8 de novembro de 2014

Nas letras das palavras que escreve o poeta espraia seu eterno sangue






O poeta escreve que acredita na existência do instante
e que a vida toda de antes e depois
se passa nesse desprezado fragmento voante,
e que nesse desprezado fragmento voante
ele existe passando apressado
tentando de tudo para contar a si mesmo
uma história feita de demorados desejos
e breves consumações,
arriscando acolhida para a alma em paisagens já perdidas.
 

Que destino estranho esse
de ficar nas palavras.
Que modo incomum de atualizar o impossível
e contar uma verdade sobre a vida
que somente ele sabe;
que todos os modos de expressão,
do riso ao canto,
são distrações temporárias que cuidamos em praticar
para desviar nossa inquietação com a morte.
(o poeta nos joga essa verdade em face)


Inquietação com a morte  
é o que disfarça em cada linha de sua crença.
Das palavras que escreve não sabe,
em que paragens irão se instalar,
só sabe que nelas fica e delas passa.
Nisso o poeta considera a fatalidade de seu dom,
que sua necessidade de escrever é um prelúdio à morte
e uma desesperada tentativa de não ser esquecido;
de uma maneira diversa, viver para sempre.


Nas letras das palavras que escreve
o poeta espraia seu eterno sangue
dissimulando sua aflição em crer no instante
e saber, sem rodeios, que dele apenas as letras dirão
palavras que ele de fato existiu, pois,
que a vida é uma conquista árida,
apenas uma abreviada lembrança de um
sonho interrompido no justo momento em que
transfigurava sombras em beleza transitória.

As palavras que escreve são nada além
de breves siluetas esguias sobres linhas fugidias
procurando espaços no branco de uma vida de papel.


 Nas linhas dessa abreviada invenção
escreve o que pensa da felicidade e o que sabe da tristeza
até que lhe acabe a palavra e perca o rumo da mão,
e seu corpo, entre o sol e a terra,
diga o adeus que lhe faz estremecer a caneta.


Sereno e aflito, lacerado por seu dom,
tendo em seu redor tanta coisa e nada,
para o poeta o mundo é um vagabundo de bela aparência
que o confunde com o pó do chão sobre velhos móveis.
Com uma razão genérica,
sua perseverança está em escrever
sabendo que as palavras são sempre sua última queixa
a nutrir uma terra de plenitudes que seu verso não alcança.


Alex Carrari


9 de outubro de 2014

A kenosis, ou, o peso da carne



Em Asas do Desejo, um dos, se não o mais belo filme de Wim Wenders, dois anjos, Cassiel e Damiel, observam um casal no embalo romântico de um beijo envolvidos em uma suave atmosfera de paixão terrena. Damiel, que tem cogitado sobre a inadiável necessidade de cair na humanidade, tece observações que vem guardando em perene silêncio em seu peito eterno.
  
“É ótimo ser espírito e testemunhar por toda a eternidade apenas o lado espiritual das pessoas. Mas às vezes, me canso dessa existência espiritual. Não quero pairar para sempre. Quero sentir um certo peso que ponha fim à falta de limite e me prenda ao chão. Eu gostaria de poder dizer “agora” a cada passo, cada rajada de vento. “Agora” e “agora” e não mais “para sempre” e “eternamente”. Sentar-me numa mesa de jogos sem dinheiro, ser cumprimentado. Toda vez que participamos foi apenas fingimento. Lutamos com alguém e fingimos deslocar o quadril. Fingimos pegar um peixe. Fingimos sentar nas mesas, beber e comer. Fingimos ter cordeiros assados e vinhos servidos nas tendas do deserto. 
                                      
Não, não preciso ter um filho ou plantar uma árvore, mas seria bom voltar para casa após um longo dia para comer com o gato Philip Marlowe. Ter febre, dedos pretos por causa do jornal. Não vibrar apenas pelo espírito, mas por causa de uma refeição, pelos contornos de uma nuca, de uma orelha. Mentir descaradamente. Sentir os ossos se movendo enquanto caminho. Supor em vez de saber sempre. Poder dizer “ah”, “oh”, “ei”, em vez de “sim” e “amém”. Sim, poder se empolgar com o mal, atrair todos os demônios da terra e sair pelo mundo. Ser selvagem. Pelo menos sentir como é tirar os sapatos debaixo da mesa. Torcer os dedos do pé descalço. Ficar sozinho. Deixar acontecer. Ser sério. Só podemos ser selvagens à medida que formos sérios.
Nada mais que olhar, reunir, testemunhar, preservar, continuar espírito. Manter distância. Manter a palavra”.

