28 de maio de 2016

Razões para eu não me considerar mais evangélico (Jesus não era evangélico)



Grandes personagens do circo televisivo, radiofônico e da mídia impressa do chamado “movimento evangélico” brasileiro, e outros de menor expressão que tudo indica também chegarão lá, todos os dias fazem e dizem o que bem entendem e crente algum faz nada para detê-los, pelo contrário, lotam auditórios, abarrotam estádios em cruzadas de proselitismo ufanista, patrocinando a insanidade e a sede de dominação que caracteriza esses sujeitos. Panis et Circenses; o pão é regulado e tem um preço, mas o circo garante a diversão abundante e variada de todos sem exceção e faz valer o ingresso pago a dez por cento mais as ofertas forçadas que amarram a boca do devorador e dizem ainda comprar um lugar debaixo do guarda-chuvas da benção divina que só quem dá é que recebe.

Lançar um olhar crítico sobre o dito “movimento evangélico”, faz parecer que há uma espécie de anacronismo entre os discursos de cada espécime destes, mas devo dizer que não, não há nada de desarmônico em suas falas, eles obedecem a um rigoroso propósito; açambarcar o poder à custa de qualquer um, a qualquer preço. Embora possa parecer que haja em cada discurso individual algum diferencial que o torna diferente em relação aos outros discursos em algum pormenor, a verdade é que o fio condutor, a linha mestra, o leitmotiv de todos eles é o mesmo, os pormenores são apenas disfarces, distrações para as massas. Caso algum fiel desacorde em algum destes pormenores, sem cerimônia muda de um espaço religioso para outro, mas continua servindo aos mesmos propósitos e fins, porque é sempre atraído pela força centrífuga das mesmas propostas e das mesmas promessas, e acaba se identificando com lugares que apresentem as mesmas ofertas que o anterior. Ah, quem nos dera ter Nietzsche entre nós para denunciar em tom oracular, “O PLATONISMO PARA AS MASSAS”.

É um que intima mil reais, baseando-se no código das leis judaicas, é outro que exige novecentos reais atribuindo valor místico ao 9, é outro que pede tudo o que o fiel tem ou não tem, exortando sob a fé que ele mesmo jura esbanjar: “De o que você não tem, porque o ‘Senhor’ vai te honrar e retribuir cem vezes mais”. Um compra um jato pela “pequena bagatela” de doze milhões de reais, o outro desfia sua ladainha pelo rádio na tentativa de convencer uma gama de fiéis a doarem mil reais para que o “Senhor” lhe dê condições de fazer a maior “obra evangelística” que este país já viu. No caso daquele, para que é o jato, senão para o conforto e a adulação de um líder ensimesmado cujo tapete esconde sujeira há décadas? E no caso deste, os mil reais que intima (chegando a ameaçar os crentes com as maldições do Antigo Testamento) e afirma choramingando que é pra fazer a “obra do Senhor”, vai pra onde o excedente? Para quem ele presta contas? Por favor, sem essa de dizer que ele presta contas a Deus, basta ouvi-lo falando de dízimos e ofertas (as tais das primícias e ofertas alçadas que de acordo com sua hermenêutica é um dinheiro altíssimo), para perceber qual é o deus a quem ele presta contas; Mamom é seu nome.

Antes de eu desconfiar tanto destes caras, lembro que em meu primeiro ano de seminário aconteciam muitas daquelas discussões sobre a missão, os valores, e o que é realmente pregar o evangelho, sendo que esta última questão desdobrava-se em outra: o que é o verdadeiro evangelho? Eu, naquele tempo um idealista que pensava estar formando minhas próprias opiniões, que era mais empolgado do que pé no chão, defendia essa coisa do evangelho incontaminado, sublime, sem pretensões de conquista da nação para Jesus, nem da minha cidade – pois aqui em São José dos Campos, se ouvia em alguns redutos da crença evangélica convocações ufanistas tipo: “Vamos ganhar esta cidade para Jesus”. No fundo quem espalha esse negócio sabe que não há como ganhar uma cidade de mais de setecentos mil habitantes para Jesus, mas como propaganda para fazer girar as engrenagens dessa máquina reprodutora de simulacros que se tornou a igreja, funciona e pega pelos os olhos os crentes, que não sabem nada sobre o antigo projeto de Jesus, fazer-nos suas testemunhas, e gostem ou não, é só. Aliás, deixe-me já dizer uma coisa, esses crentes são pegos por alguns motivos para mim muito claros. Primeiro, são tão vaidosos quanto seus líderes. Segundo, não sabem nada a respeito de Jesus. Terceiro, alguns até desconfiam que na verdade não é bem assim, mas preferem não mexer com isso, pois, para eles está tudo dando certo, então, como uma vez me confidenciou um crente para quem essa coisa de dar certo é muito importante: “Desconfio que não seja bem assim como pregam, mas prefiro não ir a fundo de verdade já que as coisas para mim estão dando certo”.

Os evangélicos são hoje na mídia uma grande piada sem graça, uma novela tipicamente brasileira com toda a leviandade sancionada pela moralidade frívola a que se apegam por desconhecerem a prática da arrebatadora ética do Mestre de Nazaré. Será que não vêm que o espaço que estão dando para a tal da música gospel, que, diga-se de passagem, é emburrecedora, piegas e sem conteúdo, não passa de um jogo de interesses de mercado? E, a que preço o bom nome do Cristo está sendo propalado? Quem está ganhando em mercadejar o sagrado sonho do Cristo? O slogan “Você adora, a Som Livre toca”, não sinaliza alguma coisa? O que significa esse “Festival Promessas”? Graças a Deus que à margem podemos ouvir Jorge Camargo, Carlinhos Veiga, João Alexandre, Gerson Borges, Gladir Cabral, Stenio Marcius. Com estes nossos ouvidos e corações estão a salvos do vazio musical que impera no mainstream evangélico.

A Bíblia, que já foi considerada a palavra de Deus, é comercializada compulsivamente sem nenhuma referência ao seu valor interno, e tem para todos os gostos e estilos. Por falar em slogan, posso criar alguns em relação à palavra: “Bíblia, agora você só não usa uma se não quiser”, ou que tal essa: “Aqui temos uma Bíblia que é a sua cara”. E de pensar que para os muçulmanos a palavra de Alá é sagrada e não deve ser comercializada. “Ah, mais somos melhores que esses estúpidos fanáticos que explodem mercados e perseguem os crentes!”, se esquivam os crentes. São melhores em que? Deem-me o nome de um pregador muçulmano que pede dinheiro todo santo dia em rádio e TV com a cara de pau que tem os pregadores televisivos e radiofônicos evangélicos? Mostrem-me uma feira muçulmana organizada para vender os produtos de sua fé, como as feiras evangélicas que movimentam milhões de reais por ano e que faz dos evangélicos uma parcela considerável da geração do consumo brasileiro? Alguém já ouviu falar em uma EXPO-MUÇULMANA ou EXPO-ISLÃ, a maior feira de produtos islâmicos da América latina? Qual foi mesmo o líder muçulmano que tentou entrar nos EUA com dinheiro dentro do Alcorão? Qual é mesmo o nome do pregador muçulmano que está sendo investigado por formação de quadrilha, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, envolvimento com o narcotráfico e evasão de divisas?
E compram a imagem do Islã que a cultura americano-europeia lhes vende. Acomodados à ideia que têm de Deus igualmente americano-europeia, todos os domingos cerimonialmente colam suas bundas crentes nos bancos das igrejas e adoram uma linguagem e um estilo, e nada mais, e dão a essa linguagem e estilo um nome, Deus. A atitude virulenta ao Islã aqui é um exemplo concreto, mas não o único, os crentes dizem coisas muito piores em relação a outras manifestações de fé, e com o mesmo argumento de defesa: “Mas nós não adoramos imagens, não acendemos vela pra morto, não batemos tambor em noites de sexta, não acreditamos em reencarnação, não somos politeístas, não somos socialistas, não bebemos cerveja...”

