e o mundo, em Jesus, foram resgatados como sagrados.
Giorgio Agamben intui muito bem sobre o movimento que as dicotomias operam des-sacralizando a vida e o mundo quando diz que o profano não é o secular-utilitarista, mas o resultado da profanação do sagrado.
Jesus se relaciona muito bem com o secular, não se sente um estranho nesse ninho, e ainda vai tão longe quanto se pode ir prometendo voltar como Espírito para estar em seus discípulos imersos na vida do mundo até o fechamento da história.

Uma vez que a vida e o mundo são sagrados para Jesus, o milagre não é mais uma questão privada de acesso e distribuição pertencente somente a Deus. O milagre é um assunto da vida, nasce do chão que pisamos, irriga solos áridos, sara corações aflitos, alimenta o estômago de almas famintas, qualquer um tem acesso, e o mais revolucionário, um qualquer pode ser agente de sua manifestação.
Uma vez que Deus está no mundo e seus discípulos têm o seu Espírito, o Reino está no interior dos que assumem a caminhada do Cristo (O Reino de Deus está dentro de vós). Portanto, a vida e o mundo não podem ser considerados profanos. E se ambos não são profanos, pelo contrário, foram resgatados como sagrados que são, o milagre não vem de fora, brota daqui mesmo, não é uma intervenção brusca de Deus, tampouco uma ação divina unilateral, é um feito da vida com todas as possibilidades de acontecimento no único campo de atuação que conhecemos e que nos foi permitido eternamente experimentar; o mundo dos sentidos habitado pelo Espírito do Cristo através de homens e mulheres que amam a vida do Deus feito carne.  

O milagre só pode ser compreendido como um evento da vida se a vida com todos os seus elementos, com todas as suas manifestações de beleza, compaixão, sensibilidade, for acolhida como sagrada e o discípulo de Jesus se assumir como responsável amoroso pela fruição da graça de Deus no mundo através dos elementos mais básicos constituintes da vida.

Esse é o ensino de Jesus quando seus discípulos preocupados com a hora avançada em lugar deserto pedem para que o Mestre despeça a multidões que se aglomeram para ouvi-lo para que possam comprar alimento pelo caminho.
Jesus rejeita a primeira opção dos discípulos e diz para eles mesmos darem de comer para toda aquela gente. Como eles – assim como nós – não entendem bem sobre a questão da sacralização da vida e seus elementos, imediatamente retornam para Jesus dizendo que encontraram apenas um menino com cinco pães e dois peixes, e afinal o que significa tão pouco para tanta gente? Não sei o que eles querem dizer com isso, talvez seja mais uma justificativa para que Jesus despeça mesmo aquela aglomeração e nenhuma responsabilidade pese sobre eles. Na versão de do Evangelho de João, Jesus chega a provocar Filipe perguntando onde poderão comprar tantos pães para aquela multidão, e o evangelista acrescenta que Jesus dizia isto para o experimentar, pois sabia o que estava para fazer.

Duas coisas que nos escapam nesse evento, embora estejam explícitas no texto, é que os elementos necessários estão presentes, pães e peixes, e que Jesus convida seus discípulos a serem agentes do milagre – que é bom lembrar, não é tratado por ele como milagre. Ao convidar seus discípulos para darem de comer às multidões, Jesus está dizendo que a questão é mais simples do que eles pensam que é. A matéria está presente na forma de pães e peixes, o que é preciso então para todos não desfalecerem de fome?

Falta distribuição.

“Dai-lhes vós mesmos, de comer”, convida Jesus aos discípulos na versão do evangelista Mateus.
Pães e peixes não caem do céu, nem surgem magicamente dentro um cesto, como em um episódio do ilusionista Dynamo, em que ele faz sair dezenas de peixes de dentro de um balde vazio. Isso não é milagre é mágica, e Jesus não é mágico.

Para Jesus o verdadeiro milagre está na distribuição do pouco que se tem para o muito que se apresenta com falta. E um evento como esse é uma lição sobre como administrar os recursos da vida com compaixão pelo outro. O milagre, primeiro de tudo acontece quando do interior de alguém nasce compaixão, aí começa o milagre. O evangelista Mateus mais uma vez: “Desembarcando, viu Jesus uma grande multidão, compadeceu-se dela e curou os seus enfermos” (Mt 14.14, grifo meu). A compaixão é ao mesmo tempo o solo fértil onde brota e ao mesmo tempo a água que rega o milagre nascente.
Multiplicar pães e peixes não se localiza em um horizonte de milagre como algo sobrenatural fora daqui, nem como uma intervenção divina cortante e brusca vinda do alto lacerando o mundo dos sentidos. Pelo contrário, alimentar multidões com apenas cinco pães e dois peixes é muito possível, e Jesus está dizendo isso aos seus discípulos.

