19 de abril de 2014

Pecados que deixam os crentes tranquilizados (parte 2): responsabilidades e benefícios


Os crentes estremecidos fazem um barulho impróprio, inquietos com a PL 122, porque em seu imaginário desinformado da constituição, seus espaços anestésicos de reunião religiosa estão prestes a provar repentina destruição.

Porque não fazem barulho por causa dos hospitais sucateados e dos doentes habitando o chão frio de seus corredores? Porque não demonstram indignação por causa dos pobres cada vez mais pobres sobrevivendo no rés do chão dessa vida? Porque não se opõem às políticas públicas burguesas de urbanização que empurram os pobres cada vez mais para espaços inabitáveis nas periferias? Porque não se inflamam de piedade por causa do órfão equilibrando limões nos semáforos a troco de uma esmola? Porque não se movem de íntima compaixão com as condições de vida em que prostitutas, travestis e rapazes vendem suas noites perdidas para sempre, ao invés de sentenciá-los ao inferno de fogo?

Ao descumprirem suas responsabilidades com os membros de sua própria espécie, os crentes evocam um papel profético ausente nos evangelhos, clamando pela volta repentina de Jesus, para arrebatá-los deste mundo tenebroso e que o diabo se aproveite do resto.

Quem se localiza no mundo como crente tem a maior culpa no cartório, pois, uma vez que se acha detentor da mensagem, não efetiva suas orientações e ainda pior, desconsidera muitos textos para sair ileso da acusação de ser um dos grandes promotores do pecado social e estrutural, pela via da omissão. Ah, mas esse tipo de pecado não existe, o que existe é o pecado original e sua decorrência; a maldição hereditária, a depravação total (e outras saídas tangenciais), se defendem.

Com recorrência meu apoio é o Mestre de Nazaré, é, ele mesmo, aquele que andou por aqui fazendo coisas que os crentes não fazem, não dizendo coisas que os crentes dizem. Todas essas denominações sobre pecado original, maldição hereditária, depravação total, etc., não ocorrem nas falas de Jesus, sequer com sinônimos ou equivalentes. Jesus não acreditava em nenhuma dessas posturas esquivas, e às vezes dava de desconstruir os esquemas dos caras que queriam empurrar para Deus, ou para alguém ao lado, a evidência do sofrimento no mundo. “Quem pecou ele ou seus pais para que nascesse cego?”, implícito na pergunta está como terceira opção para a resposta, Deus, uma vez que ele era entendido como o que dava forma ao nascimento de todos. Jesus recusa primeiro a ideia, ainda presente naquele ambiente, da lei de causa e efeito que no Antigo Testamento é fundamento da Torá, Faça isso e eu te abençoo...faça aquilo e eu faço vir sobre você a desgraça – dizem que Deus costumava dizer essas coisas, Jesus não acreditava nisso. E como de costume, Jesus convoca a uma postura verdadeiramente divina, “...mas para que nele se manifeste as obras de Deus”.

Para Jesus, o que acontece na vida é decorrência de vivermos em um mundo contingencial, quer dizer, não significa que Deus ou alguém tenha feito algo para dar em alguma coisa. Para receber no corpo alguma doença, não significa necessariamente que a pessoa fez algo de errado. Ser atropelado não quer dizer que haja um propósito oculto por trás (o Rick Warren conseguiu encontrar cinco propósitos).  Muito menos que seja Deus o gerenciador dos infortúnios da vida.
Os galileus que tiveram seu sangue misturado aos dos sacrifícios ou os dezoito que morreram sob as pedras da Torre de Siloé, eram mais pecadores que algum ouvinte de Jesus? Ele vai dizer, não. Não se trata de causa e efeito, é a vida, só isso. A questão para o Mestre é: a vida é assim, e o que você acha que deve fazer? A vida em seus mais raros e inesperados acontecimentos sucede com uma dinâmica que não se submete ao rastreamento e precaução humana. O que acontece no mundo é o que está aí. E os crentes com essa mania de encontrar propósito em tudo, de querer explicar e colocar nos ombros de Deus a causa e o efeito do mau funcionamento do mundo reencenam melancolicamente o velho mito da omissão forjando a culpa sempre no outro que está ao lado ou em Deus por causa das suas costas eternamente largas. O senso de responsabilidade de Jesus é apurado pelo amor ao semelhante, por isso, ao encontrar aquele cego ele o faz ver novamente a beleza do mundo, porque é o que a responsabilidade apurada pelo amor o impulsiona a fazer. Em outras palavras, alguém carente está diante de você, isso é tudo o que você precisa para agir.

