5 de janeiro de 2015

Nossas muitas exclusões: por que criança não toma ceia?


Não confio tanto em quem costuma dizer, “se está na Bíblia então eu aceito”, ou, “só acredito naquilo que consta na palavra de Deus”. Meu amigo Paulo Silvano me ensinou algo que tem sido muito útil para minha fé persistente no sacro texto e na vida já faz tempo. Para ele o texto deve ter conectividade com a vida, ou em suas outras palavras, deve ter permeabilidade com o chão do cotidiano. O texto deve se plasmar com a vida, outro de seus termos.
Quando há um tempo atrás andamos falando em re-leitura das Escrituras, re-significação de alguns conceitos e consequente revisão dos dogmas, pedras e fósforos inquisitoriais vieram de todos os lados como se um til ou jota estivéssemos acrescentando às palavras de Deus e caracterizando o manifesto sinal de nossa decaída da fé.

Conseguimos nos defender de tais assaltos? Não. E ainda em nosso atual momento não há defesa suficientemente convincente que argumente a nosso favor. Mesmo assim insisto que, aceitamos que o texto nos fala pelo que nele consta, porém, em muitos casos e ambientes, a igreja quer falar até mais pelo que não consta no texto. Guardemos isso, quando vier um novo amanhecer da consciência e nos tornarmos pura “consciência crística”, nos será muito útil. 

Quando das minhas acirradas crises, que hoje entendo, estão se tornando mais intelectuais do que propriamente de fé, garanto que as mais profundas delas não foram, e não são, provocadas por qualquer um dos monumentos do ceticismo e da desconfiança como Bertrand Russel, por exemplo (sugiro que leiam o livro desse cara chamado Porque Não Sou Cristão, então entenderão um pouco do que estou tentando lhes dizer), mas sim pelas leituras que fiz deste homem surpreendente, Jesus de Nazaré e pelas tentativas empolgadas de tentar aprofundar-me no exemplo de suas atitudes, na práxis engajada de seus gestos solidários, mesmo tendo eu fracassado na maioria das vezes. Quando comecei a perceber o Espírito querendo me forjar na solitária habitação dos sem medo, ler suas palavras desarmado de predicas institucionais e de prévias e já dadas interpretações, foi que comecei a compreender o tamanho do meu engano a seu respeito. 

Li muita coisa sobre Jesus, a maioria coisa muito boa, outras nem tanto, mas uma idéia sempre me acompanhou em todas as leituras que fiz e que faço de Jesus; estou sempre diante de um Jesus que eu nunca conheci (como escreveu o Philip Yancey). Sobre Jesus, tem tantas coisas que ele não disse e nós dizemos que ele disse. Tem tantas coisas que ele não fez a agimos e imitamos como se ele tivesse feito. Pior que isso, tem coisas, e são muitas, que ele recomendou que fizéssemos e fazemos de conta que desconhecemos, agimos totalmente ao contrário, formulamos até dogmas para os praticarmos como formas de piedade, zelo e louvor a Deus, mas que não passam de má interpretação e resistência vaidosa à subversão das duras regras do jogo religioso que ele violou e requeriu que fizéssemos o mesmo.

Não violamos as regras, estabelecemos outras novas, porém velhas, provocamos exclusões. 

Jesus disse por mais de uma vez, das crianças é o Reino de Deus e que devemos ser como uma delas, caso contrário não herdaremos o Reino. Raciocino lógico, se quisermos entrar no Reino, devemos ser como uma delas, imitá-las, e não elas a nós, pelo simples fato de que, delas já é o Reino e nós é que ficamos meio acuados, sem saber se entramos ou não, se algum dia entraremos ou não. Um Reino em que já estão sem fazer qualquer esforço? Sim.Um Reino ao qual pertencem sem passarem pelo processo, ouvir da mensagem-arrepender-se-levantar as mãos-ter o nome escrito no livro da vida-passar pelas classes-batizar-se-decorar João 3.16. 
Coisa mais sem propósito é querer ensinar sistematicamente para uma criança a respeito do caráter de Deus e de seu Reino, ela já sabe de antemão, pois, criança não fala sobre Deus como nós adultos polidamente nos tornamos doutos nas igrejas, a criança puramente o experimenta do lado de dentro do Reino do qual a igreja é apenas um sinal, e que pode em muitos dos casos estar fora dele.  

