7 de julho de 2014

Confissões: dos olhares e histórias que nunca mais me sairão da memória




Por três vezes pedi que passasse de mim o cálice, que me removesse da carne o espinho, só h0je ele me respondeu assim: “Olhe ao redor, estranho pedido é o que você me faz”.

*    *    *
Cai a madrugada, cinco e trinta da manhã, duas filas serpenteiam na calçada, humanas expectativas de que algum dia essa odisséia trágica será concluída nesse vale de contorções, ensaiado por sombras de carne e osso vindos ao mundo do fundo da neblina, como que saídas de um filme de Theo Angelopoulos. As filas competem em lonjuras com delicadas esperanças que não privilegiam idade, sexo, ou qualquer gênero de necessidade. Centenas de almas anêmicas se estendem cruzando a rua em direção a uma das filas diante de meus olhos pasmos. Eu que por muito tempo fui movido por fantasias que se enredam de projeções religiosas, que se mantém infinitamente suaves devido à maquiagem dos discursos, sou afetado pela consciência de uma rua completamente tomada por milhares de almas viventes involuntariamente desprezíveis.

Nesta madrugada fria, perco o avanço das horas, e o céu vai ficando cobalto, e o mundo na calçada do Hospital das Clínicas se contorce como numa pesada atmosfera norueguesa de um quadro de Munch. Nesta madrugada que nunca mais vai me sair da memória, compartilho o mesmo chão de sofrimentos infinitamente maiores que os meus; e desconjuro meu egoísmo do tempo em que achei que deveria ser mais beneficiado pelo céu do que qualquer membro de minha espécie.  

No MP3 ouço REM, a faixa, “Try Not To Breathe”, de um dos melhores álbuns dos caras, Automatic for the People, que começa assim:

I will try not breathe
I can hold my head still with my hands at my knees
These are the eyes of the old
Shiver and fold

I will try not to breathe
This decision is mine
I have lived a full life And these are the eyes that I want you to remember

I need something to fly over my grave again
I need something to breathe

I will try not to burden you
I can hold these inside
I will hold my breath
Until all these shivers subside
Just look in my eyes

I will try not to worry you
I have seen things that you will never see
Leave it to memory me
I shudder to breathe

Vou tentar não respirar
Posso imobilizar minha cabeça com minhas mãos nos joelhos
Estes são os olhos do velho
Trema e se curve

Vou tentar não respirar
Esta decisão é minha
Vivi uma vida farta e estes são os olhos de que eu quero que você se lembre

Eu preciso de algo que voe sobre minha sepultura novamente
Eu preciso de algo para respirar

Vou tentar não te incomodar
Posso segurar isso aqui dentro
Vou segurar minha respiração
Até que todo esse tremor diminua
É só olhar em meus olhos

Vou tentar não te preocupar
Vi coisas que você nunca vai ver
Deixe isso pra lá para se lembrar de mim
Me arrepio ao respirar

Estranhamente, Michael Stipe, parece estar cantando sobre a vida de todas estas pessoas que vem de todas as esquinas impossíveis, se juntar a uma destas filas de inexprimíveis gemidos. Pode ser que seja uma canção de amor, e acho que seja mesmo uma canção de amor, só que de um amor mais sofrido e mais amplo. Um amor que olha as dores ao redor e sofre-as como sendo suas próprias dores, um amor que tudo sofre. Um amor que abraça o mundo, que fica olhando estes velhos com tantas histórias de aflições sentidas sulcando seus rostos, branqueando seus cabelos, constrangidos a enfrentar a impiedade da morte que se avizinha sob o silente disfarce de alguma doença que os ilude com uma brincadeira inconvenientemente perdida, a mesma que se inclinará sobre todos nós mais tarde ou mais cedo.

Ao final das contas, o mundo parece que só nos vale mesmo de hospital.

E estas crianças? Ah, meu Deus, estas crianças. Algumas embrulhadas em cobertores no aconchego do afeto materno seguem o movimento do mundo com olhos fracos, outras duas manejam um cilindro de oxigênio com tubos invadindo o nariz, outras mais têm canudos saindo da carne da barriga derramando urina em bolsas presas à cintura. O amor observa com mais insistência aquela menina bem pequena que parece não ter mais de quatro anos e está lentamente ficando cega, comenta a mãe com os olhos marejados. Saio um pouco de lado da fila, e choro. Choro por todos, mas choro mais pelas crianças.

