19 de maio de 2015

O milagre vindo de fora apresenta Deus como um fazedor de coisas (primeira parte)


À maneira do senso comum, lidamos com o milagre sempre como um poder sobrenatural que vem de fora, de cima, e corta o mundo sensível, fazendo acontecer aquilo que seria naturalmente impossível em um mundo organizado de acordo com as consagradas leis naturais que já entendemos há quinhentos anos graças a Newton, Descartes, Galileu e Kant.

Quando o cristianismo aceitou e achou coerência no modelo platônico de separação entre transcendência e imanência, mundo ideal e mundo sensível, eterno e transitório, céu e terra, alma e corpo, a fé no milagre como uma ocorrência que se dá no centro da vida e não de cima para baixo, perdeu espaço no coração dos homens. Talvez os cristãos no início não tenham se dado conta do quanto essa compreensão é impessoal e distante do ensino de Jesus sobre de onde brota o milagre. Certamente a maioria dos cristãos de agora apostam ainda na cômoda ideia de que Deus violenta a existência com seu todo-poder para operar bruscamente em favor dos seus, e toda ação divina desce invisivelmente do céu, milagre algum se dá daqui mesmo.

Um deus que opera por meio de intervenções bruscas e diretas lançadas de cima, é uma ideia tentadora que satisfaz uma das ansiedades mais primárias que nos domina desde que nossos parentes distantes – quando já eram algo mais que símios bem dotados na escala evolutiva – se deram conta do quanto a vida é indomada. A vida em amplos horizontes se organiza de maneira que escapa ao nosso domínio, não temos força para suprir todas as nossas carências existenciais, e como não aceitamos que demandas não supridas fiquem na conta das indeterminações, das incertezas e das não-respostas, pressionamos Deus para que as resolva.  Por causa dessas carências, ou para usar a expressão de Bonhoeffer, dessas lacunas, que se abrem pelo simples motivo de a vida se estabelecer nos domínios do contingencial, o religioso médio impulsiona um tipo de relação rasteira com Deus, imaginando-o como um fazedor de coisas, que para mostrar que se importa, deve intervir, mesmo que demore um tempo que só ele em sua eternidade tem paciência de esperar.

O infeliz arcabouço grego (platônico) que apreendeu a existência em duas esferas, uma superior (transcendente) e outra inferior (imanente) – superior não apenas em espacialidade, mas principalmente em qualidade – ridicularizou a vida imediata, a vida sensível, banalizou as relações humanas, brincou com o valor intrínseco do mundo lançando tudo ao alto, ao espaço absorto das ideias. A mensagem de Jesus, interpretada sob a lógica do arcabouço grego de compreensão da existência em uma esfera ideal superior e outra material inferior, vai desembocar na retirada de Deus para a periferia da vida, aparecendo somente quando acionado para preencher as lacunas abertas pela nossa insuficiência humana. Seja para intervir ou para dar resposta a algum acidente.

Se ele habita na transcendência, a periferia da vida, se a vida, a imanência, não possui valor que se equivalha ao mundo ideal superior, se ele está para aquele mundo assim como nós estamos para este, se ele tem o poder e nós as lacunas, então o milagre não está aqui, está lá fora, e é no altar desse deus distante que queima o fogo santo que pode nos dar autonomia, porém não temos um Prometeu que roube uma faísca e nos conceda esse dom.

Não, não temos um Prometeu que nos conceda a graça da liberdade criadora dos nossos próprios destinos, que nos torne autônomos do poder maciço desse deus, não mais dependentes de suas caras bênçãos que com tanto lamento, sacrifícios e triste espera ansiamos.
E a existência não encontra significado, e o vida é nada mais que a expectativa melancólica de alguma intervenção vinda de cima, e somos sempre velhos reclamando cuidados de criança a um Pai que nos quer adultos, enquanto nos resignamos veementemente na ideia de que os mínimos cuidados são sua obrigação.

Assim Deus – caricaturado como um irmão gêmeo de Zeus, separados apenas por um arcabouço de pensamento e pela língua – segue tendo sua utilidade apenas fazendo coisas, em outras palavras milagres. E os milagres que ele faz são para provar que ele existe e que merece um pouco de crédito e atenção, pois para isso ele ainda aparece por aqui quando acionado, resistindo há cerca de quinhentos anos desde que foi dissolvido o cosmos medieval em que habitava e não foi achado um novo lugar para seu domínio.


Continnua...


