17 de março de 2012

Confissões:Porque preciso parar de escrever*




Hoje sou a saudade imperial
Do que já na distância de mim vi...
Eu próprio sou aquilo que perdi...

Fernando Pessoa


A escrita é uma elevada necessidade interna e aí deve permanecer. Mas isso só é possível se o grão de trigo que cai na terra morrer. Não há escrita para quem cai na terra e permanece vivo. Quem permanecer vivo que ajude os mortos sepultar seus próprios mortos.

Com a alma sedenta e a boca faminta, mesmo depois de tudo, sempre há uma obstinação profunda para que se confesse algo significativo primeiro para si mesmo, depois quem tiver disposição que leia, e faça suas considerações – não raro poucas considerações. Na proporção, em relação à lista de e-mails que enviei textos durante estes três anos (acho que é isso) a indiferença com o que escrevi sempre superou uns 87%. Não que isso tenha me causado aborrecimentos de outra natureza que não sejam desânimo e ansiedade não superados, porém conformados a um estilo de vida apropriada aos calos adquiridos nesse percurso de esperas onde fiz minha moradia. Embora, desde quando resolvi meter as mãos pelo destino sem me importar o que o destino traz, canso-me de ouvir que corro atrás de ilusões gastas pelo desatino orvalhado no sonho matutino.

Porque todo sonho deve ser idôneo, toda ilusão deve ser fiel, assumo um compromisso de não mais escrever aos poucos que ainda retêm o pé e o sentido para não desdenhar da escassez de um bom motivo para eu continuar a importuná-los com palavras doutrinariamente escorregadias e difíceis ao gosto geral.
Assumo um compromisso com aqueles que me leram – talvez então uns 13% do total de envios – nesses poucos três anos (acho que é isso) em que escrevi regularmente sempre como uma parturiente suportando dores por cada frase que se propunha nascer para ter efeito no coração dos que recebiam meus textos.

Mas isso não é tudo, uma necessidade externa é que me impede agora de continuar sustentado esse improvável teatro de virtuoses romanescas. É claro, não nego que essa necessidade externa só superou a necessidade interna por ocasião da minha desistência de, por esta ganhar a vida, podendo perder a alma daquela. Algumas convicções me valem mais que um respeitado sobrenome para o depois de tudo. Essa necessidade não me deixa ter tempo.

O tempo que agora me falta é o tempo em que me empenho na labuta para dar de comer às minhas crias. Minhas mãos agora são exigidas para outros movimentos, à exaustão no lixamento de paredes, tetos e dormentes. O moinho da vida, em luta insana, pulveriza o chão com sua mó santa e soberana e o silêncio é toda a minha herança. Mas sem arrependimentos. Os dias são duríssimos no canteiro de obras, piorados pelo sol inclemente que nos machuca o lombo. As beiras dos telhados por onde ando a vinte e poucos metros do chão equilibrando entre as calhas e a sorte, me fervem a sola das botinas e refletem todo o calor possível de se fazer. Só estando num telhado resinado em dia de sol quente pra saber do que estou falando. Mas creiam-me, não tenho um til de arrependimento, e não penso um j em recuar, sou o que tenho sido, e não cogito ser outra coisa, disso depende minha crença na força dos meus braços. Disso depende a supressão do meu ego. No horizonte do canteiro outros “piões” empenham-se também por suas crias e por modestos sonhos arrastados na lembrança, e não sou mais nem melhor, que qualquer um deles sequer.

É ali, no franco bruto da peleja onde encontrei as referências necessárias para eu continuar e não fraquejar logo agora. Encontrei a sabedoria pungente em gente como o Edézio, meu parceiro; durante o dia “pião de obra”, à noite garçom. Isso é o que chamo de um cara de atitude. Esse é o cara que, sem ele saber, tem me ensinado a cavar a vida até dar no suor que escorre sobre a terra endurecida preparando-a para o pouso da fé. Um cara que não lê livros, mas sabe das coisas que não constam neles. O canteiro de obras é um continuar de vida se estendendo pelo horizonte a fora e a paisagem, da aurora ao pôr do sol é dada estreita, grave, repetida. Como filosofar nessas condições? O Edézio é um dos poucos que sabe. Ele sabe o mundo já de cor.

É no meio de caras sujos de cimento, de baixo repertório cultural, vocabulário limitado, que ignoram que haja um em-si e um para –si, que não conhecem onde entra Aristóteles e sai Platão – que na verdade estão pouco ligando pra saber disso –, caras que filosofam com colher, enxada, pá, tijolo e pedra, é ali que encontro a sabedoria sem lapidações, sem retoques, sem digressões.

Assumo com os riscos de passar em branco pelas sendas da literatura, por motivo mais urgente, sustentar minha casa.  A comida na mesa é agora toda a poesia que me absorve, e o ganho dessa comida é a narrativa de todo o meu interesse. Do pouco ganho que trago do canteiro de obras um santo orgulho não deixa arrepender-me do que faço, pois, um doce beijo da Ada e um café passado novo sob a rebaixada luz de fim de tarde, são sinais da reverência e do respeito dela pela consciente obstinação com que encaro meu trabalho. O queixo alegre da Sofia sobre a mesa iluminada pelas comidas que adora, o sorriso adolescentemente feliz da Ester que me agradece por simplesmente eu ter chego em casa depois de mais um dia que me exigiu até o que eu não tinha. Eis o que me sossega a memória enquanto trabalho sentindo nos próprios calos toda a razão maior da poesia.

O tempo que agora me sobra da lida diária, caros amigos, em muitas ocasiões não dá para ler quase nada, nem o Pessoa que tanto amo, quanto mais escrever. Fadiga e cansaço me acompanham ainda no ócio, apago e durmo. Por isso, preciso parar de escrever.

Sou grato a todos aqueles que me deram atenção no www.herdeirosdodeserto.blogspot.com , durante esse tempo, mas, quem sabe um outro dia. Por haver agora em minhas mãos, possuidoras de meus calos, pouca magia, dedos feridos na ilusão fria de trabalhar e só sentir esperança no outro dia, mesmo que haja então essa necessidade interna para escrever (e até importunamente postar no blog), não posso deixar de lhes considerar que agora só o que me importa é labutar pelo pão do dia, vestir de alheamento todas as paisagens, e não esmorecer.

*confissão escrita às pressas sobre os joelhos.

Alex Sandro Carrari

23 de fevereiro de 2012

E aos pobres pertence apenas a esperança


O paraíso dos ricos é feito com o inferno dos pobres
Palavras de Gwynplaine em “O homem que ri” de Victor Hugo

O cristianismo já teve seus bons tempos. Idos tempos em que o verdadeiro e grandioso Espírito do Cristo enchia os párias, fracos e loucos, com coragem suficiente para testemunhar a seu respeito. Testemunhar, ser mártir, era esse todo o dever e intenção dos crentes. O que hoje se apresenta, é bom que se faça uma distinção, não é cristianismo, mas sim, cristianismo-evangélico, que é insalubre, que pertence ao fórum da comédia, que é apresentado e simulado por sátiros televisivos que mantêm a indústria de entretenimento fornecendo produtos com a marca de um deus de mercado à serviço da livre concorrência. Um deus mediador da oferta e da procura. Um deus (Darwin que me desculpe) parceiro dos mais fortes, que modela o mundo para que vença sempre o mais apto e acolha bem o mais vigoroso, os de espírito mais competitivo. Uma involução ética e moral dos princípios do movimento galileu original.