Emocionante é o desejo que Damiel tem de “sentir certo peso que ponha fim à falta de limite e me prenda ao chão”, um apelo inebriante por uma existência substancial, uma existência que tenha prova física de que é verdadeira, que os outros a ouçam, os olhos dos outros a vejam e as mãos dos outros lhe apalpem. Nada de abandonar-se piamente no além contentando-se com uma felicidade vaporosa. Esse anjo quer experimentar a textura de uma pele tocando com as pontas dos dedos, sentir o sabor das coisas com a língua toda, cheirar os cabelos de uma mulher e beijar a quentura macia de seus lábios, deslizar o corpo em outro corpo, parecer bobo rindo de bobagens, não se importar em ser considerado cafona ao chorar assistindo um filminho americano qualquer cheio de clichês românticos, deixar acontecer, fazer sem querer, falar por falar, dançar, aquietar, rir, chorar, puxar pra perto, deixar escapar...

Viver uma vida que não acaba nunca não empolga o anjo Damiel tanto quanto a possibilidade de viver sob a limitação exagerada imposta aos humanos, que ele invejosamente acompanha. A questão toda se resume em continuar pairando numa existência perene e ilimitada ou se jogar numa que seja fragmentada e contingencial. Continuar vivendo na primeira significa fazer de conta que é, mas não é. Em contraste, se jogar na segunda, na contingência, no transitório, é se afundar no dinamismo onde a vida acontece de verdade, pois, tem peso. Esse é um existir à maneira humana. Existir à maneira humana tem um peso, o peso das afetações, o peso de ser limitado e transitório, o peso dos riscos, alegrias e tristezas do amor, o peso de experimentar tudo pela primeira e última vez, o peso de nunca mais se banhar no mesmo rio; existir à maneira humana carrega consigo todo o peso da carne.

Damiel acompanha a história, peregrina pelo tempo com os humanos, frequenta as alegrias do nascimento e as tristezas da morte, porém, sempre à distância absoluta, protetora, que separa os dois mundos. Os privilégios que o distanciamento do mundo e das coisas humanas lhe proporciona não é capaz de fazê-lo continuar empolgado com a proteção contra a dor, o sofrimento e o riso que a eternidade na transcendência garante. Ele quer existir de verdade. Existir de verdade é provar o mundo, a vida, com o corpo inteiro, é provar o corpo inteiro. E isso um ser espiritual eterno não pode fazer.
Ao se apaixonar pela trapezista Marion, ele então decide pelo supremo ato, ser humano, experimentar as dores e as alegrias de cada dia.

*    *    *
Anjos e deuses sempre quiseram, por inveja, curiosidade ou compaixão, participar da humanidade, sempre quiseram se ligar aos desejos mais caros aos homens, mas nunca encontraram uma maneira completa de realizar esse ato. O escritor do Gênesis escreve que no começo os filhos de Deus se envolveram com as filhas dos homens, amaram seus corpos, e tiveram filhos com elas. O gregos deram um passo mais ousado, criaram o semi-deus Prometeu, que se compadeceu da humanidade e arriscou a vida contra a tirania de Zeus roubando uma faísca de seu fogo sagrado entregando aos mortais, dando lhes a possibilidade de uma vida emancipada. Os filhos de Deus se apaixonaram pela forma, pelo cheiro, pelo gosto, pela silueta, pela humanidade das filhas dos homens. Prometeu se encantou pelo destino dos homens e quis participar de seu drama, e participou acorrentado eternamente a uma rocha tendo seu fígado comido todos os dias por uma águia.

Os dois mitos querem dizer uma mesma coisa; só experimenta a força, o ímpeto da vida, quem se envolve com a existência à maneira humana. Só experimenta a maneira humana de existir quem aceita o ônus do peso da carne e não se esquiva de suas implicações.