Alex Carrari


15 de março de 2015

Conversas ao pé do púlpito: Os contornos da oração de Jesus





Com demandas cada vez mais complexas que exigem constantemente a revisão da nossa ética, para um agir engajado e responsável em sociedade, estamos nos tocando de que precisamos fazer a re-leitura de alguns textos para compreender certas nuances que até então não havíamos percebido (Não percebemos seja por conveniência, infantilismo, ou falta de atenção mesmo). E a partir dessa re-leitura, re-significarmos nossa compreensão sobre práticas que durante um longo tempo só fizemos repetir sem refletir sobre seus significado e conteúdo para a fé cristã. Dentre as práticas irrefletidas, a oração é uma das que precisa ser, com urgência, colocada na primeira página da nossa agenda de prioridades para ser re-significada, para que recupere os contornos que Jesus lhe deu. 


Não há como re-significarmos a prática da oração sem olharmos para Jesus e atender ao seu ensino sobre como se deve orar. Não há como desvincular os momentos de retiro de Jesus para orar, geralmente pelo final da madrugada, da vida, das lidas do cotidiano, da maneira como ele prosseguia em seu dia após voltar de seus retiros de meditação. Mas, primeiro é importante reconhecermos que os modelos de oração que têm sido estabelecidos estão bem distantes do ensino do Mestre, e se falarmos em coerência com seu ensino mais abrangente do Reino, eles fogem à ética no trato com o semelhante e produzem falta de sentido no diálogo com Deus, seja na oração comunitária, ou em solidão, esta última cada vez menos praticada por causa de uma infindável lista de desculpas.


Observamos em determinadas palavras de oração um esquema que, de maneira geral, tem feito somente perpetuar um vazio de significado na comunicação com Deus e a comunidade, bem como falta de conteúdo e coerência no que parece mais um discurso de convencimento do que um momento de diálogo com o Pai de Jesus.

Aprendemos basicamente que a oração deve começar com uma palavra de exaltação a Deus, depois agradecimentos, em seguida os pedimos, depois devemos exaltá-lo mais um pouco, para enfim terminar em nome de Jesus. Na verdade essa forma está tão fortemente estabelecida em nossa mentalidade coletiva que, mesmo não aderindo a ela, não é raro nos pegarmos orando obedecendo ao mesmo esquema, mesmo inconscientemente. Não dá para precisar quando exatamente a vida de oração proposta por Jesus começou a perder seu significado e a esvaziar-se de conteúdo e truncar a comunicação com Deus e a comunidade. Mas, para quem já meditou em Jesus, é evidente a conclusão que em nosso tempo a oração tem sido utilitarizada para fins estranhos ao Reino de Deus, e tem muito pouco ou quase nada do conteúdo dos ensinos de Jesus.


Uma das mais admiráveis orientações de Jesus sobre a prática da oração é a que ele ensina no Sermão da Montanha, que, segundo uma definição que li em algum lugar, diz que este sermão é a plataforma ética do Reino de Deus. Antes de ensinar a oração do Pai-nosso, Jesus diz aos discípulos que quando forem orar não devem agir como os hipócritas (religiosos insinceros) que o fazem para aparecer. Estes gostam, alerta Jesus, de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças para serem vistos pelos homens e que, ao agirem assim, já receberam sua recompensa. Mas, o que isso significa para nós hoje? E que recompensa é essa que já receberam esses religiosos que assim oram?

Fora as orações coletivas que fazemos em nossas igrejas quando uma ou várias pessoas levantam a voz para dirigir a Deus alguma palavra – sem entrar aqui em mérito de conteúdo e sentido –, creio que não haja muitos que têm coragem de orar em pé no canto de alguma praça. Mas, penso que Jesus quer nos falar sobre algo mais do que a necessidade de alguém em aparecer aos olhos dos outros como uma pessoa de oração. Nos dois ambientes, tanto aquele que ora na sinagoga (igreja), quanto o que ora no canto de alguma praça (ambiente secular), o faz para si mesmo e não tem nada a ver com um momento íntimo entre ele, Deus e a comunidade, pelo contrário, tem a ver com a necessidade de convencer para ser atendido. E não seria exagero dizer que também em princípio a necessidade de aparecer.