Aqui o que é possível para Deus, Jesus está dizendo que também é possível para o homem. Alimentar tanta gente com tão pouco é perfeitamente natural, é algo que se deve esperar, é algo que se deve fazer.

Milagre é repartir.

Milagre é o dom de repartir o pouco que se tem na vida com quem tem tão pouco que chega a ser nada.
A vida e seus recursos são sagrados porque saíram das mãos de Deus, e Deus deles um dia necessitou para alimentar sua vida; o Deus que tudo criou, que tudo pode, que de nada tem falta, um dia dependeu dos elementos mais básicos da vida para viver.

Um dia Deus entrou na vida comum dos homens e também foi um necessitado, dependeu da caridade e gentileza de amigos.
Um dia Deus olhou para essa vida comum e para os homens e os amou tanto que decidiu tocá-los e se deixar ser tocado por eles.
Um dia Deus pegou alimentos da vida na frente de multidões de almas famintas, os abençoou cheio de compaixão e deu para seus discípulos repartirem entre todos. Nesse dia o milagre brotou do chão que deu o trigo transformado em cinco pães pelas mãos dos homens, chão que retém água em mares e lagos de onde alguém pescou aqueles dois peixes.


Alex Carrari

6 de agosto de 2015

O artista e sua arte, uma prece inacabada



Encorpa-se a noite, logo os menos obstinados abraçam o sono, acomodam quietude em dormente esquecimento. Em silente recolhimento estaca-se o artista diante do cavalete no exercício de sua messiânica vocação; tornar uma experiência pictórica a extensão de sua própria personalidade. Nesta quadra de tempo não há mediação entre ele e as demais coisas, só existem as tintas, os pinceis e a tela. No mais, o jazz embala seus mais essenciais requisitos.

Todas as companhias são dispensáveis, a solidão dedica-lhe especial acolhida. A solidão sua consorte genitora.

No fazer não reside todo seu intento, pois, há um tempo entre a agonia de uma espera improdutiva e o êxtase nascente das cores e das formas. Agonia e êxtase encontram vasto abrigo em seu espírito tão afetável pela sutileza relativa do belo. A exigência por tornar aparente uma beleza desapegada das convenções consome suas forças mais vitais.
Ele freme, ele treme, o suor irriga sua face rabiscada pelo hábil buril do tempo. Nesse instante ele é o paradoxal soberano de seu ofício, sendo possuidor dos meios e procedimentos para sua mais custosa confissão e possuído pela ansiedade por uma aceitação geral em que se rende a uma altiva virtuose.

De parca reza, inábil com as palavras, confidencia seus pecados com as mãos esperando que sua arte conduza sua vida a manifesta redenção. A vida que não se separa de sua arte transforma o espectador em testemunha de seu drama. O espetáculo público a que, mais adiante, submete sua pintura, nada mais é que sua entrega muda aos olhares que podem absolvê-lo de uma injúria permanente e mantê-lo aceso por um tempo mais.
Não é o tempo, nem a doença ou qualquer outro artifício de esgotamento que lhe tirará a vida, a pública indiferença é que o consome de pouco em pouco.

Enquanto a noite se aprofunda em sereno negrume ele se empenha em embelezar o registro de sua passagem por estes efêmeros prados. Não tolera a possibilidade de passar em branco, ou o que é pior, deixar que outros exponham seu íntimo a não ser ele mesmo, sendo este o único poder que ele, com muito custo, nas entranhas retém. Sempre suspeito de escárnio, galgando a escada dos santos, ao tempo que pinta, sua vida apresenta as vidas que virão depois de si.

A longa luz vacila ao meio da madrugada em seu reino de sonho. Estremecem as forças da manhã antes que a aurora debruce sobre a relva e seus olhos não sobrevivam às lágrimas. Sua pintura repousa como uma prece inacabada ante o corpo exaurido de seu artífice senhor. Sua obra, a última visão antes de ensaiar a derradeira letargia, é a que depositará no altar à beira de seu leito inaquecido, posseiro de suas tantas indormências. No ar violáceo do atelier, sua capela erigida com os escombros do tempo, agradece a Deus o dom com o sangue agitado em seu já cansado coração.

