25 de janeiro de 2012

Da pedra às entranhas : As novas intenções de Deus



O sol cai sobre as ruínas da tarde. O canto das cigarras traz uma nota de desolação no centro de uma paisagem vazia. Vergalhando o raso chão um agoniado som seco introduz aquela mulher num mundo que não muda, apesar de alguns esforços. Exposta como sofrida ilustração de um expresso ensino que não deve jamais ser esquecido: “aquela que for pega em adultério deve ser apedrejada”. O véu violentamente arrancado, pudorizado arranjo da vergonha, despida até a cintura, sintoma da urgência do julgamento, na eminência da brutalidade mortífera à que será sentenciada, é colocada diante de um Jesus que está, ao que parece, ausente ao tormentoso alvoroço.  

Mestre, está mulher foi pega em flagrante adultério. E na lei nos mandou Moisés que tais mulheres sejam apedrejadas; tu, pois, que dizes?”. Ele como um conhecedor das mentes, seja porque era Deus ou porque como homem sabia demais, não dá crédito aos instrutores da lei, ele escreve algo no chão.

A mulher desliza um desolado olhar rente a terra sem cuidar que quem inclinado está é ninguém menos que Deus, ele mesmo, aquele que elaborara a lei que estava para selar seu destino.
Ele escreve. Mas o que escreve? Oportunidade rara e não sabemos o que diz o texto. A caligrafia de Deus a mercê do vento e do tempo, dois de seus mais eficientes aliados. Inclinado está, inclinado fica. De propósito? Ele concentra-se no chão. Depois de tantos séculos sem escrever nada – depois das pedras entalhadas por seu dedo lá no Sinai, só abriu exceção escrevendo na parede para assombrar um amaldiçoado monarca babilônico durante um banquete –, estará Deus distraído marcando na terra algum novo mandamento?

Seu dedo ara a terra com misericórdia, mas eles querem um julgamento enfim. Querem aqueles homens é derramar o vermelho sobre o cinza.

Jesus revela-se um caçador de abismos. Um declarante de planuras. Um ressuscitador de rosas tardias que ainda viçam. Na agonia do outro ele experimenta de perto todas as dores que envolvem o gênero humano. À ronda da morte bruta ele preside os últimos e os primeiros instantes da mulher. Os últimos estigmatizados pela vergonha. Os primeiros do bom futuro que se abre à sua frente.

Eles querem saber o que ele acha do mandamento de Moisés. Ela deve ou não ser apedrejada? Dependendo do que disser, eles o acusam. Caso ele confirme a Lei será entregue às autoridades romanas por instigar a violação de um decreto que impede que as autoridades judaicas apliquem a pena de morte em território ocupado. Caso subestime a Lei as autoridades judaicas podem matá-lo com as próprias mãos, pois, estará sendo contra a instituição Moisés. Mas o que está em jogo é algo muito mais elevado; o caráter divino. Absorto em seu sulcar o pó com o dedo, adere à insistência dos ardilosos senhores dos destinos alheios, mas de outra surpreendente maneira. Deus se levanta em defesa da culpada vítima, e algo que ninguém esperava ouvir, foi ouvido: “Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra”. Dito isso volta a sulcar o pó.Volta à lacônica imanência do texto.
Ao dizerem, "a Lei manda que se faça assim, mas o que você acha?”, escribas e fariseus se mostram os mais sutis oponentes que alguém pode ter. Mas o mestre de Nazaré pode ser mais sutil ainda. Ao final eles é que se retiram contrariados e entorpecidos, deixando os dois, Jesus e a mulher, repartirem uma inesperada privacidade momentânea.

Enquanto a turba se afasta e o tempo se adianta, ele promove a improvável união de esferas da existência; transfiguração das sombras. No imóvel ponto em que o mundo gira, onde só a dança se move, passado e futuro ali se envolvem, se enlaçam. Da queda à ascensão. Da compulsão à liberdade promovida pela graça dos sentidos.

Essa era a deixa para ele dizer qualquer coisa que desejasse à mulher. Poderia fazê-la sentir toda vergonha merecida por tamanha desonra ao leito conjugal. Poderia intimidá-la puxando qualquer assunto que encerrasse com o inferno por consequencia. Mas o que ele diz afinal? Ele prefere equilibrar a balança, não afirmando sua inocência nem diminuindo a seriedade do adultério. Ele não a condena.

Sendo ele Deus que pré-existia desde o início e quem tudo fez – como afirma o quarto evangelho –, então é exato dizer que a Lei do apedrejamento foi estabelecida por ele mesmo. Mas e agora, por que infringiu a Lei que ele mesmo estabeleceu para ser cumprida e que ainda vigora absoluta em seu ambiente? Que explicação pode ser apresentada quando a sós com a mulher, podendo desferir com um azorrague verbal tudo o que ditara no passado sobre as conseqüências para casos como esse, diz somente “Nem eu tampouco te condeno, vá e não peques mais”?

Uma leitura, seja da Tanach ou do Velho Testamento dos protestantes, não deixa dúvidas de que até então Deus não se utilizara muito desse padrão de comportamento.

Segundo o ex-jesuíta Jack Miles, a quem devo muitas das minhas insinuações, Deus agora está se tornando mais misericordioso, “Deus em sua longa vida, nunca permitiu que sua misericórdia superasse sua justiça...” Vejam, não que ele não se enternecesse raramente em alguns casos que constam na Tanach, mas é evidente que entre a misericórdia e a justiça (justiça essa punitiva bem ao estilo romano), ele preferisse a justiça.
Sua ousadia me desnorteia quando afirma que,“Se o Senhor se tornou mais misericordioso, então aqueles que pensam estar fazendo sua vontade ao apedrejar uma adúltera agem a partir de uma premissa falsa (...) Ele estava, com certeza, suficientemente livre de pecado para jogar a primeira pedra, mas escolheu não fazê-lo”.
Como o que está em jogo é o caráter divino, Miles definitivamente me tira o chão e confidencia algo que suspeitamos sempre, mas a maioria não tem coragem o bastante para progredir e admitir.

Até agora, a perfeita inocência de Deus foi a premissa para toda a violência que considerava adequada derramar sobre Israel. Ele era o noivo fiel, ela a noiva infiel. Mas a premissa ainda será adequada? Em suas relações com Israel, o Senhor era como um marido indignado que, pouco antes de rasgar a blusa de sua esposa e golpeá-la na boca, grita a palavras de condenação: “Prostituta!”. Ele insistia que não eram os assírios e os babilônicos que surravam Israel, era ele que o fazia; mas não teria esse direito? Que marido, traído como ele fora, teria deixado por menos? No passado, Deus falava dessa maneira, mas será que ainda o faz?” Avançando ainda mais, será que ele ainda age nesses moldes?

Na composição do quarto evangelho, João coloca logo após a salvação da adúltera um trecho em que Jesus afirma igualdade com Deus:

De novo lhes falava Jesus, dizendo: [...] Vós julgais conforme a carne, mas eu a ninguém julgo; se eu julgo, porém, o meu julgamento é verdadeiro, porque eu não estou só, mas comigo está meu Pai que me enviou; e está escrito na vossa Lei que o testemunho de duas pessoas é válido. Eu dou testemunho de mim mesmo e também o Pai, que me enviou, dá testemunho de mim’. Diziam-lhe então: ‘Onde está teu Pai?’ Jesus respondeu: ‘Não conheceis nem a mim nem a meu Pai; se me conhecêsseis, conheceríeis também meu Pai’. Essas palavras, ele as proferiu no Tesouro, ensinando no Templo. E ninguém o prendeu, porque sua hora ainda não havia chegado” (João 8.12; 15-20, Bíblia de Jerusalém).

Estas palavras de Jesus literária e artisticamente elaboradas por João nessa ordem têm como objetivo dar relevo ao fato de que o próprio Deus foi quem poupou a mulher surpreendida em adultério deixando nas entrelinhas a sugestão de que Deus depois de longa data – mais ou menos quatro mil anos – deve estar definitivamente mudando. Quando Jesus diz que não julga ninguém, é o mesmo que dizer, eu não condeno ninguém. O Deus de Israel, o Senhor dos exércitos que fez sua fama como um juiz, ou como expõe Harold Bloom, um Deus à semelhança do de Platão, moralista ensandecido, dificilmente diria “Eu não condeno ninguém”. Mas agora ele diz essas coisas. Por quê? Porque Deus está mudando publicamente.


Jesus reivindica o direito de interpretar a Lei e também de revisá-la. E o faz de uma maneira desconcertante, insinuando que tudo o que foi dito pelo Criador lá nas origens do tempo deve agora ser passado a limpo invocando as novas intenções de Deus, as quais ele é o portador e está incumbido de revelá-las autorizado pelo Criador, como o próprio Criador. Bloom lembra que o argumento central do Testamento Tardio é que um homem substituiu as Escrituras. 


Um dia Deus escrevera com o dedo suas Leis em pedra. Passado um bom tempo terrificara os convivas de um banquete escrevendo numa parede palavras ininteligíveis. Agora, com o dedo escreveu no chão algo que ninguém sabe e que talvez ninguém teve peito de ler. Pedra, parede, pó. Do mais resistente ao mais provisório. Não será carne e sangue o próximo material em que Deus escreverá seus desejos e vontades? Será que Jesus não está dizendo que é chegado o tempo em que ele escreveria a Lei em nossas entranhas?

Ouvistes o que foi dito [...] eu porém vos digo”. Deus está mudando e Jesus está operando esta mudança.



Alex Sandro Carrari

Referências:

Jesus e Javé: Os Nomes Divinos (Harold Bloom)
Cristo: Uma Crise na vida de Deus (Jack Miles)


8 de janeiro de 2012

O Poeta do Fragmento discorre sobre a esperança do significado que restaura a experiência



No princípio criou Deus as jornadas, então veio a dúvida e a nostalgia
(autor que desconheço)


Eis me aqui na metade do caminho,
Tentando nesse longo tempo que aqui é curto
Aprender a empregar as palavras,
Todas que me escapam rigorosamente ao tino.
Em tudo o quanto vou olhando, em partes vou ficando.
Em tudo quanto vou vendo passar, em partes vou passando.
Vivo de partidas em todas as tentativas.
Uma escassa consciência, é isso o que o tempo,
Passado e futuro, me admite.
Cada qual com uma dada estatura,
Rumando para o fim do futuro num fluido de incerto nexo.