De tudo o que já foi dito e denunciado por homens santos e movimentos espirituais começando pelos pais do deserto, passando por Francisco de Assis, e chegando aos pobres de Lião, begardos, humilhados, pobres evangélicos, fratricelos, seguidores do Evangelho eterno, o que fica evidente é que o cristianismo-evangélico, esse nosso cristianismo diário de pão e circo, não é digno de ser pensado, tampouco de ser anunciado como Evangelho. Evangelizar quem e para quê nesses moldes? Só se for para arregimentar novos prosélitos para girar a máquina de propaganda da insana corrida rumo a Jerusalém celeste, que virou símbolo da mais alta ambição dos crentes, que podem ver aqui antecipada no mundo das aparências, às custas da opressão e indiferença aos pobres, a confortável vida que uma elaborada barganha lhes proporcionará depois daquele dia (um pouco de platonismo para as massas). Porque não aproveitar já, mesmo que de maneira volúvel, as bênçãos guardadas aos que chegarão primeiro? Porque não apanhar o melhor de feira e os últimos que se virem com as sobras?  

cristianismo-evangélico, esse nosso que aturamos e até pesamos alguns insignificantes benefícios, é covarde, despersonalizado, acomodado, inábil, leviano, cheio de vontades e sonhos de consumo, epicurista, algo muito distante da noiva do Cristo, virgem, imaculada, incontaminada, que não entrelaçou na coroa de espinhos de seu amado as murtas da Vênus pagã. Noiva que era pobre, despossuída de riquezas terrenas, inimiga de Mamom, cheia do gozo nos mistérios do amor sobrenatural e fraternal anunciado por um judeu marginal, carpinteiro de oficio, digno de ser recusado pelas elites, que fazia suas reuniões à beira mar, em morros, ou na casa de algum pecador de má fama reconhecida socialmente.

cristianismo-evangélico não tem condições de apresentar nenhum testemunho, pois, para testemunhar é preciso conhecer aquele a quem se está representando, e é evidente pelos fatos e variações que essa geração desconhece aquele que dizem ser seu mestre. Do pouco que acham saber, não dá sequer para iniciar uma sã conversa sem começarem a fabular incoerências das mais mirabolantes às mais patéticas sobre aquilo de que não têm a mínima idéia do que seja; vida cristã. São incuráveis de um mal venéreo que toma suas almas. São devotos fantasistas, pedantes consumistas, que julgam o valor da vida pelo efêmero encanto do produto. Do produto são subprodutos – Marx é quem os denunciou a mais de um século atrás. Estes perderam a vergonha, nem avermelham a cara por desonrar a verdade.

Não é assim que rigorosamente dizia o mestre: de graça recebestes, de graça daíNão vos provereis de ouro, nem de prata, nem de cobre nos vossos cintos; nem de alforje para o caminho, nem de duas túnicas, nem de sandálias, nem de bordão? “Ah, isso é em sentido figurado, diz respeito àquele contexto, não tem nada a ver conosco aqui”, tratam de desviar ardilosamente do assunto os que tais coisas não praticam. Os crentes “querem de volta o que é deles”. Ambicionam possuir tudo. Na farra do mercado saçaricam de banca em banca anunciando o Cristo Apolo, brilhante, organizado, alinhado, enquanto vivem como crentes Dionísio, entregues às paixões e aos exageros orgíacos que só o culto ao capital lhes proporciona.

Não possuir nada foi, desde o início, a verdadeira condição do discípulo. Na mensagem do primeiro e último cristão, o Cristo, a pobreza constituí-se como um ideal de vida, um desses elementos utópicos fundamentais para consolidar as grande fundações, dessas que permanecem incontaminadas em suas origens. Inteiramente estruturado em nome do pobre, para o pobre, o Reino de Deus não é, e não pode ser deste mundo, refletiu o primeiro e último cristão. De acordo com Jesus, ser pobre é uma virtude, um estado santo. A grande façanha efetuada por ele foi transformar a pobreza em objeto de amor, foi erguer o mendigo ao status de convidado para o banquete celeste, um dos poucos aptos para participar da mesa divina. Ele adotou como estilo de vida a pobreza, andrajando-se como homem pobre. Sua pregação causou uma revolução silenciosa no interior de vidas que despossuíam tudo. Por isso nenhum abalo foi sentido na economia, tampouco na política, “Daí a César o que é de César, e o que é de Deus daí a Deus”.

Amante do povo, Jesus preferia estar com os pobres. Seu modo de pensar era o seguinte: dos pobres é o Reino de Deus. A boa-nova da salvação é abertamente direcionada aos humilhados e ofendidos da história, “aos pobres é pregado o Evangelho”. O rico que quiser segui-lo deve vender tudo e dar aos pobres. Deve se fazer um sem-teto, pois, “as raposas têm seus covis e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”.
Jesus não queria apossar-se da riqueza e do poder, ele queria aniquilá-los, e o fez tomando preferência pelos pobres e vivendo como um de quem facilmente se faz pouco caso socialmente.

O que é magnífico, grandioso, e respeitável aos olhos dos homens, é desprezível aos olhos de Deus. Os fundadores do Reino de Deus são gente simples. Não há ricos, nem doutores, magistrados, padres, sacerdotes e outros ocupantes de cargos honorários; há apenas homens, mulheres, crianças, aleijados, doentes.
Voltado para os simples, humildes, párias, vagabundos, Jesus substituiu em larga escala a raça eleita por Deus para ser salva. Ele então deixa claro que o Reino de Deus é composto de crianças e daqueles que são como elas. Todos os que são desprezados neste mundo, as vítimas sociais, os oprimidos, os hereges, os publicanos, prostitutas, meretrizes, destes é o Reino. Estes são os convidados para o grande banquete. Estes precedem muitos puristas religiosos no Reino de Deus que está às vésperas, como ele mesmo declarou.

Jesus não era inocente em suas expectativas, ele sabia que suas máximas e seus ideais não chegariam a unificar a sociedade. Seu comunismo inofensivo não aqueceria (como não aqueceu) o frio coração do mundo oficial.

Entre origem e desfecho, sem muito esforço, é fácil perceber que o elevado gosto pela pobreza não poderia durar muito tempo. Enquanto elemento utópico a exortação à pobreza como condição prática para entrar no Reino e ser discípulo, logo seria relativizada e seguiria o curso natural das instituições humanas, se ajustando em breve tempo a outras demandas para o “bem” da corporação igreja e, de certa forma, de seu progresso. O cristianismo que assim agiu e que gerou o que hoje é o cristianismo-evangélico, transportado para o meio da sociedade, tomando seu lócus secular, fez concessões não só ao admitir os ricos em seu meio, mas em elevá-los à categoria de modelos a serem invejados como aqueles que chegaram  por saberem usar corretamente a fé, ou que foram predestinados para isso, cuja riqueza é um sinalizador de que são distintos dos demais.

O legítimo ebionismo, a doutrina de que somente os pobres é que são salvos, de que o Reino de Deus é o Reino dos pobres e de que esse Reino está aparecendo na história, é a plataforma de pregação doutrinária de Jesus, a isso ele acrescenta: “Ai de vós ricos que agora tendes a vossa consolaçãoAi de vós que ris agora, pois gemereis e pranteareis!”

Ser totalmente indiferente às coisas exteriores e vãs futilidades era a consequência de uma vida simples e doce. Para Jesus perto do prazer de viver os encantos do Reino, os acessórios de embelezamento e conforto da vida, são insignificantes. Quem num ambiente como o de Jesus é capaz de rivalizar no luxo das roupas com aquele luxo que o Pai deu aos lírios dos campos?
O reino de Deus é chegado, vendam o que possuem e dêem esmolas, dizia ele. Um princípio comunista que permeava seitas como a dos essênios e terapeutas, é observado e incorporado por Jesus em sua mensagem. A repartição dos bens, a abolição da propriedade privada, foi durante toda a vida de Jesus a regra da nova sociedade. O simples apego à propriedade era considerado pecado de avareza, pecado contra o qual a ética e a moral cristã, no nascedouro de suas ideias, reagiu de forma muito severa.

Jesus propôs uma comunidade composta de discípulos, cujo ingresso nela deveria ter como ritual de iniciação, caso o pretendente fosse rico, doar seus bens aos pobres. Quem recuasse diante desse extremismo não ingressava na comunidade. Por mais de uma vez algum rico saiu decepcionado recuando diante da exigência do ritual de iniciação. O despojamento das riquezas é levado tão a sério por Jesus que numa sombria parábola ele coloca um pobre num local de alívio e consolo enquanto que um rico é colocado num local de tormento e aflição. Na parábola do rico e de Lázaro o ensino é expresso, aquele está no inferno porque foi rico, porque não doou seus bens aos pobres, porque ele sempre comeu bem, enquanto que os que se arrojaram à sua porta, os pobres, comeram mal.

Tomada de empréstimo a parábola do rico e de Lázaro reflete um fato que era bem antigo e conhecido de Jesus, pois estava na tradição de seu povo, estava em seu DNA religioso e cultural. O movimento democrático mais exemplar e bem sucedido da antiguidade, investido da ideia pura implantada por Javé na mente do povo, pulsava há muito tempo no coração da raça judaica. O pensamento de que Deus era o vingador do pobre contra o rico, é encontrada em todas as páginas da Tanach judaica. O espírito popular é a força motriz da história de Israel.
Fora da Tanach, e dos evangelhos talvez o livro de Henoc seja o que proclame ainda mais graves maldições contra os ricos e os poderosos. No estranho apocalipse de Henoc, a ostentação e o luxo são apresentados como um crime que será punido pelo Filho do Homem que abate os reis, arranca-os de suas vidas lascivas e os lança no inferno. “Ai de vós que desprezais o casebre e a herança de vossos pais! Ai de vós que edificais vossos palácios com suor dos outros! Cada pedra, cada tijolo que os compõe é um pecado” (Henoc 99. 13.14).