De seus olhos, os olhos que sobrevivem por um breve instante, há que ficar uma parte do que conheceu dessa hora vacilante, desse campo de estrelas tíbias, dessa renúncia que o faz expor ao esquecimento suas vísceras, a fonte de seus olhos e as partes indigestas.

Neste último sítio de encontros o artista tateia esquivo à fala, despertando sozinho em seu reino de sonho, numa solene distância sob o lampejo de um céu inexato, onde ele ainda pode trajar seus tácitos disfarces, à fundura de sua solidão, à altura de seu silêncio, à largura de seu espírito. Ensinando aos que acham por demais pesado a sentença de estar vivos, o desvelo das súplicas e o estar postos em sossego, enquanto o poente não se estende como um paciente anestesiado sobre a mesa.

O tempo que nele passa rompe um devaneio fundo. Tempo farto de seus minutos no seu quarto de silêncios brutos. Sob o vedado sol, presa da pálida fatalidade, deixa a vida incerta ser quem seja, e cumpre assim o destino que lhe cabe.



A.Carrari.


2 de agosto de 2015

O milagre vindo de fora apresenta Deus como um simples fazedor de coisas (segunda parte): O valor sagrado do mundo

  
Se o apóstolo Paulo não tivesse escrito que Deus nos revelou o mistério da sua vontade, de acordo com o seu bom propósito que ele estabeleceu em Cristo, isto é, de fazer convergir em Cristo todas as coisas, celestiais ou terrenas, na dispensação da plenitude dos tempos (Efésios 1.9-10, grifo meu), estaríamos ainda tateando em um mundo sem sentido à espera de um semi-deus libertador, capaz de conferir um pouco de significado a esse violado vale de lágrimas.
Nesse que é um dos trechos mais paradigmáticos do apóstolo, Jesus aparece como aquele que une céu e terra em si mesmo. O céu não é mais tão distante que não possa ser tocado pelos humanos, o mundo não é mais tão profano ao ponto de Deus rejeitar contato com ele.

Em nosso tempo a insistência em se ler as novidades do Evangelho com as lentes convencionais da filosofia grega e a total e proposital ignorância do valor que a mensagem evangélica acentua do mundo imanente – digo acentua, porque a mensagem judaica nunca desvalorizou a imanência, e mais que isso, sempre pensou “herança eterna” em termos bem materiais, sendo Jesus seu maior expoente – são os principais responsáveis pelas mensagens dualistas aparentemente cheias de pudor que pensam preservar a santidade de Deus realçando seu distanciamento do mundo.
A “higiene sagrada” que ainda se anuncia com caráter oficial de muitos púlpitos evangélicos em nosso tempo, que acredita e prega que Deus preserva usa reputação de Santo mantendo-se separado do mundo, deixando a serviço do Espírito Santo o contato mais íntimo com a humanidade – já que o Espírito Santo é o mais incorpóreo dos três entes da Trindade, e, portanto, é mais difícil se contaminar com o que é matéria – é a consequência mais deprimente em forma de discurso da atualização do arcabouço grego de compreensão sobre o Evangelho.

O que torna a mensagem do Evangelho tão singular é o fato de o Logos se fazer gente e dar sentido à vida não de fora, ou como uma força, um dinamismo impessoal que traz harmonia ao cosmos divino como na filosofia estóica, mas sim em envolvimento extremo e pessoal com o mundo. O Cristo ao encarnar se envolve com o mundo sem nenhuma reserva e é desse envolvimento que Paulo está escrevendo.
Ao escrever que Deus fez convergir em Cristo todas as coisas, celestiais ou terrenas, Paulo está dizendo algo muito mais profundo do que a Cristologia supranaturalista supõe ao tentar expressar o mistério da encarnação em termos que colocam em vantagem os atributos metafísicos de divindade em relação a “porção humana” de Jesus. Essa vantagem aparece sempre que a discussão sobre ele ser “Deus-homem” vem acompanhada de um, “sim ele era homem igual a nós, porém...”. É nesse “porém” que reside a exaltação dos atributos divinos de ordem metafísica e, por conseguinte o rebaixamento de tudo o que se relaciona com o mundo da matéria e das limitações tipicamente humanas.
É assim que a teologia supranaturalista tem se mostrado predominantemente docética ao pregar sobre a encarnação do Verbo: significa que Jesus era muito parecido com um homem, mas por dentro – à semelhança do invólucro platônico do corpo que aprisiona a alma – ele era Deus. O “lado Deus” de Jesus vai sempre prevalecer, ser sempre mais excelente em relação ao seu “lado humano”.  Mais que isso, seu “lado humano”, nada mais é que um disfarce que oculta o “Deus” que ele realmente é.
A maneira tradicional do supranaturalismo descrever a encarnação é, Jesus sendo Deus Todo-poderoso, caminhando na terra, fazendo temporariamente algumas coisas de homem, mas no fundo mesmo, era Deus vestido de homem.

