30 de abril de 2016

Confissões: Eu Sísifo

  


Ah, esse ciclo viciante dos dias reiterando a repetição dos mesmos eventos em que me desgastei tanto sob o sol de ontem. Não Aguento mais a 5ª do Beethoven, o que era alimento para o espírito, a repetição tornou em macarrão requentado. Estou cansado até do García Márquez, que Deus me perdoe. Mesmo eu mexendo na colocação dos livros, aí estão como em dias anteriores, nem Baptiste-Chardin salvaria tão enfadonha exposição desse ambiente. 
Ah, a disposição dos livros levemente modificada, toalhas sobre o sofá, cortina entreaberta deixando a sala ser invadida pelo facho de luz de sempre, luz que anuncia uma tarde pesada como todas têm sido, todas que antecedem noites avançando rumo ao limiar dessa vida.   


Que há pequenas migrações de elementos não posso negar, mas no geral, no macro, o ambiente que me encharca, que incorporo antes de sair à rua, é de monótona repetição, e na rua, repetição sobre repetição. A planificação do hoje na noite de ontem delimita meu raio de ação, as horas arreiam meu jeito de andar, meu apetite, minha vontade de beijar, de ir pra cama amar e falar dormindo, para que pouca coisa saia do roteiro exigido para o bom andamento do dia.


Do bom andamento dos planos traçados para o dia depende um fim de noite com o senso de obrigação cumprida, endossado pelas palmas imaginárias que recebo pela produção de coisas, papéis, números, pela tentativa de persuadir alguém a aceitar o que descreio (esforço vão), pelo meu egoísmo, soberba e metidez polidos de humildade e gentileza.
A tirania do tic tac ritma minha ansiedade hoje pelo amanhã em constante comparação com a ridícula produção de ontem.


É na cama, em rendição, que num surto de lucidez, antes do indutor de sono se dissolver completamente debaixo da língua, me dou conta de que tudo o que empurrei ontem morro acima no mundo, durante minhas raras e preciosas três horas e meia de sono, rolaram de novo à minha porta atravancando a saída, obrigando-me a se quiser sair, empurrar novamente morro acima repetindo a inexorável ordem já incorporada aos planos da vida.
Ah, os dias e as horas, os afazeres e as prestações de contas, as ideias e as argumentações, repetições, corpos abstratos de morte em minha porta.



Alex Carrari




13 de abril de 2016

O caminho da felicidade segundo Jesus Cristo (parte 1)



Ao perguntar por que nossas sociedades são tão conflituosas, tão violentas, René Girard, considera o mimetismo a origem da violência que se estrutura para  decompor as tentativas de estabelecer e sustentar uma coletividade eticamente irmanada formada por indivíduos movidos por desejos descentralizados. 
Girard não leva em conta apenas os grandes conflitos, as mega-violências, ele considera as formas mais básicas e sutis de agressão em constante acumulação como primordiais fornecedoras de substância para maiores obras de violência, aquelas dignas das grandes notas nas crônicas da história.

No desdobramento da pergunta sobre os porquês dos conflitos e violências nas sociedades, outras espontaneamente sobressaem: Por que existe no ser humano um ímpeto de competição? Por que está envolvido em uma insana disputa por espaço na esfera do que se chama, “mercado”? Por que ele sente e reage ao outros semelhantes como sendo uma constante ameaça?
O filósofo francês vai encontrar a resposta no Decálogo, mais especificamente no último mandamento: “Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem coisa alguma do teu próximo”.
Girard diz então que o grande problema do ser humano é a cobiça. Nós olhamos os outros passando em posse das coisas que não temos e desejamos aquilo que eles têm.
Como seres desejantes, sentimos a permanente falta de alguma coisa que não sabemos o que é, que nos preencha aquele espaço do tamanho da eternidade, como escreveu Dostoievski. A falta daquele produto que está em posse do outro me faz aborrecer na sensação de um esburacamento interior sem fundo.

Usando outra gramática, queremos alcançar a felicidade e em nosso imaginário algumas coisas nos farão felizes, mas como não sabemos o que é e em que quantidade precisamos, elegemos algumas pessoas que nos parecem tê-la alcançado e achamos que as coisas que elas tem as fazem afortunadas na vida.
A revista “Caras”, nesse sentido, é o mais bem acabado exemplo de informativo dessa felicidade plástica, que, aos menos treinados em manjar a clássica estética do engodo, que Marx já nos preveniu sobre a alienação da alma no produto, estampada em sorrisos Colgate Luminous White, fabricados sobre a tênue crença na permanência das coisas, parece um objetivo aplicável de satisfação comprovada.
Uma revista tão idiota em conteúdo e tão cativante no cheiro da riqueza que exala em cada página, deve ser considerada em sua força simbólica de nos fazer querer ser aqueles tipos irretocáveis por sua relação com os produtos que os representam, quando em condições normais eu me contentaria apenas em “ser John Malkovich”.

Como poucos podem ter tanto e ninguém pode ser outro, o mercado promete ajudar a burlar esse impedimento nos proporcionando ao menos o acesso às replicas dos bens de consumo que a outra pessoa que queremos ser possui. Isso é o que René Girard vai chamar de “desejo mimético”, quer dizer desejar por imitação. Funciona assim, elegemos algumas pessoas como ícones de felicidade pelo que elas possuem e passamos a desejar o que elas têm para quem sabe nos tornarmos elas.
Essa fixação nos bens de consumo como fonte de felicidade leva aquele que possui o produto a fazer questão de ser invejado, uma vez que é no desejo do outro que está o valor dos bens que se possui. Repare, não há inocentes nesse jogo.
Portanto, é o desejo que aquece o mercado, é a competição que alimenta e estimula a produção, é a cobiça que dita o ritmo do consumo.

Instaurado está, nesse espaço, o ciclo de alienação do indivíduo no produto com os desdobramentos que Marx previu, e na praça do livre comércio o velho pesadelo de Hobbes se concretiza na forma da “luta de todos contra todos”, pela posse dos produtos.

E assim nos vamos bestializando, declarando com o esforço do nosso trabalho na entrega dos melhores anos de nossas vidas nas esteiras do comércio, que o que nos define é um mero produto sem fôlego de vida. Sendo na inversão completa dos valores entre criador e criatura, o produto define nosso preço.
Na ânsia de ganhar o mundo, perdemos nossa alma.


Continua...