No Novo Testamento o mesmo espírito que o Cristo incorporou em sua mensagem tem seu eco no rigor das palavras de Tiago, que é algo de assustar:

“Atendei, agora, ricos, chorai lamentando, por causa das vossas desventuras, que vos sobrevirão. As vossas riquezas estão corruptas, e as vossas roupagens, comidas de traça; o vosso ouro e a vossa prata foram gastos de ferrugens, e a sua ferrugem há de ser por testemunho contra vós mesmos e há de devorar, como fogo, as vossas carnes. Tesouros acumulastes nos últimos dias. Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos e que por vós foi retido com fraude está clamando; e os clamores dos ceifeiros penetraram até os ouvidos do Senhor dos Exércitos. Tendes vivido regaladamente sobre a terra; tendes vivido nos prazeres; tendes engordado o vosso coração em dia de matança; tendes condenado e matado o justo, sem que ele vos faça resistência” (Tg 5.1-6).

Embora haja, principalmente no Novo Testamento, sempre um tópico (que não tem nada a ver com quem escreveu a carta) introduzindo estas palavras de Tiago para que não soem tão radicais como, por exemplo: “Deus condena as riquezas mal adquiridas e mal empregadas”, isso parece ser aquele tipo de concessão necessária para o cristianismo admitir os ricos em seu meio sem crise de consciência, como foi feito no início com a admissão dos primeiros ricos na comunidade.  A crítica de Tiago se dirige ao rico pelo fato de, para atingir sua riqueza alguém teve de ser oprimido. Em todas as histórias de riqueza há sempre alguém sendo oprimido.

As concessões foram feitas e defendidas. Os benefícios foram avalizados. A igreja nunca foi tão opulenta, tão amiga de César, tão afetuosa com os ricos e poderosos em seu meio como em nossos dias, uma apaixonada defensora da causa do rico. O custo disso é que, o que é pecado segundo a Tanach, o Evangelho e Henoc, é agora considerado uma virtude de acordo com a força de persuasão do cristianismo-evangélico, e o rico é seu exemplar mais bem acabado. 
E aos pobres pertence apenas a esperança de que um dia, ou, algum dia, Deus – seu único defensor confiável – se vingue do rico e restitua os legítimos frutos que lhes foram defraudados do sagrado suor do rosto dos autênticos herdeiros de seu Reino.


alex carrari

25 de janeiro de 2012

Da pedra às entranhas : As novas intenções de Deus



O sol cai sobre as ruínas da tarde. O canto das cigarras traz uma nota de desolação no centro de uma paisagem vazia. Vergalhando o raso chão um agoniado som seco introduz aquela mulher num mundo que não muda, apesar de alguns esforços. Exposta como sofrida ilustração de um expresso ensino que não deve jamais ser esquecido: “aquela que for pega em adultério deve ser apedrejada”. O véu violentamente arrancado, pudorizado arranjo da vergonha, despida até a cintura, sintoma da urgência do julgamento, na eminência da brutalidade mortífera à que será sentenciada, é colocada diante de um Jesus que está, ao que parece, ausente ao tormentoso alvoroço.  

Mestre, está mulher foi pega em flagrante adultério. E na lei nos mandou Moisés que tais mulheres sejam apedrejadas; tu, pois, que dizes?”. Ele como um conhecedor das mentes, seja porque era Deus ou porque como homem sabia demais, não dá crédito aos instrutores da lei, ele escreve algo no chão.

A mulher desliza um desolado olhar rente a terra sem cuidar que quem inclinado está é ninguém menos que Deus, ele mesmo, aquele que elaborara a lei que estava para selar seu destino.
Ele escreve. Mas o que escreve? Oportunidade rara e não sabemos o que diz o texto. A caligrafia de Deus a mercê do vento e do tempo, dois de seus mais eficientes aliados. Inclinado está, inclinado fica. De propósito? Ele concentra-se no chão. Depois de tantos séculos sem escrever nada – depois das pedras entalhadas por seu dedo lá no Sinai, só abriu exceção escrevendo na parede para assombrar um amaldiçoado monarca babilônico durante um banquete –, estará Deus distraído marcando na terra algum novo mandamento?

Seu dedo ara a terra com misericórdia, mas eles querem um julgamento enfim. Querem aqueles homens é derramar o vermelho sobre o cinza.

Jesus revela-se um caçador de abismos. Um declarante de planuras. Um ressuscitador de rosas tardias que ainda viçam. Na agonia do outro ele experimenta de perto todas as dores que envolvem o gênero humano. À ronda da morte bruta ele preside os últimos e os primeiros instantes da mulher. Os últimos estigmatizados pela vergonha. Os primeiros do bom futuro que se abre à sua frente.

Eles querem saber o que ele acha do mandamento de Moisés. Ela deve ou não ser apedrejada? Dependendo do que disser, eles o acusam. Caso ele confirme a Lei será entregue às autoridades romanas por instigar a violação de um decreto que impede que as autoridades judaicas apliquem a pena de morte em território ocupado. Caso subestime a Lei as autoridades judaicas podem matá-lo com as próprias mãos, pois, estará sendo contra a instituição Moisés. Mas o que está em jogo é algo muito mais elevado; o caráter divino. Absorto em seu sulcar o pó com o dedo, adere à insistência dos ardilosos senhores dos destinos alheios, mas de outra surpreendente maneira. Deus se levanta em defesa da culpada vítima, e algo que ninguém esperava ouvir, foi ouvido: “Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra”. Dito isso volta a sulcar o pó.Volta à lacônica imanência do texto.
Ao dizerem, "a Lei manda que se faça assim, mas o que você acha?”, escribas e fariseus se mostram os mais sutis oponentes que alguém pode ter. Mas o mestre de Nazaré pode ser mais sutil ainda. Ao final eles é que se retiram contrariados e entorpecidos, deixando os dois, Jesus e a mulher, repartirem uma inesperada privacidade momentânea.

Enquanto a turba se afasta e o tempo se adianta, ele promove a improvável união de esferas da existência; transfiguração das sombras. No imóvel ponto em que o mundo gira, onde só a dança se move, passado e futuro ali se envolvem, se enlaçam. Da queda à ascensão. Da compulsão à liberdade promovida pela graça dos sentidos.

Essa era a deixa para ele dizer qualquer coisa que desejasse à mulher. Poderia fazê-la sentir toda vergonha merecida por tamanha desonra ao leito conjugal. Poderia intimidá-la puxando qualquer assunto que encerrasse com o inferno por consequencia. Mas o que ele diz afinal? Ele prefere equilibrar a balança, não afirmando sua inocência nem diminuindo a seriedade do adultério. Ele não a condena.

Sendo ele Deus que pré-existia desde o início e quem tudo fez – como afirma o quarto evangelho –, então é exato dizer que a Lei do apedrejamento foi estabelecida por ele mesmo. Mas e agora, por que infringiu a Lei que ele mesmo estabeleceu para ser cumprida e que ainda vigora absoluta em seu ambiente? Que explicação pode ser apresentada quando a sós com a mulher, podendo desferir com um azorrague verbal tudo o que ditara no passado sobre as conseqüências para casos como esse, diz somente “Nem eu tampouco te condeno, vá e não peques mais”?

Uma leitura, seja da Tanach ou do Velho Testamento dos protestantes, não deixa dúvidas de que até então Deus não se utilizara muito desse padrão de comportamento.

Segundo o ex-jesuíta Jack Miles, a quem devo muitas das minhas insinuações, Deus agora está se tornando mais misericordioso, “Deus em sua longa vida, nunca permitiu que sua misericórdia superasse sua justiça...” Vejam, não que ele não se enternecesse raramente em alguns casos que constam na Tanach, mas é evidente que entre a misericórdia e a justiça (justiça essa punitiva bem ao estilo romano), ele preferisse a justiça.
Sua ousadia me desnorteia quando afirma que,“Se o Senhor se tornou mais misericordioso, então aqueles que pensam estar fazendo sua vontade ao apedrejar uma adúltera agem a partir de uma premissa falsa (...) Ele estava, com certeza, suficientemente livre de pecado para jogar a primeira pedra, mas escolheu não fazê-lo”.
Como o que está em jogo é o caráter divino, Miles definitivamente me tira o chão e confidencia algo que suspeitamos sempre, mas a maioria não tem coragem o bastante para progredir e admitir.

Até agora, a perfeita inocência de Deus foi a premissa para toda a violência que considerava adequada derramar sobre Israel. Ele era o noivo fiel, ela a noiva infiel. Mas a premissa ainda será adequada? Em suas relações com Israel, o Senhor era como um marido indignado que, pouco antes de rasgar a blusa de sua esposa e golpeá-la na boca, grita a palavras de condenação: “Prostituta!”. Ele insistia que não eram os assírios e os babilônicos que surravam Israel, era ele que o fazia; mas não teria esse direito? Que marido, traído como ele fora, teria deixado por menos? No passado, Deus falava dessa maneira, mas será que ainda o faz?” Avançando ainda mais, será que ele ainda age nesses moldes?