Na metade do caminho a impressão é de que
Tudo é desnecessário ser dito,
Que as palavras não mais carecem de conexão,
Que os requeridos sentidos perdem-se no vácuo do sem fim
Que se apresenta ao insciente destino, posto que esqueço.
À medida que prossigo, o mundo vai se tornando
Mais estranho do que sempre,
E os deuses me dão pouco,
E o pouco que dão é falso.

Tudo o que aprendi acerca dos deuses, esqueci em deslocadas estações,
Mas ainda acredito no rio, esse poderoso ser castanho,
Indomável, hirsuto, inviolável, fiel a si mesmo em sua torrente ira.
Às muitas margens ecoam muitas vozes distintas;
Vagos queixumes que dobram sinos que medem o tempo.
Tempo contado pelos aflitos cronômetros dos tolos aborrecidos,
Que em vigília calculam o futuro inconsútil,
E tratam o passado como fria fraude para nostálgicos devotos.

As seivas da lei para estes é o insolente esquecimento
Dos destinos partilhados.

Vivo na experiência (nesta me afirmo) o risco de perder o significado,
Mas, a esperança do significado restaura a experiência.
Sei que memoro meu passado, e sinto muito além do que me lembro.
Nada de verdadeiro há naquilo que me des-une dos deveres do sentimento.
Não vivo no ressecamento do mundo dos sentidos.
Não acredito na inoperância do mundo do espírito,
E os dois me parecem sempre um.

O sol que há nesses campos onde pago meus tributos,
É sol o bastante para quem espera as chuvas.
A cada hora não se muda somente a hora,
Mas a vida e o que se crê a respeito dela.
A vida passa entre o viver e o ser.
Entre o viver e o ser quase inglório,
E a infâmia de cogitar que as aparências das flores contempladas
Podem ser outras manifestações da verdade,
Algo como uma inaudita música escapando entre
Camélias sobre o musgo do templo, acariciadas
Por uma Luz capaz de suportar toda a realidade.

As sebes do caminho estão verdes desde o início
Dessa força só acompanho e paro por breves intermitências de lucidez estética.
Não sendo avesso às convenções do tempo
Não crio arcabouços lúdicos sobre o fim da jornada.
Não penso em abandonar o áspero caminho.
Amo sua transitória floração, odor da Terra, coisa viva.
Formas que se movem me preservando da tentação de evadir
Para o mundo da fantasia.

Partindo de onde parti numa hora incerta que antecede a aurora,
Deixo minhas memórias em pedra edificadas.
Intranqüilo, porém, não aflito nem desanimado.
Não nego que dormimos docemente em um mundo,
E acordamos brutalmente em outro, ainda assim,
Cultivo paciente a terra, mesmo que seja ela a urdir meus suplícios.
Quero que seja feita Outra vontade e não a minha.
Que seja este o fruto da ação,
Já que para mim o medo não se revela num punhado de pó.


alex carrari

7 de dezembro de 2011

O homem que avançou ao revés do tempo



...no enquanto todos os outros prosseguiam no natural decurso da vida, ou seja, depois de um pouco de tempo começar a ficar velho, ele, de acordo com o que se conta, acriançava-se mais e demais. De nascimento, veio ao mundo como qualquer gente normalmente nasce; rubro, feio, choroso e com fome. Dos pueris primeiros acontecimentos que caracterizam a primeira infância cumpriu com todos, sem falta nem exceção. Acumulou-se de prósperas brincadeiras, sobejou-se de perdíveis inocências, somou-se de inconfessáveis descobertas, juntou-se de fulgentes imaginações. Uma infância com casos e acasos igualmente as outras infâncias. A juventude e a fase adulta procederam de igual modo. Até aí nada consta de admirável que defina o exato dia em que começou o curioso regresso de vida.

Foi meio sem querer que alguém, também não se sabe direito quem, notou que o dito parecia descumprir com as normais regras do acúmulo dos dias sobre a terra, quer dizer, enquanto todos encraquelavam a pele da carne que se flacidava, ele se desenrugava, a pele se aveludava, a carne se amaciava. À medida que os cabelos de todos os outros facilmente se alvejavam, os dele desbranqueavam com rigor.O aprendizado que a experiência dos anos nos imprime, nele começou a ser percebido o contrário, desaprendia de tudo o quanto sabia enquanto avançava ao revés do tempo. Bem antes de o caso ser notado era fato que conhecia os domínios das ciências exatas e humanas, como se tivesse mestrados e doutorados.
Chegou ao estagio de saber de tudo um pouco em alto nível, só que, não se sabe por que cargas, começou intenso regresso tanto no corpo como na cabeça. Regrediu-se desenvelhecendo de pouco em pouco, desaprendendo as informações na mesma proporção. Ao invés de avançar e se aperfeiçoar seguindo uma especialidade, ia regredindo esquecendo os saberes adquiridos desde aquele aprendizado mais prático que não consta em livros, aqueles mais primitivos ligados a sobrevivência e aos nossos requisitos mais simiescos.

Um conselheiro do lugar, sábio respeitado, notando o incomodo geral e o medo estampado na cara de todos, e já de antemão tendo sido avisado em sonho sobre o que ocorreria depois Daqueles Dias, resolveu então se pronunciar. Habilmente argumentou: “O Damasceno está em melhor condição que nós todos, pois, ao retornar às criancices revive tudo de novo, só que de outros modos. Ele tem duas maneiras de vida”. Tomou assento e prosseguiu, “numa primeira fez-se sabedor das ciências e dos naturais conhecimentos fazendo-se por aquilo que se tornou sabedor. Numa segunda, faz-se esquecedor de todos os saberes, científicos e naturais, formando-se no desfazer-se por aquilo que vai se esquecendo no regresso do tempo”. Pausou. Retomou bem depois: “Com isso o que ele está é se salvando mais que qualquer um de nós, caros aflitos cidadãos, pois, sua última condição, ao que tudo indica, será a de total falta de maldade, pois se tornará cada vez mais criança”. Isso asseverou o sábio à um grupo que se dirigiu com lampiões e donativos – pão, leite e hortelã – até seu aperto onde meditava sobre os últimos dias na terra. Como não dissera quase nada, e isso era o que o tornava um respeitado sábio, quer dizer, falar tudo dizendo muito pouco, aborrecido com o alvoroço popular e com a impressão geral de que o curioso caso tivesse uma grande lição a lhes ensinar, resolveu então decodificar a moral da história, mais uma sutil meia explicação:

Acalmem-se sobre o destino do nosso Prometeu, ele não passará de onde tem de chegar, onde seguramente vai chegar. Desaprendendo de tudo, chegará à fé, rocha em que se estilhaçam as vaidades e os saberes. Mas para que haja essa ocorrência é obrigatório um regressar de vida, um inteirar-se novamente criança, fazer-se como um destes pequeninos”, neste ponto arrastou o braço no ar apontando para um vazio palpável como se adiante estivessem os tais pequeninos de que falou. Ele sabia que a euforia geral não era nem de longe por preocupação com o destino de Júlio Damasceno, mas sim em querer saber se com eles era possível acontecer o mesmo. Provando a designação de profundo conhecedor da humanidade, o sábio encolheu-se porta à dentro em seu soturno recinto.

De um em um, de dois em dois, de três em três, a aglomeração foi se desfazendo, se retirando em falante procissão, buscando convencimentos sobre as dadas explicações. Num bloco que se deslocava à frente um grupo pensava discorrendo sobre os escassos esclarecimentos prestados pelo sábio. Bem no meio do grupo uma fala paralela capturou a atenção dos mais exaltados: “Já ouvi algo assim sobre essa coisa de se tornar como criança, mas não imaginava que era desse jeito”. Um silêncio difuso capaz de incomodar toda vida cobriu o alvoroço e não houve mais nenhum alguém com coragem suficiente para elaborar uma grande pergunta. O ensino estava dado.

Alex Carrari

21 de novembro de 2011

Das poucas coisas que deveríamos saber



Com que vida encherei os poucos breves
Dias que me são dados? Será minha
A minha vida ou dada
A outros ou as sombras
?