Alex Carrari

9 de março de 2016

Teologia do cotidiano: dia redimido pela didática da poesia

  
No balanço seco do meio da tarde, empurradas pelos efeitos de um sol inclemente, inconveniente, duas pobres posturas confiam encontrar abrigo sob uma escassa e rala sombra de árvore nova.
Mãe e filha, escoradas num carrinho de sorvete, provedor do sustento de ambas, depositário da esperança de dias melhores, não obstante a rígida privação seja uma indesejável condutora de seus destinos.
Ostentada com orgulho, a barriga admiravelmente grande é cuidadosamente mimada com doçura por quatro mãos absolutamente singulares em suas texturas.

Seguem-se duas diferentes leituras do mesmo evento.

Da mãe

Concentra-se na jornada em ambiente agressivo, de onde depende tirar um pouco de folga no orçamento e a garantia de alguma sobra na despensa, regulada ao limite. Leitura realista e objetiva que acautela contra os sonhos que não tenham por finalidade última o arranjo da subsistência.

Da filha

Devota sua mais delicada atenção ao frescor capaz de provocar lampejos de felicidade conservados no abafo gelado da caixa de isopor sobre rodas, nos cheiros e sabores que variam de acordo com a imaginação, intensidade e absorção pelos sentidos.

A forja da gesta heroica desta mãe consiste em tentar resguardar a pequena das agruras a que tão cedo se viu exposta na vida, mantendo-a bem asilada no resguardo imaginativo de seu regaço onde a pequena, folgadamente, sorve com deleite um picolé de limão, providencial cortesia da casa.

A suspeição da ausência de brilho num futuro próximo quando tiver de apresentar seu ambiente ao caçula, ainda protegido no útero que descansa sobre as ancas, que ampara com disposição e força, lhe estampa feição ainda mais afadigada.

Enquanto aguarda em resoluta reverência o findar da liça algures
Lamenta que os dias e as horas não sejam manso movimento.
Enquanto persiste o rubor queimante sobre os dias e as horas
Pensa em compor versos e fragmentos de narrativa.

Sente um impulso para declamar aos portões
Dos que recusam sua oferta refrescante.
Matéria pra compor tem de sobra,
Já que soube por boca de alguém,
Que na atmosfera indócil, o aprendiz de poeta monta seus arquivos.

Com ar festivo, enquanto a mãe arqueia o corpo evoluindo rua a fora segredando penitência, sem ajuizar sobre o contrassenso do impulso a pequena dança em redor do carrinho como que o louvando pela providência do efêmero saboroso frescor, ápice do dia, junto com uns trocados, justa paga.

Quase percebido, fui passando a passos calculados para não causar acanhamento.

De passagem pude ouvir ainda a voz delicada, quase apagada, da pequena pedindo à sua protetora que lhe recitasse alguma coisa “daquele poeta chileno”, algo que combinasse com aquela ocasião.

Absorta, sem qualquer introdução, a mãe se derramou em versos:

FRAGRÂNCIA,
Lilases...

Claro entardecer de minha longínqua infância
que flui como leito de águas mais tranquilas.

E depois foi um lenço a tremer na distância.
Embaixo de um céu de seda a estrela cintila...

Nada mais. Pés cansados nas longas errâncias
e uma dor, dor a remorder e que titila.

...Ao longe os sinos e as canções, tristezas, ânsias,
virgens que possuíam tão doces pupilas.

Fragrância,
lilases...


Ah, Neruda.

Ofegante, porém purificado, apertei o passo. Apesar de enfraquecidas, as vozes continuaram reverberando como sinos anunciadores da hora fantástica, do encontro inesperado com a face abençoada.

O sol andou e na paragem do crepúsculo fomos, eu e elas, surpreendidos.

O sol andou e algo mais sobre a ocasião, as causas e os efeitos, fora ilustrado pela didática da poesia, que, na última estalagem do espírito, na ressonância dos versos, redimiu nosso dia.



Alex Carrari

27 de fevereiro de 2016

Jesus, presença que salva



Um ser tão humano pode criar em torno de si uma atmosfera de irresistível salvação ao ponto de, com sua simples presença à mesa, levar alguém a decidir refazer radicalmente sua rota de vida redimindo sua história e aliviando a de outros? Se este ser tão humano for Jesus, surpreendentemente, sim.
À mesa na casa de Zaqueu, Jesus não articula nenhum grande discurso. Não há registro de qualquer lição moral, doutrinária ou normativa. Jesus é elegante demais com amigos recém-conquistados. Ele não mancha a beleza do momento singular da partilha do alimento com pegadinhas religiosas oportunistas, jamais fica esperando uma brecha na conversa para “evangelizar o perdido”. Seu interesse não é o de “ganhar” aquela alma para si. Jesus não trabalha com metas de crescimento de rebanho. Ele não se rende à tentação de fazer senso dos prosélitos para legitimar sua pregação e assim confirmar publicamente que Deus aprova seu projeto.
Em condições normais um evangélico médio ficaria à espreita na conversa esperando uma oportunidade, ou conduziria a conversa para uma zona onde encontraria momento oportuno para tentar “converter” um tipo socialmente ignóbil como Zaqueu.


Mas graças a Deus, Jesus não é um evangélico, e embora haja as tais condições não é a sua cara oferecer-se para comer na casa dos outros para passar sermão, nem tentar arrastar ninguém para o seu lado. Para Jesus, fazer prosélito é tirar alguém de um inferno e torna-lo filho de outro pior ainda. O mestre não arma cenas, não arranja momentos, nem fica procurando criar clima para “salvar o ímpio”, ou para usar um jargão mais brega e ufanista ainda, “saquear o inferno”.
Ele quer companhia, conversa e partilha, quer receber de Zaqueu o pão e o vinho, honrar e ser honrado na sagrada planície da mesa.
Mas Zaqueu é pecador! Sim, e é deste tipo de companhia que este santo homem de Deus gosta. Estranhamente, é com gente de índole duvidosa como Zaqueu que Jesus gosta de dividir o prato e aceitar das mãos que pecam roubando, a doação do sagrado alimento.


A lição que Jesus dá aos religiosos o coloca sempre sob muitos riscos, pois toca no orgulho de uma piedade pervertida institucionalizada que alega que santo não come com pecador.
Jesus pensa e vive o contrário, para ele santo que é santo come com pecador. O lugar de santo é entre pecadores, o lugar de salvação é onde tem gente que se perdeu pela vida.