O Sermão da Montanha é exemplo claro de que o que Jesus deseja de fato é que o mundo seja modificado por gente que não se omite às responsabilidades de se associar a ele como discípulo. Ser humilde de espírito, ser manso, ter fome e sede de justiça, ser misericordioso, limpo de coração, pacificador, aceitar o ônus de ser perseguido por sua causa, ser sal e luz, não adulterar nem em pensamento, não jurar falso, conter a vingança, amar o inimigo, não fechar a mão às esmolas, não juntar riquezas, e por aí vai.
“Seguir Jesus”, esse chavão que os crentes não sabem direito o que significa, traz absoluta responsabilidade, e tem poucos benefícios. Dos poucos benefícios recomendo lembrar: não ter onde reclinar a cabeça na hora de dormir, jamais querer ser servido, amar e desejar a fraqueza, nunca (nunca mesmo) cobiçar o poder, dar a vida em favor dos outros, carregar uma cruz todos os dias, ter poucos amigos, perder a própria vida.

Quando os crentes começarem a exercer essas responsabilidades, esses benefícios lhes serão acrescentados. Enquanto isso – se bem que pouco lhes importa – continuo tendo neles pouca esperança, por causa da maneira como vivem, porém, minha fé aumenta no evangelho do Cristo e no abalo que ele pode efetivar.

Alex Carrari


28 de março de 2014

Pecados que deixam os crentes tranquilizados





Uma das especialidades dos crentes é depositar no outro o peso da responsabilidade que lhes cabe. Encontrar alguém em quem colocar a culpa das trágicas consequencias daquilo que julgam estar errado no mundo é fundamental para continuarem polindo seu senso de retidão moral de pessoas que sabem discernir entre o certo e o errado, e isso já lhes basta na hora de dormir o sono dos justos. Hierarquizam pecados atribuindo maior peso de condenação àqueles que a moral cristã excludente não tolera, como por exemplo, o desvio sexual, e toleram e até conferem um caráter de virtude à ganância, ao apego ao dinheiro, e a exclusão dos fracos não consumidores dos produtos que levam a “marca de Cristo”. Quando as pesquisas falam em “pecado social”, em “pecado estrutural”, os mesmos que hierarquizam pecados, torcem o nariz e já logo colocam sob descrédito as constatações de que haja tais estruturas, reprovando-as como marxianas que não levam em consideração a Bíblia e a condição “caída” do homem. A estratégia mais eficiente para desviar a atenção de uma postura indiferente diante das evidentes construções desumanizadoras é insinuar que os instrumentos de verificação da realidade – que jogam na cara que uma situação socialmente atroz se instala debaixo de nossos queixos – fazem uma análise de um ponto de vista anti-cristão, e ficam satisfeitos invalidando a verdade milenar das estatísticas.

No Antigo Testamento, os profetas são pródigos em denunciar construções desumanizadoras montadas pelos poderosos, esquemas tão fortes de injustiça que perpetuam em gerações uma estrutura de pecado social e estrutural. 

O profeta Isaías, um homem culto ligado a corte, denuncia a injustiça social e não adula quem quer que seja; autoridades, latifundiários, políticos, todos são reprovados por oprimirem o pobre e dominarem seus espaços de vida. O profeta diz em um dos trechos de suas investidas: 

“Ouvi a palavra do Senhor, vós, príncipes de Sodoma; prestai ouvidos à lei do nosso Deus, vós, povo de Gomorra. De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios? – diz o Senhor. Estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de animais cevados e não me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes.
Quando vindes para comparecer perante mim, quem vos requereu o só pisardes os meus átrios?
Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e também as Festas da Lua Nova, os sábados, e a convocação das congregações; não posso suportar iniquidade associada ao ajuntamento solene.
As vossas Festas da Lua Nova e as vossas solenidades, a minha alma as aborrece; já me são pesadas; estou cansado de as sofrer.
Pelo que, quando estendeis as mãos escondo de vós os olhos; sim, quando multiplicais as vossas orações, não as ouço, porque as vossas mãos estão cheias de sangue.
Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal” (Isaías 1.10-16)

Se Isaías acuasse exatamente aqui, os da moral excludente, poderiam escapar ilesos, pois parece que a questão aqui não diz respeito a uma estrutura de maldade estabelecida (pecado social/pecado estrutural), uma vez que cita Sodoma e Gomorra, que no imaginário cristão estão fixadas como símbolos da imoralidade sexual e do castigo divino sobre a “queda” homossexual. 

Mas a fala de Deus continua e agora faz contraste com as atitudes negativas convocando a atenção dos cidadãos à prática do pólo positivo da advertência:

Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão; pleiteai a causa das viúvas” (Idem, v.17)  
Eis a justiça que Deus requer a prática.