Nesse sentido Jesus de Nazaré é o mais digno exemplar dessa linhagem de deuses e anjos que querem experimentar a vida de verdade. João vai dizer que a Lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade vieram por intermédio de Jesus. Jesus vai dizer que ele é o caminho a verdade e a vida, isso significa que sua vida física, palpável, como escreve João em sua primeira carta, é que confere verdade à sua existência, em outras palavras, Jesus de Nazaré aceita o ônus do peso da carne e não se esquiva de suas implicações: “Tomé, veja as marcas, ponha o dedo em minhas feridas, meu corpo prova que existo de verdade”. A absurda novidade que ninguém esperava era que a verdade habitou a carne e fez Deus sentir o peso de existir à maneira humana, e depois de assumir divinamente seu destino eterno continuou com o mesmo corpo com as mesmas marcas. Por causa de Jesus, Deus tem um corpo de carne que carrega para sempre as marcas de sua humana paixão.  

Encarnando, Jesus está dizendo que Deus não quis mais acompanhar o espetáculo da cadeira do diretor, nem da coxia, ele se envolveu com o mundo da única maneira possível – mesmo para um deus que pode tudo –, mergulhando nas entranhas da imanência e interagindo com ela com todo seu ineditismo. Por isso os outros deuses não são nada, não merecem crédito nem adoração, porque são covardes, a coragem de Jesus é exemplar e nenhum deus ou anjo pode se comparar a ele em envergadura.

Contudo, a cristandade não compreendeu nada dessa envergadura e menos ainda da coragem de Jesus ao tornar-se homem e experimentar a vida à maneira humana. A cristandade reduziu a kenosis a um mero jogo jurídico de pagamento de dívida entre Deus e a humanidade, sendo, exigido o derramamento do sangue de seu filho inocente para pagar pela ofensa do pecado original cometido pelos antigos representantes da humanidade. O que não percebem é que dentro dessa lógica, Deus não tem um problema com a humanidade, mas consigo mesmo, pois não consegue perdoar sem que alguém pague a dívida para só assim acalmar sua perpétua ira. Quem sabe se Deus tivesse ouvido as palestras de Jesus sobre o perdão incondicional, não teria necessidade de arrastar uma vida pura para um fim tão trágico como fez com seu próprio filho.

Deus se alto-esvazia porque está cansado de uma existência puramente espiritual. Ele não quer pairar para sempre, ele quer sentir um certo peso. Deus quer saber como é estar preso ao chão, como é dizer “agora” e não somente “para sempre”. Pelo que nos informam os evangelhos, Jesus não teve filhos, não plantou nenhuma árvore, mas soube como era chegar em casa depois de um dia de trabalho, tirar as sandálias dos pés e estalar os dedos debaixo da mesa, depois se lavar e vibrar com uma refeição. Deus se rendeu às sensações quando Jesus lhe deu a chance de sentir na carne o peso das afetações tipicamente humanas. Jesus proporcionou a Deus a chance de ser selvagem à medida que levava a sério a vida.

Aquilo que a cristandade não compreendeu a respeito da kenosis divina, Slavoj Žižek, um filósofo ateu marxista (que ironia) foi capaz de captar e traduzir de maneira radical:

“Deus se revela num processo radical de auto-esvaziamento, até o ponto em que o amor de Deus pelo mundo resulta no sacrifício de sua própria transcendência, ou seja, Deus sacrifica sua distância do mundo para se tornar um Deus mais pleno. A revelação de Deus deve ser tomada sem reservas, o auto-esvaziamento é absoluto, através de seu auto-esvaziamento o Deus transcendente chegou ao cerne do mundo material completamente destituído da proteção que a distância do mundo lhe garantia” (A monstruosidade de Cristo)