Jesus não rebaixa sua mensagem a um jogo onde só o que interessa é povoar o céu (aquele céu dos crentes, ideal, acabado e distante), pois, se assim fosse, suas amizades seriam todas falsas e ele nunca teria uma conversa nem daria uma risada sincera com qualquer um sem que por trás não tivesse em processo um evangelismo de emboscada para capturar mais um potencial prosélito distraído.
Ele faz amizade com gente esquisita de má fama, é contado entre os beberrões, dizem que tem demônio, come com os párias, chama para si os doentes e fracos e diz que um banquete para todos os tipos excluídos da vida está sendo preparado para aquele dia. Por isso gosta de antecipar aqui nessa eternidade a mesa que será posta no mundo porvir.


Jesus é um evangelista exemplar, não precisa entulhar o cara de versículos (para os evangélicos os versículos mais eficazes para evangelismo são os que acusam e deprimem), não precisa lançar mão do expediente do medo. Como evangelista, Jesus tem ainda algo que os evangélicos não têm, ele não prega para provar que está certo e o outro errado. Acrescente-se a isso que Jesus evangeliza porque ama, por isso não acusa, nem deprime, muito menos provoca o medo nas pessoas para que seja aceito. Seu evangelismo é de amizade, companhia, comida à mesa, paixão pelo sagrado momento do encontro entre mundos internos.


Jesus evangeliza com a vida,
a vida é que precisa ser salva.


Ele foi o primeiro e o último evangelista que situou a boa notícia no lugar querido por Deus, entre os marginalizados da vida. É à margem da vida que os leprosos são rebaixados, os cegos ignorados, as mulheres depreciadas, os aleijados atropelados, os cobradores de impostos hostilizados, e é da margem desta vida que Jesus se convida para celebrar outra vida à mesa tendo como anfitriões os mais excluídos tipos da sociedade. Ele gosta tanto desse tipo de companhia que promete um dia celebrar em seu reino tendo estes como convidados e ele como anfitrião.


No céu dos certinhos, Jesus não entra, no céu de Jesus, os gabaritos da religião é que ficam de fora.


Com um clima desses à mesa, Zaqueu não se contém, dá um salto e se arrepende. A luz da presença de Jesus o faz olhar num instante a vida de outra maneira. Seu olhar sobre a superfície da vida muda à medida que recebe a profundidade da companhia de Jesus. Ele decide dar aos pobres metade dos seus bens e restituir quatro vezes mais aqueles a quem prejudicou.
Jesus, vendo o gesto espontâneo do pequeno homem, também não se contém e, feliz da vida, afirma que aquele gesto fez percebida a salvação naquela casa.
Uma vida, um mundo salvo pela simples companhia à mesa. A salvação de Zaqueu se estendeu à salvação de quem havia sido por ele colocado em desvantagem na vida.
E pensar que tudo começou quando Deus estava tão baixo na existência que o pequeno homem precisou subir em uma árvore para poder vê-lo, sem imaginar em suas melhores expectativas que Deus gostaria da sua companhia naquele dia e aceitaria de suas mãos o pão e o vinho.



 Alex Carrari



23 de fevereiro de 2016

Temos grande urgência em aprender a morrer



Em outras palavras, Montaigne quis dizer: Aprender a morrer constitui todo o ensino que poderemos alcançar a respeito da vida. A morte maturada, a longevidade possível arduamente treinada, consequência de uma vida bem cumprida sinalizada por alguns feitos, uns grandes outros nem tanto, nos pede humildade para nos reconhecermos pequenos diante da grandeza de um evento tão assombroso e ao mesmo tempo tão redentor. E assim quem sabe, ao nos retirarmos do mundo, exaustos de tantas presenças, o façamos com nobreza e com a mesma mansidão com que nascemos (talvez a morte seja um outro nascimento como já versou o Saramago).

Temos grande urgência em aprender a morrer lentamente após cada entardecer percebido com o pasmo e a reverência essencial das primeiras visões da vida. Não digo morrer como quem renuncia à vida ou dela se abdica com devotado abandono, que seria o contrário de qualquer aprendizado, e não haveria aí lição alguma. Renunciar à vida não traz nenhum aprendizado sobre a morte, que é de um valor tão esplêndido e indescritível que até mesmo Deus dela experimentou, sorvendo-a intensamente (perdoem-me a heresia, talvez Deus tenha tido certa curiosidade em relação à morte, por isso a experimentou). Ele, que antes do silenciar de sua carne aprendeu a morrer todos os dias, pôde enfim permitir, sem culpa, que continuássemos a ser afligidos pelo mais absurdo dos medos cultivados, a hora em que a resistência da memória será posta à prova e então, tarde demais, saberemos se o esquecimento se aloja onde a carne silencia, ou se, de acordo com minha educada intuição, preservar-se-á de alguma outra forma até aquele dia.

Aprender a morrer é também ensaiar despedidas.

Despedidas são uma espécie de abertura num mundo de tantas invenções e prodígios como este que particularmente arquitetamos no curto espaço entre um respirar e um espirar divino, instante em que vivemos que designamos como existência. Todas as despedidas são em si a mesma coisa, apenas lhes damos diferentes nomes para que a experiência pareça sempre outra, e a dor não dê impressão de encher-nos o peito. Essa existência não teria o devido valor caso não fosse a justeza e o rigor de sua curta duração. O prazo de cada vivência é repleto de desconfianças contra toda dor, e de intermináveis esperas por um tempo que parece se distanciar cada vez mais; que seja mais fecundante e adequado à eternidade que tanto se demora. Uma pulsão sagrada – algo que é peculiar a nós, os que reconhecem por demais o aqui – deita sua arejada sombra sobre tudo o que consideramos digno de que não participe das comuns e inevitáveis partidas, nos impelindo à resistência contra o acúmulo de desconfianças e esperas, alentando-nos o espírito no momento em que a eminência e o prenúncio de tantas perdas se achegam.

Quem o quanto mais reconheceu o aqui e tanto mais se amasiou dos entardeceres, mais terá de acostumar-se, enquanto aqui, às despedidas que ao longo da vida forçosamente fará, até que a última de todas as despedidas, a sua própria, não terá como acompanhar, já não mais será encontrado entre os vivos.