Mas ele não para por aí, seu ensino se adensa mais. Para o Mestre, tanto num quanto noutro ambiente a linguagem utilizada na oração não é uma disposição do coração, não corresponde ao anseio mais básico do ser humano em comunicar-se com o Ser em profundidade (como diria Paul Tillich), ficando apenas rodeando na superfície de suas necessidades mais rasteiras e básicas. Entoando uma ladainha típica do pagão que no fundo desconfia de que Deus só atende aquele que consegue convencê-lo de que é legítima sua petição, ele se coloca como uma exceção num mundo de bilhões de necessitados, e por isso deve ser atendido.


Para que ninguém fique operando esse circulo vicioso, Jesus então dá uma orientação e uma declaração que mostra em que caráter a oração deve ser entoada e que resposta esperar de Deus. Portanto, penso que a questão maior que envolve alguém orar em local para ser visto é a falsificação da própria linguagem, e quem se acostuma a orar com uma linguagem falsificada o fará em qualquer lugar, até mesmo naquele retiro diário para meditação, nos chamados momentos devocionais. Por isso Jesus ensina: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto te recompensará” (Mt 6.6).
Orar é uma disposição do coração em que a pessoa tem o desejo de retirar-se para dentro de si mesmo. O quarto que Jesus se refere não deve ser lido aqui literalmente – embora o retiro para meditar em lugar solitário é uma prática espiritual cheia de significado –, mas figuradamente como sendo a nossa intimidade, aquele canto onde reservamos para empilhar nossos segredos, o lugar secreto que queremos que permaneça inviolado, em sombra sigilosa. Ao entrar nesse quarto é preciso fechar a porta, ou seja, recolher-se e não convidar nem deixar que mais ninguém ou qualquer coisa entre.


Se uma das coisas mais complicadas para quem vive essa tal correria do dia a dia é dedicar um tempo de retiro em oração, mais difícil ainda é recolher-se fechando a porta a todas as vozes, ruídos e imagens que carregamos entulhando no íntimo. Por isso, ao entrar e fechar a porta, é preciso um tempo de quietude, um tempo para que todas as vozes, ruídos e imagens que carregamos para dentro emerjam para que o lugar mais profundo seja desimpedido das coisas que deveriam ficar, estas sim, na superfície. É importante saber que é inútil tentar eliminá-las, pois, fazem parte do nosso mundo, são elementos presentes que compõem nossa vida ordinária, aliás, são necessários para nos sentirmos inteirados no centro pulsante da existência. Elas não devem, contudo, ocupar mais que a superfície da nossa vida, abrindo em nosso íntimo espaço às coisas mais nobres e às virtudes mais sublimes. Carlos Queiroz me lembra de que o termo grego utilizado para quarto no ensino de Jesus é “tameion”, que é um depósito subterrâneo, o ambiente da casa onde guardamos nossas quinquilharias, ou algum tesouro escondido, sendo por isso lugar de acesso somente aos mais chegados. Nesse lugar podemos desnudar de nossas roupas que encobrem o que somos de verdade por baixo delas. Orar no “tameion” escreve Queiroz, “não é apenas orar num lugar, é orar com uma condição interior de total transparência diante do Pai (Ser é o bastante, p. 146).


Nesse quarto íntimo é onde podemos ficar livres desse modelo de oração que não produz uma espiritualidade responsável e coerente com a vida, que pelo contrário é a perpetuação de uma linguagem que desconfia que Deus não sabe direito da nossa real necessidade. Que, pior ainda, não tem fé que Jesus veio em carne e padeceu das mesmas coisas que nós padecemos sendo, e que sabe o que é sofrer, por isso se compadece das nossas fraquezas, como vai dizer o autor de Hebreus. Um modelo assim tem por finalidade maior, mover o braço de Deus, primeiro porque o julga impassível, segundo porque quem assim ora coloca-se sempre como o centro em torno do qual giram todas as prioridades do céu e da terra. E Jesus sabe que nossa real necessidade é abrir ao Pai nossa intimidade. A declaração de Jesus é paradigmática e deixa entendido que orar, mais que elaborar linguagens, arranjar palavras para pedir coisas e tentar convencer a Deus de que merecemos ser atendidos, é uma disposição do coração. E Deus não é tanto alguém que ouve, mas sim, um Pai que vê, e vê em secreto. Para Jesus, orar não é desfiar um rosário de palavras que têm por objetivo agradar a Deus em favor de si próprio. Para Jesus, orar é dispor-se em não negar a Deus acesso ao secreto, é não lhe recusar o mais íntimo recanto do nosso ser, seja esse lugar onde empilhamos quinquilharias ou o que achamos que são nossos tesouros. 