São tantos. Tento dissimular o olhar calando meu silêncio agonizante, mas não consigo, minha inquietação chama um pouco a atenção. Se conseguisse dissimular haveria para mim uma falsa salvação e tudo estaria bem com a minha religião de prevenção contra as misérias da vida, mas não consigo, e estou perdido para sempre nas chamas dessa compaixão de uma verdade que é cortante, presente em cada olhar que me atravessa; mas os olhares inocentes das crianças são os que me cortam mais fundo.
Não faço a menor idéia de como suportar tanta realidade. Sinto-me como um imóvel ponto no mundo, ao redor do qual gira tanta dor em uma luta insuportável contra o exaurir de toda poesia.

Tentando aprender como organizar o pensamento, experimento uma diversa espécie de fracasso ao ver como sofrem as crianças. Não faço mais questão de lutar por aquilo que perdi de vez; o resto de uma crença previdente que virilmente resistiu em minha profundidade, que por muito tempo me deu certa garantia de que eu poderia ser um privilegiado por Deus e receber do céu um milagre, desde que fizesse a coisa certa, que ele tem seus preferidos, e eu devo me convencer de que sou um dos tais.

*    *    *
Como posso querer para mim um milagre que não chega para os outros, menos ainda para as crianças? Que privilégio deveria eu querer ao pedir um milagre de cura para meu coração enquanto uma menina de quatro anos está lentamente ficando cega? Como pedir a Deus que intervenha em meu favor e faça meu coração bater ritmado para que eu não morra disso, se aquele menininho ali naquela cadeira bem na minha frente espera pela doação de um rim para ter uma chance menor que a minha de ver um pouco mais da vida?  
Nesta manhã, depois de ver tudo o que vi, fui completamente desencorajado dessa prática de pedir para mim benefícios ao céu que outros não têm acesso.

De que outro modo eu me sentiria absolutamente ligado ao destino da humanidade do qual ninguém deve querer se esquivar? De que jeito me irmanaria da alma coletiva da minha espécie a não ser participando ardentemente dessa odisséia trágica nesse vale de humanas contorções? Como poderia eu ter contato com tão expressa realidade, a não ser por causa do meu coração doente?

*    *    *
Daqui até quando não sei, se em alguma estação da vida uma voz do céu me perguntar: “O que queres que eu te faça?”, depois de tudo o que vi, direi: “Se tem alguma boa intenção para comigo dispense-a sobre todos estes, acolha em teu abraço todas estas vítimas da inoperância do mundo”.  

Nesta manhã, envergonhadamente senti remorso por ter pedido três vezes um milagre para mim somente, e corrigi meu sentimento. Provei uma vontade imensa de declarar meu amor e puxar para debaixo das minhas asas todas estas pessoas que sofrem, como uma galinha faz com seus pintinhos, e ficar as protegendo, mas tristemente vi que não me é possível, não tenho asas tão longas, sou humano.
...e foi assim que percebi que o que me faz humano é a completa participação na humanidade e isso implica em tomar sobre mim suas dores e enfermidades, senti-las em minhas próprias entranhas, e não pretender esquivar-se delas.

Todas as minhas madrugadas de agora a diante serão somente dessa lembrança, minha humanidade reclamará estes olhares e histórias, suas tristezas serão minhas tristezas, basta-me saber que estarão aqui durante cinco, dez, vinte, trinta e oito anos esperando um anjo que nunca vem agitar a água desse tanque rodeado de tão resistentes sonhos e intermináveis esperas.

Alex Carrari


20 de junho de 2014

Fácil de entender, duro de aceitar






Para chegares onde estás, para saíres de onde não estás,
Deves seguir por um caminho em que o êxtase não medra.
Para chegares ao que não sabes
Deves seguir por um caminho que é o caminho da ignorância.
Para possuíres o que não possuis
Deves seguir pelo caminho do despojamento.
Para chegares ao que não és
Deves cruzar pelo caminho em que não és.
E o que não sabes é apenas o que sabes
E o que possuis é o que não possuis
E onde estás é onde não estás.

T.S. Eliot


Depois de tudo o que foi dito, alguns dos que andavam com ele expressaram: “Duro é este discurso; quem o poderá ouvir?”, e já não ficaram mais com ele. Para Jesus é o seguinte, a radicalidade é algo que de deve ficar às claras de agora em diante para quem quiser carregar o distinto selo de seguidor do Filho do Homem. Este homem singular abre o jogo para alguns que até então o seguiam por motivos vários, todavia sem com ele se identificar, mantendo uma distância formal, porém velada, de suas exigências. Não é possível andar com ele sem com ele se identificar, tampouco ter parte com ele sem dele participar, uma decisão tem de ser tomada, e essa decisão é inteiramente objetiva, tem forma e substância, corpo e vida, carne e sangue.