A morte, essa ocorrência, a mais colossal de todas as ocorrências não esclarecidas, empurra-nos para o mais fundo da vida e exige-nos o cumprimento da mais admirável tarefa; acatar sem hesitação as mais íntimas experiências de perda, ou morte que seja, que se verga sob a gravidade de uma má suspeita. Delimitada com meios e medidas, a morte, formidável e ricamente ilustrada, se encarada com gravidade, nos parece ser a maior parte desse Todo que nos confunde com infinitas transformações necessárias, nos impondo seu ritmo soberano sob a névoa das mudanças, organizadas pela transparente graça que paira onde é decantado o sacro-santo sopro da vida.

Mesmo que tenham direito a existir, as concepções cristãs de um além, junto com outras hipóteses da periferia divina, são consolos que se demoram demais ao coração. O coração esquece muito, e os consolos nele não encontram abrigo caso estes sejam inalcançáveis para o momento (o instante entre um respirar e um espirar divino, em outras palavras, o aqui).

Supondo que pudéssemos dominá-la – como de praxe supomos em relação a quase tudo – acreditamos que a morte em sua essência mais íntima fosse contrária a nós. Nos esquivamos – como se pudéssemos –, do dever de admirar a organização da vida e seus fundamentos que Deus nos confiou e que decerto sempre esperou que dele nos valêssemos em cada posição provisória dessa trajetória cuja curva vertiginosa seguimos sem contudo nos determos em parte alguma.




Alex Carrari




29 de janeiro de 2016

Das poucas coisas que deveríamos saber


Com que vida encherei os poucos breves
Dias que me são dados? Será minha
A minha vida ou dada
A outros ou as sombras
?


(Ricardo Reis)

Temos vivido como se fossemos viver sempre, e não nos ocorre os malabarismos que temos feito para driblar e resistir a morte. Temos desperdiçado nossos dias correndo atrás do vento, como se fossemos plenos de tanto tempo, como se este fosse abundante e que pudéssemos por luxo ou mero capricho, desperdiçá-lo. O tempo que desperdiçamos pode talvez ser o último. O tempo não nos é dado e sim tirado. Não fazemos anos, como disse o Rubem Alves, os desfazemos. Quem se defende por correr atrás do vento achando que faz grande coisa, deveria fazer o cálculo de sua existência. Conta os anos que já te foram e projete os que ainda te faltam – se é que o podes fazer. Aqueles com certeza os sabe e os tem todos na conta, mas e estes? Projeções não significam nada na conta do tempo. Pois então as únicas datas de que temos pleno conhecimento são as que nos foram subtraídas, as que denunciam que estamos nos extinguindo rapidamente.

Porque esperamos tanto para nos dedicarmos ao ócio? Cheios de júbilo dizemos: “Chegando aos sessenta, ou setenta anos – que alguns denominam “a melhor idade” – relaxarei de todas as minhas fadigas”. Mas podemos confiar que viveremos tão longamente? E que garantias temos de que os planos traçados e que as riquezas bem guardadas terão os desfechos que prevemos com tanto medo e ansiedade? E quem nos induziu ao grave erro de esperar chegar à idade avançada e isso com tantas certezas? Somos melhores em algum aspecto do que aqueles que morrem com a idade em flor? O que de tão especial temos que nos achamos no direito de folgar na confiança de que passaremos ilesos aos acidentes do acaso a que todo mundo está exposto e que interrompe vidas virtuosas e nobres projetos?

Não caiamos nessa de “a melhor idade”, isso não existe, o que existe são os melhores dias. E vivamos não de idades, mas de dias. Sêneca, esse honesto romano disse:
Do mesmo modo que uma conversa, uma leitura ou qualquer reflexão maior desvia a atenção do viajante, que, de repente, se vê chegando ao seu destino sem perceber que dele se aproxima, assim é o caminho da vida, incessante e muito rápido, que dormindo ou acordados, fazemos com um mesmo passo que, aos ocupados, não é evidente, exceto quando chegam ao fim”.

Devemos estar cientes de que, a única aposta certeira que podemos fazer é que contra o tempo estamos em desvantagem sempre. Quanto mais ocupados estamos, a vida ainda mais se apressa, e a morte mais se adianta. E não nos enganemos quem nos entregará à morte será a própria vida, quando se cansar de tanto pouco-caso.

De acordo com a sabedoria do Qoheleth – que não é exclusivamente sua – a vida se divide em três fases ou períodos: aquilo que foi, o que é e o que será. Certo é somente o que fizemos, breve o que agora fazemos e dúbio o que estamos por fazer.
Tão breve é o tempo presente que sequer é percebido, na verdade incorretamente dizemos “presente” quando ao terminar de dizê-lo já é passado. O presente só se faz notar em tese, como um mero conceito de intervalo entre passado e futuro, ou seja, entre o que é certo, pois já se foi e pode ser constatado pela recordação, e o que é posseiro das nossas dúvidas mais agudas já que o que está à nossa frente é completamente incerto.

O tempo passa e não se pronuncia audível, comunica-se por sinais, se deixa perceber através das marcas que vai deixando em nós impressa. Vendo as marcas e interpretando-as é que nos sentimos ir. Breve é o tempo da mais longa vida. A lei inexorável do esvair perpétuo que não cessa nos pesa e dói.

De tudo o que nos apaga a vida e nos rouba o tempo, o comprometimento com as coisas perecíveis são as mais estúpidas. Comprometidos com as coisas que estão fadadas a se extinguir e se invalidar tão rapidamente quanto nós, perdemos o agora, e não chegamos a viver o amanhã, pois o antecipamos em nossas mais solícitas preocupações e quando deveria ser o tempo de o vivermos ele já não está estendido à nossa frente, o consumimos mesmo antes que existisse.

Gastamos nossas fases mais produtivas da vida defendendo tolas idéias sobre as mais variadas bobagens, juntando cacarecos onde está o nosso coração que, não bastasse isso, está entulhado com todo tipo de merda de consumo a que, rilhando os dentes, damos tanto valor. Decidimos viver quando na verdade já deveríamos fazer planos e testamentos, e ensaiar uma digna despedida. Começamos a pensar em viver quando é tarde demais. Deveríamos, acredito com todas as minhas forças, usar o tempo para instruir-mo-nos no viver, e não acompanhá-lo em sua passagem enquanto desfazemos os anos que nossa ganância e avareza nos faz acreditar que lucramos.