É libertador perceber que o Pai vê em secreto e que não leva em conta tanto aquilo que ouve do que falamos. Sei que é de difícil aceitação essa afirmação de Jesus, porque aprendemos a orar dentro do esquema exaltação-agradecimento-petição-exaltação, e isso tem a ver com um jeito de tentar manipular Deus através de uma mecânica com aparência de piedade. Por isso o Mestre diz que a oração não deve ser articulada com vãs repetições como os gentios (ou pagãos), que têm a concepção de um Deus que precisa ser lembrado repetidas vezes do que ele tem de fazer. Que presumem que a insistência na repetição pode demover Deus de sua condição, que supõem impassível. Jesus diz que essa é uma visão de natureza pagã de Deus e da oração que produz uma postura ainda mais nociva e esta é sentida na maneira com que nos relacionamos com o outro e com a vida. Quando orar não é uma disposição do coração e ficar quieto na intimidade não é uma verdadeira necessidade da alma, somos tentados a fazer da oração um período de falação, e como o assunto principal somos sempre nós mesmos, ficamos enfatizando o que achamos que Deus deve priorizar em sua agenda de cuidados em detrimento das necessidades dos outros. Dessa maneira, o outro pode até ocupar um lugar em nossa oração, porém, será muito pequeno em relação ao espaço que dedicamos às nossas necessidades e aos cuidados particulares que requeremos de Deus. 


É interessante notar que o ensino de Jesus está focado sobre o sujeito que ora não ficar preocupado consigo mesmo. Ao dizer, porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais, penso que ele quer dizer que a oração não deve ser um mecanismo a ser usado para conseguir coisas para si, mas ao contrário, Jesus está dizendo: “Meu amigo, esqueça de si na oração. Você e suas necessidades são conhecidas diante de Deus. Silencie sua tentação em querer mover o braço de Deus a teu favor, olhe ao teu redor há motivos mais nobres, causas mais urgentes, gente mais necessitada, o Reino e sua justiça devem ser sua prioridade”.

Para que não nos esqueçamos, não há necessidade humana que Deus não conheça, ele provou todas. Para Jesus, orar é atender ao chamamento do Pai ao recolhimento, é um convite a silenciar com ele em profundidade, é libertar-se da centralização no eu, é dar abertura ao semelhante.

O caminho para uma postura ética na oração começa com essas noções que Jesus, mais que ensinar com palavras, viveu.

No Getsêmani ele aparece em seu momento de mais intenso abatimento e tristeza até a morte e pede ao Pai que se possível passe dele o cálice, mas no mesmo momento ele refaz a oração, e com coragem aceita que não seja feito da maneira como acabou de dizer, mas como o Pai deseja. Passar o cálice significava parar ali e preservar-se do pior. Jesus, em sua pior hora, em oração, deu lugar ao semelhante, não buscou benefício próprio, decidiu beber do cálice de seu sofrimento e morte para beneficiar muitos que iriam crer em seu gesto.
Nem na cruz a oração de Jesus contempla a si próprio, contempla seus semelhantes, aqueles inclusive por quem ele em suas últimas palavras intercedeu, Pai, perdoa-lhes, não sabem o que fazem



Alex Carrari

Conversas ao pé do púlpito: A igreja como espaço de inclusão




O mito da criação do primeiro no casal registrado no Gênesis tem sua arquitetura montada sobre a ideia de que todos os humanos têm uma mesma origem, todos são descendentes de apenas um. A ideia de unidade é tão forte na criação do primeiro casal que ao se unirem, Deus considera que os dois são apenas um. Essa consideração não se restringe a união pelo encaixe do sexo apenas, como costumamos pensar, mais que isso, ela é ampla e fala da mútua dependência dos membros da espécie humana. No princípio era a mútua dependência e o acolhimento sem restrições. Se todos vieram de um, todos são um e não há legitimidade em separações e cismas, sejam eles de qualquer natureza. Segregações e sectarismos são bem posteriores, não fazem parte da constituição originária da espécie humana.
Jesus era participante dessa antiga mentalidade de que da união de dois um se forma, por isso as obras que ele faz em nome do Pai testificam a seu respeito (Jo 10.25). Quer dizer, que ambos, ele e o Pai, estão unidos e são conscientes de que um acolhe o outro, podendo afirmar: Eu e o Pai somos um (Jo 10.30).