A alienação produzida pelo dito “movimento evangélico” é ainda mais triste e, ao que parece multiforme ao infinito, estranhamente reinventada por seus líderes alçados a categoria de ícones, quase-deuses inquestionáveis lutando para não perder o status no topo desse panteão androcentrico. A cantora sai pelo palco gatinhando como um bicho, arranhando o ar e rugindo, depois diz que recebeu a unção do leão. Por que não receber a unção do cordeiro? Será que não é porque leão simboliza conquista, dominação, matança, e cordeiro é morte muda e pacata? E a mesma cantora vai morar em Dallas numa “abençoada casona” e para desencargo de consciência diz que foi lá por um chamamento profético especial para combater numa luta espiritual um demônio territorial e que para isso teve de se armar calçada com uma bota de couro de píton. Ainda que fosse verdade, ainda que existisse o tal demônio, Deus está mesmo mal das pernas, pois, para brigar de igual com o “Exu-boiadeiro” precisa da ajuda de uma estrela de Jesus, e uma bota exótica. Isso tem como ser classificado; estilização e pieguice sincrética neo-pentescostal. Ouve tempos em que Deus foi bem mais poderoso.

Onde vamos parar? O que não estarão falando e fazendo esses tipos daqui uns vinte anos?

Quando a teologia da prosperidade estava sendo gerada na barriga da igreja brasileira e muitos sabiam que era um filho bastardo que ali crescia, não quiseram abortar, até celebraram e aguardaram com ansiedade seu nascimento. O bastardo nasceu e da noite para o dia cresceu. “Todo o crescimento é de Deus”, ouvi de um pregador há mais ou menos uns dez anos, que completou, “Se está crescendo é porque é de Deus!”, ele se referia à IURD, numa daquelas aulas tediosas sobre crescimento de igreja com o livro “Igreja Com Propósitos” de Rick Warren embaixo do braço como se fosse uma Bíblia.
Então agora não adianta reclamar. Agora é ajudar a criar o bastardo. Bastardo sim, mas abandonado jamais. De abandono esse filho não pode reclamar, pois, sempre recebeu todo o apoio necessário para continuar crescendo e sendo tudo o que nasceu para ser, um expurgo deseducado e falacioso.Se Jesus nascesse daqui a trinta anos diria se referindo a esses tipos: “Todos esses que vieram antes de mim são ladrões e salteadores”.

Por outro lado a estilização, a pieguice e o sincretismo, não são tudo, há também uma atitude mais sofisticada e eloquente que se reveste de sã e piedosa e promove incursões no meio desse movimento sob a bandeira da pureza e da tradição reformada. Tive experiências desagradáveis com alguns desses caras.

Ainda em meu primeiro ano de seminário eu suspeitava que a mensagem não fazia conexão com a experiência do chão da vida, só não sabia ao certo em que sentido. As suspeitas se fortaleceram na medida em que os discursos verticalizantes, impositivos, castradores, se pretendiam absolutos e inquestionáveis sob ameaças de execração pública, escondidas nas entrelinhas. Ecoavam em minha cabeça perguntas de todos os cantos, de todas as formas, em todos os tons. As respostas dadas, tiradas dos manuais de teologia sistemática do Gruden ou do Strong – que nunca cheguei a ler, preferia Camus e Kafka – como coisas nulas, nada respondiam. Aquietar desdenhando a dúvida e seguir o fluxo era a opção aceitável e bem quista ao bom servo que aspirasse ao ministério, ou a segunda opção, a permanência à margem e isso sob olhares de soslaio e recomendações aos outros alunos para tomarem cuidado com minhas idéias: “O Alex é um bom rapaz, ele é meio liberal, lê Bultmann e carrega um livro do Sartre junto com a Bíblia, está meio perdido, mas é um bom rapaz, pena”.

Quando a realidade árdua gritava no choro de crianças inocentes acabando-se de fome e abandono no Sudão ou no Nordeste, e a pergunta do porque de tanto sofrimento saía do fundo da sala, logo alguém com ares de advogado do “deus do quanto pior melhor” rebatia do alto de um púlpito imaginário, no exercício de sua profissão: “Perante Deus ninguém é inocente, nem mesmo uma criança; sofrimento merecido”. O raciocínio era o mesmo para todos, apenas com alguns ajustes quando no caso fosse um “escolhido” que estivesse penando, aí neste caso, a promessa do paraíso no além servia já de consolo. Para tudo, eu disse tudo, se fazia necessário explicar à luz de uma ordem preestabelecida, que filosoficamente chamamos de determinismo e teologicamente damos o nome de predestinação. Bastante utilizado também era e é o termo “desígnio inescrutável de Deus”, que em síntese é muito semelhante aos dois anteriores, a diferença é que neste último não cabe qualquer fundamentação lógica ou especulação racional; é assim que Deus faz e é assim que deve ser aceito, inquestionavelmente.
Esses “advogados do deus do quanto pior melhor”, dispunham dos mais diversos meios de consolar, não quem sofria, mas a si mesmos. Não importava o tamanho do sofrimento, o que importava era que houvesse uma conexão com a Providência e que o obelisco teológico, o umbigo do mundo fundamentalista não fosse mexido.

Foi no terceiro ano que um professor que eu tinha na mais alta estima, um grande amigo, que por incrível que pareça era também do mesmo meio dito “reformado”, mas que estava lendo Dostoiévski e Somerset Maugham, e isso me animou muito, veio a falecer muito novo e no seu velório estavam lá plantados nos entornos do caixão alguns desses guardiões da tradição que nunca se reforma. A tristeza da esposa chorando a morte de um marido carinhoso, fiel e companheiro, o choro emocional e não muito consciente dos dois filhos, sua menina de uns nove anos e o menino de uns seis ou sete, pela perda de um pai exemplar e atencioso, não foram suficientes para amolecer o coração do orador que a meu ver se tivesse ficado quieto teria ganho meu respeito. Mas ele resolveu falar enquanto deveria acolher o silêncio que a dor requer, e não se contentando em erguer a voz para seu próprio alívio e manutenção pública de suas crenças mais conservadoras – não importando o quão desumana fossem essas crenças –, colocou Deus no negócio. Foram essas as palavras que entraram como agulhas quentes em meus ouvidos, mas que a dor maior sinto até hoje no coração: “Deus, nós te louvamos porque o Senhor é Soberano”. Deu para entender que o que ele queria dizer com isso era que, a morte do Silas foi, de alguma forma que não compreendemos, para o louvor de Sua glória, e que Ele era exaltado com isso. Como se para provar Sua soberania e glorificar Sua existência, Deus tivesse de matar um pai, um marido, um amigo, um pastor, um professor, tão nobre, tão gentil, tão inteligente e tão dedicado quanto era o meu amigo Silas.