Será que somos como aqueles que como disse o Sêneca, não viveram muito, apesar dos cabelos brancos e das rugas? Será que somos como muitos desses que apenas existiram por muito tempo? Existir é uma coisa, viver é outra. Para existir basta estar aí, na opacidade, inerte, uma criatura maciça, parafraseando Sartre; simplesmente um em-si sem projeção nem transcendência alguma. Ah, mas para viver tem de haver desenvolvimento, envolvimento, e a clara noção de que esta é, ao menos por enquanto, a única vida que podemos conhecer – embora eu gostaria, de coração sincero, que houvesse outra depois.

A vida é um sopro. Não é a toa que no Decálogo Deus sopra no nariz do Adão. Isso significa que lhe está sendo dado algo ao mesmo tempo poderoso, pois trata-se do fôlego de Deus, e volátil, pois expirar-se-á vagarosamente até voltar totalmente para Deus. O sopro que nos põe de pé será bem cedo requerido de volta e isso nos devolverá ao berço do pó. O tempo é incorpóreo e talvez esteja aí o motivo de não fazermos muito caso dele. Não o valorizamos devidamente e fazemos uso irresponsável da sua presença como se isso não nos custasse tão caro. Contudo, quando chegar o dia mal e uma doença nos invadir violentando-nos por dentro e por fora, correremos e nos jogaremos aos pés do sacerdote para que interceda por nós, para que possamos ficar um pouco mais. Quando não, nos lançaremos aos consultórios médicos e gastaremos todo o nosso rico dinheiro que afadigados guardamos por tanto tempo onde a traça rói e a ferrugem consome. Aquilo em que empatamos todo o nosso tempo e empenhamos toda a nossa vida será gasto para tentar viver mais um pouco e ganhar mais um tempo. Arre, para que gastar preces ou ouro que seja para prolongar uma existência tão medíocre? Se for pra isso que se vá de uma vez.

Ocupamo-nos tanto e tanto em trabalhar duramente para melhorar nossa condição sem nos darmos conta que por maior que seja uma conquista sempre haveremos de querer mais e mais e mais e mais... Essa é a nossa constituição mais básica; seres que jamais estão satisfeitos. Sempre dá pra ganhar mais, não importa a que custo, seja perdendo o nosso tempo ou arruinando o tempo dos outros. Viver desse modo é o mesmo que encher de terra um vaso sem fundo.

Morreremos empatados demais de coisas. Morrermos trabalhando demais por nada, buscando uma elevada posição para quem sabe ter no túmulo uma vã inscrição que, tarde demais, dirá tudo sobre nós, dirá tudo por nós: “morreu ocupado”. Pensemos agora se isso é agradável.
Das poucas coisas que deveríamos saber é que, tudo o que nos toca, e tudo o que tocamos, num momento qualquer, sempre inoportuno, com ou sem aviso, nos será tirado. Nossa curiosidade será satisfeita. Nossa euforia findar-se-á. Nossa ganância terá seu fim. Porém, tarde será. Para o lugar aonde iremos depois que findar a vida não haverá lembrança das coisas.


O que é certo é que, por enquanto a única vida que temos nas mãos em nossa posse provisória, a única que parcialmente conhecemos, é essa que nos acorda dia após dia para fazermos o que tem de ser feito, e que deveríamos dar o melhor de nós para que tenha valido a pena a aposta que Deus fez na vida. Que ao final de tudo não haja tantos arrependimentos. Que nossos olhos tenham enchido os nossos corações das mais estéticas verdades. Que no momento em que a vida nos escapar e chegar a hora do barqueiro aportar na enseada da nossa finitude, haja envergadura suficiente para não lamentarmos tantos desperdícios. Caso haja algum lamento, que seja “por ter de deixar um mundo assim tão bonito”, como disse o poeta.


Alex Carrari

27 de janeiro de 2016

Tecitura de silêncio


No silêncio que marca o tempo é onde comungo
minha religião de esperas,
enquanto n’um ritual de brancura
a névoa me envolve numa camada funda
e leve,
fazendo mansos meus pensamentos.
No silêncio cultivo todos os devires,
debruço sobre uma verdade que cai em desuso
(A eternidade é feita de pedacinhos de vida breve).
Vou ficando enquanto passo,
prisioneiro e errante de amores
.
Rumo para longe de tudo percorrendo o mundo
sem sair de perto dos teus seios.

Onde todo o horizonte cabe em meu caminho?
Onde não há começo nem fim,
e a solidão torna ao pó.
Enquanto percorro meus desertos interiores 
absorto nas brancuras que me invadem,
há um breve instante para a poesia
e o meu corpo é um templo cheio
do vácuo de expectativas extravagantes.
Nele exploro minhas tristezas até a exaustão,
tento ver em que pocilga da lembrança
as saudades se abrigaram.
Delas não quero me despedir,
porque estão plantadas em um terreno só meu,
onde experimento a ressurreição das coisas
de sangue e carne entregue
aos caprichos desta vida provisória. 

Silêncio assim é tecido sob um sempre
e alonga-se na lenta paisagem onde me recomponho
e me cabe de novo ser criança,

condição que demorei uma vida quase inteira para alcançar.
E eu posso brincar de mim,
numa
 infância de branca névoa 
solta num jardim que nunca se tranca
.
Neste silêncio sou uma ciranda que sempre gira
pelas mãos da vida que não cansa de brincar de rodar.


Alex Carrari


24 de dezembro de 2015

Foi como gente que Deus bordou o véu do tempo


Os dias perdidos que comovem nossa memória
arrebatando o tempo que flui entre o sono e a vigília oculta,
são a expressão da tensão entre o nascimento e a morte,
espaço em que apreendemos o desvelo do Espírito
e o estar em sossego entre a hora justa
e algum sítio abençoado
carregado de significados invisíveis.

Condição imutável do mundo.


Percorremos rumo à porta que jamais abrimos
que aberta foi no tempo fora do tempo,
não sem sacrifícios, não sem sangue,
não sem carne, não sem a maldição da lei.
Entre clamores e súplicas,
o abandono experimentado no lenho
começou embrulhado em palhas numa estrebaria.

Sua constituição confunde-nos onde nossa memória naufraga.


Antecipado o fim em seu começo,
o seio da eternidade é todo o mundo de uma paixão,
e o aconchego de Deus, um cocho de animal como berço,
de onde a superfície da terra flamejou no coração da luz,
convertendo céu e terra num só fim,
convergindo céu e terra num só Ele,
transmutando para sempre Ele em todos.