Ao declarar ser o pão vivo que desceu do céu, e que o pão que ele dá pela vida do mundo é a sua carne, Jesus suscitou entre os judeus uma discussão. Onde já se viu “como pode dar-nos este a sua carne a comer”. O discurso que soou como um escândalo aos ouvidos daqueles religiosos os expõe à maior e mais profunda significação do que é ser um discípulo do Cristo. O discurso de Jesus revela uma extensa realidade arriscada entre seguidor e mestre. Uma atitude de comum-união extremada, uma participação completa em sua existência assumindo todo o ônus de um imitador dos gestos do mestre, encarnando seu destino salvador, assumindo-o em seus sofrimentos, vida e morte, sem subterfúgios, sem escamoteamentos.

A disciplina de vida extremada em identificação exigida por Jesus desqualifica qualquer um de tentar andar com ele sem, contudo, assumir de forma radical a condição de seguidor seu, que implica em assumi-lo totalmente, não dissociando-o da sua mensagem, tampouco adotando uma posição dicotomizada, de um lado a mensagem, do outro o Cristo – Jesus rechaça as dicotomias. Não adianta, meu camarada, você pode até manter distância formal e velada – embora ande colado a ele – achando tudo muito legal e bonito, mas para percorrer o percurso com este Mestre tem de encarnar sua mensagem, tem de sofrer na pele, em suas outras palavras, tem de assumir totalmente seu destino. 

Sem a comum-união com ele ninguém é seu discípulo. Você pode ser qualquer outra coisa, pode ser evangélico, crente, protestante, católico, que nada mais são que denominações menores e menos radicais e exigentes, que não têm forma nem substância absoluta e não exigem comer a carne e beber o sangue do Filho do Homem.

O nome exato para comer carne e beber sangue humano é canibalismo, uma prática repugnante na maioria das culturas. Mesmo que presumamos que muitos de seus ouvintes entendam que ele deve estar falando de algum tipo de ação simbólica, o simbolismo é apenas menos chocante do que imaginar como seria o ritual de verdade, ainda mais para o judeu.
A carne dos animais só pode ser comida depois de ter tido o sangue todo drenado para dentro da terra, pois sangue, assim como o sopro, tem vida em si, e a vida pertence somente a Deus. O corte da carne deve obedecer à maneira kosher, isso a torna limpa e comestível de acordo com a lei de Deus.
Mas Jesus não está propondo o comer a carne e beber o sangue de nenhum animal – o que já seria escândalo suficiente –, ele está falando de si mesmo, e mais ainda, como o Messias.

Para os que têm ouvidos para ouvir, mas não ouvem, quem pode oferecer sua carne a comer e seu sangue a beber?

A comum-união com a vida de Jesus se dá a partir de uma experiência radical de assimilação não apenas emocional, mas física do modus vivendi do Cristo como único modo de vida viável ao discípulo.

É isso aí e pronto, não há rotas alternativas!

Se assim não for, o viver que deveria ser em Cristo, não é nada além de uma passagem rasa pelo mundo, uma existência falsificada. Só a existência do Cristo é verdadeira, e quem quiser viver de verdade tem de unir-se a ele em todas as dimensões da vida sem evitar qualquer aspecto ou consequência de seu percurso.  Sem comer a carne e beber o sangue do Filho do Homem, não há assimilação da sua mensagem, tampouco relação com ele. Quem nessa condição ouve seu discurso, não tem como resposta senão outra pergunta: “quem o pode ouvir?”. A renúncia ao Cristo nesse caso é inevitável, já que a exigência feita pelo Mestre é cara demais e não há como falsear em presença do olhar penetrante daquele que conhece a natureza humana, por ser ele o mais digno exemplo de homem.

Porém, àquele que assimila a sua vida a vida de Jesus, o Cristo, que está disposto a unir-se a ele em uma radical experiência de aceitação de sua vida sacrifical como único modo de vida digno e aceitável para um discípulo. Este, quando frente a frente com Mestre, olho no olho, sem chance para qualquer resposta evasiva, for indagado: “Por ventura, quereis também vós outros retirar-vos?”, sem vacilar, olho no olho, pode então responder: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna”.