É do interesse de poucos crentes saber qual foi realmente o pecado de Sodoma e Gomorra, preferindo ficar com uma interpretação de Gênesis 19.5 que lhes é mais conveniente, tirando todas as conclusões a respeito da ira e justiça de Deus sobre o evento, da fala de alguns de seus cidadãos. Não é ocasião agora para falar sobre as questões de dominação e poder relacionadas ao sexo, que é o que está em questão no episódio à porta da casa de Ló. Mas, é exatamente desse único episódio propositadamente mal compreendido que a moral cristã excludente vai elaborar sua ideia de “abominação ao Senhor”, interpretando, inclusive, o amplo contexto de Romanos capítulo 1 à luz desse episódio. O que o Senhor não tolera é homem com homem, por isso destruiu Sodoma e Gomorra. Essa conclusão é tranquilizadora nesses ambientes. Mas a realidade é outra. Esse foi o real pecado de Sodoma:

Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não fez Sodoma, tua irmã, ela e suas filhas, como tu fizeste, e também tuas filhas.
Eis que esta foi a iniquidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e próspera tranquilidade teve ela e suas filhas; mas nunca amparou o pobre e o necessitado.
Foram arrogantes e fizeram abominações diante de mim; pelo que, em vendo isto, as removi dali” (Ezequiel 16.48-50)

O materialismo, a falta de compaixão, a indiferença com os necessitados e fracos, o estabelecimento de uma estrutura político-social esmagadora dos oprimidos, não, não fazem conta de nada disso, aliás, não leem nada disso, e é só não fazer o mesmo que fez Sodoma, ou seja, inflamar-se com pessoas do mesmo sexo, e pronto, não estarão enquadrados em pecado de alta gravidade e não terão o mesmo trágico destino. E para facilitar as coisas, ficam com a fala dos homens que queriam fazer sexo com os visitantes do céu hospedados na casa de Ló. A fala dos homens à porta de Ló interpretada ao teor de uma hermenêutica puritana e fundamentalista não atende à fala de Ezequiel.  Daí dizem: Sim, concordamos com Ezequiel, mas em Gênesis 19 [...]. Esse “mas” entrega uma disposição em não considerar que o pecado social/estrutural estabelecido, tenha sido a causa da ruína das cidades.

A culpa da ruína das cidades foi de um bando de gays lá instalados. Uma das especialidades dos crentes, depositar sobre o outro o peso da responsabilidade que lhes cabe. Negado o pecado social/estrutural, a culpa da ruína de Sodoma e Gomorra é sempre do outro que é sexualmente imoral. Deus até consente com a pobreza, afinal, “os pobres sempre os tereis convosco”. Deus até admite construções desumanizadoras, ele pode até ser o idealizador de algumas (tudo é sua vontade, e só escolher entre permissiva ou diretiva). O que ele não admite em hipótese alguma é o pecado de imoralidade sexual praticado por Sodoma e Gomorra lá naquele tempo e por Sodomas e Gomorras em nosso tempo, por esse tipo de pecado é que ele derrama copiosamente sua ira e mata indiscriminadamente. E resolve higienicamente o nosso problema.

*    *    *

Por causa de outros pecados semelhantes a este como a idolatria e a feitiçaria, também Deus não tolera e mata. À época do terremoto no Haiti houve formadores de opinião do mundo evangélico afirmando que o motivo – estes não se tranquilizam sem que encontrem um motivo para si mesmos – seria a idolatria e a feitiçaria presentes de maneira muito forte no país. Para os crentes é um calmante afirmar que se a encosta desceu varrendo da paisagem casas e vidas, inclusive de crianças, Deus está no controle. Em outras palavras, ou Deus foi o autor da desgraça ou não a impediu, o que dá no mesmo, tem dedo dele nesse negócio, é só uma questão de saber se foi na permissiva ou na diretiva – identificar o índice de pobreza, se faziam parte de algum movimento social de invasão, a cor da pele, a confissão religiosa, já permite um diagnóstico seguro dos porquês, e em qualquer caso, a tranquilidade estará garantida.

Para o homem caído logo ao lado na calçada, um versículo é bala na agulha, não cai uma folha da árvore sem que Deus não permita. Uma folha que cai, apenas um homem caído, fiquem tranquilos, Deus está no controle da situação, uns vasos feitos para honra, outros para desonra, nos lembram sem um pingo de vergonha. O menino de rua dando um pega numa pedra de crack, a garota de programa desonrando seu corpo a troco de cinco notas sujas, a catadora de papel fuçando no lixo pelos três filhos pequenos, a mulher espancada em casa pelo marido boçal, a menina estuprada, a bala perdia, o jovem negro acorrentado ao poste no calçadão, nada disso os agita no íntimo, mudam de canal, escolhem não ver, purificam os olhos das desgraças, selecionam ver o que faz bem à santa retina de eleitos de Deus.