O céu e a terra misturados, o mundo renasce certo.


Em Belém evaporaram-se os vestidos da Trindade
na paisagem consumada de Seu desejo de amor profundo.
E o vento, outra forma de Seu Ser,
levou Seu corpo por alamedas, becos e mares,
onde encontrou nossas dores, alegrias e sonhos,
e fez das nossas as Suas dores próprias de existir,
das humanas alegrias criou resistência ao desespero,
dos nossos provisórios sonhos cunhou sua divina fé na Vida.

Foi como gente que Deus bordou o véu do tempo.




Alex Carrari

4 de dezembro de 2015

A aurora de um novo tempo: a morte de um certo "Deus" e a coragem de ser



A aurora de um novo tempo de encontro com Deus já se anuncia na imensa profusão do mundo. Se tirarmos as sandálias dos pés nesta terra e reverentemente aprofundarmos o olhar na paisagem perceberemos lampejos de sua silente manifestação nos lugares mais inesperados, nos mais áridos e desconfortáveis recantos da alma seu Espírito escolheu fazer casa permanente. A inquietação que toma nossos corações e faz estremecer nossas frágeis estruturas corpóreas diante de enormidade da vida, são as substâncias da história divina em nós, do Êxodo ao Getsêmani, vividas em seu exílio voluntário na forja deste mundo de despedidas prontas a se cumprirem. É este e não outro Deus que convida a nos lançarmos de peito aberto na vida para encontra-lo no lugar de sua escolha eterna, no turbilhão das mais corriqueiras sensações humanas, sinalizando do meio das nossas efêmeras distrações, mergulhado nesse mar de gente onde nos sentimos por inteiro.

Aos pessimistas acanhados que odeiam tudo o que é humano, tudo o que é da Terra, tudo o que é fenômeno do corpo, os lampejos dessa aurora são vedados, pois, não percebem quando no horizonte, mesmo sombrio (Deus faz sua cama também no abismo) desponta a possibilidade de se viver uma nova consciência, livre das fábulas e medos que atormentaram nossos antepassados. É-lhes vedado não por um processo seletivo natural, mas por preferirem o consolo anestésico de projeções abstratas que lançam para o post mortem o início da verdadeira vida, nada mais que doses homeopáticas daquilo que Marx chamou de ópio do povo. Poucos são os que estão percebendo a chegada desse novo tempo, menos ainda são os sem-medo que despertando antes de todas as alvoradas do mundo com preces nos lábios e no coração a coragem de ser, saem descalços pelas calçadas da vida como pastores da terra lavrando ternura nas pedras do caminho.

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Nietzsche proclamou a marteladas a derrubada de certo prédio teológico no qual morava um certo "Deus", em cuja placa de entrada do condomínio estava escrito, Platonismo para o povo. Derrubado o prédio, "Deus" morreu entulhado entre seus escombrosPregar a morte desse "Deus" inventado, legitimador da eufórica fuga da realidade, ainda causa furor nos membros de ambientes religiosos que detestam que gente seja gente, como se pecado fosse ser carne, sangue, ossos e emoções. Sendo esse "Deus" ensimesmado e manhoso o maior inimigo da vida.

Muitas almas crentes abatidas, temerosas de que seu "Deus" (que está morto) seja deposto de seu altar caseiro, se deleitam na sensação de segurança embutida num ídolo do lar, preferindo o medo à liberdade. Sobre esse tipo de medo o discípulo amado escreveu: "No amor não existe o medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor" (1 Jo 4.18).
A grande ironia dessa história é que a postura esquiva destes crentes em relação a absoluta e intransferível responsabilidade humana com a vida, foi o que os levou a usar Deus como uma muleta metafísica, que outrora foi chamada pelos filósofos de "ideia de Deus". Agora um movimento iniciado pelo próprio Deus há quase dois mil anos em um sensível carpinteiro de Nazaré está levando a se esvair da história os restos dessa ideia construída pelo imaginário humano, ficando para estes que persistem em recuar ao novo tempo de encontro, apenas a expectativa de um arrebatamento secreto ou pelo menos o reparador conforto momentâneo do dinheiro.

Deus navega por uma memória sem margens e aqueles que julgam defendê-lo escorados em proposições de mais de quinhentos anos, pensadas por homens idôneos e íntegros, porém falhos e temporais, como se estas fossem absolutas no que dizem a seu respeito, são constrangidos por Jesus – quando o levam a sério – de que Deus não pode ser estancado por nada que seja temporal e relativo. Estancar Deus, dizer que ele é desse ou daquele jeito, conferir-lhe uma personalidade estática, é fabricar um ídolo. E Deus em sua longa história proibiu que se esculpisse qualquer imagem que o colocasse dentro de um molde temporal; Deus não é um pedaço de pau ao sol.

O Deus verdadeiro se mostra vivo no vestido das paisagens, no vento levando seu corpo por entre alamedas de pedras, nas leves alvoradas de neblina, em cada flor, em cada perdão depois da mágoa, em cada abraço que leva alguém mais longe. Os que não o percebem são meros espectadores, porque desprezam a chance singular, irrepetível de ser gente, de se realizarem como seres humanos, único jeito de se aproximar de Deus, de ver Deus.

O novo tempo que se anuncia é tempo de gente que aceitou o convite do Deus que veio e ficou gente, Jesus, para construir a história a quatro mãos, gente que não se conforma em ser mero espectador na vida, que tampouco se esquiva das responsabilidades que demanda a parceria.

O novo tempo que se anuncia é um tempo não de chegada, mas de ida, e é no estar indo que se aprende um modo de ser, como escreveu Rubem Alves.



Alex Carrari


25 de outubro de 2015

A decisão entre o sucesso e a graça de sofrer por Cristo


O sucesso da empreitada cristã no ocidente se deve ao caso de a irretocável mensagem primordial e límpida da cruz do Cristo ter sido repelida, e em seu lugar estilizados discursos mais palatáveis, menos exigentes em práticas e mais sortido em verbalizações e abstrações piedosas. Se a incomum mensagem de Jesus não fosse repelida, os ideais de conquista territorial, cultural e política, pretendidos pelas organizações que capturaram indevidamente o nome “igreja”, não se consolidariam, pois, nada é mais antagônico do que tais ideais e o Evangelho.