Alex Sandro Carrari


26 de maio de 2014

O Cordeiro que tira o pecado do mundo (uma leitura existencial)






[...] como já não é segredo para ninguém, todo homem é um mundo, quer pelas vias do transcendente, quer pelos caminhos do imanente
(José Saramago, O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO)


Se este é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, como pregava aquele essênio, então por que o mundo é ainda tão carregado de pecado? Quero dizer, e me entenda bem, nem em seu tempo mais próximo, nem entre seus próprios camaradas, aqueles que de acordo com os registros do Testamento Tardio, ele chamou para pescar homens, nem mesmo entre estes, o pecado se acabou. Ele mesmo, não João, o Cordeiro, orientou a mulher pega em delito adultério para que não pecasse mais, e preveniu outras pessoas a que orientassem suas vidas para Deus a fim de não viverem pecando. O pecado esteve tão perto dele o tempo todo. A resistência, e não a extinção, ao pecado esteve tão presente em seus discursos. Como então ele tira do mundo o pecado se o pecado não sai do mundo, nunca saiu?

Nunca saiu, nem no tempo de Jesus, nem depois, nem agora. A certeira afirmação de João, o Batista, apresenta Jesus publicamente e o expõe a mais comprometedora responsabilidade desde que a presença dessa atividade tipicamente humana começou a ser debate entre filósofos e religiosos. Ele é o sujeito que nos emancipa dessa incomoda condição. Note-se que ele não é o Cordeiro que vai tirar o pecado do mundo em algum lugar no tempo que virá, ele é o Cordeiro que tira o pecado do mundo, agora. A afirmação deste cara que come mel e gafanhotos e se veste a rigor para a ocasião de um novo Reino, não é nada fortuita e dá a pista sobre por qual via tem acontecimento essa emancipação revolucionária.

A igreja, não sei por que, não compreendeu o que o Batista quis dizer e seguiu por outra via, o que desqualificou a vida de Jesus, abriu uma lacuna em sua atividade profética e colocou todo o significado da afirmação “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1.29),  somente em sua morte. À semelhança do cordeiro pascal ele é aquele que morre como cordeiro inocente para pagar pelos erros dos outros, e isso é tudo. Sei de todas as passagens da Bíblia que fazem uso das metáforas jurídicas, e sei também que essa era a consciência possível para o momento (Gadamer). Não havia meio mais eficiente para a comunicação da mensagem libertadora do Cristo, senão pelo uso de metáforas conhecidas naquele tempo. No entanto, uma leitura jurídica hoje, não confere peso à existência de Jesus como homem de decisões, homem responsável por seu destino, homem que orienta sua própria história. A não ser que, se seja um determinista, que tira de Jesus todo peso existencial de suas decisões, toda vivacidade de seu gesto, todo o fausto de sua envergadura humana, e o coloca nas mãos de Deus como um ser sem vontade própria, uma peça sobre um desigual tabuleiro em um jogo cósmico, no qual sua participação representa pouco menos que uma melancólica obediência ao programa de uma morte vergonhosa, predefinida por Deus.

Se for o caso de ele ser como o cordeiro dos sacrifícios do passado, que só importa mesmo a sua morte, então temos um problema com sua vida, essa enorme lacuna do tamanho de sua singularidade. E não temos opção, senão descartar não só sua atividade pública, mas também todo o seu anônimo passado, e conferir existência somente à suas últimas semanas, mais especificamente à semana da páscoa, mais ainda a seu último suspiro no lenho da vergonha. E ainda assim, uma existência fissurada, não completa, uma vez que a decisão sobre seu trágico final foi todo arquitetado por Deus, cabendo a Jesus somente uma anêmica sujeição.

Mas e se João estiver falando do Cordeiro que tira o pecado do mundo não pela via que a igreja compreendeu – não sei por que? E se a apresentação do Batista não encerrar qualquer metáfora jurídica?

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João está lastreando a apresentação pública deste homem em uma dimensão puramente existencial. O código ético de Jesus identifica todo homem como sendo o mundo todo e todo o mundo como um único homem. Isso quer dizer que o que você faz representa um perigo ou um benéfico para o outro e para o mundo. Você é todo um mundo de responsabilidades. O que você decide efetivar na vida diz respeito não somente a você mesmo, mas a toda a realidade que te cerca, longe e perto. Um caso particular contém toda a condição humana. Edgar Morin, com seu pensamento complexo está me ensinado que todo caso particular da vida dá conta da condição humana. Ele se apóia em Montaigne, que dizia que cada um traz consigo a condição humana, e a traz, ele acrescenta, como ponto singular de um holograma contendo a informação do todo do qual se é uma parte.