Fernando Pessoa em Ricardo Reis

Temos vivido como se fossemos viver sempre, e não nos ocorre os malabarismos que temos feito para driblar e resistir à morte. Temos desperdiçado nossos dias correndo atrás do vento, como se fossemos plenos de tanto tempo, como se este fosse abundante e que pudéssemos por luxo ou mero capricho, desperdiçá-lo. O tempo que desperdiçamos pode talvez ser o último. O tempo não nos é dado e sim tirado. Não fazemos anos, como disse o Rubem Alves, os desfazemos. Quem se defende por correr atrás do vento e achando que faz grande coisa, deveria fazer o cálculo de sua existência. Conta os anos que já te foram e projete os que ainda te faltam – se é que o podes fazer. Aqueles com certeza os sabe e os tem todos na conta, mas e estes? Projeções não são nada objetivas. Pois então as únicas datas de que temos pleno conhecimento são as que nos foram subtraídas, as que denunciam que estamos nos extinguindo lenta ou rapidamente, dependendo do ponto de vista.
Porque esperamos tanto para nos dedicarmos ao ócio? Cheios de júbilo dizemos: “Chegando aos sessenta anos – que alguns denominam “a melhor idade” – relaxarei de todas as minhas fadigas”. Mas podemos confiar que viveremos tão longamente? E que garantias temos de que os planos traçados e que as riquezas bem guardadas terão os desfechos que prevemos com tanto medo e ansiedade? E quem nos induziu ao grave erro de esperar chegar aos sessenta e isso com tantas certezas? Somos melhores em algum aspecto do que aqueles que morrem com a idade em flor? O que de tão especial temos que nos achamos no direito de folgar na confiança de que passaremos ilesos aos acidentes do acaso a que todo mundo está exposto e que interrompe vidas virtuosas e nobres projetos?
Não caiamos nessa de “a melhor idade”, isso não existe, o que existe são os melhores dias. E vivamos não de idades, mas de dias. Sêneca, esse virtuoso romano disse:
Do mesmo modo que uma conversa, uma leitura ou qualquer reflexão maior desvia a atenção do viajante, que, de repente, se vê chegando ao seu destino sem perceber que dele se aproxima, assim é o caminho da vida, incessante e muito rápido, que dormindo ou acordados, fazemos com um mesmo passo que, aos ocupados, não é evidente, exceto quando chegam ao fim”.
Devemos estar cientes; a única aposta certeira que podemos fazer é que, contra o tempo, estamos em desvantagem sempre. Quanto mais ocupados estamos, a vida ainda mais se apressa, e a morte mais se adianta. E não nos enganemos quem nos entregará à morte será a própria vida, quando se cansar de tanto pouco-caso.
De acordo com a sabedoria do Qoheleth – que não é exclusivamente sua – a vida se divide em três fases ou períodos: aquilo que foi, o que é e o que será. Certo é somente o que fizemos, breve o que agora fazemos e dúbio o que estamos por fazer.
Tão breve é o tempo presente que sequer é percebido, na verdade incorretamente dizemos “presente” quando ao terminar de dizê-lo já é passado. O presente só se faz notar em tese, como um mero conceito de intervalo entre passado e futuro, ou seja, entre o que é certo, pois já se foi e pode ser constatado pela recordação, e o que é posseiro das nossas dúvidas mais agudas já que o que está à nossa frente é completamente incerto.
O tempo passa e não se pronuncia audível, comunica-se por sinais, se deixa perceber através das marcas que vai deixando em nós impressa. Vendo as marcas e interpretando-as é que nos sentimos ir. Breve é o tempo da mais longa vida. A lei inimplorável do esvair perpétuo que não cessa nos pesa e dói.
De tudo o que nos apaga a vida e nos rouba o tempo, o comprometimento com as coisas perecíveis são as mais estúpidas. Comprometidos com as coisas que estão fadadas a se extinguir e se invalidar tão rapidamente quanto nós, perdemos o agora, e não chegamos a viver o amanhã, pois o antecipamos em nossas mais solícitas preocupações e quando deveria ser o tempo de o vivermos ele já não está estendido à nossa frente, o consumimos mesmo antes que existisse.
Gastamos nossas fases mais produtivas da vida defendendo tolas idéias sobre as mais variadas bobagens, juntando cacarecos onde está o nosso coração que, não bastasse isso, está entulhado com todo tipo de merda visual ou palpável a que, rilhando os dentes, damos tanto valor. Decidimos viver quando na verdade já deveríamos fazer planos e testamentos, e ensaiar uma digna despedida. Começamos a pensar em viver quando é tarde demais. Deveríamos – acredito com todas as minhas forças – usar o tempo para instruir-mo-nos no viver, e não acompanhá-lo em sua passagem enquanto desfazemos os anos que nossa ganância e avareza nos faz acreditar que lucramos.
Será que somos como aqueles que como disse o Sêneca, não viveram muito, apesar dos cabelos brancos e das rugas? Será que somos como muitos desses que apenas existiram por muito tempo? Existir é uma coisa, viver é outra. Para existir basta estar aí, na opacidade, inerte, uma criatura maciça, parafraseando Sartre; simplesmente um em-si sem projeção nem transcendência alguma. Ah, mas para viver tem de haver desenvolvimento, envolvimento, e a clara noção de que está é – ao menos por enquanto – a única vida que conhecemos – embora eu gostaria, de coração sincero, que houvesse outra depois.
A vida é um sopro, não é a toa que no Decálogo Deus sopra no nariz do Adão. Isso significa que lhe está sendo dado algo ao mesmo tempo poderoso – pois trata-se do fôlego de Deus – e volátil – pois expirar-se-à vagarosamente até o total desaparecimento. O sopro que nos põe de pé será bem cedo requerido de volta e isso nos devolverá ao berço do pó. O tempo é incorpóreo e talvez esteja aí o motivo de não fazermos muito caso dele. Não o valorizamos devidamente e fazemos uso descontrolado da sua presença como se isso não nos custasse tão caro. Contudo, quando chegar o dia mal e uma doença nos invadir, violentando-nos por dentro e por fora, correremos e nos jogaremos aos pés do sacerdote para que interceda por nós, para que possamos ficar um pouco mais. Quando não, nos lançaremos aos consultórios médicos e gastaremos todo o nosso rico dinheiro que afadigados guardamos por tanto tempo onde a traça rói e a ferrugem consome. Aquilo em que empatamos todo o nosso tempo e empenhamos toda a nossa vida será gasto para tentar viver mais um pouco e ganhar mais um tempo. Arre, para que gastar preces ou ouro que seja para prolongar uma existência tão medíocre? Se for pra isso que se vá de uma vez.
Ocupamos-nos tanto e tanto em trabalhar duramente para melhorar nossa condição sem nos darmos conta que por maior que seja uma conquista sempre haveremos de querer mais e mais e mais e mais... Essa é a nossa constituição mais básica; seres que jamais estão satisfeitos. Sempre dá pra ganhar mais, não importa a que custo, seja perdendo o nosso tempo ou arruinando o tempo dos outros. Viver desse modo é o mesmo que encher de terra um vaso sem fundo.
Morreremos empatados demais de coisas. Morrermos trabalhando demais por nada, buscando uma elevada posição para quem sabe ter no túmulo uma vã inscrição que, tarde demais, dirá tudo sobre nós, dirá tudo por nós: “morreu ocupado”. Pensemos agora se isso é agradável.
Das poucas coisas que deveríamos saber é que, tudo o que nos toca, e tudo o que tocamos, num momento qualquer, sempre inoportuno, com ou sem aviso, nos será tirado. Nossa curiosidade será satisfeita. Nossa euforia findar-se-á. Nossa ganância terá seu fim. Porém, tarde será. Para o lugar aonde iremos depois que findar a vida não haverá lembrança das coisas.
O que é certo é que, por enquanto a única vida que temos nas mãos em nosso provisório poder, a única que parcialmente conhecemos, é essa que nos acorda dia após dia para fazer o que tem de ser feito, e que deveríamos dar o melhor de nós para que tenha valido a pena cada feito imaterial por aqui alcançado. Que ao final de tudo não haja tantos arrependimentos. Que nossos olhos tenham enchido os nossos corações das mais estéticas verdades. Que no momento em que a vida nos escapar e chegar a hora do barqueiro aportar na enseada da nossa finitude, haja envergadura suficiente para não lamentarmos tantos desperdícios. Caso haja algum lamento, que seja “por ter de deixar um mundo assim tão bonito”, como disse o poeta.


Alex Sandro Carrari (é tudo por minha conta e risco)

5 de novembro de 2011

Confissões: O emudecimento de Cícero Calado



“E esse desconchavado desse moleque que agora cismou de parar de falar”, trovejou a espaventada mãe de Cícero, que daí pra frente começou a ficar Cícero Calado. Receava havia pouco tempo, que o menino estava se emudecendo em devagarosa escalada, só não sabia que a gravidade era tão séria para o resto de sua acanhada vivência. O primeiro presságio foi sentido quando ele parecia pensar nas falas em anestésicos momentos de trabalhada quietação, dando a entender que perseguia em algum arquivo interior palavras que fizessem a adequada junção entre o que pretendia dizer e o que de fato dizia. “Não somos desses que tanto esperam por uma bobagem à toa, se solta logo infeliz” expurgavam depressa a quietude em exercício do jovenzito. O segundo presságio – que é uma trágica decorrência do primeiro – apareceu aos olhos públicos dos mais chegados quando, ainda que pensasse longamente no que dizer, ao soltar o verbo ficava claro que, mesmo dizendo algo, acanhadamente ausentava-se por detrás dos pronunciamentos.
Cícero foi se embrulhando em quietude, calando-se a olhos vistos, “alinhavando mudos discursos”, era o que todos diziam. Ficando cada vez mais quieto cavava na solidão um túnel cuja tarefa única era, por uma questão de dinâmica, não tornar ocioso seu emudecimento.

Mudo de nascença é ingrata sina, mas emudecer já depois de ter experienciado o custoso jogo da comunicação verbal, da sonoridade das idéias, causava uma aflição que nos desesperava de tanta dó.
Lembro muito vagamente que o mudo-de-depois-da-nascença, manteve por um pouco de tempo um vínculo de comunicação com uns poucos. Mesmo calado de vez por todas, marcava numa brochura com letras vacilantes curtos desejos, pequenas necessidades, breves anseios, depois arrancava a página como quem quer se desfazer de um erro incorrigível, e lançava-a ao ar sem dar devida importância a quem quer que a apanhasse para leitura. Sempre um rubor lhe vestia a cara de vergonha por ainda se submeter em se apoiar no desenho das palavras para ter de se dizer. A esta altura, querer dizer. Contradizer.

Não permaneceu tempo suficiente nesse estágio. As poucas parentais expectativas de reversão do caso, ou que um remorso lhe tomasse de ataque e o fizesse voltar aos normais modos de se comunicar, desarranjaram-se quando gastou mais folhas do que o caderno podia conter e não mais se equipou de outro. A partir de então só econômicos sinais, curtos gestos, ainda sustentaram por breve tempo sua improvável ligação com qualquer possibilidade de entendimento fora de sua incrível afonia.
“Deus, onde desapareceu a doçura da voz desse menino”, protestava a mãe que se conformava ao espírito da coisa, mesmo desconhecendo as origens e os fins do flerte do infeliz com a misteriosa mudez.
Num dia que não foi marcado como data importante – ninguém fazia muito caso de seu caso – Cícero Calado parou, não teve mais fins nem recomeços, seu percurso acabou numa estação de lapidáveis desencontros.

Foi aí que começou a estrear-se legítimo fazedor de silêncios. A voz emigrara da fala, os sinais e gestos desistiram do corpo. Calado em seu retraído recanto desempenhou sua identidade, conservando-se só, no indizível sigilo de uma vasta vontade; recriar-se de outra maneira, audível só em sua desértica extensão.

Elevou tanto seu projeto de silenciar-se de maneira pura, como uma coisa exclusivamente sua, incontaminável de qualquer tentação ideológica, que se deu à grandeza de se explicar abrindo exceção num certo meio-dia quando, acompanhado, cultivava um extenso campo de telhados. Expressou-se espantosamente com palavras: “Sabe por que me calo tanto? (...) Palavras não podem ser negociadas. Palavras são pontes sagradas que, se não se é capaz de cruzá-las nobremente com seu destino às costas, o mais digno é despencar-se voluntariamente no silêncio (...) É um esforço vão, tentar lhes falar”.