*    *    *

João diz que todo aquele que confessa que Jesus veio em carne é de Deus, e todo espírito que não confessa Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo (1 João 4.2.3).
Não confessar Jesus é não apenas rejeitar o invólucro humano que abriga sua alma divina. Que se queira ir mais longe, mas não fundo o suficiente, João não está falando de negar uma constituição humana pessoal em Jesus, quer dizer, ele em aparência humana, a questão abrange um espaço maior, o espaço da história de todas as vidas humanas que procuram por um significado para estarem no mundo.

Não há quem viva no mundo sem dele participar, sem depender de suas estruturas, desde as estruturas de linguagem às de cultura e comportamento. Não há quem esteja no mundo sem dele depender de sua organização espacial, cronológica, biológica. Em outras palavras, não há como ser humano sem se envolver por completo com o mundo, sem ser dependente dele como de um imenso organismo vivo do qual emana energia vital, sem se reconhecer um filho de homem com muitos irmãos.

A falta dessa noção de estar no mundo sendo dele participante, não sendo possível dele se separar, foi o que fez com que muitos religiosos imaginassem Deus distante dos assuntos terrenos e Jesus ao seu lado incólume em um trono celeste, e a vida humana sem valor intrínseco. Essa ideia tirou da vida o caráter sagrado que Jesus lhe conferiu e deu preferência à separação entre sagrado “lá fora” e profano “aqui dentro”. Separação que no imaginário religioso é espacial, no psicológico é intransponível, sendo diminuída – mas não abolida – pelo ritual do culto. Nessas circunstâncias o culto se organiza com um programa mitológico moderno acentuando o distanciamento divino dos assuntos da vida que tem em sua liturgia o propósito de chamar a atenção de Deus e fazer com que ele seja favorável às demandas humanas; que o profano seja tocado pelo sagrado, nem que seja por pouco mais de uma hora uma vez por semana.

Me refiro ao culto por ser este uma representação de toda essa negação da vida que até aqui tem ocupado minha preocupação.
É nesse ponto que me lembro do que escreveu o bispo John Robinson em seu Honest to God, um livro de 1963, em que dentre outras questões ele reflete sobre o sentido do culto a partir das perguntas feitas por Bonhoeffer em suas cartas da prisão.
No capítulo cinco, que tem o belo e não pouco provocativo título de “Santidade mundana”, Robinson se propõe a pensar sobre o sentido do culto e da oração em uma sociedade, que, como observou Bonhoeffer, é cada vez menos dependente da religião, e que dá origem a famosa “Cidade Secular” de teólogos Radicais como Harvey Cox.
Citando livremente Bonhoeffer, ele escreve que o culto deve ser a “afirmação do ‘além no meio da vida’; do sagrado no comum”, contra a ideia de que Santo e sagrado é o que não é comum e que a esfera do religioso é o espaço do “santo dos santos”, o que faz recair na concepção dos sacerdotes do antigo culto da Lei. Concepção que foi “destroçada pela encarnação quando Deus declarou todas as coisas santas, e o véu do templo se rasgou de alto a baixo”:

“Para o cristianismo, pelo contrário, o sagrado é a ‘profundidade’ do comum, exatamente como o secular não é uma secção da vida (sem Deus), mas o mundo (o mundo de Deus, pelo qual Cristo morreu) separado e alienado da verdadeira profundidade. O fim do culto não é retirar-se do secular para o refúgio do religioso, muito menos escapar ‘deste mundo’ indo para ‘o outro mundo’, mas abrir-se ao encontro de Cristo no comum, abrir-se àquilo que tem o poder de penetrar-lhe a superficialidade e redimi-lo da alienação”.