Para que o slogan, “Deus tem para você o melhor desta terra” se torne realidade em seu mundinho quimérico, os crentes já entenderam de uma vez por todas que, formar um repertório visual composto de gente efeminada, travestida, pobre, oprimida, aleijada, suja, faminta, ferida, fedida, não vai ajudar em nada em suas projeções de vida aplainada, retilínea aqui e no mundo vindouro o fruir das benesses do ócio eterno sem encargos de consciência.  
Deus está no controle, tudo isso faz parte do plano, quanto pior para os outros melhor para os crentes.
Há motivos para festejar no domingo, e esquecer tudo isso.  

Há motivos para festejar no domingo?

Deus disse que festas e sacrifícios não são de seu interesse, o que ele quer é a justiça ao pobre e oprimido sendo praticada. O profeta Amós, homem de realidade distinta da de Isaías, mas movido pelo mesmo Espírito declara:

Aborreço, desprezo as vossas festas e com as vossas assembléias solenes não tenho nenhum prazer. E, ainda que me ofereçais holocaustos e vossas ofertas de manjares, não me agradarei deles, nem atentarei para as ofertas pacíficas de vossos animais cevados. Afasta de mim o estrépito dos seus cânticos, porque não ouvirei as melodias das tuas liras. Antes, corra o juízo como as águas; e a justiça como ribeiro perene” (Amós 5.21-24) 

Outros profetas como Jeremias e Miquéias, também seguem pelo mesmo caminho de denuncias e vaticínios sobre a injustiça e os opressores. É evidente que Deus não se importa com ritos e falações, ele quer é ver a coisa correta acontecer. Deus não se convence nem se comove com palavras de bajulação, ele quer que a sua justiça seja colocada em prática (Isaías 29.13). O que fica claro em muitas advertências de Deus é que ele está falando com as pessoas que deveriam ser instrumentos mediadores de sua justiça, uma vez que se julgam conhecedores de seus caminhos e de sua vontade. É com gente que o louva com os lábios que ele está falando. É com gente de igreja que ele está indignado por promoverem um estado de injustiça e por fazerem vista grossa em relação a opressão dos poderosos deste mundo sobre os fracos e oprimidos se omitindo das responsabilidades por ele requeridas a prática. Sendo coniventes, os crentes são cúmplices e tão culpados quanto. 

Continua...

Alex Carrari


18 de fevereiro de 2014

Reminiscências pentecostais: A vigília daquela noite


“Há mais mistérios entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a nossa vã filosofia” Hamlet


                                                                                 
Numa noite quente de Janeiro de 1997, bem guardada que está nos arquivos vivos da memória, tive a dimensão da divina beleza insistente em se manifestar às gentes menos aptas a corresponder à sua glória, nos lugares mais improváveis de conter sua sagrada presença. 
Antes, no correr do dia, eu sentia entre os irmãos uma incontida expectativa pela vigília, mas mais que isso, por algo que parecia estar reservado, mas que ninguém sabia ao certo definir o que. As conversas não passavam disso: o que estaria sendo preparado por Deus para aquela noite. Apesar de nenhuma experiência em assuntos transcendentes eu participava do clima com muita curiosidade e receio. A linguagem simplória e cheia de significado oculto me encantava e envolvia na mesma expectativa.

Todos estavam se dedicando a Deus em jejuns e preces. O dia correu em ansiedade, a noite nos abordou em reverência.

*    *    *
O culto marcado para começar à meia noite começou entre nós internos meia hora antes, algo como uma preparação para o “mover” – como eles diziam – que logo teria seu acontecimento. Na capela de madeira muito simples, erguida com a alegria do nosso trabalho e o empenho das nossas mãos, o clima era ameno e o cheiro como de Dama da Noite escorria para dentro – seria esse o doce perfume de Cristo, o cheiro de seu conhecimento?

Os irmãos foram aparecendo da penumbra da rua, impecáveis em seus ternos alguns muito batidos outros menos, empunhando suas Bíblias sovadas por incontáveis madrugadas de meditação, com o cuidado de quem carrega um códice raro de inestimável valor. As irmãs do mesmo modo carregavam suas Bíblias com reverente cuidado, tinham o cabelo em lugar do véu. Um a um os joelhos se rendiam ao chão empoeirado em respeitosa oração, o lugar em que estavam pisando era solo sagrado. O Ente com quem vieram se encontrar era ninguém menos que Deus, e para falar com ele exige-se o cumprimento de algumas etapas antes da extrema aproximação. Nada muito simples, nada pesado demais, tendo em vista a natureza do encontro.