Jesus se deixa tocar pelo movimento da vida e não acredita ser uma exceção, por isso prefere ser chamado de Filho do Homem, literalmente, “um homem”. E por não acreditar ser uma exceção sente-se responsável por tudo e por todos o tempo todo. A Regra de Ouro, “Não faça aos outros aquilo que não queres que os outros vos façam”, que muitos atribuem a Confúcio, mas que consta em muitos dos códigos de conduta dos antigos, é sutilmente modificada pelo Mestre, de maneira que não adverte a não fazer algo de ruim, mas incentiva a fazer o que é bom para o semelhante, “Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a lei e os profetas” (Mateus 7:12).

É sendo responsável pelo seu semelhante, é fazendo o bem e não o mal, em outras palavras, é decidindo não pecar que Jesus tira o pecado do mundo. Se para Jesus, um único homem é toda a humanidade e toda a humanidade um único homem, significa que tal decisão de não pecar é um gesto que tira o pecado do mundo. A decisão de não pecar significa um pecado a menos no mundo. Uma leitura existencial, que é a leitura dos Evangelhos, dá conta de que Jesus, ao decidir não pecar, tira o pecado do seu próprio mundo, do mundo do qual ele é seu absoluto representante, e no encontro com os outros, com os outros mundos com seus representantes, ele dá a chance a estes de também tirar o pecado do mundo – deste mundo singular que habitamos, encontrado na relação com outros mundos com seus representantes.

Jesus começa esse movimento e acredita que pode dar certo, tanto que por mais de uma vez orienta, “...vá e não peques mais”, que significa; agora é sua responsabilidade, tire o pecado de seu mundo, tire o pecado do mundo.


Alex Carrari

28 de abril de 2014

Do pó ao pó, lembram?





 No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
(Álvaro de Campos)


A confirmação de que vamos morrer, que o anos que temos são de fato os que não temos, nos lança como que num vácuo sem apoio senão na lembrança, que nos garante um mínimo de existência não livre de imaginação. 
Um mínimo de existência é uma interrupção surda, que por mais absurdo que pareça o que vou dizer, nela me pego treinando o que deverá ser estar se esvaindo da vida naquele dia.

O treino consiste em notar que a hora está se aproximando e devo calmamente e com nobreza, acolher no peito a sensação mais apavorante e ao mesmo tempo mais sublime do fim redentor da minha existência, o barqueiro remando já em minha enseada. 
Ensaio o que serão minhas últimas palavras; peço para alguém ler um último poema suave, talvez do Neruda, e uma passagem dos Evangelhos, gosto de S. João. Solicito que me concedam poder ouvir mais uma vez o Sax do John Coltrane e um concerto de Keith Jarrett, talvez o de Paris ou Köln Concert. Com a voz embargada, confesso que vivi e amei, compreendi e errei, busquei e falseei, mas acima de tudo procurei sentir-me vivo em tudo o que fiz ou tentei, da vida não busquei sentido, só a sensação de estar vivo me bastou. Declaro que sonhei mais que realizei, exultei mais que lamentei, peregrinei mais que descansei, sofri mais que me agradei. Contudo, faço questão de envergar minha humanidade forjada na aridez dos desertos por onde, em andrajos, andei por fé.
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A confirmação de que vamos logo morrer não é levada em conta, não é levada a sério, porque estamos tão atarefados em manter nossas frívolas distrações justamente para passar o tempo que parece se demorar. Com ar de destemida esperteza dizemos às vezes em conversas de mesa, em que queremos demonstrar uma besta noção de contato com a realidade, “um dia todos nós vamos morrer é bom que saibam”, mas de fato, na casa do riso ninguém leva isso a sério. É quando se está a sós consigo mesmo e não há para quem fingir noção alguma sequer de domínio do desespero que essa confirmação provoca no silêncio, em noites irrecuperadas frente ao espelho delator, é aí que as justas verdades de Álvaro de Campos e os destinos fatais de Albet Camus são considerados sem disfarces.
Nada de genérico, falo especificamente.
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Esse prólogo de balada triste que pareço lhes oferecer por mero prazer em arruinar o dia de algum leitor desatento, não é mero capricho, um pouco de excentricidade talvez, todavia, quero que me tenham como um Hermes amigo que não engana a terra com bajulações do céu. E mais que isso, dizendo respeito mais a mim do que a vocês, quero me antecipar em deixar uma última palavra certeira; o dia é sempre hoje, está em nossa constituição, do pó ao pó, lembram? Lembrá-los disso significa nesse caso que estou ligado aos movimentos e sinais que a vida emite aqui e ali. Quero dizer, não ignoro sua fragilidade nem a improvisação de sua permanência indelével manhã após manhã. 

E como não quero ser pego de surpresa, portanto, estas são, por enquanto, sempre as últimas palavras, e as que por acaso escrever depois, entrarão na mesma categoria.


Alex Carrari