Robinson empresta de Paul Tillich o termo “profundidade”, que ao refletir sobre o simbolismo religioso que projeta um Deus “lá fora” fala de:

um Outro para além dos céus, cuja existência nós temos de nos convencer, mas que não está lá fora, é a Base do nosso próprio ser. O nome desta infinita e inexaurível profundidade é o que significa a palavra Deus”

Falando da transformação do simbolismo religioso tradicional, transpondo Deus das alturas para a profundidade, Tillich está empenhado em refazer o mesmo caminho de Paulo. Ao falar de Deus em profundidade na imanência e, portanto, não “lá fora”, o teólogo alemão restitui à existência seu valor intrínseco, algo que vemos explícito nos evangelhos de Jesus e nas cartas do apóstolo. Claro que a questão que Tillich levanta é bem mais complexa que este resumo, e para maiores informações é preciso ler suas obras. Mas o que me interessa aqui é o que ele resgata desse valor da existência que o supranaturalismo subtraiu quando interpretou Deus afastado do mundo, e a teologia tradicional passou a tratar da relação entre transcendência e imanência em termos espaciais intransponíveis, sempre exaltando uma e desmerecendo outra:

E se essa profundidade não tem grande sentido para ti, tradu-la, e fala das profundidades da tua vida, da fonte do teu ser, da tua máxima preocupação, daquilo que tomas a sério sem qualquer reserva”.

Essa profundidade só se alcança, como diz Kierkegaard, por uma mais profunda imersão na existência. Porém, só imerge na existência quem nela encontra um valor sagrado, e só encontra nela valor sagrado quem nela encontra Deus.


Continua...

Alex Carrari

19 de maio de 2015

O milagre vindo de fora apresenta Deus como um simples fazedor de coisas (primeira parte)


À maneira do senso comum, lidamos com o milagre sempre como um poder sobrenatural que vem de fora, de cima, e corta o mundo sensível, fazendo acontecer aquilo que seria naturalmente impossível em um mundo organizado de acordo com as consagradas leis naturais que já entendemos há quinhentos anos graças a Newton, Descartes, Galileu e Kant.

Quando o cristianismo aceitou e achou coerência no modelo platônico de separação entre transcendência e imanência, mundo ideal e mundo sensível, eterno e transitório, céu e terra, alma e corpo, a fé no milagre como uma ocorrência que se dá no centro da vida e não de cima para baixo, perdeu espaço no coração dos homens. Talvez os cristãos no início não tenham se dado conta do quanto essa compreensão é impessoal e distante do ensino de Jesus sobre de onde brota o milagre. Certamente a maioria dos cristãos de agora apostam ainda na cômoda ideia de que Deus violenta a existência com seu todo-poder para operar bruscamente em favor dos seus, e toda ação divina desce invisivelmente do céu, milagre algum se dá daqui mesmo.

Um deus que opera por meio de intervenções bruscas e diretas lançadas de cima, é uma ideia tentadora que satisfaz uma das ansiedades mais primárias que nos domina desde que nossos parentes distantes – quando já eram algo mais que símios bem dotados na escala evolutiva – se deram conta do quanto a vida é indomada. A vida em amplos horizontes se organiza de maneira que escapa ao nosso domínio, não temos força para suprir todas as nossas carências existenciais, e como não aceitamos que demandas não supridas fiquem na conta das indeterminações, das incertezas e das não-respostas, pressionamos Deus para que as resolva.  Por causa dessas carências, ou para usar a expressão de Bonhoeffer, dessas lacunas, que se abrem pelo simples motivo de a vida se estabelecer nos domínios do contingencial, o religioso médio impulsiona um tipo de relação rasteira com Deus, imaginando-o como um fazedor de coisas, que para mostrar que se importa, deve intervir, mesmo que demore um tempo que só ele em sua eternidade tem paciência de esperar.

O infeliz arcabouço grego (platônico) que apreendeu a existência em duas esferas, uma superior (transcendente) e outra inferior (imanente) – superior não apenas em espacialidade, mas principalmente em qualidade – ridicularizou a vida imediata, a vida sensível, banalizou as relações humanas, brincou com o valor intrínseco do mundo lançando tudo ao alto, ao espaço absorto das ideias. A mensagem de Jesus, interpretada sob a lógica do arcabouço grego de compreensão da existência em uma esfera ideal superior e outra material inferior, vai desembocar na retirada de Deus para a periferia da vida, aparecendo somente quando acionado para preencher as lacunas abertas pela nossa insuficiência humana. Seja para intervir ou para dar resposta a algum acidente.