E foi só. Nunca mais se ouviu tal coisa, ou qualquer outra de sua boca. O silêncio voltou a ser sua legítima defesa, seu grito fechado, sua parcela de responsabilidade dentro do mundo. Quem lhe fez companhia e ouviu este extremo pronunciamento notou que sua voz já não mais sibilava com os doces acordes da infância quando, até então, se tinha sido ouvido pela última vez.

herdeiro do deserto

6 de outubro de 2011

Sempre ler e reler sempre, essa novela que promete ser imensa



Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza...”
(Dito antigo que Joselito aprendeu pelo tempo)
Tudo dava a crer que os céus conspirariam a seu favor depois do contundente sermão do domingo cujo tema “a fé do tamanho de um grão de mostarda” entusiasmou todos os presentes, que repassaram a todos os ausentes.
Depois disso, coisa nenhuma impedia o miúdo Joselito de crer que, já que tudo era completamente possível, inclusive uma montanha jogar-se ao mar por vontade da fé, uma perna ressecada não seria embaraço algum para um poder imensurável colocar em plena forma. O ânimo pela possibilidade cresceu, tomou forma de esperança. De chofre, iniciou pensamentos ocasionais, desses que vem ao mundo só por que algo é provável, mas que nada de concreto possui, nos quais já se via sendo escalado para jogar na linha ao recreio, deixando de ficar plantado na ingrata condição de goleiro, se nem sequer competência para ocupar as traves a perna que bambeava como uma vara de taboa espancada pelo vento, lhe deixava de sobra. Estimulado, perdeu-se em inevitáveis variações sobre um mesmo tema; não só ser escalado longe da meta, mas fazer o gol principal da acirrada pelada da sexta-feira, de preferência com o pé da perna que, a esta altura, estaria des-mirrada. Ser disputado no par ou ímpar, ser aclamado como grande atacante, o salvador da pátria, eis todas as possibilidades que visitava seus ansiosos pensamentos.
Um dos sinais de que o etéreo dava ares de conspirar a seu favor era a chegada da data comercial do nascimento do nosso Senhor, a noite demais aguardada em que solicitações verdadeiramente importantes eram mais fáceis de serem ouvidas e desejos puros, merecidamente eram mais capazes de se realizarem. Poupou-se de qualquer desgaste antecipado, preferindo deixar para a noite certa o pedido oficial a ser cuidadosamente rezado no leito repleto de tantas expectativas. Nada de jogar com verbalizações antecipadas. Sem desperdício de rogos. O resguardo de qualquer pronunciamento precipitado era fundamental para não sugerir que sua extrema prece se parecesse com as vãs repetições de qualquer pagão, o tipo desnecessário de palavrório que ofende os céus. Estava empenhado em conservar-se naquele último dia antes daquela noite como um oceano de segredo.
A véspera do dia vinte e cinco iluminou-se em suas primeiras horas de uma longa luz preguiçosa, que calmamente se estendia no quintal sobre canteiros de margaridas e avançava parede a fora, de onde pendiam begônias em vasos de um barro esverdeado pelo laborioso bolor do tempo. O ar parecia filtrado por frescos aromas indefinidos dissipando um brumoso véu de névoas, enquanto árvores em franca paz deixavam passar turíbulos de um abençoado brilho sideral. Toda pureza de um dia sereno lhe acariciava o cenho com uma paisagem acesa, óstias consagradas da esperança. Preparava-se para seu último dia de constrangimentos olhando a perna que sempre se arrastava atrás da outra deixando-o em metade atrasado na vida. Chegou a sorrir bem fraco consigo mesmo pensando em despedir-se do infeliz defeito, mas conteve-se, não queria que deboches, mesmo que razoáveis, lhe tirassem do estado quieto, que poderia ser um dos geradores do milagre. Outra ponta de sorriso, que também foi depressa dominada, se manifestou ao imaginar o que diriam dele na manhã da prodigiosa benção quando o andar capengante não mais lhe açoitasse o corpo, e, alinhado como um valete de baralho plantasse ao pé da familiar mesa do café. “Quem te fez tal coisa menino, quem te engordou a outra perna?”, seria a fala de sua pasmada família, mais especificamente do pai, um crédulo descrente em milagres. Talvez espanto maior fosse no colégio quando, de propósito se faria de perdido nas horas, dentro do prazo de tolerância para não arruinar a surpresa, pediria educadamente licença como se nada de novo se passasse e cruzaria a sala todo endireitado no andar para tomar seu cativo assento no excludente lugar de hábito. “Não é este o filho do José Maria, e não está ele a arrastar a finura de uma perna entre nós desde sempre?”, seria uma das inquirições entre salas, corredores e recreios da escola.
Entre trabalhadas imaginações, todas incompartilháveis devido à admiração que queria causar entre todos os que, de bem ou de mal, eram membros de seu convívio, foi ele atravessando o dia, sentindo a mão da natureza como um protetor símbolo da fé.
À hora em que o crepúsculo descia sob um vasto céu de crença sentiu-se indizivelmente triste e só como a tarde que morria. Testemunha de sua dor, as últimas horas pareciam também tremer de sofrimento. Enquanto o resto da tarde fugia do firmamento, a noite em que seu drama fúnebre teria a possibilidade de se tornar melancólica lembrança avançava escondendo em suas entranhas todas as chances de qualquer poesia. No seio da verdade em breve se deitaria, e sua vida até aquele momento estaria concentrada numa elaborada petição, e, dependendo do desfecho, pela manhã ou sentiria saudades do crepúsculo que descia na tarde anterior, mesmo sendo de um irresistível desencanto, ou fecharia enfim o capítulo da tragédia de sua dolente vivência.
À medida que o começo da noite se anunciava, um receio foi lhe enchendo a resumida vida que até ali puxara. O nosso Senhor, aniversariante da noite não carecia de presente algum, uma vez que tudo lhe havia sido dado pelo Pai havia muito tempo. Agora, como Joselito acreditava, não com tanto empenho como um dia antes, era Ele, o nosso Senhor, que distribuía presentes em forma de milagres, ou como alguns preferem chamar, concertos físicos.
O fogo pede prova da fé. O tempo cobra permanência da crença. A não concretização do milagre exige ainda bom testemunho.
As comemorações ao aniversariante seguiram por um pouco noite adentro, não era de costume da família as desnecessárias comilanças. Como de habituosa tradição familiar cearam, se felicitaram com saúde e paz, rezaram as graças do Pai nosso e pronto, fecharam-se as felicitações. Estava entendido que a cama era a próxima e última parada da noite. As benzeduras da noite, sem as quais nenhum dos outros quatro irmãos, contando com ele cinco, se aquietava entre os colchões, foram particularmente ministradas com atencioso acatamento pelo pai José Maria.
Joselito prontamente se esquentou no leito, aquietou-se por fora, agitou-se por dentro. Chegara a hora da aguentada prece ser soltada. Provido das palavras da admoestação do domingo, pediu um pouco de perdão por ter vacilado à descida do crepúsculo quando o receio o levou a amuar em algumas desconfianças. Mais leve, menos descrido, entoou a prece que guardara ensaiada em protegida quietude, incubado-a em seu meniniço coração. Nada exigiu, com prudente instrução só um milagre, ou concerto físico, foi o que pediu. Expôs sua indigência, queria depor sua vergonha. Sentiu-se ouvido quando, inativo, foi continuar-se em adormecidos sonhos. Nada mais sentiu do mundo além da cama que lhe acoitava a sonolência.
Na beira da manhã, a alma pareceu despertar primeiro, descolando-se do corpo com as primeiras rajadas de luz levemente azuladas das sobras da noite. Esperou, olhos semi-cerrados, a alma recolar-se de novo ao corpo. Da cintura para baixo não cogitou esticar preguiça, cautela era de tudo um pouco, temência, ansiosidade, expectação; imensidão de um intérmino suplício. A medida de todo o seu existir ou des-existir a seguir, concentrada ali no forrado leito. Ou o outono infeliz que ia bem longe, ou a primavera que já vinha perto. Acordado para a vida, permaneceu intermináveis minutos concentrado em si, entorpecido na tremenda aridez de uma inclemente espera. O lençol que encobria as ocorrências da noite, que assegurava a justeza da aflição que se passava, demorou-se a ser jogado. A perna que não se arrastava criou coragem, lançou por terra o pano encobridor dos fatos.
Na falta de coragem para olhar pra baixo, olhou. Depois de constatar o que não se passara durante toda noite sentiu saudades do crepúsculo que descia na tarde anterior, mesmo sendo de um irresistível desencanto. Logo logo molejou-se escada abaixo, chegou-se à beira da familiar mesa do café atrasado de um lado do corpo, adiantado de outro, e falou muito baixo, “não foi nossa culpa, nem minha nem Dele”, tomou acento, beliscou num pão, bebericou num leite, e aperfeiçoou o que não disse, “apenas uma coisa me convém: sempre ler e reler sempre, essa novela que promete ser imensa, desde a tarde que cede, o céu que desmaia, o sol que declina e tomba, ensanguentando a crista das montanhas”.
Aquilo transbordou realidade na mesa. Um silêncio profundo rompeu o ventre das mais sérias ilusões e não houve qualquer um que levantasse dúvidas sobre os porquês das resumidas frases repletas de duríssimas verdades.


Alex Carrari

23 de setembro de 2011

Ada, o amor crepita em teu colo e se enfeita com teus trajes femininos



Suave e bela entremeaste teus caminhos aos meus,
juntou-se à mim desde as roupas até as raízes,
fez-se em meu percurso
o chão que educa meus cravos,
o mar de sonhos onde meu coração navega,
o campo verde onde descanso ao regresso de minhas dores.

Por caminhos aromáticos te dirigiste à minha alma,
obstinadamente aprendeste os passos que à meus recônditos te levaram.
Subjugaste pedras, fumaça, e cipoais flagelantes,
com teu fresco dom da terra.
Formou ao sol tua presença celeste,
abrindo em meu coração um caminho queimante.

Como um bom proustiano, em minha economia de vozes,
revivo o passado recente, recordando em meu coração
tua irascível fragrância invadindo meu território
como um viço ramo de sombra no mais alto calor do dia,
um silencioso fio d’água que rega meus secos veios,
uma espessa gota de mel que me adoça a boca e o sangue.

Teu coração florescido, teus olhos verdadeiramente vivos,
teu cabelo ensolarado, teu rosto delicado qual vidro polido,
tua voz terna como plumas de paineira,
são a multiplicação do meu universo.

Amo-te como o pedaço de terra que tu és.
És toda a minha geografia, onde quero percorrer todas as minhas andanças.
Teus traços marcam minha noite como as linhas da face oculta da lua;
Sutil, transparente, percebidas somente sob muita atenção e cuidado.