Dostoiévski foi nesse complicado período da minha vida um salvador, e o que mais me surpreende até hoje é que não foi o religioso Alyósha, discípulo do monge Zóssima, quem mais me convenceu a continuar prosseguindo e não perder a fé em Deus. Perdi sim a fé num mundo moralmente organizado por um Deus que não se importa com o sofrimento humano, que se preocupa somente com a manutenção de seu indecifrável e eterno ego. Ivan, o ateu do livro Os Irmãos Karamázov, o personagem que tem uma das atitudes mais cristãs que já conheci, e o que mais se aproxima da atitude do Cristo, num dado momento declara que tipo de ateísmo é o seu e o porquê dessa sua atitude, e que reconheço hoje, também é a minha e pelos mesmo motivos:

“’Talvez você se surpreenda, mas é possível que eu aceite a ideia de Deus’ – exclamou Ivan rindo-se. ‘Aceito Deus de maneira absolutamente simples: se Deus realmente existe, se é verdade que Ele criou o mundo, fê-lo, como sabemos, de acordo com a geometria de Euclides[...]Tenho mente euclidiana, bem assentada neste mundo; sendo assim, como poderia resolver problemas que não pertencem a este mundo? Portanto aceito Deus com relutância e também aceito sua divina sabedoria e propósito – coisas que estão completamente além da nossa compreensão. Acredito na ordem primordial e no sentido da vida[...]De qualquer maneira, penso que você se espantará ao saber que, em termos finais e absolutos, recuso aceitar o mundo de Deus, apesar de saber que é uma realidade. Creia-me, por favor, não é Deus que eu rejeito, mas o mundo que Ele criou

O problema é que este mundo organizado que Ivan recusa representa o caráter organizador de Deus, então significa que o mundo criado é expressão de Sua vontade e isso é que é inconcebível para uma mente sensível ao sofrimento humano. Ivan continua:

Talvez fosse melhor olharmos para os sofrimentos das crianças. Nenhum inocente deveria sofrer no lugar de outra pessoa, principalmente as crianças! Talvez seja uma surpresa para você, Alyósha, mas gosto muito das criancinhas [...] É pena, mas a minha lamentável mente euclidiana percebe que o sofrimento existe, que ninguém tem culpa disso, que à causa sucede o efeito, simples e diretamente, que tudo tende a atingir o seu próprio nível – ora, tudo isso são tolices à moda de Euclides! Vejo tudo isso e recuso aceitá-lo[...] Escute: o que é que as crianças têm a ver com a necessidade de sofrer para alcançar a harmonia eterna? Entre os homens, aceito que o crime de um atinja o outro, e o castigo de um recaia sobre o outro; no entanto, isto não pode acontecer com as crianças! Se é verdade que elas devem sofrer as consequências dos pecados dos seus pais, então não aceito essa verdade e considero que ela não pertence ao nosso mundo[...] Quero perdoar, quero abraçar os outros. Não quero mais sofrimento. Se o sofrimento das crianças é um parcela da edição dos sofrimentos necessários para se adquirir a verdade, então digo, de antemão, que essa verdade não vale nada[...] A harmonia não me interessa. Ela só faz sentido dentro do amor que sinto pela humanidade[...] Mesmo que esteja errado, prefiro ficar com o meu ressentimento e indignação. Além disso, fala-se demais em harmonia. Seu preço é alto demais para nós[...] Não estou rejeitando Deus, Alyósha, estou simplesmente devolvendo-Lhe a entrada desse espetáculo caro demais.”

Timidamente Alyósha, por quem tenho o mais elevado carinho – até pintei um quadro sobre ele –, responde Ivan dizendo que, “Isso é revolta”. Sim, é revolta mesmo. Mas não é revolta gratuita. É revolta centralizada num indelével e pungente amor pela humanidade. A interpretação cristã sobre Ivan não é convincente e não apreende o que vai ao âmago de sua indignação. Mais uma vez um ateu, pelos mesmos motivos que Ivan e eu, Albert Camus, é quem aponta o caminho:

Entendemos, então, que revolta não pode existir dissociada de amor. Aqueles que não encontram paz em Deus ou na história, estão condenados a viver pelos que também não podem viver decentemente: os humilhados. O momento mais puro de rebelião se manifesta no grito agoniado de Karamázov: se todos não se salvam, para que serve a salvação?”

Quando chego a lugar desconhecido e que em dado momento no meio de uma conversa sinto-me convocado a expor minha fé, primeiro tenho a necessidade de dizer tudo o que não sou e tudo o que não pratico, e esse tudo o que não sou e não pratico é tudo o que são e praticam os evangélicos. Não sou alienado do mundo, não sou paranoico com demônios, não sou ganancioso, não sou belicoso, não tomo banho de sal grosso, não recebo passe da luz, não como o pão orado, não tomo banho com sabonete ungido, não comprei o frasquinho de água do apóstolo, nem o óleo de oliveira de Israel, nem a água do Jordão, não oro por prosperidade, não creio em milagres banais nem milagres menores realizados por um Deus cirurgião de cistos, não acredito em predestinação, não acredito que Deus põe doença em alguém como método de sua pedagogia divina, não acredito que haja conexões entre as tragédias e uma inescrutável vontade divina que redunda em glória final a Deus, não acredito que Deus vai mandar para um inferno depois da morte pessoas que já viveram um inferno em vida, não acredito num céu como escapatória aos embates da vida que me faz resignar da responsabilidade de mudar o mundo.

Ser evangélico hoje é aderir a uma série de infindáveis bizarrices, cacoetes e paranoias. E como não tenho aderência a nenhuma destas, significa obviamente que não pertenço mais a esse meio.

Se algum dia me considerei evangélico hoje não mais, e nisso me ligo a Jesus. Jesus não era em nada evangélico. Nós é que fizemos dele um prosélito convertido por nossas fraudes e má recepção da vida sob uma tendenciosa leitura do texto.
Certa vez uma irmã muito simples que frequentou nossa comunidade, numa conversa de escola bíblica quis saber qual era o critério para se avaliar se uma proposta de evangelho tinha legitimidade com vida e proximidade com o Cristo. Eu disse a ela que era muito simples, porém, lhe custaria muito caro a decisão de viver hoje nesse meio tendo a coragem de levantar a questão e não aceitar passivamente o status quo estabelecido. Meu argumento foi que, dá para imaginar Jesus vivendo como esses caras que citei acima? Jesus seria capaz de organizar campanhas para desafiar os crentes a dar até aquilo que não têm? Dá pra conceber Jesus como um crente paranoico usando bota de couro de cobra em luta com demônios territoriais? Jesus hoje comeria o pão ungido, tomaria banho de sal grosso e sabonete ungido, tomaria o passe da luz, colaria a foto da sua família no mural da restituição? Dá pra imaginar um Jesus pragmático (ao estilo Bill Hybels e Rick Warren) sentado com seus discípulos logo pela manhã fazendo a planilha dos objetivos para o dia, “Ganhar tal e tal cidade inteira para mim, a qualquer custo”? Será que Jesus pregaria sermões monocromáticos cheios de repressão e medo? Ele montaria blogs e sites e gastaria seu precioso tempo exortando as pessoas a construírem vidas santas praticando moralismos estéreis que os afastasse do mundo? Jesus ficaria caçando “hereges” para legitimar um discurso tacanho e retrogrado que não convence por si só e precisa sempre afirmar que o inferno são os outros?