Se delas é o Reino, se precisamos ser como uma delas para entrarmos nele, por que então no rito da ceia as crianças não participam da mesa? Por que o corpo e o sangue do Cristo não podem ser comido e bebido pelos vivazes legítimos donos do Reino do qual faz parte o mistério oculto nos tempos da antiguidade, ao passo que os que entraram depois (se é que entraram) o fazem com austero semblante e um toque de regra protocolar mensalmente repetida?
Alguém pode dizer que é porque elas ainda não são batizadas. Mas quem disse que para tomar ceia tem de ser batizado? Onde consta no Novo Testamento? Batismo é uma coisa, ceia é outra, um não depende do outro, e tem mais, um é cumprimento de justiça, o outro é memorial. Vou tentar explicar melhor. Sobre a questão do batismo como norma para ser aceito à mesa, tenho comigo a intuição de que foi lá pelo século IV da era da cristianização do mundo romanizado ou da politização do organismo cristão – não sei ao certo talvez os dois movimentos ocorreram ao mesmo tempo –, quando começou a formar-se o funesto sistema de idéias, ou quem preferir pode chamar de teologia Papal-imperial, de que o Reino de Deus é uma “sociedade eclesiástica”, organizada por hierarquia, conforme o padrão do Império Romano. E o ingresso nesse Reino passou-se da tomada de consciência de uma nova realidade (um jeito novo de ver o mundo, também chamado de arrependimento mediante a mensagem do Cristo), para um modo automático, ritual, sacramental; ser batizado. Mesmo que, para quem se batizasse pouco soubesse do que representava o mergulho nas águas, isso equivalia à incorporação no Reino de Deus juntamente com a aceitação de uma forma de credo elaborada em caráter absoluto de doutrina, em que apenas a confissão verbal dava créditos ao batizado de cidadão desse Reino.

A aliança político-militar que a igreja fez com Constantino produziu essa deprimente teologia e o ocaso cristão foi a “comunhão dos santos” ser, sem cerimônia, trocada pela “sociedade eclesiástica”. Desse modo o ser cristão já não significava mais ter o Espírito do Cristo a guiar e convencer a pessoa no caminho da ação ética, mas apenas receber dogmas teológicos constituídos pela igreja que mais e mais institucionalizava o Espírito do Cristo reduzindo a fé a uma forma de confissão verbal burocrática engaiolada na estreiteza de seu sistema cada vez mais abrangente culturalmente, fazendo a experiência pessoal de Deus depender da chancela da autoridade eclesiástica para atuar na vida dos fiéis. A partir daí a iniciação no corpo da igreja, que já não era mais iniciação mística, não era mais ex opere operantis (pela espiritualidade do sujeito), mas ex opere operato (pela validade do objeto).

Nossa história de exclusão começa na instituição do batismo como condição para participar da ceia e termina na mesa desfalcada das crianças, e afeta a compreensão emblemática do Reino. Como queremos edificar comunidades acolhedoras se na ceia que é do Senhor excluímos as crianças? Para não ficar tão estranho e constrangedor nós as dispensamos para o “cultinho” antes, e as liberamos depois. Estabelecemos a nossa ceia, a ceia dos adultos, dos que racionalizam a fé e a experiência, dos que sabem coisas sobre Deus, dispensando da mesa os pequeninos a quem devemos imitar, que percebem Deus de forma intuitiva inflada de poesia, que sabem poucas coisas sobre ele, mas experimentam muito dele na leveza de suas vidinhas embaladas pelos sonhos e pela imaginação ociosa que sem saberem é, sem dualismos, a mais pura metafísica da Vida. 

Sem as crianças à mesa, nossa ceia tem sido um brinde à nostalgia por Deus, e ao excluí-las é como se disséssemos, sim, delas é o Reino, mas a nós pertence o pão e o vinho e seu significado. No entanto a ceia está para Reino e não o Reino para a ceia, assim como a igreja pertence ao Reino e não o contrário. Se for para discernir o corpo antes de comer do pão e beber do cálice, como orientou o apóstolo Paulo, quem melhor que uma criança que vive no Reino para fazê-lo? As regras de restrição para a ceia não constam nem em Jesus nem em Paulo, nem em qualquer outro autor no Novo Testamento. As regras são coisa nossa, nós as estabelecemos, e me parece que nossa restrição às crianças teve mais força do que o amparo de Jesus à elas, pois, o que era para ser um acontecimento inclusivo de acolhimento, um memorial anunciante de sua morte, acabou virando de exclusão ritual e cerceamento organizado.