Por tua causa em meus sonhos não sou mais um menino perdido,
não sofro mais sem primavera.
Sou-te grato por me salvar em teu espaço cintilante,
espaço cavado pelos ventos de tua virtude,
onde ainda consumo tuas pétalas envolvido pelos poderes do teu ar,
todo invadido por tua deslumbrante claridade interna.

O amor não pode jamais voar sem que tenha de se deter
aqui ou ali para alimentar-se de beijos profundos.
Ada, o amor crepita em teu colo e se enfeita com teus trajes femininos,
onde nossas duas vidas têm da natureza aquilo que sobrevive com tanta força pura;
inquebrantável vontade de que as campinas em que sempre nos achamos
guarde o pequeno infinito que sem trégua acumulamos,
eu em março você em setembro.

Em tua extensão viveremos a permanência do amor,
Até a extinção do ardor em nossas veias.
Até quando nossas mãos se esquecerem de voar e dormirem,
até quando nosso peito se deter e nossa boca ficar sem palavras,
até quando mudarmos de forma, virarmos grãos cambiantes.
Até tudo isso acontecer vamos nos amar no tempo
como ondas espumantes, sopradas espumas flutuantes.


Alex Sandro Carrari




12 de setembro de 2011

Inquirições: No caso de a fé não existir



Parece insensato, provocante, mero capricho, mas tenho que dizer; nesse caso, acho que fé, ou isso que chamamos fé, não existe. Caso exista, João Batista é o mais infeliz dos homens, pois, francamente – e não sem amargura – desconfia de suas próprias e certeiras previsões. Forçar o coração a admitir como verdadeiro isso ou aquilo, e como falso o que não seja isso ou aquilo, é o que frequentemente classificamos como fé, mas que não faz qualquer sentido. Para no caso desse resistente herói das desérticas paragens, a fé não existir, é preciso que haja um sentimento tão elevado quanto, que preencha esse vácuo cheio das impressões do desamparo, que pode inclusive matá-lo por inanição espiritual – e ele sabe disso.
Enquanto a Galiléia celebrava a chegada do amado de Deus, o afamado filho de Davi, em sua prisão de Maqueronte, João, o triste João, esgotava-se entre quiméricas esperas e refreados anseios. Os ecos do sucesso daquele que pouco tempo atrás estivera se encurvando diante de si nas corredeiras do Jordão, e que ele próprio apontara publicamente como “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, chegaram até ele. Junto desses ecos a desconfiança, não de que ele talvez não fosse, mas de que, podia ser que fosse “o que há de vir”. Querendo saber da veracidade das coisas que ouviu que davam conta de que o Messias anunciado pelos profetas, o que resgataria Israel, havia chegado e que este poderia ser Jesus “o Cordeiro”, deu missão a dois membros de sua seita.
No auge de sua fama, desempenhando feitos notáveis, Jesus é achado pelos dois discípulos, que ao notarem o ar de festa em torno dele, ficaram deslocados e surpreendidos. Acostumados a uma vida de rígido ascetismo, jejuns, orações, purificações, os dois encontraram um Galileu assíduo freqüentador de festas, que agradava seus ouvidos com boa música, seus pés com danças e o estômago com boa comida e os melhores vinhos. Na hora oportuna transmitiram a mensagem de seu mestre: “Tu és o que há de vir? Devemos aguardar outro? " Jesus, que a essa altura compreendia sem hesitação seu papel de Messias, não deu resposta categórica, porém, convocou o confuso profeta a fazer uma avaliação dos feitos que, em seu entendimento, assinalam a chegada do Reino de Deus entre os homens, pondo em ordem suas obras, seu indiscutível desempenho; cegos vendo, coxos andando, leprosos sendo purificados, surdos ouvindo, mortos ressuscitando, e pobres recebendo o evangelho. Alguém que ouviu essa conversa escreveu alguns anos depois que Jesus acrescentou: “Esta é a resposta que ele não espera, mas que devem levar ao mestre de vocês”. E delicadamente envia à João também uma aguda advertência: “Bem-aventurado é aquele que não encontra em mim motivo de tropeço”.
Se o recado chegou aos ouvidos de João a tempo antes de ser executado ninguém sabe. Se chegou, não temos qualquer indicio de sua reação. Teria ele morrido consolado com certeza de que acertara quando da indicação do “Cordeiro de Deus” à beira do Jordão? Quando a espada mirada na nuca e a bandeja no peito estavam para selar seu destino, teria ele se tranqüilizado, certo de que aquele a respeito de quem ele sentenciou “o que há de vir”, realmente veio? Ou teria conservado suas dúvidas sobre a missão de Jesus, morrendo inquieto na indômita solidão da suspeita, ansioso, querendo crer?
Como pode esse mensageiro, que era ninguém menos que Elias ressuscitado – segundo uma crença bastante difundida – titubear depois de uma assertiva palavra a respeito de Jesus, e este Jesus agora se converter em fonte de suas preocupadas desconfianças?
Sugiro uma saída, e acho que, talvez, pode ter sido essa a única via transitável disponível para João não tombar de vez, cedendo à total descrença. Parafraseando Rilke; e se esse não foi o momento para compreender seu próprio desconsolo e ao mesmo tempo começar a mais valiosa e autêntica produtividade religiosa que, a bem da verdade, não tem em si mesma a capacidade de levar ao consolo, mas à honesta envergadura de dispensar todo e qualquer consolo?
Para, no caso de João a fé não existir, o que existe é o amor.
Tendo ficado marcado na lenda cristã, como foi na realidade, o austero indireitador das veredas, o melancólico pregador de obrigatórias penitências, sem as quais ninguém pode participar das alegrias do Reino de Deus, morre sem ver esse Reino que anunciara com tanta audácia, arrebatado de paixão. Esse gigante das origens cristãs, comedor de gafanhotos e mel silvestre, des-possuído de todos os luxos, esse bruto justiceiro foi, nas palavras de Ernest Renan, “o absinto que preparou os lábios para a doçura do reino de Deus, o degolado de Herodíades que inaugurou a era dos mártires cristãos; sendo a primeira vítima e testemunha de uma nova consciência[1]
Quem se investe da nova consciência dispensa as muitas concretizações, desobriga-se do cumprimento de certas esperanças, pode morrer desconsolado, sustentado somente pelo desejo de crer. João se arrisca a morrer na mais absoluta decepção, caso Jesus não fosse “o que há de vir”. Mesmo assim quer saber se ele é o tão aguardado libertador, ou deve ainda esperar outro. Melhor afundar em rude decepção do que mornar na branda ilusão. João não espera absolutamente o pior, nem o melhor, ele puramente quer crer, “porque aquele que espera sempre o melhor envelhece na decepção e o que aguarda sempre o pior mais depressa se gasta, mas o que crê conserva eterna juventude[2]
Na prisão, no caso de a fé de João não existir e só existir o amor como propus, o que o conserva é um pressentimento acerca de um desconhecido, como tantos outros, que pede para ser por ele batizado, que antes disso já ouvira de sua boca; eis o Cordeiro de Deus... Não pela fé que desaparece quando mais deveria transbordar, mas, pelo amor que o levou a predizer o futuro daquele que seria chamado Filho de Deus, de quem se achou indigno de levar as sandálias, declarando que este que estava para vir, era maior que ele. Por ter se colocado acima do amor-próprio, esse áspero profeta é o mais honorável representante das origens cristãs; dos nascidos de mulher é o maior, declara inexplicavelmente Jesus, não fazendo mais caso de suas ofensivas dúvidas, porque sem amor ninguém nada é[3]. João se esquece da esperança, suspeita da fé, porém, protege sua alma no amor, que desses três sentimentos é o maior[4]. Só o amor tem a potência de fazer alguém querer crer, mesmo contra todas as provas circunstanciais.
Alex Carrari

[1] ERNEST RENAN, Vida de Jesus
[2] SÖREN KIERKEGAARD, Temor e Tremor
[3] 1 CORÍNTIOS 13.2
[4] 1 CORÍNTIOS 13.13