Na composição do quarto evangelho, João coloca logo após a salvação da adúltera um trecho em que Jesus afirma igualdade com Deus:

De novo lhes falava Jesus, dizendo: [...] Vós julgais conforme a carne, mas eu a ninguém julgo; se eu julgo, porém, o meu julgamento é verdadeiro, porque eu não estou só, mas comigo está meu Pai que me enviou; e está escrito na vossa Lei que o testemunho de duas pessoas é válido. Eu dou testemunho de mim mesmo e também o Pai, que me enviou, dá testemunho de mim’. Diziam-lhe então: ‘Onde está teu Pai?’ Jesus respondeu: ‘Não conheceis nem a mim nem a meu Pai; se me conhecêsseis, conheceríeis também meu Pai’. Essas palavras, ele as proferiu no Tesouro, ensinando no Templo. E ninguém o prendeu, porque sua hora ainda não havia chegado” (João 8.12; 15-20, Bíblia de Jerusalém).

Estas palavras de Jesus literária e artisticamente elaboradas por João nessa ordem têm como objetivo dar relevo ao fato de que o próprio Deus foi quem poupou a mulher surpreendida em adultério deixando nas entrelinhas a sugestão de que Deus depois de longa data – mais ou menos quatro mil anos – deve estar definitivamente mudando. Quando Jesus diz que não julga ninguém, é o mesmo que dizer, eu não condeno ninguém. O Deus de Israel, o Senhor dos exércitos que fez sua fama como um juiz, ou como expõe Harold Bloom, um Deus à semelhança do de Platão, moralista ensandecido, dificilmente diria “Eu não condeno ninguém”. Mas agora ele diz essas coisas. Por quê? Porque Deus está mudando publicamente.


Jesus reivindica o direito de interpretar a Lei e também de revisá-la. E o faz de uma maneira desconcertante, insinuando que tudo o que foi dito pelo Criador lá nas origens do tempo deve agora ser passado a limpo invocando as novas intenções de Deus, as quais ele é o portador e está incumbido de revelá-las autorizado pelo Criador, como o próprio Criador. Bloom lembra que o argumento central do Testamento Tardio é que um homem substituiu as Escrituras. 


Um dia Deus escrevera com o dedo suas Leis em pedra. Passado um bom tempo terrificara os convivas de um banquete escrevendo numa parede palavras ininteligíveis. Agora, com o dedo escreveu no chão algo que ninguém sabe e que talvez ninguém teve peito de ler. Pedra, parede, pó. Do mais resistente ao mais provisório. Não será carne e sangue o próximo material em que Deus escreverá seus desejos e vontades? Será que Jesus não está dizendo que é chegado o tempo em que ele escreveria a Lei em nossas entranhas?

Ouvistes o que foi dito [...] eu porém vos digo”. Deus está mudando e Jesus está operando esta mudança.



Alex Sandro Carrari

Referências:

Jesus e Javé: Os Nomes Divinos (Harold Bloom)
Cristo: Uma Crise na vida de Deus (Jack Miles)


8 de janeiro de 2012

O Poeta do Fragmento discorre sobre a esperança do significado que restaura a experiência



No princípio criou Deus as jornadas, então veio a dúvida e a nostalgia
(autor que desconheço)


Eis me aqui na metade do caminho,
Tentando nesse longo tempo que aqui é curto
Aprender a empregar as palavras,
Todas que me escapam rigorosamente ao tino.
Em tudo o quanto vou olhando, em partes vou ficando.
Em tudo quanto vou vendo passar, em partes vou passando.
Vivo de partidas em todas as tentativas.
Uma escassa consciência, é isso o que o tempo,
Passado e futuro, me admite.
Cada qual com uma dada estatura,
Rumando para o fim do futuro num fluido de incerto nexo.

Na metade do caminho a impressão é de que
Tudo é desnecessário ser dito,
Que as palavras não mais carecem de conexão,
Que os requeridos sentidos perdem-se no vácuo do sem fim
Que se apresenta ao insciente destino, posto que esqueço.
À medida que prossigo, o mundo vai se tornando
Mais estranho do que sempre,
E os deuses me dão pouco,
E o pouco que dão é falso.

Tudo o que aprendi acerca dos deuses, esqueci em deslocadas estações,
Mas ainda acredito no rio, esse poderoso ser castanho,
Indomável, hirsuto, inviolável, fiel a si mesmo em sua torrente ira.
Às muitas margens ecoam muitas vozes distintas;
Vagos queixumes que dobram sinos que medem o tempo.
Tempo contado pelos aflitos cronômetros dos tolos aborrecidos,
Que em vigília calculam o futuro inconsútil,
E tratam o passado como fria fraude para nostálgicos devotos.

As seivas da lei para estes é o insolente esquecimento
Dos destinos partilhados.

Vivo na experiência (nesta me afirmo) o risco de perder o significado,
Mas, a esperança do significado restaura a experiência.
Sei que memoro meu passado, e sinto muito além do que me lembro.
Nada de verdadeiro há naquilo que me des-une dos deveres do sentimento.
Não vivo no ressecamento do mundo dos sentidos.
Não acredito na inoperância do mundo do espírito,
E os dois me parecem sempre um.

O sol que há nesses campos onde pago meus tributos,
É sol o bastante para quem espera as chuvas.
A cada hora não se muda somente a hora,
Mas a vida e o que se crê a respeito dela.
A vida passa entre o viver e o ser.
Entre o viver e o ser quase inglório,
E a infâmia de cogitar que as aparências das flores contempladas
Podem ser outras manifestações da verdade,
Algo como uma inaudita música escapando entre
Camélias sobre o musgo do templo, acariciadas
Por uma Luz capaz de suportar toda a realidade.

As sebes do caminho estão verdes desde o início
Dessa força só acompanho e paro por breves intermitências de lucidez estética.
Não sendo avesso às convenções do tempo
Não crio arcabouços lúdicos sobre o fim da jornada.
Não penso em abandonar o áspero caminho.
Amo sua transitória floração, odor da Terra, coisa viva.
Formas que se movem me preservando da tentação de evadir
Para o mundo da fantasia.

Partindo de onde parti numa hora incerta que antecede a aurora,
Deixo minhas memórias em pedra edificadas.
Intranqüilo, porém, não aflito nem desanimado.
Não nego que dormimos docemente em um mundo,
E acordamos brutalmente em outro, ainda assim,
Cultivo paciente a terra, mesmo que seja ela a urdir meus suplícios.
Quero que seja feita Outra vontade e não a minha.
Que seja este o fruto da ação,
Já que para mim o medo não se revela num punhado de pó.


alex carrari

7 de dezembro de 2011

O homem que avançou ao revés do tempo



...no enquanto todos os outros prosseguiam no natural decurso da vida, ou seja, depois de um pouco de tempo começar a ficar velho, ele, de acordo com o que se conta, acriançava-se mais e demais. De nascimento, veio ao mundo como qualquer gente normalmente nasce; rubro, feio, choroso e com fome. Dos pueris primeiros acontecimentos que caracterizam a primeira infância cumpriu com todos, sem falta nem exceção. Acumulou-se de prósperas brincadeiras, sobejou-se de perdíveis inocências, somou-se de inconfessáveis descobertas, juntou-se de fulgentes imaginações. Uma infância com casos e acasos igualmente as outras infâncias. A juventude e a fase adulta procederam de igual modo. Até aí nada consta de admirável que defina o exato dia em que começou o curioso regresso de vida.

Foi meio sem querer que alguém, também não se sabe direito quem, notou que o dito parecia descumprir com as normais regras do acúmulo dos dias sobre a terra, quer dizer, enquanto todos encraquelavam a pele da carne que se flacidava, ele se desenrugava, a pele se aveludava, a carne se amaciava. À medida que os cabelos de todos os outros facilmente se alvejavam, os dele desbranqueavam com rigor.O aprendizado que a experiência dos anos nos imprime, nele começou a ser percebido o contrário, desaprendia de tudo o quanto sabia enquanto avançava ao revés do tempo. Bem antes de o caso ser notado era fato que conhecia os domínios das ciências exatas e humanas, como se tivesse mestrados e doutorados.
Chegou ao estagio de saber de tudo um pouco em alto nível, só que, não se sabe por que cargas, começou intenso regresso tanto no corpo como na cabeça. Regrediu-se desenvelhecendo de pouco em pouco, desaprendendo as informações na mesma proporção. Ao invés de avançar e se aperfeiçoar seguindo uma especialidade, ia regredindo esquecendo os saberes adquiridos desde aquele aprendizado mais prático que não consta em livros, aqueles mais primitivos ligados a sobrevivência e aos nossos requisitos mais simiescos.