*    *    *

Convidado para fazer a leitura oficial da noite, foi lido se não me engano um texto do profeta Isaías por um dos irmãos de terno batido, que saudou a igreja com a paz do Senhor “Jesuis”, e mesmo sem flexionar adequadamente na leitura e parando excessivamente nas vírgulas, me pareceu um profundo conhecedor do Espírito das sagradas letras. Reparei em suas mãos virando as páginas, mãos grossas e unhas que guardavam terra, mãos sofridas pelo trabalho duro da enxada. Seria este um daqueles dos quais o mundo não era digno? 
Até hoje eu espero alcançar o sublime conhecimento que ouvi naquela leitura feita pelo irmão das mãos sofridas.

O som era muito precário, sem ensaio nem regente, os cânticos saiam na raça cheios de uma sôfrega verdade da boca daqueles que meses e dias antes eram tidos como párias de uma sociedade plástica que não foi capaz lhes curar os ferimentos nem acolher seus abandonos. Histórias de excessos, overdoses, homicídios, desamparo, violência, estupros, intolerância religiosa, exclusões, saíam impressas naquelas vozes que não desaparecem da minha recordação para sempre. Era-me inacessível compreender que força era aquela que os fazia cantar tendo todas as razões para calar. Na verdade razões não eram tidas como parâmetro para qualquer dose de alegria ou choro de felicidade, meramente, entusiasticamente, cantavam. Isso me parecia uma grande loucura, mais ainda quando trêmulo me percebi querendo participar dela. Seriam estes as tais coisas loucas do mundo escolhidas para envergonhar os sábios, as coisas fracas do mundo nomeadas para envergonhar as fortes? Não sei, sei que não havia no mundo outra companhia em que eu que desejasse estar naquela noite.

*    *    *

Apertei os olhos de terror quando o irmão que estava à porta da frente começou a desenrolar uma fala numa linguagem misteriosa, porém, que falava à intimidade das pessoas na capela, à minha assustadoramente inclusive. Lembrava uma língua perdida no tempo recuperada por aquele homem que mais tarde fui saber, havia parado seus estudos na terceira série primária e não escrevia seu nome senão com dificuldade. Ele não se repetia. Desenrolava uma narrativa completa, era como se contasse a história de todos nós ali. Todos de alguma maneira que não sei explicar até hoje, sabiam que era da intimidade de cada um que a misteriosa língua se referia. Quando um interprete se manifestou do outro canto da capela meu susto foi de um maravilhamento arrebatador. O que era aquilo que eu estava vivenciando?

Não me lembro do que foi traduzido daquela fala naquela noite, sei que todos nós nos sentimos incluídos naquela narrativa do céu. Sentimos estar envolvidos pelo abraço Eterno de Deus e sua fala nos comunicava seu tão elevado amor. Um amor tão puro e belo que para nos tocar tomava a boca e o coração de gente pobre e simples que não lia com desenvoltura sua santa palavra e pronunciava errado o nome de seu Filho. 
De alguma maneira que não sei explicar, era Deus que estava falando, ninguém tinha dúvidas disso. Razões? Naquela capela naquela noite, as razões é que eram frágeis.

A vigília continuou até o dia começar a fechar as cortinas da noite. E Deus falou muitas coisas naquele culto, e me parece que ele também gostava muito da nossa companhia, e queria muito ficar. 


Alex Carrari


4 de fevereiro de 2014

Uma não leitura, e Deus nunca mais foi o mesmo






Quando o Testamento Tardio (Novo Testamento) diz que, “Jesus Cristo ontem e hoje é o mesmo, e o será para sempre” (Heb 13.8), está querendo dizer que ele, e aqui enquanto reconhecidamente Deus, é um Deus inamovível, que acompanha a história como quem observa atentamente o cumprimento de um decreto, que não muda de opinião e não volta atrás em qualquer decisão, sendo estas três de varias outras expressões da sua imutabilidade?

Fora esse versículo de Hebreus não se encontra no Testamento Tardio, bem como no Tanakh (Antigo Testamento com organização diferente dos livros, que faz toda a diferença), garantias à afirmação de que Deus é imutável. A origem dessa concepção de imutabilidade está muito próxima da filosofia aristotélica, que formula Deus como o motor imóvel, que existe num momento único, eternamente o mesmo, sem qualquer variação ou mudança. Esse motor a tudo movimenta, mas ele mesmo não é movido, pois ser movido implicaria em estar sujeito às leis do movimento e acabaria perecendo, assim como tudo o que se move perece. Não só não é movido como também não se move em sentido contrário depois de ter tomado uma direção.

Daí para pensar perfeição nesses termos de imutabilidade é um passo lógico. A filosofia aristotélica retomada com empenho (nesse aspecto) no Renascimento pelo protestantismo, trabalhou o conceito de perfeição como apatia, imutabilidade e passividade. Sendo perfeito o ser que é invariável, inflexível, inalterável em suas decisões depois de tomadas. Então se Deus é perfeito, logo é invariável, inflexível, inalterável.
 