A cristandade piedosa e cheia de tatos com a encarnação não compreendeu a radicalidade do gesto de Deus em decidir entrar no mundo de maneira absoluta e sem ressalvas. Pensar a encarnação como mero jogo jurídico leva a interpretar o sentimento de amor de Deus para com o mundo como um sentimento de dó; Deus teve dó da humanidade, por isso enviou seu filho para salvar o mundo. Enviar, nesse caso, é como se Jesus fosse somente um agente divino passivo, mais ou menos como os mensageiros do Antigo Testamento que veio cumprir estritamente uma missão, morrer. Salvar, nesses termos, quer dizer que ele veio ao mundo somente para pagar a dívida que humanidade tinha com Deus e que exigia um preço de sangue, no caso sangue imaculado de um inocente.
Uma leitura assim coloca Jesus acima da vida que ele encarnou, e isso não é kenosis, é qualquer outra coisa menos a radical mensagem da encarnação do Verbo.

Em Jesus, Deus sacrifica sua transcendência, sacrifica a proteção que o distanciamento do mundo lhe garantia e que desfalcava sua identidade, para, como escreveu o ateu Žižek, se tornar um Deus completo. Somente assim Deus chega ao cerne do mundo. Somente deixando a proteção do distanciamento Deus pode experimentar como é existir de maneira diversa de um deus, como é existir à maneira humana.

Em cada dia do calendário, sob a lavra humana, Jesus proporciona a Deus uma experiência inédita feita de cheiros, gostos, cores e toques, experiência que Deus quase provou em um Jardim perdido na distância do tempo quando em fins de tarde descia para fazer amizade com as pessoas e saber das coisas típicas da vida humana.
A kenosis é isso, Deus querendo ser humano, não por um decreto envolvendo uma questão jurídica, mas por querer provar a vida dos homens.
A kenosis é Jesus fazendo Deus sentir o peso da carne, experimentando as limitações de ser gente, vivendo o espaço que a vida oferta dentro do tempo, em um corpo que transborda em paisagem real.
A kenosis é Jesus debruçando Deus no meio dia testemunhando o segredo poeirento e claro das horas onde os sonhos limpos que teve em algum lugar quando estava distante do mundo são nutridos pela força mágica de um horizonte azul distante.


A kenosis, ou, o peso da carne, é Deus em Jesus experimentando acordar nas madrugadas sob solidão uivante, sair orar antes que as estrelas se despeçam do véu cor de azul da Prússia, ser afetado pelo silencio eterno que paira sobre as cabeças de todos os mortais. E sentindo o dia começar outra vez a vida com sua promessa sempre repetida, sorrir baixo consigo mesmo desejando uma esfumaçante xícara de café e boa conversa em roda de uma mesa.


Alex Carrari


4 de setembro de 2014

As coisas que Deus aprendeu com Jesus





No começo de sua carreira, Javé não possuía a capacidade de saber de tudo. Faltava-lhe certo aprimoramento desse dom, capaz de elevá-lo a mais alta categoria entre os deuses com os quais disputava espaço no imaginário coletivo dos israelitas.
No Gênesis ele procura por Adão pelo meio do jardim do Éden e ao encontrá-lo pergunta: “Quem te fez ver que estava nu?” Mais tarde ele precisa descer para confirmar se o clamor de Sodoma e Gomorra realmente procede de acordo com o que tem ouvido do alto de sua morada. Tem coisas que Javé não sabe, outras ela sabe parcialmente.   
Conforme o progresso da história, Javé vai então aprimorando sua capacidade e vai sabendo cada vez mais das coisas que se passam entre os homens, até chegar ao limite de saber das palavras que o salmista ainda nem chegou a pronunciar, apenas pensou. Javé alcançou o aprimoramento máximo para um deus da sua categoria; saber dos pensamentos que tem homem.