A Ester, quando devia ter uns seis anos me perguntou: “Pai, quando eu vou poder tomar ceia?”. Tão impreciso quanto a regra imposta, respondi cheio de constrangimento: “Quando você for batizada querida”. Educada por mim (para o meu azar) ao método socrático, ela progrediu na conversa: “Mas por que é assim?”. Eu, utilizando de outro método infalível quando um pai, que estuda a Bíblia é atingido no calcanhar de Aquiles, dei fim à inquirição: “Porque sim”. Foi minha resposta mais convincente, já que ela ainda não estava preparada para entender o que é coisa de Deus e o que é coisa do homem, e como esta suplanta com regras pesadas a leveza subversiva daquela, e a qual das duas devemos espontânea obediência, de acordo com a orientação do Cristo. 

Tento agora me redimir de ter falhado com a Ester querendo acertar com a Sofia, que quando vê que é domingo de ceia finge algum incômodo para não descer para “cultinho”, e aguarda pacientemente o restinho do suco no fundo do minúsculo copo que passo para ela em surdina. Chamo isso de “subversão às duras regras do jogo religioso para pequenos iniciantes”, e me orgulho disso. 

Se queremos que nossos filhos cresçam com o senso de pertença e não como filhos de crente, ou como meio crentes, meio participantes da igreja, se temos mesmo esperança de que no amanhã tenhamos testemunhas do Cristo livres das paranóias de rejeição divina que nós tanto lutamos para nos livrar mas que morreremos com muitas delas incrustadas em nossa alma, recebamos as crianças à mesa e compartilhemos com elas a carne e o sangue do Cristo. “Da boca de pequeninos e crianças de peito tiraste perfeito louvor”, disse o mais criança de todos os profetas de Israel.
Não as impeçamos, aprendamos com elas como se come a ceia. No Reino de Deus as crianças precedem os adultos e por caberem no colo de Jesus são as que primeiro sentem o calor divino e o toque suave de suas mãos calejadas em anos de trabalho na carpintaria de José. 

Quando ficamos adultos o chocolate não tem mais o mesmo gosto de antes, a chuva caindo na terra não causa mais o mesmo prazer em jogar uma bola no campinho empoçado de lama, o cheiro do sabonete não dá mais a sensação de limpeza como antes, o cheiro da dama-da-noite não transmuta mais a atmosfera indolente de uma noite quente em magia fresca. Só as crianças percebem e apreendem as coisas suaves do movimento da vida. Os adultos substituem sentimentos e sensações por dogmas e razões. 

Talvez, quando Jesus estava com as crianças ele se lembrasse das novidades de quando também era uma criança e que antes mesmo dos doze anos entre os doutores no Templo, já sabia que Deus era seu Pai sem que ninguém o tivesse avisado disso, pois, vivia no seu Reino e ele e seus amigos tinham a intuição de que deles era tudo o que seus olhos pudessem alcançar. 
Talvez uma das primeiras lições que Jesus aprendeu fora dos livros foi que Deus queria abraçar as crianças e que elas nunca deveriam crescer na mente tanto até ficarem adultas, por que Ele queria dedicar Seu Reino a quem não tivesse muitas razões para querê-lo, mas boa intuição para percebê-lo e gostar de estar nele sem muitos porquês nem objetividades.


Alex Carrari


8 de novembro de 2014

Nas letras das palavras que escreve o poeta espraia seu eterno sangue






O poeta escreve que acredita na existência do instante
e que a vida toda de antes e depois
se passa nesse desprezado fragmento voante,
e que nesse desprezado fragmento voante
ele existe passando apressado
tentando de tudo para contar a si mesmo
uma história feita de demorados desejos
e breves consumações,
arriscando acolhida para a alma em paisagens já perdidas.
 

Que destino estranho esse
de ficar nas palavras.
Que modo incomum de atualizar o impossível
e contar uma verdade sobre a vida
que somente ele sabe;
que todos os modos de expressão,
do riso ao canto,
são distrações temporárias que cuidamos em praticar
para desviar nossa inquietação com a morte.
(o poeta nos joga essa verdade em face)


Inquietação com a morte  
é o que disfarça em cada linha de sua crença.
Das palavras que escreve não sabe,
em que paragens irão se instalar,
só sabe que nelas fica e delas passa.
Nisso o poeta considera a fatalidade de seu dom,
que sua necessidade de escrever é um prelúdio à morte
e uma desesperada tentativa de não ser esquecido;
de uma maneira diversa, viver para sempre.