Deus sofreu muito com esse flerte filosófico, tornando-se refém de um esquema que no fundo lhe tirou a liberdade de mudar de ideia caso quisesse fazê-lo. A resposta para a pergunta, “Deus pode tudo?”, se exigida com sinceridade, não pode ser dada sem acanhamento e certa desconfiança, caso seja afirmativa. Sendo o Deus-motor imóvel, ele passou a não poder tudo, nem mudar de ideia ou de opinião.

Voltar atrás significa variação em sua onisciência, e toda variação implica em imperfeição. 

Com franqueza então, a resposta à pergunta, “Deus pode tudo?”, seria: “Sim Deus pode tudo, menos mudar”. Quer dizer, Deus é refém de seus decretos.

Mas a teologia sempre vem em socorro de Deus quando se encontra em perigo de cair em alguma incoerência (perigo que ela mesma inventa), e cria os antropomorfismos, para explicar que Deus na verdade não se arrependeu da haver feito o homem, pois arrependimento implica variação, imperfeição, e em Deus, o motor imóvel, não pode haver qualquer variação, que implica em imperfeição. A linguagem antropomórfica tenta explicar que o que o autor no caso fez foi dar ao leitor uma noção de como estava o coração de Deus naquele momento, só podendo tal sentimento ser explicado para humanos em termos humanos, Deus tendo uma reação tipicamente humana. Em outras palavras, o que Deus disse ou fez não é bem o que está escrito, deixa que a gente explica melhor.

Sem esse arranjo teológico providencial, porém, Deus fica livre para se arrepender do mal que pretendia fazer ao povo depois do evento do bezerro de ouro, em outro exemplo.

No texto Deus é totalmente livre para voltar atrás quando e como bem entende, no entanto, em teologia muitas vezes sua liberdade é cerceada para o bem maior do arranjo, e não importa que seja tolhida sua liberdade divina, desde que se mantenha a lógica interna do arranjo.

Nas páginas do Tanakh Deus se arrepende até mesmo do bem que estava disposto a fazer, caso não haja conversão depois de uma forte reprimenda sua:

No momento em que falar contra uma nação, e contra um reino para arrancar, e para derrubar, e para destruir, se a tal nação, porém, contra a qual falar se converter da sua maldade, também eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe. No momento em que falar de uma nação e de um reino, para edificar e para plantar, se fizer o mal diante dos meus olhos, não dando ouvidos à minha voz, então me arrependerei do bem que tinha falado que lhe faria”(Jer 18.7-10, grifo meu).

Ezequias estava marcado para morrer, Deus manda o profeta Isaías dizer (Isaías 38). Ezequias intercede por ele mesmo a Deus expondo a maneira como procedeu com fidelidade, com inteireza de coração, fazendo o que era reto aos olhos do Senhor. Não sei se foi o argumento do modo de proceder na vida ou se foi o choro, Deus voltou atrás e lhe acrescentou mais quinze anos de vida. Em se tratando de um recuo do primeiro decreto, o motor imóvel se moveu, e isso foi muito bom.

O peculiar caso de Jonas que sabia que estava a serviço de um Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que se arrepende do mal, é exemplo clássico de que Deus se arrepende e volta atrás. Para amenizar o desconcerto que causa o fato de Deus se arrepender do mal que iria fazer, os teólogos da crença no Deus-motor imóvel argumentam que Deus já sabia que Nínive iria se arrepender, que isso já estava em seus decretos, como também estava em seus decretos o arrepender-se, que na verdade significa outra coisa. E tudo parece um jogo de “vai lá e anuncia o que vou fazer, mas no fundo no fundo só eu sei que não vou fazer, e ninguém vai perceber o jogo que já joguei todo ele sozinho”.
 
Dizer que aquilo que julgamos ser mal, como por exemplo, exterminar uma cidade inteira, quando praticado por Deus acaba sendo bom, pois, suas razões para fazê-lo são inescrutáveis, santas, não humanas e dizem respeito à legítima defesa de sua honra, não é algo que consta no Tanakh. Aquilo que é mal é mal, mesmo sendo praticado por Deus. Sendo que, quando ele se arrepende do mal que iria fazer, era de algo mal mesmo. Tanto que ele mesmo diz nesses casos “...e me arrependerei do mal que iria fazer”. É mais honroso o arrependimento de Deus do que a tentativa da teologia em sublimar tão nobre iniciativa da liberdade divina.