Um conselheiro do lugar, sábio respeitado, notando o incomodo geral e o medo estampado na cara de todos, e já de antemão tendo sido avisado em sonho sobre o que ocorreria depois Daqueles Dias, resolveu então se pronunciar. Habilmente argumentou: “O Damasceno está em melhor condição que nós todos, pois, ao retornar às criancices revive tudo de novo, só que de outros modos. Ele tem duas maneiras de vida”. Tomou assento e prosseguiu, “numa primeira fez-se sabedor das ciências e dos naturais conhecimentos fazendo-se por aquilo que se tornou sabedor. Numa segunda, faz-se esquecedor de todos os saberes, científicos e naturais, formando-se no desfazer-se por aquilo que vai se esquecendo no regresso do tempo”. Pausou. Retomou bem depois: “Com isso o que ele está é se salvando mais que qualquer um de nós, caros aflitos cidadãos, pois, sua última condição, ao que tudo indica, será a de total falta de maldade, pois se tornará cada vez mais criança”. Isso asseverou o sábio à um grupo que se dirigiu com lampiões e donativos – pão, leite e hortelã – até seu aperto onde meditava sobre os últimos dias na terra. Como não dissera quase nada, e isso era o que o tornava um respeitado sábio, quer dizer, falar tudo dizendo muito pouco, aborrecido com o alvoroço popular e com a impressão geral de que o curioso caso tivesse uma grande lição a lhes ensinar, resolveu então decodificar a moral da história, mais uma sutil meia explicação:

Acalmem-se sobre o destino do nosso Prometeu, ele não passará de onde tem de chegar, onde seguramente vai chegar. Desaprendendo de tudo, chegará à fé, rocha em que se estilhaçam as vaidades e os saberes. Mas para que haja essa ocorrência é obrigatório um regressar de vida, um inteirar-se novamente criança, fazer-se como um destes pequeninos”, neste ponto arrastou o braço no ar apontando para um vazio palpável como se adiante estivessem os tais pequeninos de que falou. Ele sabia que a euforia geral não era nem de longe por preocupação com o destino de Júlio Damasceno, mas sim em querer saber se com eles era possível acontecer o mesmo. Provando a designação de profundo conhecedor da humanidade, o sábio encolheu-se porta à dentro em seu soturno recinto.

De um em um, de dois em dois, de três em três, a aglomeração foi se desfazendo, se retirando em falante procissão, buscando convencimentos sobre as dadas explicações. Num bloco que se deslocava à frente um grupo pensava discorrendo sobre os escassos esclarecimentos prestados pelo sábio. Bem no meio do grupo uma fala paralela capturou a atenção dos mais exaltados: “Já ouvi algo assim sobre essa coisa de se tornar como criança, mas não imaginava que era desse jeito”. Um silêncio difuso capaz de incomodar toda vida cobriu o alvoroço e não houve mais nenhum alguém com coragem suficiente para elaborar uma grande pergunta. O ensino estava dado.

Alex Carrari

21 de novembro de 2011

Das poucas coisas que deveríamos saber



Com que vida encherei os poucos breves
Dias que me são dados? Será minha
A minha vida ou dada
A outros ou as sombras
?

Fernando Pessoa em Ricardo Reis

Temos vivido como se fossemos viver sempre, e não nos ocorre os malabarismos que temos feito para driblar e resistir à morte. Temos desperdiçado nossos dias correndo atrás do vento, como se fossemos plenos de tanto tempo, como se este fosse abundante e que pudéssemos por luxo ou mero capricho, desperdiçá-lo. O tempo que desperdiçamos pode talvez ser o último. O tempo não nos é dado e sim tirado. Não fazemos anos, como disse o Rubem Alves, os desfazemos. Quem se defende por correr atrás do vento e achando que faz grande coisa, deveria fazer o cálculo de sua existência. Conta os anos que já te foram e projete os que ainda te faltam – se é que o podes fazer. Aqueles com certeza os sabe e os tem todos na conta, mas e estes? Projeções não são nada objetivas. Pois então as únicas datas de que temos pleno conhecimento são as que nos foram subtraídas, as que denunciam que estamos nos extinguindo lenta ou rapidamente, dependendo do ponto de vista.
Porque esperamos tanto para nos dedicarmos ao ócio? Cheios de júbilo dizemos: “Chegando aos sessenta anos – que alguns denominam “a melhor idade” – relaxarei de todas as minhas fadigas”. Mas podemos confiar que viveremos tão longamente? E que garantias temos de que os planos traçados e que as riquezas bem guardadas terão os desfechos que prevemos com tanto medo e ansiedade? E quem nos induziu ao grave erro de esperar chegar aos sessenta e isso com tantas certezas? Somos melhores em algum aspecto do que aqueles que morrem com a idade em flor? O que de tão especial temos que nos achamos no direito de folgar na confiança de que passaremos ilesos aos acidentes do acaso a que todo mundo está exposto e que interrompe vidas virtuosas e nobres projetos?
Não caiamos nessa de “a melhor idade”, isso não existe, o que existe são os melhores dias. E vivamos não de idades, mas de dias. Sêneca, esse virtuoso romano disse:
Do mesmo modo que uma conversa, uma leitura ou qualquer reflexão maior desvia a atenção do viajante, que, de repente, se vê chegando ao seu destino sem perceber que dele se aproxima, assim é o caminho da vida, incessante e muito rápido, que dormindo ou acordados, fazemos com um mesmo passo que, aos ocupados, não é evidente, exceto quando chegam ao fim”.
Devemos estar cientes; a única aposta certeira que podemos fazer é que, contra o tempo, estamos em desvantagem sempre. Quanto mais ocupados estamos, a vida ainda mais se apressa, e a morte mais se adianta. E não nos enganemos quem nos entregará à morte será a própria vida, quando se cansar de tanto pouco-caso.
De acordo com a sabedoria do Qoheleth – que não é exclusivamente sua – a vida se divide em três fases ou períodos: aquilo que foi, o que é e o que será. Certo é somente o que fizemos, breve o que agora fazemos e dúbio o que estamos por fazer.
Tão breve é o tempo presente que sequer é percebido, na verdade incorretamente dizemos “presente” quando ao terminar de dizê-lo já é passado. O presente só se faz notar em tese, como um mero conceito de intervalo entre passado e futuro, ou seja, entre o que é certo, pois já se foi e pode ser constatado pela recordação, e o que é posseiro das nossas dúvidas mais agudas já que o que está à nossa frente é completamente incerto.
O tempo passa e não se pronuncia audível, comunica-se por sinais, se deixa perceber através das marcas que vai deixando em nós impressa. Vendo as marcas e interpretando-as é que nos sentimos ir. Breve é o tempo da mais longa vida. A lei inimplorável do esvair perpétuo que não cessa nos pesa e dói.
De tudo o que nos apaga a vida e nos rouba o tempo, o comprometimento com as coisas perecíveis são as mais estúpidas. Comprometidos com as coisas que estão fadadas a se extinguir e se invalidar tão rapidamente quanto nós, perdemos o agora, e não chegamos a viver o amanhã, pois o antecipamos em nossas mais solícitas preocupações e quando deveria ser o tempo de o vivermos ele já não está estendido à nossa frente, o consumimos mesmo antes que existisse.
Gastamos nossas fases mais produtivas da vida defendendo tolas idéias sobre as mais variadas bobagens, juntando cacarecos onde está o nosso coração que, não bastasse isso, está entulhado com todo tipo de merda visual ou palpável a que, rilhando os dentes, damos tanto valor. Decidimos viver quando na verdade já deveríamos fazer planos e testamentos, e ensaiar uma digna despedida. Começamos a pensar em viver quando é tarde demais. Deveríamos – acredito com todas as minhas forças – usar o tempo para instruir-mo-nos no viver, e não acompanhá-lo em sua passagem enquanto desfazemos os anos que nossa ganância e avareza nos faz acreditar que lucramos.
Será que somos como aqueles que como disse o Sêneca, não viveram muito, apesar dos cabelos brancos e das rugas? Será que somos como muitos desses que apenas existiram por muito tempo? Existir é uma coisa, viver é outra. Para existir basta estar aí, na opacidade, inerte, uma criatura maciça, parafraseando Sartre; simplesmente um em-si sem projeção nem transcendência alguma. Ah, mas para viver tem de haver desenvolvimento, envolvimento, e a clara noção de que está é – ao menos por enquanto – a única vida que conhecemos – embora eu gostaria, de coração sincero, que houvesse outra depois.
A vida é um sopro, não é a toa que no Decálogo Deus sopra no nariz do Adão. Isso significa que lhe está sendo dado algo ao mesmo tempo poderoso – pois trata-se do fôlego de Deus – e volátil – pois expirar-se-à vagarosamente até o total desaparecimento. O sopro que nos põe de pé será bem cedo requerido de volta e isso nos devolverá ao berço do pó. O tempo é incorpóreo e talvez esteja aí o motivo de não fazermos muito caso dele. Não o valorizamos devidamente e fazemos uso descontrolado da sua presença como se isso não nos custasse tão caro. Contudo, quando chegar o dia mal e uma doença nos invadir, violentando-nos por dentro e por fora, correremos e nos jogaremos aos pés do sacerdote para que interceda por nós, para que possamos ficar um pouco mais. Quando não, nos lançaremos aos consultórios médicos e gastaremos todo o nosso rico dinheiro que afadigados guardamos por tanto tempo onde a traça rói e a ferrugem consome. Aquilo em que empatamos todo o nosso tempo e empenhamos toda a nossa vida será gasto para tentar viver mais um pouco e ganhar mais um tempo. Arre, para que gastar preces ou ouro que seja para prolongar uma existência tão medíocre? Se for pra isso que se vá de uma vez.
Ocupamos-nos tanto e tanto em trabalhar duramente para melhorar nossa condição sem nos darmos conta que por maior que seja uma conquista sempre haveremos de querer mais e mais e mais e mais... Essa é a nossa constituição mais básica; seres que jamais estão satisfeitos. Sempre dá pra ganhar mais, não importa a que custo, seja perdendo o nosso tempo ou arruinando o tempo dos outros. Viver desse modo é o mesmo que encher de terra um vaso sem fundo.
Morreremos empatados demais de coisas. Morrermos trabalhando demais por nada, buscando uma elevada posição para quem sabe ter no túmulo uma vã inscrição que, tarde demais, dirá tudo sobre nós, dirá tudo por nós: “morreu ocupado”. Pensemos agora se isso é agradável.
Das poucas coisas que deveríamos saber é que, tudo o que nos toca, e tudo o que tocamos, num momento qualquer, sempre inoportuno, com ou sem aviso, nos será tirado. Nossa curiosidade será satisfeita. Nossa euforia findar-se-á. Nossa ganância terá seu fim. Porém, tarde será. Para o lugar aonde iremos depois que findar a vida não haverá lembrança das coisas.
O que é certo é que, por enquanto a única vida que temos nas mãos em nosso provisório poder, a única que parcialmente conhecemos, é essa que nos acorda dia após dia para fazer o que tem de ser feito, e que deveríamos dar o melhor de nós para que tenha valido a pena cada feito imaterial por aqui alcançado. Que ao final de tudo não haja tantos arrependimentos. Que nossos olhos tenham enchido os nossos corações das mais estéticas verdades. Que no momento em que a vida nos escapar e chegar a hora do barqueiro aportar na enseada da nossa finitude, haja envergadura suficiente para não lamentarmos tantos desperdícios. Caso haja algum lamento, que seja “por ter de deixar um mundo assim tão bonito”, como disse o poeta.