Não me considero mais evangélico também por dois outros motivos. Primeiro por canseira de ter de dar satisfação aos outros sempre. É o caso de ter mais a explicar do que não sou do que o que sou. Quando vi que cheguei a esse absurdo percebi que não fazia mais sentido habitar esse prédio. Segundo porque não comungo em absolutamente nada com os ideais e projeções dos evangélicos. Não quero ser rico enquanto a pobreza dos outros me aflige a alma. Não quero o melhor desta terra se caso meu irmão ao lado não tiver acesso a uma vida digna, que às vezes é apenas o básico. Não quero ir embora daqui deste mundo para me refugiar no céu enquanto Jesus orou para que o Pai não nos tirasse do mundo. Não quero falar de inferno para depois da morte enquanto infernos estão sendo instaurados no interior da vida. Não quero me sentir um privilegiado predestinado para a salvação por uma escolha divina arbitrária, enquanto resvalo em pessoas predestinadas pela mesma escolha arbitrária para o castigo eterno (Estou com Moisés, ou todo mundo se salva, ou risca o meu nome do teu livro).

Para Jesus ser evangélico ele teria de fazer tudo o que os evangélicos fazem e ser ainda inventivo o bastante para criar muitas outras insanidades, sem as quais a maquina não gira. Para continuar sendo evangélico tenho de concordar em manter a máquina girando, mas já dei meus motivos de que, no que depender de mim, ela não girará por muito tempo.



Alex Carrari



10 de maio de 2016

No caso de a fé deixar de existir


Parece insensato, provocante, mero capricho, mas tenho que dizer; neste caso do Batista, acho que a fé, ou isso que chamamos fé, deixou de existir. Caso exista, João Batista é o mais infeliz dos homens, pois, francamente – e não sem amargura – desconfia de suas próprias e certeiras previsões. Forçar o coração a admitir como verdadeiro isso ou aquilo, e como falso o que não seja isso ou aquilo, é o que frequentemente classificamos como fé, mas que não faz qualquer sentido. Para o caso desse resistente herói das desérticas paragens, a fé deixar de existir, é preciso que haja um sentimento tão elevado quanto, que preencha esse vácuo cheio das impressões do desamparo, que pode inclusive matá-lo por inanição espiritual – e ele sabe disso.

Enquanto a Galiléia celebra a chegada do amado de Deus, o afamado filho de Davi, na prisão em Maqueronte, João, o triste João, esgota-se entre quiméricas esperas e refreados anseios. Os ecos do sucesso daquele que pouco tempo atrás estivera se encurvando diante dele nas corredeiras do Jordão, e que ele próprio apontara publicamente como “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, chegaram ao cárcere. Junto desses ecos a desconfiança, não de que ele talvez não fosse, mas de que, podia ser que fosse “o que há de vir”. Querendo saber da veracidade das coisas que ouviu que dão conta de que o Messias anunciado pelos profetas, o que resgatará Israel, já chegado e que este poderá ser Jesus “o Cordeiro”, deu missão a dois membros de sua seita.

No auge de sua fama, desempenhando feitos notáveis, Jesus é achado pelos dois discípulos, que ao notarem o ar de festa em torno dele, ficam deslocados e surpreendidos. Acostumados a uma vida de rígido ascetismo, jejuns, orações, purificações, os dois encontram um galileu assíduo frequentador de festas, que agrada os ouvidos com boa música, os pés com danças e o estômago com boa comida e os melhores vinhos. Na hora oportuna transmitem a mensagem de seu mestre: “Tu és o que há de vir? Devemos aguardar outro? " Jesus, que a essa altura compreende sem hesitação seu papel de Messias, não deu resposta categórica, porém, convoca o confuso profeta a fazer uma avaliação dos feitos que, em seu entendimento, assinalam a chegada do Reino de Deus entre os homens, pondo em ordem suas obras, seu indiscutível desempenho; cegos vendo, coxos andando, leprosos sendo purificados, surdos ouvindo, mortos ressuscitando, e pobres recebendo o evangelho. Alguém que ouviu essa conversa escreveu alguns anos depois que Jesus acrescentou: “Esta é a resposta que ele não espera, mas que devem levar ao mestre de vocês”. E delicadamente envia a João também uma aguda advertência: “Bem-aventurado é aquele que não encontra em mim motivo de tropeço”.

Se o recado chegou aos ouvidos de João a tempo antes dele ser executado ninguém sabe. Terá ele morrido consolado com a certeza de que acertara quando da indicação do “Cordeiro de Deus” à beira do Jordão? Quando a espada mirada na nuca e a bandeja no peito estiveram para selar seu destino, terá ele se tranquilizado, certo de que aquele a respeito de quem ele sentenciou “o que há de vir”, realmente veio? Ou terá conservado suas dúvidas sobre a missão de Jesus, morrendo inquieto na indômita solidão da suspeita, ansioso, querendo crer?
Como pode esse mensageiro, que era ninguém menos que Elias ressuscitado – segundo uma crença bastante difundida – titubear depois de uma assertiva palavra a respeito de Jesus, e este Jesus agora se converter em fonte de suas mais pesadas desconfianças?

Sugiro uma saída, e acho que, talvez, pode ter sido essa a única via transitável disponível para João não tombar de vez, cedendo à total descrença. Parafraseando Rilke, e se esse não foi o momento para compreender seu próprio desconsolo e ao mesmo tempo começar a mais valiosa e autêntica produtividade religiosa que, a bem da verdade, não tem em si mesma a capacidade de levar ao consolo anestésico da resposta fácil, mas à honesta envergadura de dispensar todo e qualquer consolo?

Para, no caso de João a fé deixar de existir, o que o sustenta é o amor.

Tendo ficado marcado na lenda cristã, como foi na realidade, o austero endireitador das veredas, o melancólico pregador da obrigatória metanoia, sem a qual ninguém pode participar das alegrias do Reino de Deus, morre sem ver esse Reino que anunciou com tanta audácia arrebatado de paixão. Esse gigante das origens cristãs, comedor de gafanhotos e mel silvestre, despossuído de todos os luxos, esse bruto justiceiro foi, nas palavras de Ernest Renan, “o absinto que preparou os lábios para a doçura do reino de Deus, o degolado de Herodíades que inaugurou a era dos mártires cristãos; sendo a primeira vítima e testemunha de uma nova consciência.

Quem se investe da nova consciência do amor, dispensa as muitas concretizações, desobriga-se do cumprimento de certas esperanças, pode morrer desconsolado, sustentado somente pelo desejo de crer. João se arrisca a morrer na mais absoluta decepção, caso Jesus não fosse “o que há de vir”. Mesmo assim quer saber se ele é o tão aguardado libertador, ou deve ainda esperar outro.

Melhor sucumbir em rude decepção do que mornar na branda ilusão.

João não espera absolutamente o pior, nem o melhor, ele puramente quer crer, “porque aquele que espera sempre o melhor envelhece na decepção e o que aguarda sempre o pior mais depressa se gasta, mas o que crê conserva eterna juventude (Kierkegaard).

Na prisão, no caso de a fé de João deixar de existir e só existir o amor como propus, o que o conserva é um pressentimento acerca de um desconhecido, como tantos outros, que pede para ser por ele batizado, que antes disso já ouviu de sua boca; eis o Cordeiro de Deus... Não pela fé que desaparece quando mais deveria transbordar, mas, pelo amor que o levou a predizer o futuro daquele que seria chamado Filho de Deus, de quem se achou indigno de levar as sandálias, declarando que este que estava para vir, era maior que ele. Por ter se colocado acima do amor-próprio, esse áspero profeta é o mais honorável representante das origens cristãs; dos nascidos de mulher é o maior, declara Jesus, não fazendo mais caso de suas ofensivas dúvidas, porque sem amor ninguém nada é. João se esquece da esperança, supera a fé, porém, protege sua alma no amor, que desses três sentimentos é o maior. Só o amor tem a potência de fazer alguém querer crer, mesmo contra todas as provas circunstanciais.