Se ele habita na transcendência, a periferia da vida, se a vida, a imanência, não possui valor que se equivalha ao mundo ideal superior, se ele está para aquele mundo assim como nós estamos para este, se ele tem o poder e nós as lacunas, então o milagre não está aqui, está lá fora, e é no altar desse deus distante que queima o fogo santo que pode nos dar autonomia, porém não temos um Prometeu que roube uma faísca e nos conceda esse dom.

Não, não temos um Prometeu que nos conceda a graça da liberdade criadora dos nossos próprios destinos, que nos torne autônomos do poder maciço desse deus, não mais dependentes de suas caras bênçãos que com tanto lamento, sacrifícios e triste espera ansiamos.
E a existência não encontra significado, e o vida é nada mais que a expectativa melancólica de alguma intervenção vinda de cima, e somos sempre velhos reclamando cuidados de criança a um Pai que nos quer adultos, enquanto nos resignamos veementemente na ideia de que os mínimos cuidados são sua obrigação.

Assim Deus – caricaturado como um irmão gêmeo de Zeus, separados apenas por um arcabouço de pensamento e pela língua – segue tendo sua utilidade apenas fazendo coisas, em outras palavras milagres. E os milagres que ele faz são para provar que ele existe e que merece um pouco de crédito e atenção, pois para isso ele ainda aparece por aqui quando acionado, resistindo há cerca de quinhentos anos desde que foi dissolvido o cosmos medieval em que habitava e não foi achado um novo lugar para seu domínio.

Continua...


Alex Carrari


15 de março de 2015

Conversas ao pé do púlpito: Os contornos da oração de Jesus





Com demandas cada vez mais complexas que exigem constantemente a revisão da nossa ética, para um agir engajado e responsável em sociedade, estamos nos tocando de que precisamos fazer a re-leitura de alguns textos para compreender certas nuances que até então não havíamos percebido (Não percebemos seja por conveniência, infantilismo, ou falta de atenção mesmo). E a partir dessa re-leitura, re-significarmos nossa compreensão sobre práticas que durante um longo tempo só fizemos repetir sem refletir sobre seus significado e conteúdo para a fé cristã. Dentre as práticas irrefletidas, a oração é uma das que precisa ser, com urgência, colocada na primeira página da nossa agenda de prioridades para ser re-significada, para que recupere os contornos que Jesus lhe deu. 


Não há como re-significarmos a prática da oração sem olharmos para Jesus e atender ao seu ensino sobre como se deve orar. Não há como desvincular os momentos de retiro de Jesus para orar, geralmente pelo final da madrugada, da vida, das lidas do cotidiano, da maneira como ele prosseguia em seu dia após voltar de seus retiros de meditação. Mas, primeiro é importante reconhecermos que os modelos de oração que têm sido estabelecidos estão bem distantes do ensino do Mestre, e se falarmos em coerência com seu ensino mais abrangente do Reino, eles fogem à ética no trato com o semelhante e produzem falta de sentido no diálogo com Deus, seja na oração comunitária, ou em solidão, esta última cada vez menos praticada por causa de uma infindável lista de desculpas.


Observamos em determinadas palavras de oração um esquema que, de maneira geral, tem feito somente perpetuar um vazio de significado na comunicação com Deus e a comunidade, bem como falta de conteúdo e coerência no que parece mais um discurso de convencimento do que um momento de diálogo com o Pai de Jesus.

Aprendemos basicamente que a oração deve começar com uma palavra de exaltação a Deus, depois agradecimentos, em seguida os pedimos, depois devemos exaltá-lo mais um pouco, para enfim terminar em nome de Jesus. Na verdade essa forma está tão fortemente estabelecida em nossa mentalidade coletiva que, mesmo não aderindo a ela, não é raro nos pegarmos orando obedecendo ao mesmo esquema, mesmo inconscientemente. Não dá para precisar quando exatamente a vida de oração proposta por Jesus começou a perder seu significado e a esvaziar-se de conteúdo e truncar a comunicação com Deus e a comunidade. Mas, para quem já meditou em Jesus, é evidente a conclusão que em nosso tempo a oração tem sido utilitarizada para fins estranhos ao Reino de Deus, e tem muito pouco ou quase nada do conteúdo dos ensinos de Jesus.


Uma das mais admiráveis orientações de Jesus sobre a prática da oração é a que ele ensina no Sermão da Montanha, que, segundo uma definição que li em algum lugar, diz que este sermão é a plataforma ética do Reino de Deus. Antes de ensinar a oração do Pai-nosso, Jesus diz aos discípulos que quando forem orar não devem agir como os hipócritas (religiosos insinceros) que o fazem para aparecer. Estes gostam, alerta Jesus, de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças para serem vistos pelos homens e que, ao agirem assim, já receberam sua recompensa. Mas, o que isso significa para nós hoje? E que recompensa é essa que já receberam esses religiosos que assim oram?