Alex Sandro Carrari (é tudo por minha conta e risco)

5 de novembro de 2011

Confissões: O emudecimento de Cícero Calado



“E esse desconchavado desse moleque que agora cismou de parar de falar”, trovejou a espaventada mãe de Cícero, que daí pra frente começou a ficar Cícero Calado. Receava havia pouco tempo, que o menino estava se emudecendo em devagarosa escalada, só não sabia que a gravidade era tão séria para o resto de sua acanhada vivência. O primeiro presságio foi sentido quando ele parecia pensar nas falas em anestésicos momentos de trabalhada quietação, dando a entender que perseguia em algum arquivo interior palavras que fizessem a adequada junção entre o que pretendia dizer e o que de fato dizia. “Não somos desses que tanto esperam por uma bobagem à toa, se solta logo infeliz” expurgavam depressa a quietude em exercício do jovenzito. O segundo presságio – que é uma trágica decorrência do primeiro – apareceu aos olhos públicos dos mais chegados quando, ainda que pensasse longamente no que dizer, ao soltar o verbo ficava claro que, mesmo dizendo algo, acanhadamente ausentava-se por detrás dos pronunciamentos.
Cícero foi se embrulhando em quietude, calando-se a olhos vistos, “alinhavando mudos discursos”, era o que todos diziam. Ficando cada vez mais quieto cavava na solidão um túnel cuja tarefa única era, por uma questão de dinâmica, não tornar ocioso seu emudecimento.

Mudo de nascença é ingrata sina, mas emudecer já depois de ter experienciado o custoso jogo da comunicação verbal, da sonoridade das idéias, causava uma aflição que nos desesperava de tanta dó.
Lembro muito vagamente que o mudo-de-depois-da-nascença, manteve por um pouco de tempo um vínculo de comunicação com uns poucos. Mesmo calado de vez por todas, marcava numa brochura com letras vacilantes curtos desejos, pequenas necessidades, breves anseios, depois arrancava a página como quem quer se desfazer de um erro incorrigível, e lançava-a ao ar sem dar devida importância a quem quer que a apanhasse para leitura. Sempre um rubor lhe vestia a cara de vergonha por ainda se submeter em se apoiar no desenho das palavras para ter de se dizer. A esta altura, querer dizer. Contradizer.

Não permaneceu tempo suficiente nesse estágio. As poucas parentais expectativas de reversão do caso, ou que um remorso lhe tomasse de ataque e o fizesse voltar aos normais modos de se comunicar, desarranjaram-se quando gastou mais folhas do que o caderno podia conter e não mais se equipou de outro. A partir de então só econômicos sinais, curtos gestos, ainda sustentaram por breve tempo sua improvável ligação com qualquer possibilidade de entendimento fora de sua incrível afonia.
“Deus, onde desapareceu a doçura da voz desse menino”, protestava a mãe que se conformava ao espírito da coisa, mesmo desconhecendo as origens e os fins do flerte do infeliz com a misteriosa mudez.
Num dia que não foi marcado como data importante – ninguém fazia muito caso de seu caso – Cícero Calado parou, não teve mais fins nem recomeços, seu percurso acabou numa estação de lapidáveis desencontros.

Foi aí que começou a estrear-se legítimo fazedor de silêncios. A voz emigrara da fala, os sinais e gestos desistiram do corpo. Calado em seu retraído recanto desempenhou sua identidade, conservando-se só, no indizível sigilo de uma vasta vontade; recriar-se de outra maneira, audível só em sua desértica extensão.

Elevou tanto seu projeto de silenciar-se de maneira pura, como uma coisa exclusivamente sua, incontaminável de qualquer tentação ideológica, que se deu à grandeza de se explicar abrindo exceção num certo meio-dia quando, acompanhado, cultivava um extenso campo de telhados. Expressou-se espantosamente com palavras: “Sabe por que me calo tanto? (...) Palavras não podem ser negociadas. Palavras são pontes sagradas que, se não se é capaz de cruzá-las nobremente com seu destino às costas, o mais digno é despencar-se voluntariamente no silêncio (...) É um esforço vão, tentar lhes falar”.

E foi só. Nunca mais se ouviu tal coisa, ou qualquer outra de sua boca. O silêncio voltou a ser sua legítima defesa, seu grito fechado, sua parcela de responsabilidade dentro do mundo. Quem lhe fez companhia e ouviu este extremo pronunciamento notou que sua voz já não mais sibilava com os doces acordes da infância quando, até então, se tinha sido ouvido pela última vez.