Antecipando-se ao apóstolo Paulo, no mesmo Espírito, João viveu, sem porém escrever, que o amor é maior que a fé e a esperança.
Que dos três, fé e esperança são temporais, mas o amor, não. Pois, Deus é amor. 




Alex Carrari







30 de abril de 2016

Confissões: Eu Sísifo

  


Ah, esse ciclo viciante dos dias reiterando a repetição dos mesmos eventos em que me desgastei tanto sob o sol de ontem. Não Aguento mais a 5ª do Beethoven, o que era alimento para o espírito, a repetição tornou em macarrão requentado. Estou cansado até do García Márquez, que Deus me perdoe. Mesmo eu mexendo na colocação dos livros, aí estão como em dias anteriores, nem Baptiste-Chardin salvaria tão enfadonha exposição desse ambiente. 
Ah, a disposição dos livros levemente modificada, toalhas sobre o sofá, cortina entreaberta deixando a sala ser invadida pelo facho de luz de sempre, luz que anuncia uma tarde pesada como todas têm sido, todas que antecedem noites avançando rumo ao limiar dessa vida.   


Que há pequenas migrações de elementos não posso negar, mas no geral, no macro, o ambiente que me encharca, que incorporo antes de sair à rua, é de monótona repetição, e na rua, repetição sobre repetição. A planificação do hoje na noite de ontem delimita meu raio de ação, as horas arreiam meu jeito de andar, meu apetite, minha vontade de beijar, de ir pra cama amar e falar dormindo, para que pouca coisa saia do roteiro exigido para o bom andamento do dia.


Do bom andamento dos planos traçados para o dia depende um fim de noite com o senso de obrigação cumprida, endossado pelas palmas imaginárias que recebo pela produção de coisas, papéis, números, pela tentativa de persuadir alguém a aceitar o que descreio (esforço vão), pelo meu egoísmo, soberba e metidez polidos de humildade e gentileza.
A tirania do tic tac ritma minha ansiedade hoje pelo amanhã em constante comparação com a ridícula produção de ontem.


É na cama, em rendição, que num surto de lucidez, antes do indutor de sono se dissolver completamente debaixo da língua, me dou conta de que tudo o que empurrei ontem morro acima no mundo, durante minhas raras e preciosas três horas e meia de sono, rolaram de novo à minha porta atravancando a saída, obrigando-me a se quiser sair, empurrar novamente morro acima repetindo a inexorável ordem já incorporada aos planos da vida.
Ah, os dias e as horas, os afazeres e as prestações de contas, as ideias e as argumentações, repetições, corpos abstratos de morte em minha porta.



Alex Carrari




13 de abril de 2016

O caminho da felicidade segundo Jesus Cristo (parte 1)



Ao perguntar por que nossas sociedades são tão conflituosas, tão violentas, René Girard, considera o mimetismo a origem da violência que se estrutura para  decompor as tentativas de estabelecer e sustentar uma coletividade eticamente irmanada formada por indivíduos movidos por desejos descentralizados. 
Girard não leva em conta apenas os grandes conflitos, as mega-violências, ele considera as formas mais básicas e sutis de agressão em constante acumulação como primordiais fornecedoras de substância para maiores obras de violência, aquelas dignas das grandes notas nas crônicas da história.

No desdobramento da pergunta sobre os porquês dos conflitos e violências nas sociedades, outras espontaneamente sobressaem: Por que existe no ser humano um ímpeto de competição? Por que está envolvido em uma insana disputa por espaço na esfera do que se chama, “mercado”? Por que ele sente e reage ao outros semelhantes como sendo uma constante ameaça?
O filósofo francês vai encontrar a resposta no Decálogo, mais especificamente no último mandamento: “Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem coisa alguma do teu próximo”.
Girard diz então que o grande problema do ser humano é a cobiça. Nós olhamos os outros passando em posse das coisas que não temos e desejamos aquilo que eles têm.
Como seres desejantes, sentimos a permanente falta de alguma coisa que não sabemos o que é, que nos preencha aquele espaço do tamanho da eternidade, como escreveu Dostoievski. A falta daquele produto que está em posse do outro me faz aborrecer na sensação de um esburacamento interior sem fundo.

Usando outra gramática, queremos alcançar a felicidade e em nosso imaginário algumas coisas nos farão felizes, mas como não sabemos o que é e em que quantidade precisamos, elegemos algumas pessoas que nos parecem tê-la alcançado e achamos que as coisas que elas tem as fazem afortunadas na vida.
A revista “Caras”, nesse sentido, é o mais bem acabado exemplo de informativo dessa felicidade plástica, que, aos menos treinados em manjar a clássica estética do engodo, que Marx já nos preveniu sobre a alienação da alma no produto, estampada em sorrisos Colgate Luminous White, fabricados sobre a tênue crença na permanência das coisas, parece um objetivo aplicável de satisfação comprovada.
Uma revista tão idiota em conteúdo e tão cativante no cheiro da riqueza que exala em cada página, deve ser considerada em sua força simbólica de nos fazer querer ser aqueles tipos irretocáveis por sua relação com os produtos que os representam, quando em condições normais eu me contentaria apenas em “ser John Malkovich”.

Como poucos podem ter tanto e ninguém pode ser outro, o mercado promete ajudar a burlar esse impedimento nos proporcionando ao menos o acesso às replicas dos bens de consumo que a outra pessoa que queremos ser possui. Isso é o que René Girard vai chamar de “desejo mimético”, quer dizer desejar por imitação. Funciona assim, elegemos algumas pessoas como ícones de felicidade pelo que elas possuem e passamos a desejar o que elas têm para quem sabe nos tornarmos elas.
Essa fixação nos bens de consumo como fonte de felicidade leva aquele que possui o produto a fazer questão de ser invejado, uma vez que é no desejo do outro que está o valor dos bens que se possui. Repare, não há inocentes nesse jogo.
Portanto, é o desejo que aquece o mercado, é a competição que alimenta e estimula a produção, é a cobiça que dita o ritmo do consumo.

Instaurado está, nesse espaço, o ciclo de alienação do indivíduo no produto com os desdobramentos que Marx previu, e na praça do livre comércio o velho pesadelo de Hobbes se concretiza na forma da “luta de todos contra todos”, pela posse dos produtos.

E assim nos vamos bestializando, declarando com o esforço do nosso trabalho na entrega dos melhores anos de nossas vidas nas esteiras do comércio, que o que nos define é um mero produto sem fôlego de vida. Sendo na inversão completa dos valores entre criador e criatura, o produto define nosso preço.
Na ânsia de ganhar o mundo, perdemos nossa alma.


Continua...




Alex Carrari

9 de março de 2016

Teologia do cotidiano: dia redimido pela didática da poesia

  
No balanço seco do meio da tarde, empurradas pelos efeitos de um sol inclemente, inconveniente, duas pobres posturas confiam encontrar abrigo sob uma escassa e rala sombra de árvore nova.
Mãe e filha, escoradas num carrinho de sorvete, provedor do sustento de ambas, depositário da esperança de dias melhores, não obstante a rígida privação seja uma indesejável condutora de seus destinos.
Ostentada com orgulho, a barriga admiravelmente grande é cuidadosamente mimada com doçura por quatro mãos absolutamente singulares em suas texturas.