Ter o domínio de saber do que vai à mente do homem é, para Javé, importante para fechar a tríade das “oni” (onipresença, onipotência e onisciência), necessárias para se firmar como deus único, solitário e imbatível, e desbancar os outros deuses instalados na mentalidade de seu povo – embora tivesse ainda de esperar até o cativeiro babilônico para se firmar como deus único, já era um bom começo. Estar em todos os lugares, não deixar que nada escape à sua presença, ter poder sobre tudo o que existe, existiu e vai existir, saber de tudo, principalmente que pensamentos têm sua imagem e semelhança, é o diferencial entre Javé e os outros deuses.
*    *    *
Contudo desse saber ser uma das prerrogativas da grande potência de Javé, seu método é invasivo e seu jeito de sondar os pensamentos do homem não tranquiliza um que viveu em Uz, chamado Jó, que tem sua história contada e recontada com enxertos até ser finalizada no século V AEC.
O desgraçado Jó protesta contra o severo sofrimento que, de acordo com a lógica de sua época e ambiente, é aplicado por Javé aos que cometeram algum pecado. Seu protesto é de uma envergadura humana absoluta, suas palavras são uma explicita indireta a Javé por ser um deus que, por viver tão acima das contingências, é deficiente em seus critérios de avaliação dos merecimentos humanos para bênçãos e maldições, pois, como espectador privilegiado que habita na inacessibilidade dos altos céus, não pode ter uma visão completa da condição humana, pois ele sabe, mas não sente. Eis o tipo de saber em que Javé é deficiente:

Parece-te bem que me oprimas, que rejeites a obra das tuas mãos e favoreças o conselho dos perversos? Tens tu olhos de carne? Acaso, vês tu como vê o homem? São os teus dias como os dias do mortal? Ou são os teus anos como os anos de um homem, para te informares da minha iniqüidade e averiguares o meu pecado? (Jó 10.3-6. Grifo meu).

Jó está inquirindo Javé da seguinte maneira, “Você sabe o que é ter uma percepção do mundo e do sofrimento no nível em que nós humanos vivemos? Você tem noção do que é ter a morte presa às costas como uma permanente mochila nessa viagem rumo ao nada? Tem idéia do que é viver cada dia a mais sabendo que significa um dia a menos? Sabe o que é ser atacado pelo pecado, essa sina humana, todo o santo dia?
Esse lendário homem de Uz está dizendo a Javé que, enquanto deus que habita em tão elevada morada, guardado pela imunidade que a eternidade e a distância lhe proporcionam, é algo muito fácil observar uma odisséia trágica como a dele, sem que seja afetado.

Ciente de que as questões de Jó têm procedência, Javé manobra a conversa para uma zona que lhe seja segura, a zona da tríade das “oni”, gastando uma porção de quatro capítulos (38 a 41), para lembrar quem está por cima nessa história, colocando Jó em seu devido lugar de criatura insignificante e fraca. Com a conversa nesse nível de desigualdade, quem sabe mais coisas vence o embate, e as questões colocadas por Jó, Javé não se dá por obrigado em responder. Quem pode mais se explica menos.

Mas isso não vai ficar assim, e Javé parece ter ficado incomodado ao ponto de passar quatrocentos anos em silêncio pensando na indireta desse homem incrivelmente ousado.
*    *    *
Durante esses quatrocentos anos, Javé se percebe comparável a qualquer outro deus que se impõe pelo que sabe e pelo que não pode sentir na pele. Ele não pode ser afetado pelo estigma humano da dor e do sofrimento, as contingências da vida não o abalam, e se por acaso parecem tocar-lhe em algum ponto fraco não convence pelo simples fato de sua habitação ser os céus e não a terra, o palco de toda a tragédia humana. Como ter contato com um deus que está para o homem em total contraste?

Os céus inacessíveis são sua morada, a rigorosa morada do homem é o chão inexorável. Seu mundo é organizado e perene, o mundo do homem é caótico e transitório. Por ser eterno, Javé não sente angústia pelo amanhã, para o homem, saber-se fugaz o esmaga em cada crepúsculo.
Apesar dos contrastes e da vantagem de Javé sobre suas criaturas, durante os quatro séculos que fica sem falar com ninguém, ele intui que precisa aprimorar seu saber. Ele sabe que tudo o que é desvantagem para o homem em contraste consigo é também desvantagem para si mesmo, pois, tem coisas que ele não sabe e isso por causa de ser ele o Deus Eterno que habita acima das contingências, que sabe de tudo, mas do topo da verticalidade e do distanciamento; no plano horizontal, no nível do olho no olho ele tem a exata noção de sua deficiência.