herdeiro do deserto

6 de outubro de 2011

Sempre ler e reler sempre, essa novela que promete ser imensa



Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza...”
(Dito antigo que Joselito aprendeu pelo tempo)
Tudo dava a crer que os céus conspirariam a seu favor depois do contundente sermão do domingo cujo tema “a fé do tamanho de um grão de mostarda” entusiasmou todos os presentes, que repassaram a todos os ausentes.
Depois disso, coisa nenhuma impedia o miúdo Joselito de crer que, já que tudo era completamente possível, inclusive uma montanha jogar-se ao mar por vontade da fé, uma perna ressecada não seria embaraço algum para um poder imensurável colocar em plena forma. O ânimo pela possibilidade cresceu, tomou forma de esperança. De chofre, iniciou pensamentos ocasionais, desses que vem ao mundo só por que algo é provável, mas que nada de concreto possui, nos quais já se via sendo escalado para jogar na linha ao recreio, deixando de ficar plantado na ingrata condição de goleiro, se nem sequer competência para ocupar as traves a perna que bambeava como uma vara de taboa espancada pelo vento, lhe deixava de sobra. Estimulado, perdeu-se em inevitáveis variações sobre um mesmo tema; não só ser escalado longe da meta, mas fazer o gol principal da acirrada pelada da sexta-feira, de preferência com o pé da perna que, a esta altura, estaria des-mirrada. Ser disputado no par ou ímpar, ser aclamado como grande atacante, o salvador da pátria, eis todas as possibilidades que visitava seus ansiosos pensamentos.
Um dos sinais de que o etéreo dava ares de conspirar a seu favor era a chegada da data comercial do nascimento do nosso Senhor, a noite demais aguardada em que solicitações verdadeiramente importantes eram mais fáceis de serem ouvidas e desejos puros, merecidamente eram mais capazes de se realizarem. Poupou-se de qualquer desgaste antecipado, preferindo deixar para a noite certa o pedido oficial a ser cuidadosamente rezado no leito repleto de tantas expectativas. Nada de jogar com verbalizações antecipadas. Sem desperdício de rogos. O resguardo de qualquer pronunciamento precipitado era fundamental para não sugerir que sua extrema prece se parecesse com as vãs repetições de qualquer pagão, o tipo desnecessário de palavrório que ofende os céus. Estava empenhado em conservar-se naquele último dia antes daquela noite como um oceano de segredo.
A véspera do dia vinte e cinco iluminou-se em suas primeiras horas de uma longa luz preguiçosa, que calmamente se estendia no quintal sobre canteiros de margaridas e avançava parede a fora, de onde pendiam begônias em vasos de um barro esverdeado pelo laborioso bolor do tempo. O ar parecia filtrado por frescos aromas indefinidos dissipando um brumoso véu de névoas, enquanto árvores em franca paz deixavam passar turíbulos de um abençoado brilho sideral. Toda pureza de um dia sereno lhe acariciava o cenho com uma paisagem acesa, óstias consagradas da esperança. Preparava-se para seu último dia de constrangimentos olhando a perna que sempre se arrastava atrás da outra deixando-o em metade atrasado na vida. Chegou a sorrir bem fraco consigo mesmo pensando em despedir-se do infeliz defeito, mas conteve-se, não queria que deboches, mesmo que razoáveis, lhe tirassem do estado quieto, que poderia ser um dos geradores do milagre. Outra ponta de sorriso, que também foi depressa dominada, se manifestou ao imaginar o que diriam dele na manhã da prodigiosa benção quando o andar capengante não mais lhe açoitasse o corpo, e, alinhado como um valete de baralho plantasse ao pé da familiar mesa do café. “Quem te fez tal coisa menino, quem te engordou a outra perna?”, seria a fala de sua pasmada família, mais especificamente do pai, um crédulo descrente em milagres. Talvez espanto maior fosse no colégio quando, de propósito se faria de perdido nas horas, dentro do prazo de tolerância para não arruinar a surpresa, pediria educadamente licença como se nada de novo se passasse e cruzaria a sala todo endireitado no andar para tomar seu cativo assento no excludente lugar de hábito. “Não é este o filho do José Maria, e não está ele a arrastar a finura de uma perna entre nós desde sempre?”, seria uma das inquirições entre salas, corredores e recreios da escola.
Entre trabalhadas imaginações, todas incompartilháveis devido à admiração que queria causar entre todos os que, de bem ou de mal, eram membros de seu convívio, foi ele atravessando o dia, sentindo a mão da natureza como um protetor símbolo da fé.
À hora em que o crepúsculo descia sob um vasto céu de crença sentiu-se indizivelmente triste e só como a tarde que morria. Testemunha de sua dor, as últimas horas pareciam também tremer de sofrimento. Enquanto o resto da tarde fugia do firmamento, a noite em que seu drama fúnebre teria a possibilidade de se tornar melancólica lembrança avançava escondendo em suas entranhas todas as chances de qualquer poesia. No seio da verdade em breve se deitaria, e sua vida até aquele momento estaria concentrada numa elaborada petição, e, dependendo do desfecho, pela manhã ou sentiria saudades do crepúsculo que descia na tarde anterior, mesmo sendo de um irresistível desencanto, ou fecharia enfim o capítulo da tragédia de sua dolente vivência.
À medida que o começo da noite se anunciava, um receio foi lhe enchendo a resumida vida que até ali puxara. O nosso Senhor, aniversariante da noite não carecia de presente algum, uma vez que tudo lhe havia sido dado pelo Pai havia muito tempo. Agora, como Joselito acreditava, não com tanto empenho como um dia antes, era Ele, o nosso Senhor, que distribuía presentes em forma de milagres, ou como alguns preferem chamar, concertos físicos.
O fogo pede prova da fé. O tempo cobra permanência da crença. A não concretização do milagre exige ainda bom testemunho.
As comemorações ao aniversariante seguiram por um pouco noite adentro, não era de costume da família as desnecessárias comilanças. Como de habituosa tradição familiar cearam, se felicitaram com saúde e paz, rezaram as graças do Pai nosso e pronto, fecharam-se as felicitações. Estava entendido que a cama era a próxima e última parada da noite. As benzeduras da noite, sem as quais nenhum dos outros quatro irmãos, contando com ele cinco, se aquietava entre os colchões, foram particularmente ministradas com atencioso acatamento pelo pai José Maria.
Joselito prontamente se esquentou no leito, aquietou-se por fora, agitou-se por dentro. Chegara a hora da aguentada prece ser soltada. Provido das palavras da admoestação do domingo, pediu um pouco de perdão por ter vacilado à descida do crepúsculo quando o receio o levou a amuar em algumas desconfianças. Mais leve, menos descrido, entoou a prece que guardara ensaiada em protegida quietude, incubado-a em seu meniniço coração. Nada exigiu, com prudente instrução só um milagre, ou concerto físico, foi o que pediu. Expôs sua indigência, queria depor sua vergonha. Sentiu-se ouvido quando, inativo, foi continuar-se em adormecidos sonhos. Nada mais sentiu do mundo além da cama que lhe acoitava a sonolência.
Na beira da manhã, a alma pareceu despertar primeiro, descolando-se do corpo com as primeiras rajadas de luz levemente azuladas das sobras da noite. Esperou, olhos semi-cerrados, a alma recolar-se de novo ao corpo. Da cintura para baixo não cogitou esticar preguiça, cautela era de tudo um pouco, temência, ansiosidade, expectação; imensidão de um intérmino suplício. A medida de todo o seu existir ou des-existir a seguir, concentrada ali no forrado leito. Ou o outono infeliz que ia bem longe, ou a primavera que já vinha perto. Acordado para a vida, permaneceu intermináveis minutos concentrado em si, entorpecido na tremenda aridez de uma inclemente espera. O lençol que encobria as ocorrências da noite, que assegurava a justeza da aflição que se passava, demorou-se a ser jogado. A perna que não se arrastava criou coragem, lançou por terra o pano encobridor dos fatos.
Na falta de coragem para olhar pra baixo, olhou. Depois de constatar o que não se passara durante toda noite sentiu saudades do crepúsculo que descia na tarde anterior, mesmo sendo de um irresistível desencanto. Logo logo molejou-se escada abaixo, chegou-se à beira da familiar mesa do café atrasado de um lado do corpo, adiantado de outro, e falou muito baixo, “não foi nossa culpa, nem minha nem Dele”, tomou acento, beliscou num pão, bebericou num leite, e aperfeiçoou o que não disse, “apenas uma coisa me convém: sempre ler e reler sempre, essa novela que promete ser imensa, desde a tarde que cede, o céu que desmaia, o sol que declina e tomba, ensanguentando a crista das montanhas”.
Aquilo transbordou realidade na mesa. Um silêncio profundo rompeu o ventre das mais sérias ilusões e não houve qualquer um que levantasse dúvidas sobre os porquês das resumidas frases repletas de duríssimas verdades.


Alex Carrari

23 de setembro de 2011

Ada, o amor crepita em teu colo e se enfeita com teus trajes femininos



Suave e bela entremeaste teus caminhos aos meus,
juntou-se à mim desde as roupas até as raízes,
fez-se em meu percurso
o chão que educa meus cravos,
o mar de sonhos onde meu coração navega,
o campo verde onde descanso ao regresso de minhas dores.

Por caminhos aromáticos te dirigiste à minha alma,
obstinadamente aprendeste os passos que à meus recônditos te levaram.
Subjugaste pedras, fumaça, e cipoais flagelantes,
com teu fresco dom da terra.
Formou ao sol tua presença celeste,
abrindo em meu coração um caminho queimante.