Nas letras das palavras que escreve
o poeta espraia seu eterno sangue
dissimulando sua aflição em crer no instante
e saber, sem rodeios, que dele apenas as letras dirão
palavras que ele de fato existiu, pois,
que a vida é uma conquista árida,
apenas uma abreviada lembrança de um
sonho interrompido no justo momento em que
transfigurava sombras em beleza transitória.

As palavras que escreve são nada além
de breves siluetas esguias sobres linhas fugidias
procurando espaços no branco de uma vida de papel.


 Nas linhas dessa abreviada invenção
escreve o que pensa da felicidade e o que sabe da tristeza
até que lhe acabe a palavra e perca o rumo da mão,
e seu corpo, entre o sol e a terra,
diga o adeus que lhe faz estremecer a caneta.


Sereno e aflito, lacerado por seu dom,
tendo em seu redor tanta coisa e nada,
para o poeta o mundo é um vagabundo de bela aparência
que o confunde com o pó do chão sobre velhos móveis.
Com uma razão genérica,
sua perseverança está em escrever
sabendo que as palavras são sempre sua última queixa
a nutrir uma terra de plenitudes que seu verso não alcança.


Alex Carrari


9 de outubro de 2014

A kenosis, ou, o peso da carne



Em Asas do Desejo, um dos, se não o mais belo filme de Wim Wenders, dois anjos, Cassiel e Damiel, observam um casal no embalo romântico de um beijo envolvidos em uma suave atmosfera de paixão terrena. Damiel, que tem cogitado sobre a inadiável necessidade de cair na humanidade, tece observações que vem guardando em perene silêncio em seu peito eterno.
  
“É ótimo ser espírito e testemunhar por toda a eternidade apenas o lado espiritual das pessoas. Mas às vezes, me canso dessa existência espiritual. Não quero pairar para sempre. Quero sentir um certo peso que ponha fim à falta de limite e me prenda ao chão. Eu gostaria de poder dizer “agora” a cada passo, cada rajada de vento. “Agora” e “agora” e não mais “para sempre” e “eternamente”. Sentar-me numa mesa de jogos sem dinheiro, ser cumprimentado. Toda vez que participamos foi apenas fingimento. Lutamos com alguém e fingimos deslocar o quadril. Fingimos pegar um peixe. Fingimos sentar nas mesas, beber e comer. Fingimos ter cordeiros assados e vinhos servidos nas tendas do deserto. 
                                      
Não, não preciso ter um filho ou plantar uma árvore, mas seria bom voltar para casa após um longo dia para comer com o gato Philip Marlowe. Ter febre, dedos pretos por causa do jornal. Não vibrar apenas pelo espírito, mas por causa de uma refeição, pelos contornos de uma nuca, de uma orelha. Mentir descaradamente. Sentir os ossos se movendo enquanto caminho. Supor em vez de saber sempre. Poder dizer “ah”, “oh”, “ei”, em vez de “sim” e “amém”. Sim, poder se empolgar com o mal, atrair todos os demônios da terra e sair pelo mundo. Ser selvagem. Pelo menos sentir como é tirar os sapatos debaixo da mesa. Torcer os dedos do pé descalço. Ficar sozinho. Deixar acontecer. Ser sério. Só podemos ser selvagens à medida que formos sérios.
Nada mais que olhar, reunir, testemunhar, preservar, continuar espírito. Manter distância. Manter a palavra”.

Emocionante é o desejo que Damiel tem de “sentir certo peso que ponha fim à falta de limite e me prenda ao chão”, um apelo inebriante por uma existência substancial, uma existência que tenha prova física de que é verdadeira, que os outros a ouçam, os olhos dos outros a vejam e as mãos dos outros lhe apalpem. Nada de abandonar-se piamente no além contentando-se com uma felicidade vaporosa. Esse anjo quer experimentar a textura de uma pele tocando com as pontas dos dedos, sentir o sabor das coisas com a língua toda, cheirar os cabelos de uma mulher e beijar a quentura macia de seus lábios, deslizar o corpo em outro corpo, parecer bobo rindo de bobagens, não se importar em ser considerado cafona ao chorar assistindo um filminho americano qualquer cheio de clichês românticos, deixar acontecer, fazer sem querer, falar por falar, dançar, aquietar, rir, chorar, puxar pra perto, deixar escapar...