Seguem-se duas diferentes leituras do mesmo evento.

Da mãe

Concentra-se na jornada em ambiente agressivo, de onde depende tirar um pouco de folga no orçamento e a garantia de alguma sobra na despensa, regulada ao limite. Leitura realista e objetiva que acautela contra os sonhos que não tenham por finalidade última o arranjo da subsistência.

Da filha

Devota sua mais delicada atenção ao frescor capaz de provocar lampejos de felicidade conservados no abafo gelado da caixa de isopor sobre rodas, nos cheiros e sabores que variam de acordo com a imaginação, intensidade e absorção pelos sentidos.

A forja da gesta heroica desta mãe consiste em tentar resguardar a pequena das agruras a que tão cedo se viu exposta na vida, mantendo-a bem asilada no resguardo imaginativo de seu regaço onde a pequena, folgadamente, sorve com deleite um picolé de limão, providencial cortesia da casa.

A suspeição da ausência de brilho num futuro próximo quando tiver de apresentar seu ambiente ao caçula, ainda protegido no útero que descansa sobre as ancas, que ampara com disposição e força, lhe estampa feição ainda mais afadigada.

Enquanto aguarda em resoluta reverência o findar da liça algures
Lamenta que os dias e as horas não sejam manso movimento.
Enquanto persiste o rubor queimante sobre os dias e as horas
Pensa em compor versos e fragmentos de narrativa.

Sente um impulso para declamar aos portões
Dos que recusam sua oferta refrescante.
Matéria pra compor tem de sobra,
Já que soube por boca de alguém,
Que na atmosfera indócil, o aprendiz de poeta monta seus arquivos.

Com ar festivo, enquanto a mãe arqueia o corpo evoluindo rua a fora segredando penitência, sem ajuizar sobre o contrassenso do impulso a pequena dança em redor do carrinho como que o louvando pela providência do efêmero saboroso frescor, ápice do dia, junto com uns trocados, justa paga.

Quase percebido, fui passando a passos calculados para não causar acanhamento.

De passagem pude ouvir ainda a voz delicada, quase apagada, da pequena pedindo à sua protetora que lhe recitasse alguma coisa “daquele poeta chileno”, algo que combinasse com aquela ocasião.

Absorta, sem qualquer introdução, a mãe se derramou em versos:

FRAGRÂNCIA,
Lilases...

Claro entardecer de minha longínqua infância
que flui como leito de águas mais tranquilas.

E depois foi um lenço a tremer na distância.
Embaixo de um céu de seda a estrela cintila...

Nada mais. Pés cansados nas longas errâncias
e uma dor, dor a remorder e que titila.

...Ao longe os sinos e as canções, tristezas, ânsias,
virgens que possuíam tão doces pupilas.

Fragrância,
lilases...


Ah, Neruda.

Ofegante, porém purificado, apertei o passo. Apesar de enfraquecidas, as vozes continuaram reverberando como sinos anunciadores da hora fantástica, do encontro inesperado com a face abençoada.

O sol andou e na paragem do crepúsculo fomos, eu e elas, surpreendidos.

O sol andou e algo mais sobre a ocasião, as causas e os efeitos, fora ilustrado pela didática da poesia, que, na última estalagem do espírito, na ressonância dos versos, redimiu nosso dia.



Alex Carrari

27 de fevereiro de 2016

Jesus, presença que salva



Um ser tão humano pode criar em torno de si uma atmosfera de irresistível salvação ao ponto de, com sua simples presença à mesa, levar alguém a decidir refazer radicalmente sua rota de vida redimindo sua história e aliviando a de outros? Se este ser tão humano for Jesus, surpreendentemente, sim.
À mesa na casa de Zaqueu, Jesus não articula nenhum grande discurso. Não há registro de qualquer lição moral, doutrinária ou normativa. Jesus é elegante demais com amigos recém-conquistados. Ele não mancha a beleza do momento singular da partilha do alimento com pegadinhas religiosas oportunistas, jamais fica esperando uma brecha na conversa para “evangelizar o perdido”. Seu interesse não é o de “ganhar” aquela alma para si. Jesus não trabalha com metas de crescimento de rebanho. Ele não se rende à tentação de fazer senso dos prosélitos para legitimar sua pregação e assim confirmar publicamente que Deus aprova seu projeto.
Em condições normais um evangélico médio ficaria à espreita na conversa esperando uma oportunidade, ou conduziria a conversa para uma zona onde encontraria momento oportuno para tentar “converter” um tipo socialmente ignóbil como Zaqueu.


Mas graças a Deus, Jesus não é um evangélico, e embora haja as tais condições não é a sua cara oferecer-se para comer na casa dos outros para passar sermão, nem tentar arrastar ninguém para o seu lado. Para Jesus, fazer prosélito é tirar alguém de um inferno e torna-lo filho de outro pior ainda. O mestre não arma cenas, não arranja momentos, nem fica procurando criar clima para “salvar o ímpio”, ou para usar um jargão mais brega e ufanista ainda, “saquear o inferno”.
Ele quer companhia, conversa e partilha, quer receber de Zaqueu o pão e o vinho, honrar e ser honrado na sagrada planície da mesa.
Mas Zaqueu é pecador! Sim, e é deste tipo de companhia que este santo homem de Deus gosta. Estranhamente, é com gente de índole duvidosa como Zaqueu que Jesus gosta de dividir o prato e aceitar das mãos que pecam roubando, a doação do sagrado alimento.


A lição que Jesus dá aos religiosos o coloca sempre sob muitos riscos, pois toca no orgulho de uma piedade pervertida institucionalizada que alega que santo não come com pecador.
Jesus pensa e vive o contrário, para ele santo que é santo come com pecador. O lugar de santo é entre pecadores, o lugar de salvação é onde tem gente que se perdeu pela vida.


Jesus não rebaixa sua mensagem a um jogo onde só o que interessa é povoar o céu (aquele céu dos crentes, ideal, acabado e distante), pois, se assim fosse, suas amizades seriam todas falsas e ele nunca teria uma conversa nem daria uma risada sincera com qualquer um sem que por trás não tivesse em processo um evangelismo de emboscada para capturar mais um potencial prosélito distraído.
Ele faz amizade com gente esquisita de má fama, é contado entre os beberrões, dizem que tem demônio, come com os párias, chama para si os doentes e fracos e diz que um banquete para todos os tipos excluídos da vida está sendo preparado para aquele dia. Por isso gosta de antecipar aqui nessa eternidade a mesa que será posta no mundo porvir.


Jesus é um evangelista exemplar, não precisa entulhar o cara de versículos (para os evangélicos os versículos mais eficazes para evangelismo são os que acusam e deprimem), não precisa lançar mão do expediente do medo. Como evangelista, Jesus tem ainda algo que os evangélicos não têm, ele não prega para provar que está certo e o outro errado. Acrescente-se a isso que Jesus evangeliza porque ama, por isso não acusa, nem deprime, muito menos provoca o medo nas pessoas para que seja aceito. Seu evangelismo é de amizade, companhia, comida à mesa, paixão pelo sagrado momento do encontro entre mundos internos.


Jesus evangeliza com a vida,
a vida é que precisa ser salva.