Como um bom proustiano, em minha economia de vozes,
revivo o passado recente, recordando em meu coração
tua irascível fragrância invadindo meu território
como um viço ramo de sombra no mais alto calor do dia,
um silencioso fio d’água que rega meus secos veios,
uma espessa gota de mel que me adoça a boca e o sangue.

Teu coração florescido, teus olhos verdadeiramente vivos,
teu cabelo ensolarado, teu rosto delicado qual vidro polido,
tua voz terna como plumas de paineira,
são a multiplicação do meu universo.

Amo-te como o pedaço de terra que tu és.
És toda a minha geografia, onde quero percorrer todas as minhas andanças.
Teus traços marcam minha noite como as linhas da face oculta da lua;
Sutil, transparente, percebidas somente sob muita atenção e cuidado.

Por tua causa em meus sonhos não sou mais um menino perdido,
não sofro mais sem primavera.
Sou-te grato por me salvar em teu espaço cintilante,
espaço cavado pelos ventos de tua virtude,
onde ainda consumo tuas pétalas envolvido pelos poderes do teu ar,
todo invadido por tua deslumbrante claridade interna.

O amor não pode jamais voar sem que tenha de se deter
aqui ou ali para alimentar-se de beijos profundos.
Ada, o amor crepita em teu colo e se enfeita com teus trajes femininos,
onde nossas duas vidas têm da natureza aquilo que sobrevive com tanta força pura;
inquebrantável vontade de que as campinas em que sempre nos achamos
guarde o pequeno infinito que sem trégua acumulamos,
eu em março você em setembro.

Em tua extensão viveremos a permanência do amor,
Até a extinção do ardor em nossas veias.
Até quando nossas mãos se esquecerem de voar e dormirem,
até quando nosso peito se deter e nossa boca ficar sem palavras,
até quando mudarmos de forma, virarmos grãos cambiantes.
Até tudo isso acontecer vamos nos amar no tempo
como ondas espumantes, sopradas espumas flutuantes.


Alex Sandro Carrari




12 de setembro de 2011

Inquirições: No caso de a fé não existir



Parece insensato, provocante, mero capricho, mas tenho que dizer; nesse caso, acho que fé, ou isso que chamamos fé, não existe. Caso exista, João Batista é o mais infeliz dos homens, pois, francamente – e não sem amargura – desconfia de suas próprias e certeiras previsões. Forçar o coração a admitir como verdadeiro isso ou aquilo, e como falso o que não seja isso ou aquilo, é o que frequentemente classificamos como fé, mas que não faz qualquer sentido. Para no caso desse resistente herói das desérticas paragens, a fé não existir, é preciso que haja um sentimento tão elevado quanto, que preencha esse vácuo cheio das impressões do desamparo, que pode inclusive matá-lo por inanição espiritual – e ele sabe disso.
Enquanto a Galiléia celebrava a chegada do amado de Deus, o afamado filho de Davi, em sua prisão de Maqueronte, João, o triste João, esgotava-se entre quiméricas esperas e refreados anseios. Os ecos do sucesso daquele que pouco tempo atrás estivera se encurvando diante de si nas corredeiras do Jordão, e que ele próprio apontara publicamente como “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, chegaram até ele. Junto desses ecos a desconfiança, não de que ele talvez não fosse, mas de que, podia ser que fosse “o que há de vir”. Querendo saber da veracidade das coisas que ouviu que davam conta de que o Messias anunciado pelos profetas, o que resgataria Israel, havia chegado e que este poderia ser Jesus “o Cordeiro”, deu missão a dois membros de sua seita.
No auge de sua fama, desempenhando feitos notáveis, Jesus é achado pelos dois discípulos, que ao notarem o ar de festa em torno dele, ficaram deslocados e surpreendidos. Acostumados a uma vida de rígido ascetismo, jejuns, orações, purificações, os dois encontraram um Galileu assíduo freqüentador de festas, que agradava seus ouvidos com boa música, seus pés com danças e o estômago com boa comida e os melhores vinhos. Na hora oportuna transmitiram a mensagem de seu mestre: “Tu és o que há de vir? Devemos aguardar outro? " Jesus, que a essa altura compreendia sem hesitação seu papel de Messias, não deu resposta categórica, porém, convocou o confuso profeta a fazer uma avaliação dos feitos que, em seu entendimento, assinalam a chegada do Reino de Deus entre os homens, pondo em ordem suas obras, seu indiscutível desempenho; cegos vendo, coxos andando, leprosos sendo purificados, surdos ouvindo, mortos ressuscitando, e pobres recebendo o evangelho. Alguém que ouviu essa conversa escreveu alguns anos depois que Jesus acrescentou: “Esta é a resposta que ele não espera, mas que devem levar ao mestre de vocês”. E delicadamente envia à João também uma aguda advertência: “Bem-aventurado é aquele que não encontra em mim motivo de tropeço”.
Se o recado chegou aos ouvidos de João a tempo antes de ser executado ninguém sabe. Se chegou, não temos qualquer indicio de sua reação. Teria ele morrido consolado com certeza de que acertara quando da indicação do “Cordeiro de Deus” à beira do Jordão? Quando a espada mirada na nuca e a bandeja no peito estavam para selar seu destino, teria ele se tranqüilizado, certo de que aquele a respeito de quem ele sentenciou “o que há de vir”, realmente veio? Ou teria conservado suas dúvidas sobre a missão de Jesus, morrendo inquieto na indômita solidão da suspeita, ansioso, querendo crer?
Como pode esse mensageiro, que era ninguém menos que Elias ressuscitado – segundo uma crença bastante difundida – titubear depois de uma assertiva palavra a respeito de Jesus, e este Jesus agora se converter em fonte de suas preocupadas desconfianças?
Sugiro uma saída, e acho que, talvez, pode ter sido essa a única via transitável disponível para João não tombar de vez, cedendo à total descrença. Parafraseando Rilke; e se esse não foi o momento para compreender seu próprio desconsolo e ao mesmo tempo começar a mais valiosa e autêntica produtividade religiosa que, a bem da verdade, não tem em si mesma a capacidade de levar ao consolo, mas à honesta envergadura de dispensar todo e qualquer consolo?
Para, no caso de João a fé não existir, o que existe é o amor.
Tendo ficado marcado na lenda cristã, como foi na realidade, o austero indireitador das veredas, o melancólico pregador de obrigatórias penitências, sem as quais ninguém pode participar das alegrias do Reino de Deus, morre sem ver esse Reino que anunciara com tanta audácia, arrebatado de paixão. Esse gigante das origens cristãs, comedor de gafanhotos e mel silvestre, des-possuído de todos os luxos, esse bruto justiceiro foi, nas palavras de Ernest Renan, “o absinto que preparou os lábios para a doçura do reino de Deus, o degolado de Herodíades que inaugurou a era dos mártires cristãos; sendo a primeira vítima e testemunha de uma nova consciência[1]
Quem se investe da nova consciência dispensa as muitas concretizações, desobriga-se do cumprimento de certas esperanças, pode morrer desconsolado, sustentado somente pelo desejo de crer. João se arrisca a morrer na mais absoluta decepção, caso Jesus não fosse “o que há de vir”. Mesmo assim quer saber se ele é o tão aguardado libertador, ou deve ainda esperar outro. Melhor afundar em rude decepção do que mornar na branda ilusão. João não espera absolutamente o pior, nem o melhor, ele puramente quer crer, “porque aquele que espera sempre o melhor envelhece na decepção e o que aguarda sempre o pior mais depressa se gasta, mas o que crê conserva eterna juventude[2]
Na prisão, no caso de a fé de João não existir e só existir o amor como propus, o que o conserva é um pressentimento acerca de um desconhecido, como tantos outros, que pede para ser por ele batizado, que antes disso já ouvira de sua boca; eis o Cordeiro de Deus... Não pela fé que desaparece quando mais deveria transbordar, mas, pelo amor que o levou a predizer o futuro daquele que seria chamado Filho de Deus, de quem se achou indigno de levar as sandálias, declarando que este que estava para vir, era maior que ele. Por ter se colocado acima do amor-próprio, esse áspero profeta é o mais honorável representante das origens cristãs; dos nascidos de mulher é o maior, declara inexplicavelmente Jesus, não fazendo mais caso de suas ofensivas dúvidas, porque sem amor ninguém nada é[3]. João se esquece da esperança, suspeita da fé, porém, protege sua alma no amor, que desses três sentimentos é o maior[4]. Só o amor tem a potência de fazer alguém querer crer, mesmo contra todas as provas circunstanciais.
Alex Carrari

[1] ERNEST RENAN, Vida de Jesus
[2] SÖREN KIERKEGAARD, Temor e Tremor
[3] 1 CORÍNTIOS 13.2
[4] 1 CORÍNTIOS 13.13