Tendo o sucesso como meta, as credenciais que autenticam um seguidor de Jesus não são mais o testemunho de fé, quer dizer, ser provado e aprovado nos sofrimentos; um exemplo de prosperidade financeira é suficiente para alguém ser considerado um exemplar da benção seletiva divina, um elogiável modelo de seguidor de um “Jesus” líder de mercado.
Padrão é o vencedor. Referência é o vitorioso. Digno de reconhecimento é o vigoroso. O mérito está para os fortes.

A igreja (organizações conforme descrevi acima) chegou aonde chegou e o cristianismo deu certo porque se afastaram do essencial nos ensinamentos de Jesus. Enquanto era um movimento marginal perseguido, enquanto os primeiros cristãos congregavam a luz das lamparinas nas catacumbas sob os pés judeus e romanos que os caçavam até a morte, havia uma ligação com a mensagem de Jesus que dizia: “De todos serão perseguidos por causa do meu nome...”, “...vos envio como cordeiros para o meio de lobos”, “No mundo tereis tribulações...”. Havia algo de proximidade com a vocação evangélica inicial para a qual o Espírito Santo seria especialmente enviado: “Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra”.

Do ponto de vista do Novo Testamento, testemunha, do grego martys (mártir), é a qualificação que marca aquele que se entrega para morrer por sua fé no jeito de viver do Cristo. Mártir é aquele que com seus sofrimentos e morte declara sua fidelidade ao Cristo, e da maneira mais radical de todas, preserva a essência da verdade pela qual viveu, morrendo morte semelhante e pela mesma causa de seu Mestre.

Até o Espírito Santo, uma pomba delicada, um sopro suave que tem livre curso, perdeu sua vocação de ser o encorajador, a energia vital que anima o discípulo a perseverar no testemunho, para tornar-se um mero ponto de contato entre o céu e os desejos mais frívolos dos crentes, nada mais que o agente que cochicha aos ouvidos de Deus para convencê-lo a ceder às exigências mais banais de milhares de filhos mimados.
O Espírito Santo é hoje o meio de convencimento que os crentes usam para atingir o calcanhar de Aquiles de Deus, e alcançarem seus fins. Quer dizer, o orgulho que ele tem de ser reconhecido como Todo-poderoso e que por isso faz questão de demonstrar para o que ele serve quando é acionado. Querem convencer Deus de que ele precisa demonstrar que ainda é necessário, e calar a boca dos críticos que dizem que ele está morto.

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Após a organização das primeiras comunidades cristãs, quando os ideais de vida de Jesus já começavam a arrefecer e se plasmar com rasos interesses privados, Paulo tenta recuperar entre os Filipenses a mensagem do Mestre que convocava aqueles que tivessem em mente andar de acordo com a sentença: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome sua cruz e siga-me” 
(Lc 9.23).
Paulo, que diferentemente de Jesus, mais ajuntava do que espalhava, escreveu também: “Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele” (Fp 1.29).
O sofrimento por causa do Cristo era recebido como graça de Deus, e Paulo chega a extremos ainda mais difíceis para as mentes evangélicas modernas que consideram a certeza do sofrer como uma injúria à fé: “Agora me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja” (Cl 1.24).

O apóstolo está dizendo que os sofrimentos do Cristo não cessaram com sua morte e ressurreição, eles são intermináveis na existência, e aquele que assume a vida que o Cristo viveu sofre o excesso de seus sofrimentos.

O racionalmente fraco argumento da loucura da mensagem da cruz que Paulo desenvolve na primeira carta aos coríntios, tem nesta sua fala aos colossenses, mais um extremo sinal de identificação com a vida e o destino de Jesus; alegrar-se nos próprios sofrimentos, voluntariamente oferecer seu corpo para receber as mesmas aflições que o Cristo e tudo em favor de um grupo de pessoas que ele chama de seu corpo, a igreja.
Com as palavras de Paulo em mente e o exemplo absoluto de Jesus como o servo sofredor de Isaías 53 – inteiramente re-significado aos crentes do Novo Testamento pelo episódio do encontro entre Filipe e o eunuco –, os primeiros cristãos contemplavam o sofrimento por causa da fé como uma honra, e a consequência mais dramática, morrer como testemunha, uma glória que todos os primeiros imitadores do Filho de Deus desejavam em vida para que pudessem, com fé, provar de forma gloriosa a morte reservada a todo homem.

A decisão de como viver sela um jeito assumido de morrer! Em suma é isso.



Alex Carrari


20 de setembro de 2015

O milagre vindo de fora apresenta Deus como um simples fazedor de coisas (última parte): O milagre brota do chão pisado por Deus



Jesus é homem que lida com a vida sem cortes. Para ele não existe essa inconsistência de mundo ideal superior ao mundo sensível, céu melhor que terra, transcendência separada de imanência. Para Jesus todas as dicotomias são falsas, tudo não passa de convenção de interesse humano para manter o status quo das estruturas de desigualdade exatamente como elas são, para benefício dos mesmos grupos que as estabelecem e que fazem do próprio ventre o seu deus e das instituições religiosas suas fortalezas virtuais. Por lidar com a vida sem cortes, o milagre para Jesus é um acontecimento da vida, e, mais que isso, em todas as ocasiões o que é de maravilhar ao final é a culminação de um movimento ligado à sua conduta de compaixão pelo gênero humano, que era o que o impulsionava. Aprofundando ainda mais, há na ocorrência do milagre, outro sinal surpreendente que, para o religioso médio que ainda não é suficiente para aceitar que Deus não age sozinho, deve ignorar por completo para seu próprio bem.

Deus precisa de parceiros.

Deus age em parceria e essa parceria acontece no centro da vida, brota no chão das nossas e das suas próprias andanças, vai subindo como renovo em uma terra seca, terra tocada pelo eterno feito gente, terra que recebeu seu suor, sangue e lágrimas – os fluidos do divino regaram o chão que pisamos tornando a terra eternamente sagrada. E o Verbo se fez carne nascendo da terra, o locus da peregrinação humana, estabelecendo um novo fundamento no relacionamento entre o Eterno e o finito, se fazendo um peregrino, assumindo o destino coletivo da humanidade, tomando sobre si as aflições próprias de ser humano, tocando todas as dores que alcança, e as que não alcança, pede para que seus discípulos o ajudem a tocá-las.