É interessante notar que para o judeu não há problema em lidar com os arrependimentos de Deus, aliás, para o judeu é importante que Deus se arrependa do mal que muitas vezes pretendia fazer e volte atrás em algumas decisões, isso em muitos casos os mantém vivos como criaturas finitas e inadequadas diante de um Deus Eterno e Santo. Nos momentos em que Deus se arrepende e volta atrás o judeu pode perceber a dimensão da sua misericórdia manifesta.

Durante sua trajetória no Tanakh em que se deixa ser biografado, Deus se sente livre para voltar atrás e se arrepender de algumas coisas, e isso não é problema para o judeu, nem para Deus. Dizer que Deus muda, para o judeu, não significa de maneira alguma que seu caráter sofra danos e que com isso não se possa mais confiar em sua livre vontade e nos planos que ele tem para o povo. É problema sim para o teólogo que abraça a filosofia grega e seu arcabouço de compreensão, bebendo goladas da filosofia aristotélica do Deus-motor imóvel.

No Tanakh, Deus vai dando pista de que é um Deus livre o suficiente para voltar a trás e para rever suas sentenças, e que por isso mesmo um profeta como Jonas pode confiar que nem todas as suas sentenças são definitivas mesmo que isso lhe cause aborrecimento e amargura. Desconfio que o mesmo aborrecimento e amargura é o que sente o teólogo que acredita no Deus-motor imóvel, quando se depara com textos que indicam que ele revê muitas das suas sentenças, só podendo recorrer ao flerte filosófico e ao antropomorfismo para se contentar. Sendo o único ser que possuí completa alteridade, não poderia uma compreensão qualquer sobre o livro em que ele é o protagonista, dizer o que ele pode ou não fazer.

De todas as vezes em que Deus voltou atrás no Tanakh, é no Testamento Tardio que o relato absoluto de seu último ato de arrependimento está registrado com força avassaladora. É na decisão de Jesus em passar em revista a antiga identidade de Deus que se encontra seu derradeiro e definitivo recuo.

No Testamento Tardio, Deus deu os primeiros passos na direção da sua afirmação como um Deus livre o suficiente para rever, se arrepender e sugerir a revisão da sua identidade, e Jesus aparece na sinagoga em dia se sábado, e por um acaso divino o assistente lhe entrega o livro do profeta Isaías, Jesus aceita o sagrado encargo da leitura e divide a história de Deus em o antes e o depois daquela leitura:

O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4.18-19).

Jesus está dizendo que para fazer tudo o que se lê nessa porção do profeta Isaías, o Senhor o fez Messias. Ele está investido da autoridade do próprio Deus para realizar as obras das boas-novas. Esse é um primeiro ponto que não pode ser deixado de lado, porque o que vem a seguir é desnorteante. Na verdade é o que não vem a seguir. Jesus simplesmente interrompe a leitura de Isaías capítulo 61, fecha o livro, devolve-o ao assistente e senta-se, criando um clima de expectativa na sinagoga, com todos os olhos fitando-o. Será que estão esperando que ele continue e cite ao menos o que deveria ter lido mais do texto? Ele não cita mais Isaías e para exatamente onde quer parar e arremata, “Hoje se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir”. E, “Todos lhe davam testemunho, e se maravilhavam das palavras de graça que lhe saíam dos lábios, e perguntavam: Não é este o filho de José?”

Em Isaías ao “a apregoar o ano aceitável do Senhor”, segue, “e o dia da vingança do nosso Deus”. Nesse momento Jesus decide parar a leitura, fechar o livro e falar do cumprimento que mais lhe importa, evangelizar os pobres, proclamar libertação aos cativos, restauração da vista aos cegos, por em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor, como sendo uma invocação das eternas intenções de Deus. Tudo bem que em seu passado Deus evangeliza pobres, também liberta cativos e põe em liberdade oprimidos, mas a vingança é o outro prato da sua balança. Antigamente Deus não deixava passar nada e parece que o ser que Jesus invoca agora na sinagoga e mais tarde como Pai e que ele mesmo diz ser um com ele, e que ele faz o que vê esse Pai fazer, não é o mesmo ser. Será que ele mais uma vez vai deixar de lado sua vingança?

Não só pelo que Deus falou, mas pelo que ele fez antigamente é que parece que Jesus está invocando outra identidade divina. Da saída dos israelitas do Egito à entrada na terra prometida de Canaã, o Senhor executa entre os pecadores num período de quarenta anos pelo menos 30 mil pessoas. Em Êxodo 32, depois do episódio do bezerro de ouro, Deus ordena que 3 mil sejam passados ao fio da espada. Em Números 16, em um caso apavorante, Deus enterra vivos cerca de 250 insurgentes levitas e rubenitas, junto com suas mulheres, filhos e demais membros da casa. Com um cálculo aproximado de doze pessoas por casa, junto com concubinas e escravos, pode ser que o total de pessoas enterradas vivas seja de umas 3 mil. Mais adiante, o Senhor, irado com as reclamações de sede e fome dos israelitas, envia serpentes mortais que envenenam um número não divulgado, mas podemos pensar devido aos números anteriores que tenha sido bastante gente (Números 21). Em números 25, Deus promove um massacre de 24 mil homens depois que estes tiveram relações sexuais com sacerdotisas de um deus de Canaã.