Viver uma vida que não acaba nunca não empolga o anjo Damiel tanto quanto a possibilidade de viver sob a limitação exagerada imposta aos humanos, que ele invejosamente acompanha. A questão toda se resume em continuar pairando numa existência perene e ilimitada ou se jogar numa que seja fragmentada e contingencial. Continuar vivendo na primeira significa fazer de conta que é, mas não é. Em contraste, se jogar na segunda, na contingência, no transitório, é se afundar no dinamismo onde a vida acontece de verdade, pois, tem peso. Esse é um existir à maneira humana. Existir à maneira humana tem um peso, o peso das afetações, o peso de ser limitado e transitório, o peso dos riscos, alegrias e tristezas do amor, o peso de experimentar tudo pela primeira e última vez, o peso de nunca mais se banhar no mesmo rio; existir à maneira humana carrega consigo todo o peso da carne.

Damiel acompanha a história, peregrina pelo tempo com os humanos, frequenta as alegrias do nascimento e as tristezas da morte, porém, sempre à distância absoluta, protetora, que separa os dois mundos. Os privilégios que o distanciamento do mundo e das coisas humanas lhe proporciona não é capaz de fazê-lo continuar empolgado com a proteção contra a dor, o sofrimento e o riso que a eternidade na transcendência garante. Ele quer existir de verdade. Existir de verdade é provar o mundo, a vida, com o corpo inteiro, é provar o corpo inteiro. E isso um ser espiritual eterno não pode fazer.
Ao se apaixonar pela trapezista Marion, ele então decide pelo supremo ato, ser humano, experimentar as dores e as alegrias de cada dia.

*    *    *
Anjos e deuses sempre quiseram, por inveja, curiosidade ou compaixão, participar da humanidade, sempre quiseram se ligar aos desejos mais caros aos homens, mas nunca encontraram uma maneira completa de realizar esse ato. O escritor do Gênesis escreve que no começo os filhos de Deus se envolveram com as filhas dos homens, amaram seus corpos, e tiveram filhos com elas. O gregos deram um passo mais ousado, criaram o semi-deus Prometeu, que se compadeceu da humanidade e arriscou a vida contra a tirania de Zeus roubando uma faísca de seu fogo sagrado entregando aos mortais, dando lhes a possibilidade de uma vida emancipada. Os filhos de Deus se apaixonaram pela forma, pelo cheiro, pelo gosto, pela silueta, pela humanidade das filhas dos homens. Prometeu se encantou pelo destino dos homens e quis participar de seu drama, e participou acorrentado eternamente a uma rocha tendo seu fígado comido todos os dias por uma águia.

Os dois mitos querem dizer uma mesma coisa; só experimenta a força, o ímpeto da vida, quem se envolve com a existência à maneira humana. Só experimenta a maneira humana de existir quem aceita o ônus do peso da carne e não se esquiva de suas implicações.

Nesse sentido Jesus de Nazaré é o mais digno exemplar dessa linhagem de deuses e anjos que querem experimentar a vida de verdade. João vai dizer que a Lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade vieram por intermédio de Jesus. Jesus vai dizer que ele é o caminho a verdade e a vida, isso significa que sua vida física, palpável, como escreve João em sua primeira carta, é que confere verdade à sua existência, em outras palavras, Jesus de Nazaré aceita o ônus do peso da carne e não se esquiva de suas implicações: “Tomé, veja as marcas, ponha o dedo em minhas feridas, meu corpo prova que existo de verdade”. A absurda novidade que ninguém esperava era que a verdade habitou a carne e fez Deus sentir o peso de existir à maneira humana, e depois de assumir divinamente seu destino eterno continuou com o mesmo corpo com as mesmas marcas. Por causa de Jesus, Deus tem um corpo de carne que carrega para sempre as marcas de sua humana paixão.  

Encarnando, Jesus está dizendo que Deus não quis mais acompanhar o espetáculo da cadeira do diretor, nem da coxia, ele se envolveu com o mundo da única maneira possível – mesmo para um deus que pode tudo –, mergulhando nas entranhas da imanência e interagindo com ela com todo seu ineditismo. Por isso os outros deuses não são nada, não merecem crédito nem adoração, porque são covardes, a coragem de Jesus é exemplar e nenhum deus ou anjo pode se comparar a ele em envergadura.

Contudo, a cristandade não compreendeu nada dessa envergadura e menos ainda da coragem de Jesus ao tornar-se homem e experimentar a vida à maneira humana. A cristandade reduziu a kenosis a um mero jogo jurídico de pagamento de dívida entre Deus e a humanidade, sendo, exigido o derramamento do sangue de seu filho inocente para pagar pela ofensa do pecado original cometido pelos antigos representantes da humanidade. O que não percebem é que dentro dessa lógica, Deus não tem um problema com a humanidade, mas consigo mesmo, pois não consegue perdoar sem que alguém pague a dívida para só assim acalmar sua perpétua ira. Quem sabe se Deus tivesse ouvido as palestras de Jesus sobre o perdão incondicional, não teria necessidade de arrastar uma vida pura para um fim tão trágico como fez com seu próprio filho.