Ele foi o primeiro e o último evangelista que situou a boa notícia no lugar querido por Deus, entre os marginalizados da vida. É à margem da vida que os leprosos são rebaixados, os cegos ignorados, as mulheres depreciadas, os aleijados atropelados, os cobradores de impostos hostilizados, e é da margem desta vida que Jesus se convida para celebrar outra vida à mesa tendo como anfitriões os mais excluídos tipos da sociedade. Ele gosta tanto desse tipo de companhia que promete um dia celebrar em seu reino tendo estes como convidados e ele como anfitrião.


No céu dos certinhos, Jesus não entra, no céu de Jesus, os gabaritos da religião é que ficam de fora.


Com um clima desses à mesa, Zaqueu não se contém, dá um salto e se arrepende. A luz da presença de Jesus o faz olhar num instante a vida de outra maneira. Seu olhar sobre a superfície da vida muda à medida que recebe a profundidade da companhia de Jesus. Ele decide dar aos pobres metade dos seus bens e restituir quatro vezes mais aqueles a quem prejudicou.
Jesus, vendo o gesto espontâneo do pequeno homem, também não se contém e, feliz da vida, afirma que aquele gesto fez percebida a salvação naquela casa.
Uma vida, um mundo salvo pela simples companhia à mesa. A salvação de Zaqueu se estendeu à salvação de quem havia sido por ele colocado em desvantagem na vida.
E pensar que tudo começou quando Deus estava tão baixo na existência que o pequeno homem precisou subir em uma árvore para poder vê-lo, sem imaginar em suas melhores expectativas que Deus gostaria da sua companhia naquele dia e aceitaria de suas mãos o pão e o vinho.



 Alex Carrari



23 de fevereiro de 2016

Temos grande urgência em aprender a morrer



Em outras palavras, Montaigne quis dizer: Aprender a morrer constitui todo o ensino que poderemos alcançar a respeito da vida. A morte maturada, a longevidade possível arduamente treinada, consequência de uma vida bem cumprida sinalizada por alguns feitos, uns grandes outros nem tanto, nos pede humildade para nos reconhecermos pequenos diante da grandeza de um evento tão assombroso e ao mesmo tempo tão redentor. E assim quem sabe, ao nos retirarmos do mundo, exaustos de tantas presenças, o façamos com nobreza e com a mesma mansidão com que nascemos (talvez a morte seja um outro nascimento como já versou o Saramago).

Temos grande urgência em aprender a morrer lentamente após cada entardecer percebido com o pasmo e a reverência essencial das primeiras visões da vida. Não digo morrer como quem renuncia à vida ou dela se abdica com devotado abandono, que seria o contrário de qualquer aprendizado, e não haveria aí lição alguma. Renunciar à vida não traz nenhum aprendizado sobre a morte, que é de um valor tão esplêndido e indescritível que até mesmo Deus dela experimentou, sorvendo-a intensamente (perdoem-me a heresia, talvez Deus tenha tido certa curiosidade em relação à morte, por isso a experimentou). Ele, que antes do silenciar de sua carne aprendeu a morrer todos os dias, pôde enfim permitir, sem culpa, que continuássemos a ser afligidos pelo mais absurdo dos medos cultivados, a hora em que a resistência da memória será posta à prova e então, tarde demais, saberemos se o esquecimento se aloja onde a carne silencia, ou se, de acordo com minha educada intuição, preservar-se-á de alguma outra forma até aquele dia.

Aprender a morrer é também ensaiar despedidas.

Despedidas são uma espécie de abertura num mundo de tantas invenções e prodígios como este que particularmente arquitetamos no curto espaço entre um respirar e um espirar divino, instante em que vivemos que designamos como existência. Todas as despedidas são em si a mesma coisa, apenas lhes damos diferentes nomes para que a experiência pareça sempre outra, e a dor não dê impressão de encher-nos o peito. Essa existência não teria o devido valor caso não fosse a justeza e o rigor de sua curta duração. O prazo de cada vivência é repleto de desconfianças contra toda dor, e de intermináveis esperas por um tempo que parece se distanciar cada vez mais; que seja mais fecundante e adequado à eternidade que tanto se demora. Uma pulsão sagrada – algo que é peculiar a nós, os que reconhecem por demais o aqui – deita sua arejada sombra sobre tudo o que consideramos digno de que não participe das comuns e inevitáveis partidas, nos impelindo à resistência contra o acúmulo de desconfianças e esperas, alentando-nos o espírito no momento em que a eminência e o prenúncio de tantas perdas se achegam.

Quem o quanto mais reconheceu o aqui e tanto mais se amasiou dos entardeceres, mais terá de acostumar-se, enquanto aqui, às despedidas que ao longo da vida forçosamente fará, até que a última de todas as despedidas, a sua própria, não terá como acompanhar, já não mais será encontrado entre os vivos.

A morte, essa ocorrência, a mais colossal de todas as ocorrências não esclarecidas, empurra-nos para o mais fundo da vida e exige-nos o cumprimento da mais admirável tarefa; acatar sem hesitação as mais íntimas experiências de perda, ou morte que seja, que se verga sob a gravidade de uma má suspeita. Delimitada com meios e medidas, a morte, formidável e ricamente ilustrada, se encarada com gravidade, nos parece ser a maior parte desse Todo que nos confunde com infinitas transformações necessárias, nos impondo seu ritmo soberano sob a névoa das mudanças, organizadas pela transparente graça que paira onde é decantado o sacro-santo sopro da vida.

Mesmo que tenham direito a existir, as concepções cristãs de um além, junto com outras hipóteses da periferia divina, são consolos que se demoram demais ao coração. O coração esquece muito, e os consolos nele não encontram abrigo caso estes sejam inalcançáveis para o momento (o instante entre um respirar e um espirar divino, em outras palavras, o aqui).

Supondo que pudéssemos dominá-la – como de praxe supomos em relação a quase tudo – acreditamos que a morte em sua essência mais íntima fosse contrária a nós. Nos esquivamos – como se pudéssemos –, do dever de admirar a organização da vida e seus fundamentos que Deus nos confiou e que decerto sempre esperou que dele nos valêssemos em cada posição provisória dessa trajetória cuja curva vertiginosa seguimos sem contudo nos determos em parte alguma.




Alex Carrari




29 de janeiro de 2016

Das poucas coisas que deveríamos saber


Com que vida encherei os poucos breves
Dias que me são dados? Será minha
A minha vida ou dada
A outros ou as sombras
?


(Ricardo Reis)

Temos vivido como se fossemos viver sempre, e não nos ocorre os malabarismos que temos feito para driblar e resistir a morte. Temos desperdiçado nossos dias correndo atrás do vento, como se fossemos plenos de tanto tempo, como se este fosse abundante e que pudéssemos por luxo ou mero capricho, desperdiçá-lo. O tempo que desperdiçamos pode talvez ser o último. O tempo não nos é dado e sim tirado. Não fazemos anos, como disse o Rubem Alves, os desfazemos. Quem se defende por correr atrás do vento achando que faz grande coisa, deveria fazer o cálculo de sua existência. Conta os anos que já te foram e projete os que ainda te faltam – se é que o podes fazer. Aqueles com certeza os sabe e os tem todos na conta, mas e estes? Projeções não significam nada na conta do tempo. Pois então as únicas datas de que temos pleno conhecimento são as que nos foram subtraídas, as que denunciam que estamos nos extinguindo rapidamente.