18 de agosto de 2011

Confissões:Meu último encontro com o profeta do Bairro do Desterro

Não houve uma vez sequer em que eu não tive de me redimir, não sem antes me arrepender, de algumas condutas desagradáveis que costumo guardar em profundas reservas por um tempo que aferradamente acredito ser indeterminado devido à minha sensação de onipotência e controle sobre fatos e feitos que só a mim – ao menos é nisso que confio – dizem respeito. Sempre em débito comigo mesmo e com mais qualquer alguém, dissimulando ser quem poucas vezes eu na verdade sou, evito com todas as forças possíveis qualquer encontro, de qualquer natureza, com o profeta do Bairro do Desterro. Alojado sempre e provisoriamente em Ebenézer*, lugar onde fui – e ainda sou invariavelmente – recuperado de minhas covardias e omissões, ele pacificamente aguarda meus retornos, sem qualquer surpresa, mesmo que me pareçam tardios e descabidos. Para ele não há tensão entre minha demorada volta e os tempos que o Eterno decretou para tais retornos – é nisso que ele confia.
Em quatorze anos jamais fomos, nem eu nem ele, confundidos quanto a meus estados de alma e ânimo. Mesmo que se trate de duras inquirições de sua parte na maior parte do tempo, suas perguntas convencionalmente elaboradas com arrojada sutileza de vocábulos, em todos os casos são sempre a resposta que eu deveria ter dado a mais tempo. Desses inadiáveis encontros que, por motivos óbvios, sempre relutei e reluto em ter, o último foi talvez o que, com o menor esforço de seu dom, mais inconvenientes verdades me lançou em face, e mais contrição me arrancou do íntimo.
Parecendo estar sempre a minha espera, o profeta, me cumprimentando com a paz do Cristo – costume entre nós – e um afável abraço, não deu prenúncios da chama divina que lhe ardia o peito com as novidades por ele antevistas a meu respeito. Novidades que só são devidamente reveladas caso ele seja divinamente instruído a isso. Sempre me tratando pelo sobrenome, quase esquecido de meu prenome, sabendo que obstinadamente me abstenho do direito de iniciar a conversa, começou com as triviais, mas não despropositadas averiguações, que duraram quase o tempo de beber um chá morno de folha de laranjeira.
“Agora fale você de você mesmo Carrari”. Intimou como de costume e com o mesmo tom solene das anteriores averiguações, tom em nada grave.
Precavido, avantajei-me na exposição das minhas boas razões para um tão acirrado apego aos modos corretos e maneiras aceitáveis de se portar socialmente. Desfilei sofismas piedosos, ninharias sacrossantas, explicando e garantindo minha utilidade secular. Do jeito que argumentei, dei provas concretas de que eu era indispensável, insubstituível para que a freqüência do mundo das coisas fúteis não se desarmonizasse. Habilmente preparei minha rede de impetuosa ignorância complicando-me por, diante de tão elevado espírito, não saber o momento propício de começar a filosofar com viril maturidade; falar precisamente o mínimo. Não é de hoje que ele sabe que minhas preocupações com as aceitações sociais sempre encontraram, e encontram repouso na garantia tramada por minhas mais ocultas intenções; que eu seja aceito como um pouco mais que um hominídeo primitivo individualista, que o máximo que faz para sair de si é levantar manhã após manhã para acalmar as obrigações biológicas, pelejar pelo pão que perece. Assim festejando o trabalho contínuo com que me fadigo diariamente, em que vou me desfazendo no tempo, onde pago penitência à Cronos recebendo o aplauso de todos e o amor de uns poucos.
“Enquanto isso a eternidade te escapa”. Soltou sem rodeios, como se concluísse o que parecia ser apenas minha introdução, como que prevendo a ladainha que eu me ajeitava para desenrolar e me enrolar ainda mais (como sempre). Era um indício de que ele estava farto de meus repetidos pretextos.
“Tuas crenças românticas e metafísicas, tuas posições políticas e intelectuais, teu conservadorismo moral com anos de elaboração e rígida educação, imprimiram em você o excessivo desejo – e talvez seja isso que te traga sempre de volta sob inconsciente contragosto – de retomar uma ilusão espiritual que te engrandeça mais que os demais. Tuas lendas criaram forças sobre ti e os gritos de tua fé guardaram bastante sonho e poeira. A poeira se expressa no que você vem sendo, e o que você vem sendo arrasta tua alma inteira sobre uma vasta voragem de desencontros onde deverias te abster da fala e tecer teus silêncios, mas não o faz.
O tempo não dura muito a passar. O tempo está sempre prenhe, à espera de quem o descubra como curtida matéria de vida pronta à ressurreição das coisas. Não ceda jamais à idéia exagerada de decretar que tudo o que é aparente, sensível e provisório, seja excessivamente ruim. Receba as tardes que vêem leve sobre as coisas como um agrado do tempo onde naufraga tua memória. Estes são parênteses inefáveis; a contemplação da eternidade no que lhe é próprio, o movimento do mundo. Você Carrari, ainda não aprendeu a perceber essa eclosão da mais pura beleza que burila bem no centro das paixões efêmeras. A eternidade te escapa porque não atentas para suas mutáveis frações que se transfiguram em graus de perfeição aqui e ali, nas coisas mais cálidas e voláteis. Pior que isso, arrasta teus dias como um fardo de sensações proibidas e mortas”.
A essa altura resolveu citar um trecho de um poema que disse não se lembrar de quem era, mas que mais tarde fui saber que era do Caeiro. Solícito, pediu-me para repetir com ele no compasso de um credo, prometendo que depois tomaríamos mais um chá:
Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivesse pisando...
Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...
Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E que tivesse só o céu por cima e a água por baixo...
Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...
Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...
Nesse intervalo desértico de tempo teve início a cunhagem de um elevado diálogo espiritual. Entre nossa grandiosa solidão não havia nenhum pensamento barulhento para me facilitar as coisas. Entre nossas vozes dispersas o vento se erguia estalando os sinos, oscilando entre a vida e o que era quase isso. Era quatro horas da tarde, enquanto os elementos da criação ganiam em alta voz, um eco de uma luta confusa me chegava, banhando minha face em lágrimas.

*Desafio Jovem Ebenézer (casa de recuperação para dependentes químicos onde fiquei internado entre meus 22 e 23 anos)
Alex Carrari

27 de julho de 2011

Temos grande urgência em aprender a morrer


Aprender a morrer constitui-se todo o ensino que poderemos alcançar a respeito da vida. A morte maturada, a longevidade arduamente treinada, consequencia de uma vida bem cumprida sinalizada por alguns feitos, uns grandes, outros nem tanto, pede-nos humildade para nos reconhecermos pequenos diante da sua grandeza. E assim quem sabe, ao nos retirarmos do mundo, exausto de tantas presenças, o façamos com nobreza e com a mesma mansidão com que nascemos (talvez a morte seja um outro nascimento como já versou o poeta).
Temos grande urgência em aprender a morrer lentamente após cada entardecer percebido com assombro e reverência. Não digo morrer como quem renuncia à vida ou dela se abdica com devotado abandono, que seria o contrário de qualquer aprendizado, e não haveria aí lição alguma. Renunciar à vida não traz nenhum aprendizado sobre a morte, que é de um valor tão esplêndido e indescritível que até mesmo Deus dela experimentou, sorvendo-a intensamente (talvez com certa curiosidade). Ele, que antes do silenciar de sua carne aprendeu a morrer todos os dias, pôde enfim permitir, sem culpa, que continuássemos a ser afligidos pelo mais absurdo dos medos cultivados, a hora em que a resistência da memória será posta à prova e então, tarde demais, saberemos se o esquecimento se aloja onde a carne silencia, ou se, de acordo com minha educada intuição, preservar-se-á de alguma outra forma até aquele dia.

Aprender a morrer é também ensaiar despedidas.

Despedidas são uma espécie de abertura num mundo de tantas invenções e prodígios como este que particularmente arquitetamos no curto espaço entre um respirar e um espirar divino, instante em que vivemos que designamos como existência pessoal. Todas as despedidas são em si a mesma coisa, apenas lhes damos diferentes nomes para que a experiência pareça sempre outra, e a dor não dê impressão de encher-nos o peito. Essa existência pessoal não teria o devido valor caso não fosse a justeza e o rigor de sua curta duração. O prazo de cada vivência é repleto de desconfianças contra toda dor, e de intermináveis esperas por um tempo que parece se distanciar cada vez mais, que seja mais fecundante e adequado à eternidade que tanto se demora. Uma pulsão sagrada (algo que é peculiar a nós, os que reconhecem por demais o aqui) deita sua arejada sombra sobre tudo o que consideramos digno de que não participe das comuns e inevitáveis partidas, nos impelindo à resistência contra o acúmulo de desconfianças e esperas, alentando-nos o espírito no momento em que a eminência e o prenúncio de tantas perdas se achegam.

Quem, o quanto mais reconheceu o aqui e tanto mais se amasiou dos entardeceres, mais terá de acostumar-se, enquanto aqui, às despedidas que ao longo da vida forçosamente fará, até que a última de todas as despedidas, a sua própria, não terá como acompanhar, já não mais será encontrado entre os vivos.
A morte, essa ocorrência, a mais colossal de todas as ocorrências não esclarecidas, empurra-nos para o mais fundo da vida e exige-nos o cumprimento da mais admirável tarefa; acatar sem hesitação as mais íntimas experiências de perda, ou morte que seja, que se verga sob a gravidade de uma má suspeita. Delimitada com meios e medidas, a morte, formidável e ricamente ilustrada, se encarada com gravidade, nos parece ser a maior parte desse Todo que nos confunde com infinitas transformações necessárias, nos impondo seu ritmo soberano sob a névoa das mudanças, organizadas pela transparente graça que paira onde é decantado o sacro-santo sopro da vida.

Mesmo que tenham direito a existir, as concepções cristãs de um além, junto com outras hipóteses da periferia divina, são consolos que se demoram demais ao coração. O coração esquece pouco, e os consolos nele não encontram abrigo caso estes sejam inalcançáveis para o momento, o instante entre um respirar e um espirar divino, em outras palavras, o aqui.

Supondo que pudéssemos dominá-la – como de praxe supomos em relação a quase tudo – acreditamos que a morte em sua essência mais íntima fosse contrária a nós. Nos esquivamos – como se pudéssemos –, do dever de admirar a organização da vida e seus fundamentos que Deus nos confiou e que decerto sempre esperou que dele nos valêssemos em cada posição provisória dessa trajetória cuja curva vertiginosa seguimos sem contudo nos determos em parte alguma.

Alex Sandro Carrari, data de nascimento: 1 de março de 1974...



19 de julho de 2011

Por causa do nome que Lhe deram

Quando os homens nada sabiam acerca do movimento do mundo e por isso se remoíam em medos justificados, Deus era uma enorme Presença sem uma palavra que lhe desse nome e o colocasse como coisa entre as coisas. Experiência extraordinária e experiência ordinária não se opunham tampouco uma substituía outra, e todo o conhecimento que os homens, grandes ou pequenos adquiriam, caía sempre em Sua esfera de poder e inescapável realidade. Havia metafísica demais em tudo.
Com Rilke, aprendi que todas as expressões de todas as línguas se baseiam em convenções sociais. A palavra “Deus”, que em termos de identificação e formalização de Sua essência, não pode pretender dizer coisa alguma, também resultou de uma dessas tantas determinações que afinamos e com empáfia repassamos para o tempo que sempre virá depois de nós. Deus - antes mesmo que alguém, por medo ou descuido, quisesse Lhe capturar por uma palavra qualquer -, continha tudo, de modo que ninguém havia capaz de nomear coisa alguma, nem reconhecer qualquer uma que não fosse um efeito de Seu Ser. E um efeito de Seu Ser era um mistério tão elevado e suficiente que não precisava que alguém pensasse a respeito.
À medida que as coisas começaram a ser nomeadas e tudo passou a ser chamado por alguma palavra que pudesse identificar “isso” como “isso” e não como “aquilo”, em passo acelerado as coisas nomeadas começaram a cair para fora de Sua esfera de poder e inescapável realidade.
E Deus também passou a ser uma palavra; a palavra “Deus”. Aos poucos o mundo foi se despossuíndo da enorme Presença por traz dessa palavra. Quanto mais as coisas se tornavam palavra, mais Ele deixava de ser dono da obra de Suas mãos, ficando um pouco desta estranhamente a Seu serviço, como instrumento da educação pela pedra ou pela faca, com a qual ensinava à Suas criaturas o que Dele ia sobrando; a invisível lei moral somente.
Este é o início, arrisco dizer, do fim da constituição íntima das coisas e do sentido íntimo do universo, e o começo das dicotomias entre os verdadeiros e os falsos, o sagrado e o profano, o aqui e o acolá, a alma e o pó, a única vida que nos cabe e a que cogitamos ainda nos pertencerá. Neste exato momento decaiu a comunhão com os olhos e pelos ouvidos, de que falou o Pessoa, quando a vida ainda era toda uma oração e uma missa, e não carecia de crença que a justificasse. Quando Deus se transformou na palavra “Deus”, os homens passaram a saber mais Dele do que Ele de Si próprio, e as orações começaram a ser efetuadas à olhos fechados, pois, Ele não estava mais nas flores, nas árvores, nos vales, no sol e no luar, que viraram coisas que distraíam a atenção e nada sabiam a Seu respeito. Um constrangimento colou no espírito humano, fazendo-o deixar de gozar demasiadamente e sem culpa, as aparências e as sensações.
Em bem pouco tempo Ele já não possuía quase nada, e Seus predicados e atributos, antes reconhecíveis através do movimento do mundo, começaram a formar parte do acervo de seus antigos feitos, mas nada que acentuasse Sua influente Presença enquanto efeito, a um bom tempo extinta por causa do nome que Lhe deram. Ele começou a desaparecer devido aos pensamentos a Seu respeito. Nietzsche intuiu que os pensamentos sobre Ele o mataram. Não lhe deram crédito e o trataram - e ainda tratam - como um deicida que deveria, ele sim, ter nascido morto.
Quando restava muito pouco daquilo que um dia Ele havia sido, estando praticamente irreconhecível, o Estado e a Igreja reuniram para Ele algumas qualidades de utilidade pública que agora ninguém pode tocar, fazendo-O ficar em débito com ambos (Estado e Igreja). Com isso, encheram-No de significados e esvaziaram-No de existência própria, que para não se dissipar por completo permanece sendo invocado como um nome, uma palavra, que é o pouco que Dele pode ainda ser visto, ou lido.