Fora as orações coletivas que fazemos em nossas igrejas quando uma ou várias pessoas levantam a voz para dirigir a Deus alguma palavra – sem entrar aqui em mérito de conteúdo e sentido –, creio que não haja muitos que têm coragem de orar em pé no canto de alguma praça. Mas, penso que Jesus quer nos falar sobre algo mais do que a necessidade de alguém em aparecer aos olhos dos outros como uma pessoa de oração. Nos dois ambientes, tanto aquele que ora na sinagoga (igreja), quanto o que ora no canto de alguma praça (ambiente secular), o faz para si mesmo e não tem nada a ver com um momento íntimo entre ele, Deus e a comunidade, pelo contrário, tem a ver com a necessidade de convencer para ser atendido. E não seria exagero dizer que também em princípio a necessidade de aparecer.


Mas ele não para por aí, seu ensino se adensa mais. Para o Mestre, tanto num quanto noutro ambiente a linguagem utilizada na oração não é uma disposição do coração, não corresponde ao anseio mais básico do ser humano em comunicar-se com o Ser em profundidade (como diria Paul Tillich), ficando apenas rodeando na superfície de suas necessidades mais rasteiras e básicas. Entoando uma ladainha típica do pagão que no fundo desconfia de que Deus só atende aquele que consegue convencê-lo de que é legítima sua petição, ele se coloca como uma exceção num mundo de bilhões de necessitados, e por isso deve ser atendido.


Para que ninguém fique operando esse circulo vicioso, Jesus então dá uma orientação e uma declaração que mostra em que caráter a oração deve ser entoada e que resposta esperar de Deus. Portanto, penso que a questão maior que envolve alguém orar em local para ser visto é a falsificação da própria linguagem, e quem se acostuma a orar com uma linguagem falsificada o fará em qualquer lugar, até mesmo naquele retiro diário para meditação, nos chamados momentos devocionais. Por isso Jesus ensina: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto te recompensará” (Mt 6.6).
Orar é uma disposição do coração em que a pessoa tem o desejo de retirar-se para dentro de si mesmo. O quarto que Jesus se refere não deve ser lido aqui literalmente – embora o retiro para meditar em lugar solitário é uma prática espiritual cheia de significado –, mas figuradamente como sendo a nossa intimidade, aquele canto onde reservamos para empilhar nossos segredos, o lugar secreto que queremos que permaneça inviolado, em sombra sigilosa. Ao entrar nesse quarto é preciso fechar a porta, ou seja, recolher-se e não convidar nem deixar que mais ninguém ou qualquer coisa entre.


Se uma das coisas mais complicadas para quem vive essa tal correria do dia a dia é dedicar um tempo de retiro em oração, mais difícil ainda é recolher-se fechando a porta a todas as vozes, ruídos e imagens que carregamos entulhando no íntimo. Por isso, ao entrar e fechar a porta, é preciso um tempo de quietude, um tempo para que todas as vozes, ruídos e imagens que carregamos para dentro emerjam para que o lugar mais profundo seja desimpedido das coisas que deveriam ficar, estas sim, na superfície. É importante saber que é inútil tentar eliminá-las, pois, fazem parte do nosso mundo, são elementos presentes que compõem nossa vida ordinária, aliás, são necessários para nos sentirmos inteirados no centro pulsante da existência. Elas não devem, contudo, ocupar mais que a superfície da nossa vida, abrindo em nosso íntimo espaço às coisas mais nobres e às virtudes mais sublimes. Carlos Queiroz me lembra de que o termo grego utilizado para quarto no ensino de Jesus é “tameion”, que é um depósito subterrâneo, o ambiente da casa onde guardamos nossas quinquilharias, ou algum tesouro escondido, sendo por isso lugar de acesso somente aos mais chegados. Nesse lugar podemos desnudar de nossas roupas que encobrem o que somos de verdade por baixo delas. Orar no “tameion” escreve Queiroz, “não é apenas orar num lugar, é orar com uma condição interior de total transparência diante do Pai (Ser é o bastante, p. 146).