Porque esperamos tanto para nos dedicarmos ao ócio? Cheios de júbilo dizemos: “Chegando aos sessenta, ou setenta anos – que alguns denominam “a melhor idade” – relaxarei de todas as minhas fadigas”. Mas podemos confiar que viveremos tão longamente? E que garantias temos de que os planos traçados e que as riquezas bem guardadas terão os desfechos que prevemos com tanto medo e ansiedade? E quem nos induziu ao grave erro de esperar chegar à idade avançada e isso com tantas certezas? Somos melhores em algum aspecto do que aqueles que morrem com a idade em flor? O que de tão especial temos que nos achamos no direito de folgar na confiança de que passaremos ilesos aos acidentes do acaso a que todo mundo está exposto e que interrompe vidas virtuosas e nobres projetos?

Não caiamos nessa de “a melhor idade”, isso não existe, o que existe são os melhores dias. E vivamos não de idades, mas de dias. Sêneca, esse honesto romano disse:
Do mesmo modo que uma conversa, uma leitura ou qualquer reflexão maior desvia a atenção do viajante, que, de repente, se vê chegando ao seu destino sem perceber que dele se aproxima, assim é o caminho da vida, incessante e muito rápido, que dormindo ou acordados, fazemos com um mesmo passo que, aos ocupados, não é evidente, exceto quando chegam ao fim”.

Devemos estar cientes de que, a única aposta certeira que podemos fazer é que contra o tempo estamos em desvantagem sempre. Quanto mais ocupados estamos, a vida ainda mais se apressa, e a morte mais se adianta. E não nos enganemos quem nos entregará à morte será a própria vida, quando se cansar de tanto pouco-caso.

De acordo com a sabedoria do Qoheleth – que não é exclusivamente sua – a vida se divide em três fases ou períodos: aquilo que foi, o que é e o que será. Certo é somente o que fizemos, breve o que agora fazemos e dúbio o que estamos por fazer.
Tão breve é o tempo presente que sequer é percebido, na verdade incorretamente dizemos “presente” quando ao terminar de dizê-lo já é passado. O presente só se faz notar em tese, como um mero conceito de intervalo entre passado e futuro, ou seja, entre o que é certo, pois já se foi e pode ser constatado pela recordação, e o que é posseiro das nossas dúvidas mais agudas já que o que está à nossa frente é completamente incerto.

O tempo passa e não se pronuncia audível, comunica-se por sinais, se deixa perceber através das marcas que vai deixando em nós impressa. Vendo as marcas e interpretando-as é que nos sentimos ir. Breve é o tempo da mais longa vida. A lei inexorável do esvair perpétuo que não cessa nos pesa e dói.

De tudo o que nos apaga a vida e nos rouba o tempo, o comprometimento com as coisas perecíveis são as mais estúpidas. Comprometidos com as coisas que estão fadadas a se extinguir e se invalidar tão rapidamente quanto nós, perdemos o agora, e não chegamos a viver o amanhã, pois o antecipamos em nossas mais solícitas preocupações e quando deveria ser o tempo de o vivermos ele já não está estendido à nossa frente, o consumimos mesmo antes que existisse.

Gastamos nossas fases mais produtivas da vida defendendo tolas idéias sobre as mais variadas bobagens, juntando cacarecos onde está o nosso coração que, não bastasse isso, está entulhado com todo tipo de merda de consumo a que, rilhando os dentes, damos tanto valor. Decidimos viver quando na verdade já deveríamos fazer planos e testamentos, e ensaiar uma digna despedida. Começamos a pensar em viver quando é tarde demais. Deveríamos, acredito com todas as minhas forças, usar o tempo para instruir-mo-nos no viver, e não acompanhá-lo em sua passagem enquanto desfazemos os anos que nossa ganância e avareza nos faz acreditar que lucramos.

Será que somos como aqueles que como disse o Sêneca, não viveram muito, apesar dos cabelos brancos e das rugas? Será que somos como muitos desses que apenas existiram por muito tempo? Existir é uma coisa, viver é outra. Para existir basta estar aí, na opacidade, inerte, uma criatura maciça, parafraseando Sartre; simplesmente um em-si sem projeção nem transcendência alguma. Ah, mas para viver tem de haver desenvolvimento, envolvimento, e a clara noção de que esta é, ao menos por enquanto, a única vida que podemos conhecer – embora eu gostaria, de coração sincero, que houvesse outra depois.

A vida é um sopro. Não é a toa que no Decálogo Deus sopra no nariz do Adão. Isso significa que lhe está sendo dado algo ao mesmo tempo poderoso, pois trata-se do fôlego de Deus, e volátil, pois expirar-se-á vagarosamente até voltar totalmente para Deus. O sopro que nos põe de pé será bem cedo requerido de volta e isso nos devolverá ao berço do pó. O tempo é incorpóreo e talvez esteja aí o motivo de não fazermos muito caso dele. Não o valorizamos devidamente e fazemos uso irresponsável da sua presença como se isso não nos custasse tão caro. Contudo, quando chegar o dia mal e uma doença nos invadir violentando-nos por dentro e por fora, correremos e nos jogaremos aos pés do sacerdote para que interceda por nós, para que possamos ficar um pouco mais. Quando não, nos lançaremos aos consultórios médicos e gastaremos todo o nosso rico dinheiro que afadigados guardamos por tanto tempo onde a traça rói e a ferrugem consome. Aquilo em que empatamos todo o nosso tempo e empenhamos toda a nossa vida será gasto para tentar viver mais um pouco e ganhar mais um tempo. Arre, para que gastar preces ou ouro que seja para prolongar uma existência tão medíocre? Se for pra isso que se vá de uma vez.

Ocupamo-nos tanto e tanto em trabalhar duramente para melhorar nossa condição sem nos darmos conta que por maior que seja uma conquista sempre haveremos de querer mais e mais e mais e mais... Essa é a nossa constituição mais básica; seres que jamais estão satisfeitos. Sempre dá pra ganhar mais, não importa a que custo, seja perdendo o nosso tempo ou arruinando o tempo dos outros. Viver desse modo é o mesmo que encher de terra um vaso sem fundo.

Morreremos empatados demais de coisas. Morrermos trabalhando demais por nada, buscando uma elevada posição para quem sabe ter no túmulo uma vã inscrição que, tarde demais, dirá tudo sobre nós, dirá tudo por nós: “morreu ocupado”. Pensemos agora se isso é agradável.
Das poucas coisas que deveríamos saber é que, tudo o que nos toca, e tudo o que tocamos, num momento qualquer, sempre inoportuno, com ou sem aviso, nos será tirado. Nossa curiosidade será satisfeita. Nossa euforia findar-se-á. Nossa ganância terá seu fim. Porém, tarde será. Para o lugar aonde iremos depois que findar a vida não haverá lembrança das coisas.


O que é certo é que, por enquanto a única vida que temos nas mãos em nossa posse provisória, a única que parcialmente conhecemos, é essa que nos acorda dia após dia para fazermos o que tem de ser feito, e que deveríamos dar o melhor de nós para que tenha valido a pena a aposta que Deus fez na vida. Que ao final de tudo não haja tantos arrependimentos. Que nossos olhos tenham enchido os nossos corações das mais estéticas verdades. Que no momento em que a vida nos escapar e chegar a hora do barqueiro aportar na enseada da nossa finitude, haja envergadura suficiente para não lamentarmos tantos desperdícios. Caso haja algum lamento, que seja “por ter de deixar um mundo assim tão bonito”, como disse o poeta.


Alex Carrari