Alex Carrari

14 de julho de 2011

Jesus: A revisão da identidade de Deus

Peço as mais sinceras desculpas aos amigos humanistas, os quais tenho na mais alta estima, que entendem ser o homem o protagonista da Bíblia. Permitam-me discordar e afirmar o contrário: Deus é o grande protagonista apresentado no sacro texto. A Bíblia é a biografia de Deus. Peço as mesmas sinceras desculpas aos amigos protestantes crentes ou somente protestantes, que igualmente estimo - que podem pensar que, embora tardiamente, estou me redimindo dos últimos escritos doutrinariamente escorregadios -, pois, quero fazer outras duas afirmações: Há um manifesto conflito na natureza divina, e o que consta no Novo Testamento é o registro da revisão da identidade de Deus.
A questão da imutabilidade de Deus choca-se com o fato inegável constatado no Antigo Testamento de que há em sua personalidade traços contraditórios, ao mesmo tempo em que se afirma que ele é o mesmo sempre e que sua natureza é invariável. O monoteísmo cristão ao tentar suprimir a incômoda tensão dinâmica no interior da divindade expressa pelo monoteísmo judeu, parece acalmar somente quando dissolve esses traços contraditórios e a notória mudança frequente do temperamento de Deus, na evidência de serem os registros originários de diferentes fontes antigas. A saída da crítica histórica para suavizar esse conflito e não desconsiderar totalmente o Antigo Testamento, foi explicá-lo através da referência aos vários autores que, ao empunharem a pena, carregaram a escrita com suas visões históricas pessoais. O que mais parece um politeísmo construído com muitas partes sob muitas mentalidades, e não há quem tenha argumentos suficientes para refutá-lo.
O conflito na natureza divina, para ser observado como tal, não deve ser analisado, tampouco descrito, através das conclusões da sistemática. Antes, deve ser considerado como demonstrado pela própria narrativa em curso, em que a personalidade de Deus aparece em progresso, como reação ao longo percurso palmilhado com os hebreus, de forma mais estreita, e com o resto do mundo, de forma mais ampla.
Uma personalidade ainda mais complexa do que a do Deus Único do Antigo Testamento emerge com Jesus no Novo Testamento, também no curso da narrativa. O Deus que não se insinua mais através de vapores, raios e imponentes eventos, o Deus encarnado encontrado na forma humana, Jesus de Nazaré, agora reivindica lentamente em sua passagem por estes campais provisórios, todas as funções que no passado foram desempenhadas por intermediários humanos. Ele é, de uma nova maneira, Adão, Moisés, Davi, Elias, Jonas. À imagem de Deus é o primogênito de uma nova criação. O cumpridor de toda a Lei que divulga uma nova Torá. O inaugurador de um novo Reino, um Reino que não é desse mundo, nem de visível aparência. O operador de milagres que antevê o desenrolar da história até sua consumação. O único que sobe plenamente vivo e consciente da morada dos mortos depois de três dias morto.
A palavra de Deus que antigamente fora proferida por intermédio de outros, agora se fez carne e armou sua tenda entre nós.
Como se não bastasse um conflito na natureza de Deus, Jesus não só os tem como também os torna mais graves ao falar hora como Deus, hora como homem, dando de sobra referências textuais para quem deseja diminuir a tensão ao falar em duas naturezas habitando, cada uma com sua função bem definida, um mesmo ser. A crítica histórica tenta enfraquecer a crise, ao falar de diferentes Jesuses, maquiados por diferentes autores, para obterem retorno de diferentes ouvintes.
Ao ser reconhecido como o protagonista dos Evangelhos, o Deus encarnado traz consigo as lembranças da vida anterior de Deus, sua relação com o povo de Israel, tudo o que o povo lhe fez bem como tudo o que ele fez ao povo. O Deus que esteve aqui antes por meio da sua Shekinah, mas que silenciara por cerca de quatrocentos anos parecendo ter se retirado do mundo, agora está de volta como Deus Filho e cada esperança que um dia fora infundida na memória e tradição dos judeus é transferida para Jesus, que elimina algumas e incendeia outras.
Barnabé escrevendo aos Hebreus declara que tendo Deus antigamente falado por intermédio dos profetas, Jesus é quem em seu tempo deu o timbre definitivo à voz divina. Jesus é a palavra de Deus em pessoa. Se Jesus é a palavra de Deus o contrário também é verdade, as palavras de Deus proferidas anteriormente também são palavras de Jesus. A afirmação do evangelista de que Jesus era Deus encarnado, nos leva a crer que tudo o que ele faz, ensina, e sofre, é tudo o que por Deus é feito, ensinado e sofrido. Se não adotarmos a saída fácil proposta pela crítica histórica e tivermos fé nas palavras do Deus encarnado como palavras do Deus do Antigo Testamento, seremos levados a crer numa irônica revisão da identidade divina percebidas somente em progresso na narrativa. Jesus é, na forma mais improvável possível, o resultado dessa revisão.
Mas por que Deus agiu assim? Por que ele se fez homem? Mais ainda. Por que ao se tornar homem ele escolhe se tornar o tipo mais desprezível? Por que afinal de contas um leão resolve se comportar como um cordeiro?
Comparado a uma enorme fera devoradora no Antigo Testamento, um Deus que foi capaz de aniquilar sem esforço o maior exército-império do mundo antigo, por que agora se tornara um carpinteiro de vida comum que acaba seus dias com pouco mais de trinta anos como um maldito, trocado por um bandido e agonizando até a morte entre outros dois numa cruz?
O papel sacrificial que Jesus assume deixa seus discípulos perturbados, Pedro até tenta aliviar o pessimismo do mestre em relação ao prognostico que faz sobre si mesmo, e é repreendido como um Satanás por esse descuido. De início Nietzsche certamente teria concordado com Pedro e teria achado a encarnação como sendo o grande azar que se abateu sobre o Senhor dos Exércitos. Ao refletir um pouco mais, o dionisíaco Nietzsche capta melhor do que nós, apolíneos devotos, o significado da palavra da cruz que é loucura.
Deus ainda tem algo inconcebível a dizer sobre si, que só pode ser dito humilhando-se a si próprio. Para não destruir a esperança o Senhor de Toda a Terra arranjou um meio para ser ele próprio sentenciado à morte, não como qualquer um, mas como Rei dos Judeus, a assim substituir uma esperança vã que não irá se realizar – sair debaixo do julgo de Roma –, por outra possível de ser realizada. Aquilo que o Senhor dos Exércitos não pode conquistar através do poder das armas ocasionando na inevitabilidade da derrota da nação eleita e sua própria, o Deus encarnado substitui antecipando uma nova esperança, um tipo de vitória que o poder militar não pode conquistar.
A dupla natureza una em Cristo – não duas naturezas de Cristo – tornou possível à Deus valer-se de sua morte deixando expressa a pedagogia da formação de sua identidade, que não poderia ser demonstrada a menos que ele fosse encontrado em forma humana. Se, como Deus ele não pode cessar sua existência, como homem pode provar a morte, tornando dramática a mensagem, que por ser acintosamente violenta não há como ser comunicada em palavras. Derrotado por Roma e sentindo novamente o gosto amargo da opressão que havia experimentado com o cativeiro babilônico, Deus de maneira inesperada e surpreendente transforma a derrota em triunfo quando do rebaixamento a que se submete existir, ergue-se em exaltação no lenho. No gesto do Deus encarnado a ousadia transgressora em se deixar derrotar de uma maneira para triunfar de outra, afronta a mais pudorizada e aparada imagem que dele fazemos. O Deus de Israel, o Senhor de Toda Terra, foi confrontado na forma mais terrível e intensa possível, morrendo nas mãos do inimigo de seu povo eleito ao invés de libertá-lo e salvar-se a si próprio.
Como Leão da tribo de Judá Deus ruge e não pode ser ameaçado nem ser morto, no entanto, como Cordeiro, Deus emudece, é levado ao matadouro, esmagado e morto. No Novo Testamento a biografia de Deus em suas últimas páginas é revisada de forma extraordinária; ele desce às partes baixas da terra, torna-se um ser humano. Como o Deus das Eras ele não sabe o que é a morte, faltando-lhe algo. Para que possa ser completo, ele deve provar tudo com toda a intensidade. Como Jesus ele prova a morte e emerge como o primogênito dos mortos encorpando sua biografia, dando aos homens a possibilidade de se erguerem da morte juntamente com ele, conhecendo a vida eterna, unindo céu e terra, completando-se.
Transformando-se não em qualquer homem, mas neste homem, Jesus de Nazaré, morto nas mãos do inimigo, Deus provoca uma reversão aterrorizante em sua natureza, dando retoques finais em sua identidade, revisando-a completamente desde o início.