Deus se alto-esvazia porque está cansado de uma existência puramente espiritual. Ele não quer pairar para sempre, ele quer sentir um certo peso. Deus quer saber como é estar preso ao chão, como é dizer “agora” e não somente “para sempre”. Pelo que nos informam os evangelhos, Jesus não teve filhos, não plantou nenhuma árvore, mas soube como era chegar em casa depois de um dia de trabalho, tirar as sandálias dos pés e estalar os dedos debaixo da mesa, depois se lavar e vibrar com uma refeição. Deus se rendeu às sensações quando Jesus lhe deu a chance de sentir na carne o peso das afetações tipicamente humanas. Jesus proporcionou a Deus a chance de ser selvagem à medida que levava a sério a vida.

Aquilo que a cristandade não compreendeu a respeito da kenosis divina, Slavoj Žižek, um filósofo ateu marxista (que ironia) foi capaz de captar e traduzir de maneira radical:

“Deus se revela num processo radical de auto-esvaziamento, até o ponto em que o amor de Deus pelo mundo resulta no sacrifício de sua própria transcendência, ou seja, Deus sacrifica sua distância do mundo para se tornar um Deus mais pleno. A revelação de Deus deve ser tomada sem reservas, o auto-esvaziamento é absoluto, através de seu auto-esvaziamento o Deus transcendente chegou ao cerne do mundo material completamente destituído da proteção que a distância do mundo lhe garantia” (A monstruosidade de Cristo)

A cristandade piedosa e cheia de tatos com a encarnação não compreendeu a radicalidade do gesto de Deus em decidir entrar no mundo de maneira absoluta e sem ressalvas. Pensar a encarnação como mero jogo jurídico leva a interpretar o sentimento de amor de Deus para com o mundo como um sentimento de dó; Deus teve dó da humanidade, por isso enviou seu filho para salvar o mundo. Enviar, nesse caso, é como se Jesus fosse somente um agente divino passivo, mais ou menos como os mensageiros do Antigo Testamento que veio cumprir estritamente uma missão, morrer. Salvar, nesses termos, quer dizer que ele veio ao mundo somente para pagar a dívida que humanidade tinha com Deus e que exigia um preço de sangue, no caso sangue imaculado de um inocente.
Uma leitura assim coloca Jesus acima da vida que ele encarnou, e isso não é kenosis, é qualquer outra coisa menos a radical mensagem da encarnação do Verbo.

Em Jesus, Deus sacrifica sua transcendência, sacrifica a proteção que o distanciamento do mundo lhe garantia e que desfalcava sua identidade, para, como escreveu o ateu Žižek, se tornar um Deus completo. Somente assim Deus chega ao cerne do mundo. Somente deixando a proteção do distanciamento Deus pode experimentar como é existir de maneira diversa de um deus, como é existir à maneira humana.

Em cada dia do calendário, sob a lavra humana, Jesus proporciona a Deus uma experiência inédita feita de cheiros, gostos, cores e toques, experiência que Deus quase provou em um Jardim perdido na distância do tempo quando em fins de tarde descia para fazer amizade com as pessoas e saber das coisas típicas da vida humana.
A kenosis é isso, Deus querendo ser humano, não por um decreto envolvendo uma questão jurídica, mas por querer provar a vida dos homens.
A kenosis é Jesus fazendo Deus sentir o peso da carne, experimentando as limitações de ser gente, vivendo o espaço que a vida oferta dentro do tempo, em um corpo que transborda em paisagem real.
A kenosis é Jesus debruçando Deus no meio dia testemunhando o segredo poeirento e claro das horas onde os sonhos limpos que teve em algum lugar quando estava distante do mundo são nutridos pela força mágica de um horizonte azul distante.


A kenosis, ou, o peso da carne, é Deus em Jesus experimentando acordar nas madrugadas sob solidão uivante, sair orar antes que as estrelas se despeçam do véu cor de azul da Prússia, ser afetado pelo silencio eterno que paira sobre as cabeças de todos os mortais. E sentindo o dia começar outra vez a vida com sua promessa sempre repetida, sorrir baixo consigo mesmo desejando uma esfumaçante xícara de café e boa conversa em roda de uma mesa.


Alex Carrari