Contudo, lá em seu tempo como cá no nosso, a maioria da cristandade ainda não entendeu, ou se entendeu faz de conta que não, para não ter de reconhecer que a vida e o mundo têm absoluta prioridade na agenda divina, pois, reconhecer essa prioridade implica em tomar as dores do mundo sobre si, tornando-se responsável por sua cura, porque a vida e o mundo, em Jesus, foram resgatados como sagrados.
Giorgio Agamben intui muito bem sobre o movimento que as dicotomias operam des-sacralizando a vida e o mundo quando diz que o profano não é o secular-utilitarista, mas o resultado da profanação do sagrado.
Jesus se relaciona muito bem com o secular, não se sente um estranho nesse ninho, e ainda vai tão longe quanto se pode ir prometendo voltar como Espírito para estar em seus discípulos imersos na vida do mundo até o fechamento da história.

Uma vez que a vida e o mundo são sagrados para Jesus, o milagre não é mais uma questão privada de acesso e distribuição pertencente somente a Deus. O milagre é um assunto da vida, nasce do chão que pisamos, irriga solos áridos, sara corações aflitos, alimenta o estômago de almas famintas, qualquer um tem acesso, e o mais revolucionário, um qualquer pode ser agente de sua manifestação.
Uma vez que Deus está no mundo e seus discípulos têm o seu Espírito, o Reino está no interior dos que assumem a caminhada do Cristo (O Reino de Deus está dentro de vós). Portanto, a vida e o mundo não podem ser considerados profanos. E se ambos não são profanos, pelo contrário, foram resgatados como sagrados que são, o milagre não vem de fora, brota daqui mesmo, não é uma intervenção brusca de Deus, tampouco uma ação divina unilateral, é um feito da vida com todas as possibilidades de acontecimento no único campo de atuação que conhecemos e que nos foi permitido eternamente experimentar; o mundo dos sentidos habitado pelo Espírito do Cristo através de homens e mulheres que amam a vida do Deus feito carne.  

O milagre só pode ser compreendido como um evento da vida se a vida com todos os seus elementos, com todas as suas manifestações de beleza, compaixão, sensibilidade, for acolhida como sagrada e o discípulo de Jesus se assumir como responsável amoroso pela fruição da graça de Deus no mundo através dos elementos mais básicos constituintes da vida.

Esse é o ensino de Jesus quando seus discípulos preocupados com a hora avançada em lugar deserto pedem para que o Mestre despeça a multidões que se aglomeram para ouvi-lo para que possam comprar alimento pelo caminho.
Jesus rejeita a primeira opção dos discípulos e diz para eles mesmos darem de comer para toda aquela gente. Como eles – assim como nós – não entendem bem sobre a questão da sacralização da vida e seus elementos, imediatamente retornam para Jesus dizendo que encontraram apenas um menino com cinco pães e dois peixes, e afinal o que significa tão pouco para tanta gente? Não sei o que eles querem dizer com isso, talvez seja mais uma justificativa para que Jesus despeça mesmo aquela aglomeração e nenhuma responsabilidade pese sobre eles. Na versão de do Evangelho de João, Jesus chega a provocar Filipe perguntando onde poderão comprar tantos pães para aquela multidão, e o evangelista acrescenta que Jesus dizia isto para o experimentar, pois sabia o que estava para fazer.

Duas coisas que nos escapam nesse evento, embora estejam explícitas no texto, é que os elementos necessários estão presentes, pães e peixes, e que Jesus convida seus discípulos a serem agentes do milagre – que é bom lembrar, não é tratado por ele como milagre. Ao convidar seus discípulos para darem de comer às multidões, Jesus está dizendo que a questão é mais simples do que eles pensam que é. A matéria está presente na forma de pães e peixes, o que é preciso então para todos não desfalecerem de fome?

Falta distribuição.

“Dai-lhes vós mesmos, de comer”, convida Jesus aos discípulos na versão do evangelista Mateus.
Pães e peixes não caem do céu, nem surgem magicamente dentro um cesto, como em um episódio do ilusionista Dynamo, em que ele faz sair dezenas de peixes de dentro de um balde vazio. Isso não é milagre é mágica, e Jesus não é mágico.

Para Jesus o verdadeiro milagre está na distribuição do pouco que se tem para o muito que se apresenta com falta. E um evento como esse é uma lição sobre como administrar os recursos da vida com compaixão pelo outro. O milagre, primeiro de tudo acontece quando do interior de alguém nasce compaixão, aí começa o milagre. O evangelista Mateus mais uma vez: “Desembarcando, viu Jesus uma grande multidão, compadeceu-se dela e curou os seus enfermos” (Mt 14.14, grifo meu). A compaixão é ao mesmo tempo o solo fértil onde brota e ao mesmo tempo a água que rega o milagre nascente.
Multiplicar pães e peixes não se localiza em um horizonte de milagre como algo sobrenatural fora daqui, nem como uma intervenção divina cortante e brusca vinda do alto lacerando o mundo dos sentidos. Pelo contrário, alimentar multidões com apenas cinco pães e dois peixes é muito possível, e Jesus está dizendo isso aos seus discípulos.

Aqui o que é possível para Deus, Jesus está dizendo que também é possível para o homem. Alimentar tanta gente com tão pouco é perfeitamente natural, é algo que se deve esperar, é algo que se deve fazer.

Milagre é repartir.

Milagre é o dom de repartir o pouco que se tem na vida com quem tem tão pouco que chega a ser nada.
A vida e seus recursos são sagrados porque saíram das mãos de Deus, e Deus deles um dia necessitou para alimentar sua vida; o Deus que tudo criou, que tudo pode, que de nada tem falta, um dia dependeu dos elementos mais básicos da vida para viver.

Um dia Deus entrou na vida comum dos homens e também foi um necessitado, dependeu da caridade e gentileza de amigos.
Um dia Deus olhou para essa vida comum e para os homens e os amou tanto que decidiu tocá-los e se deixar ser tocado por eles.
Um dia Deus pegou alimentos da vida na frente de multidões de almas famintas, os abençoou cheio de compaixão e deu para seus discípulos repartirem entre todos. Nesse dia o milagre brotou do chão que deu o trigo transformado em cinco pães pelas mãos dos homens, chão que retém água em mares e lagos de onde alguém pescou aqueles dois peixes.


Alex Carrari