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Depois de milênios de história contada, Javé está insatisfeito consigo mesmo com sua maneira de saber de tudo o que vai à mente do homem pelo método invasivo da sondagem, chegando ao ponto em que não se gaba de sua árdua conquista, resolvendo arriscar-se para aprimorar o saber que lhe falta. João, o evangelista, registra um momento em que reconhece a maneira desse aprimoramento:

“Estando ele em Jerusalém, durante a Festa da Páscoa, muitos vendo os sinais que ele fazia, creram no seu nome; mas o próprio Jesus não se confiava a eles, porque os conhecia a todos. E não precisava de que alguém lhe desse testemunho a respeito do homem, por que ele mesmo sabia o que era a natureza humana(João 2.23-25, Grifo meu).

Com um único gesto Javé responde às inquirições de Jó, e aprimora seu saber. Ninguém mais precisa lhe dizer o que se passa na mente do homem, agora ele sabe, só que de uma maneira totalmente nova; agora ele é homem. Ele abandonou seu método invasivo. Ele não sonda mais as mentes dos homens sem que estes o autorizem. Ele sabe o que é a natureza humana porque agora ele participa completamente dela. Javé agora tem inclusive um nome de verdade, um nome humano melhor que o anterior, um nome que pode ser pronunciado sem terror na alma.

Agora ele tem olhos de carne. Agora vê como vê o homem. Seus dias têm começo, meio e fim, assim como os dias de um mortal. Ele é agora um Deus que sabe o que é ter anos que não mais tem. O Deus que pode tudo, agora não está imune à sina do pecado que afeta todo homem. O Deus que tudo pode agora não pode certas coisas e isso define seu novo modo de saber das coisas, isso define sua nova e graciosa identidade.

O saber que lhe faltava, agora é completado pela experiência, não é inato, tampouco uma aquisição de seu todo poder. Agora Deus sabe o que é ter fome, não como um conceito como ele sabia antigamente, mas porque o estômago de Jesus dói como o estômago de qualquer humano que não tem comida no prato. Agora ele sabe o que é o cansaço quando Jesus faz longas caminhadas pregando o Reino. Agora ele sabe o que é ser um desabrigado tendo o chão por cama e o céu por teto quando Jesus não tem onde reclinar a cabeça ao dormir. Em Jesus, Deus experimenta a dignidade do trabalho na oficina de José e sente seus músculos crescerem, os calos se formarem nas palmas das mãos e o suor lhe encharcar a roupa no vai e vem do serrote. Jesus faz do Deus Todo-poderoso um servo diante de uma bacia com água e toalha nos ombros lavando os pés empoeirados dos amigos alarmados com tal gesto. Jesus faz Deus sentir exatamente a dimensão dos sofrimentos da humanidade carregando sobre si suas dores e enfermidades, tornando-as divinas. Os códigos legais contra se aproximar de leprosos, acolher aleijados, tocar ou ser tocado por uma mulher menstruada, que haviam sido impostos por Javé justamente por ele não ter seu saber sobre a humanidade aprimorado, são suspensos por Jesus, e Deus fica aliviado e grato (Este é meu Filho amado em quem tenho prazer).

Em Jesus Deus sabe da pior maneira, porém a única possível, o que é ser abandonado na pior hora pelos amigos. Jesus dá a Deus a proporção da angústia e desespero que assombram a alma humana quando esta sente o rondar próximo da morte. Na morte de Jesus, Deus experimenta aquele instante em que todo homem está absolutamente sozinho no limiar entre o tudo e o nada tendo somente duas opções, ou espernear reclamando da má sorte, ou aceitar a sina humana que redime todas as vidas.
Em Jesus, Deus passa a outro nível de saber que só o corpo poderia lhe proporcionar e ao voltar à vida depois de uma eternidade de três dias está tão apegado a ele que se gaba das marcas que agora carrega para sempre.

Se no começo de sua carreira, Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, Jesus fez Deus à imagem e semelhança do homem. E sua história não acabou, ele ainda tem a pele queimada pelo sol da palestina de dois mil anos atrás, ainda tem nas mãos as marcas dos cravos e o lado ferido pela lança; saberes indispensáveis para um Deus que merece ser amado pelos homens.  


Alex Carrari