Nesse quarto íntimo é onde podemos ficar livres desse modelo de oração que não produz uma espiritualidade responsável e coerente com a vida, que pelo contrário é a perpetuação de uma linguagem que desconfia que Deus não sabe direito da nossa real necessidade. Que, pior ainda, não tem fé que Jesus veio em carne e padeceu das mesmas coisas que nós padecemos sendo, e que sabe o que é sofrer, por isso se compadece das nossas fraquezas, como vai dizer o autor de Hebreus. Um modelo assim tem por finalidade maior, mover o braço de Deus, primeiro porque o julga impassível, segundo porque quem assim ora coloca-se sempre como o centro em torno do qual giram todas as prioridades do céu e da terra. E Jesus sabe que nossa real necessidade é abrir ao Pai nossa intimidade. A declaração de Jesus é paradigmática e deixa entendido que orar, mais que elaborar linguagens, arranjar palavras para pedir coisas e tentar convencer a Deus de que merecemos ser atendidos, é uma disposição do coração. E Deus não é tanto alguém que ouve, mas sim, um Pai que vê, e vê em secreto. Para Jesus, orar não é desfiar um rosário de palavras que têm por objetivo agradar a Deus em favor de si próprio. Para Jesus, orar é dispor-se em não negar a Deus acesso ao secreto, é não lhe recusar o mais íntimo recanto do nosso ser, seja esse lugar onde empilhamos quinquilharias ou o que achamos que são nossos tesouros. 


É libertador perceber que o Pai vê em secreto e que não leva em conta tanto aquilo que ouve do que falamos. Sei que é de difícil aceitação essa afirmação de Jesus, porque aprendemos a orar dentro do esquema exaltação-agradecimento-petição-exaltação, e isso tem a ver com um jeito de tentar manipular Deus através de uma mecânica com aparência de piedade. Por isso o Mestre diz que a oração não deve ser articulada com vãs repetições como os gentios (ou pagãos), que têm a concepção de um Deus que precisa ser lembrado repetidas vezes do que ele tem de fazer. Que presumem que a insistência na repetição pode demover Deus de sua condição, que supõem impassível. Jesus diz que essa é uma visão de natureza pagã de Deus e da oração que produz uma postura ainda mais nociva e esta é sentida na maneira com que nos relacionamos com o outro e com a vida. Quando orar não é uma disposição do coração e ficar quieto na intimidade não é uma verdadeira necessidade da alma, somos tentados a fazer da oração um período de falação, e como o assunto principal somos sempre nós mesmos, ficamos enfatizando o que achamos que Deus deve priorizar em sua agenda de cuidados em detrimento das necessidades dos outros. Dessa maneira, o outro pode até ocupar um lugar em nossa oração, porém, será muito pequeno em relação ao espaço que dedicamos às nossas necessidades e aos cuidados particulares que requeremos de Deus. 


É interessante notar que o ensino de Jesus está focado sobre o sujeito que ora não ficar preocupado consigo mesmo. Ao dizer, porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais, penso que ele quer dizer que a oração não deve ser um mecanismo a ser usado para conseguir coisas para si, mas ao contrário, Jesus está dizendo: “Meu amigo, esqueça de si na oração. Você e suas necessidades são conhecidas diante de Deus. Silencie sua tentação em querer mover o braço de Deus a teu favor, olhe ao teu redor há motivos mais nobres, causas mais urgentes, gente mais necessitada, o Reino e sua justiça devem ser sua prioridade”.

Para que não nos esqueçamos, não há necessidade humana que Deus não conheça, ele provou todas. Para Jesus, orar é atender ao chamamento do Pai ao recolhimento, é um convite a silenciar com ele em profundidade, é libertar-se da centralização no eu, é dar abertura ao semelhante.

O caminho para uma postura ética na oração começa com essas noções que Jesus, mais que ensinar com palavras, viveu.

No Getsêmani ele aparece em seu momento de mais intenso abatimento e tristeza até a morte e pede ao Pai que se possível passe dele o cálice, mas no mesmo momento ele refaz a oração, e com coragem aceita que não seja feito da maneira como acabou de dizer, mas como o Pai deseja. Passar o cálice significava parar ali e preservar-se do pior. Jesus, em sua pior hora, em oração, deu lugar ao semelhante, não buscou benefício próprio, decidiu beber do cálice de seu sofrimento e morte para beneficiar muitos que iriam crer em seu gesto.
Nem na cruz a oração de Jesus contempla a si próprio, contempla seus semelhantes, aqueles inclusive por quem ele em suas últimas palavras intercedeu, Pai, perdoa-lhes, não sabem o que fazem



Alex Carrari