Durante o tempo em que anda pelo deserto junto com seu povo, o Senhor parece ser uma companhia perigosa e sua vingança é pouco contida, chegando ele a cogitar exterminar toda a Israel e começar uma nova geração com os descendentes de Moisés (Números 14.12-19), mas é convencido pelo próprio Moisés a mudar de ideia argumentando que isso fará mal a sua reputação de Deus libertador.
Se Jesus citasse “o dia da vingança do nosso Deus”, estaria de acordo com a tradição em torno da conduta de Deus.

Um Deus que age assim com seus amigos, o que não será capaz de fazer com seus inimigos, as outras nações?
Em Habacuque 3, há o registro de um poema bélico em que Deus usará os poderes da criação como armas de destruição, marchando indignado pela terra, calcando os pés as nações, traspassando as cabeças dos inimigos com suas próprias lanças, fazendo tremer as estruturas da terra.

Jack Miles lembra que embora Habacuque seja uma evocação peculiarmente vívida do guerreiro divino em ação, o Senhor oferece caracterização de si mesmo essencialmente idêntica em dúzias de discursos de outros profetas. E Israel não deixa de entender o essencial e aprende a orar ao Senhor exatamente como o temível guerreiro que ele reivindica ser (Cristo: Uma crise na vida de Deus, p. 133).
Miles sugere uma passagem do livro dos Salmos como exemplo:

O nosso Deus é o Deus libertador; com Deus, está o escaparmos da morte. Sim, Deus parte a cabeça dos seus inimigos, e o cabeludo crânio do que anda nos seus próprios delitos. Disse o Senhor: de Basã os farei voltar, fá-los-ei tornar das profundezas do mar, mas para que banhes o teu pé em sangue, e a língua de teus cães tenha o seu quinhão dos inimigos” (Salmos 68.20-23)

Não há como evitar a lembrança da vingança implacável do Senhor contra Ameleque, por ter atacado Israel quando este peregrinava do Egito em direção a Canaã. O Senhor promete riscar do mapa Ameleque e pulverizar sua história (Êxodo 17.14). E ele cumpre a ameaça mesmo tendo passado algum tempo, e Saul é o executor da vingança divina adormecida:

Castigarei a Ameleque pelo que fez a Israel; ter-se oposto a Israel no caminho, quando este subia do Egito. Vai, pois, agora, e fere a Ameleque, e destói totalmente a tudo o que tiver; nada lhe poupes, porém matarás homem e mulher, meninos e crianças de peito, bois e ovelhas, camelos e jumentos (I Samuel 15.2-3)

Tendo Saul cumprido com as ordens, causou indignação do Senhor por ter deixado ainda com vida, Agague, o rei, e o gado para execução ritual em Gilgal. O Senhor não ficou satisfeito que algum homem ou animal de Ameleque tivesse sido deixado com vida e depôs Saul de seu reinado, deixando para Samuel a incumbência de finalizar o genocídio.
Por esse e uma série de tantos outros exemplos, não se pode negar o passado guerreiro do Senhor, nem sua identidade vingativa, o que contribuiu um muito para a formação da identidade de Israel, também guerreira e vingativa. Como também não se pode negar que nações cristãs que se impõem pela força e assumem a vingança tenham no passado guerreiro de Deus argumentos para serem tão ou às vezes menos genocidas.

Mas agora é o seguinte, não tocando no assunto da vingança do Senhor, Jesus está deixando claro Deus mudou seu ânimo em relação aos homens, e não quer mais ser evocado por seu passado guerreiro. 

Se a provocativa interrupção da leitura que Jesus faz do texto é adequada, significa então que preces como a do Salmo 68, não podem mais ser apresentadas a Deus. Não há como negar que o Senhor tenha sido no passado um esmagador de cabeças, porém, Jesus está mudando as coisas, o Senhor não pode ser elogiado por partir a cabeça de seus inimigos, porque ele não mais é um deus do tipo que arrebenta cabeças.

Se ao fechar o livro, Jesus não quer saber de falar da vingança do Senhor, quer dizer que ninguém deve mais esperar uma postura guerreira de Deus. 

Uma não leitura, e a história de Deus não foi mais a mesma. 
Depois daquele sábado na sinagoga, Deus nunca mais foi o mesmo.

    
Alex Sandro Carrari