Alex Sandro Carrari

4 de julho de 2011

Que uma serpente não decida por nós


Adão e Eva são o Todo Homem e Toda Mulher bíblicos, seu pecado é o nosso pecado
Deixemos de lado Adão e Eva como nomes próprios. Não os tratemos como indivíduos sobre os quais pese a total culpa do primeiro delito. Não pensemos que Adão e Eva eram invólucros de pleno purismo interior vivendo em estado de imperturbada perfeição (A perfeição do homem é a perfeição de uma vocação, não de uma situação, como escreve F. Varillon). Desprendamo-nos da idéia de um primeiro casal exemplar e puro sulcando delituosamente a maçã num paraíso primordial. Desconsideremos que a árvore ocultava uma ameaça. Que o mal estava contido no fruto.
No lugar do casto e ingênuo casal das origens, coloquemo-nos a nós mesmos, com seco realismo, abocanhando nossa mais alucinada ganância, nossa mais ostentosa ambição, nosso mais agudo desejo de dominação.
Como Deus sereis. O prêmio é a conquista imediata da alteridade, o completo desimpedimento da percepção. A árvore não é boa nem má, a ciência é neutra, sua manipulação é que a inclina para o bem ou para o mal. Dependendo da vontade daquele que da ciência se apropria, pode ser que seja inventada a cura para o câncer, ou, pode ser que apareça uma bomba mais devastadora do que a de Nagasaki e Hiroshima. A cobiça gerada no coração, de onde procedem os maus desígnios como dizia o Nazareno, é que antecede a fatídica dentada. O gesto consumado só evidencia a mais ativa e sombria potencialidade que se abriga em nosso íntimo, o mal em estado embrionário.
Convidados a tomar parte na vida divina através do humilde acolhimento, inaugurando alvoradas, fruindo crepúsculos dias a fio no mundo, optamos pela via do rompimento; a negação de nossa humana vocação. Colocado em termos que diariamente arrazoamos sobre seus benefícios, nada mais tentador que inventarmo-nos como Deus. Quanto aos encargos de conhecer o bem e o mal fingimos não saber do que se trata, melhor ainda – e isso limpa a nossa barra – dizemos que tanto o bem quanto o mal pertencem a Deus, e que não nos compete arquitetar sobre o caso. O velho determinismo fatalista disfarçado de piedade.
Tapamos o entendimento para a evidência de que a Bíblia não fecha com a afirmação de ser o homem totalmente mau – totalmente depravado como queria o obscuro legista de Genebra – nem totalmente bom – como querem alguns educadores atuais –, mas que é dotado de ambas as tendências. Inclina-se tanto para uma quanto para a outra. Desconversamos quanto ao relato do Gênesis onde queremos ver uma “Queda”, a escritura não classificar, e não dar espaço, para compreendermos o ato de Adão como pecado. Parece que o melhor para nossa disposição ao cinismo é não sabermos que na opinião do Pentateuco o homem é dotado de “impulsos malignos”, quer dizer, há em seu caráter uma tendência para o mal.
Fazemos de conta que nunca ouvimos dizer que a expressão que a Bíblia usa para essa tendência para o mal é yetzer, palavra que deriva da raiz YZR, que significa “formar”, “modelar”, algo como o ceramista que modela o barro para fazer um vaso. Que a palavra yetzer tem como significado “forma”, “estrutura”, “propósito” com referência a imaginação. Yetzer, portanto, significa fantasias, sejam elas boas ou más. Não, não levamos em conta que estes impulsos só são possíveis à base daquilo que é peculiarmente humano: a imaginação. Ser bom ou mal é algo dado somente ao ser humano. A questão problema do bem e do mal surge quando há imaginação[1]. Jesus deixa isso às claras quando alerta para o enraizamento da maldade na profundidade de nosso ser, onde fervilham maquinações que quando colocadas para fora revelam o que realmente vai em nosso interior.
Está certo que o homem só desenvolve seu impulso para o mal após ter rompido sua unidade primordial com a natureza e ter adquirido autoconsciência e aprimorado, com malignidade, sua imaginação. Na concepção judaica – que não leva em conta as neuras de Stº Agostinho e Calvino – o homem nasce com a capacidade de pecar, mas pode também voltar-se para Deus e se redimir alinhando seus passos ao desejo divino, sem que para isso precise ser forçado, ou predestinado. A idéia de escolha é fundamental na mentalidade judaica, pois, ela determina quais impulsos o homem vai seguir se para o bem, se para o mal.
Que uma serpente não decida por nós
Não levamos em consideração que o “pecado original” nos termos em que fomos treinados a acreditar se conforma à nossa ociosa falta de atitude e brio pessoal em nos colocarmos em nosso lugar e arcarmos com os desmazelos próprios do nosso ego avultado. Nossa preguiça, e, pouca ou nenhuma disposição para cingir tudo o que estamos destinados a ser, avoluma o débito impagável que Adão e Eva deixaram em nossa conta. Até polimos a expressão do Bispo de Hipona, não por ser coesa com o Sacro texto, mas por ser coerente com nossa anuência em deixar que uma serpente sempre decida por nós.
A noção de “pecado original” como enunciado dogmático provoca em nós uma resignação aliviante ao sugerir que entramos na vida com dois pontos a menos em nosso cômputo, ambos perdidos lá no Éden, sem sequer termos tido a chance de protestar – como se por um acaso fosse-nos dada a chance de fazê-lo fossemos mesmo capazes. No início não queríamos, com o tempo, deixamos de ser homens, falidos e descontentes com nossa sorte, porém, relutantes em assumir nossa responsabilidade pelo que fizemos no passado e pelo que faremos daqui em diante. A sublimação voluntária de nossa responsabilidade e consciência evolutiva do mal que nós mesmos gestamos, fizeram florescer imagens de Satãs e Luciferes heróicos como o de Milton ou patéticos como o de Goethe, tornando o pecado mais interessante e o pecador mais atraente que o santo, embora não admitamos publicamente.
Isolando o dogma, a necessidade de redenção pessoal foi arquitetada a partir da noção de “pecado original” e “Queda”, que não constam em Gênesis, mas para todos os efeitos é dito e ensinado que constam, tornando-se pedras fundamentais sobre as quais foi construída a mensagem cristã de salvação.
O pecado de todos nós e o que estamos destinados a ser
Passivos e trêmulos observamos da coxia, Adão, o homem-pecador em cena, homem-insurrecionário, altivo e rebelde tumultuando o céu, instalando com apenas uma dentada a desordem cósmica como efeito do orgulho que lhe penetrou o coração. (Um início caricatural do mundo, em que Deus cria tudo perfeitamente e o homem abala essa perfeição introduzido o caos e a desordem). Daí as imagens de auto-afirmação – a cobiça de Adão no Éden ao pé da árvore da ciência – seguidas de sexo desordenado – fora dele quando foram expulsos – que povoam nossa mente quando pensamos no pontual primeiro delito e em sua extensão; e viram que estavam nus. Não por acaso, no imaginário cristão, o primeiro casal só foi conhecer o sexo após a "Queda" e a expulsão do paraíso. Uma definição prometéica do pecado, que nas obras de T.S.Eliot começou a ser redefinida.
Eliot expôs um mundo de lume fosco acinzentado, habitado por homens ocos e empregados de aparência débil, diagnosticando a verdadeira doença de nosso tempo, enquanto que nossa geração avança manquejando, não para sua realização, mas para o queixume e o tédio. Becket nos apresentou personagens que lançam olhares apreensivos das latas de lixo e dos montes de sujeira, onde chafurdam inertes e impotentes, trocando palavras desconexas e banais. Kafka nos fez apavorar com a parábola do ordinário empregado de escritório cuja primeira reação, ao ver-se transformado num terrível inseto, é calcular se ainda dará pra chegar a tempo ao trabalho. No século XXI a figura prometéica perdeu lugar na cena, que foi ocupada pelos fracos, passivos e trêmulos observadores da coxia.
Ao localizarmos a “Queda” com excessivo rigor na história do fruto proibido, nublamos o entendimento para o verdadeiro gerador do pecado no homem que consta, por exemplo, na paulada criminosa de Caim em Abel, na arrogância religiosa da Torre de Babel, na tentativa de homicídio contra José; a recusa do homem em viver em reciprocidade com seu próximo, compartilhando a terra e dividindo seus frutos e conquistas. O primeiro pecado humano não é um pecado de orgulho, é um pecado de condescendência. A má ação original de Eva – que representa o Todo Homem e Toda Mulher – não foi comer o fruto, pois, antes mesmo de esticar o braço e apanhá-lo seu coração já o havia cobiçado, renunciando a sua posição de domínio sobre si e responsabilidade sobre seus atos. A má ação original de Eva foi deixar que uma cobra lhe dissesse o que fazer.
A meia verdade da mítica serpente, não por acaso fálica, se confirmou, não morreram eles e não morremos nós ao comermos da árvore. Não se trata dessa morte que, acossados, tanto fazemos questão de desconversar. Não se trata desse nosso medo mais acirrado. Trata-se de outro tipo de morte. Da morte antecipada, da morte provocada, da vida abreviada, do fôlego extinto ao meio dia, das primaveras corrompidas. Asseveramos com tanta ansiedade a inauguração da morte física como um castigo divino, que ofuscamos o brilho de nossa mais fulgente virtude, emanar as qualidades invisíveis do Eterno antes que se rompa o fio de prata. Ambicionamos ser iguais a Deus sem acolhe-lho, então negamos, suprimimos, rejeitamos nossa humanidade, nos desumanizamos no processo; deixamos de ser homem. O homem é a criatura que está destinada a realizar seu próprio destino através do acolhimento do divino. Quando cede esse direito de decisão a outrem, e opta por não acolher o dom da reciprocidade divina, deixa de ser homem, se torna desumano.
O pecado que convencionamos chamar de “original” não é o pecado apenas de um, ou dois indivíduos num estranho e longínquo Jardim de Delícias, antes, é o pecado de todos nós na secularidade das nossas vidas, porque todos pecaram. No egoísmo somos solidários em pecado com o genérico Adão, para a morte. Na reciprocidade somos solidários em santidade com o Cristo ressuscitado, para a vida. O apático esquivamento de nossas responsabilidades, nossas decisões pessoais transferidas a outrem, a alienação de uma vida de harmonia com o semelhante, a passividade diante das varias expressões da maldade, a negação da nossa humana vocação; eis o pecado em sua origem. Eis o pecado original.
Alex Carrari

[1] Erich Fromm, O ESPÍRITO DE LIBERDADE, p 128-131