A ideia de mútua dependência fundada no princípio de que todos são um é tão forte na mentalidade sobre a obra de Jesus, que Mateus vai dizer que para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías, ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou com as nossas dores. Nos encontros de Jesus com gente sofrida ele sofria junto. É lindo que em vários desses encontros o evangelista usa um termo que expressa o sentimento de Jesus ao participar do sofrimento alheio: “Jesus, profundamente compadecido, estendeu a mão, tocou-o e disse-lhe: Quero fica limpo” (Mc 1.41, grifo meu). No encontro com o leproso o termo para “profundamente compadecido” em grego é splanknistheis, que traduzido literalmente significa piedade, mostrar simpatia, compaixão, agir com as parte interiores, sentir com as entranhas, ao se deparar com o sofrimento sentir um nó subir pela garganta. Jesus sente com as entranhas por que se identifica radicalmente com os membros de sua espécie. Jesus sente com as entranhas ao entrar no cortejo fúnebre de uma mãe viúva da cidade de Naim levando seu filho adolescente morto para ser sepultado. Ele se vê participante no mesmo sofrimento, ele acolhe a mesma dor daquela mulher como sua própria dor. Jesus sente com as entranhas por aqueles que estão existencialmente sem rumo, cansados de peregrinar sem encontrar descanso (Mt 9.36). 

 É fundamental reconhecer que em Jesus se agita o espírito da inclusão, porque foi ele quem primeiro quis se incluir na história e fez da inclusão o leit motiv da sua existência. Porque Deus amou tanto o mundo, diz João – e não apenas alguns –, foi que ele enviou seu filho. Jesus tornou-se reconhecido em forma humana porque decidiu agir e participar dos mesmos dramas da humanidade, como escreve Paulo aos filipenses.

Essa mentalidade inclusiva de Jesus está presente no Antigo Testamento quando a noção de santidade (kadosh), ser “separado” assim como Jeová, começa a ser divulgada. O código levítico elaborado no cativeiro babilônico fala de separação, no entanto eles estão cativos e convivem com seus inimigos. Uma fala do próprio Jeová mostra que ficar separado não é distanciar-se dos outros à maneira de um retiro acético, pois diz: “Estabelecerei minha morada no meio de vós [...] Andarei entre vós e serei o vosso Deus (Lv 26.11,12, grifo meu). Karen Armstrong explica essa fala de Jeová de maneira surpreendente; “a Babilônia poderia tornar-se outro Éden, onde Deus havia caminhado com Adão no frescor do entardecer” (A Bíblia [uma biografia], p. 32). Armstrong lembra que a partir dessa ideia, um forte componente ético se estabelece de vez entre os israelitas, devendo eles respeitar a “alteridade” sagrada de cada criatura. “Nada, portanto, podia ser escravizado ou possuído, nem mesmo a terra. Os israelitas não deviam desprezar o estrangeiro” (idem). O código levítico é explícito: “Se o estrangeiro peregrinar na vossa terra, não o oprimireis. Como o natural, será entre vós o estrangeiro que peregrina convosco; amá-los-eis como a vós mesmos, pois estrangeiros fostes na terra do Egito. Eu sou o Senhor, vosso Deus (Lv 19.33-4). Armstrong bem observa que, a visão do autor dessa passagem é inclusivista, e justamente por estar em situação de alheamento e exílio, ele enfatiza constantemente a importância da reconciliação com os ex-inimigos. Estar como exilado e cativo, trouxe sobre o escritor levítico, e tudo indica que ao povo também, a noção de que partilhavam da mesma condição do estrangeiro, e por isso deveriam sentir como sentia o estrangeiro, “pois estrangeiros fostes na terra do Egito”, esse era motivo de sobra para que o não israelita fosse incluído e acolhido no meio do povo.

*      *      *

 Jesus conta a parábola de um grande banquete (Lc 14.15-24) como o mais forte exemplo do espírito de inclusão que Deus instaura com a chegada do Reino. O grande banquete estava pronto, muitos foram convidados. À hora de ser servido foram avisados de que já estava pronto, mas todos os convidados começaram a esquivar-se recusando e fazendo pouco caso do nobre convite, o que naquela região e naquele contexto era, e ainda é, uma grande ofensa ao anfitrião. Então o dono da casa (o próprio Deus) deu ordens ao servo para que saísse depressa às ruas e becos (lugar de gente de índole duvidosa) e trouxesse para a mesa os pobres, os aleijados, os cegos, os coxos. Havendo ainda lugares vazios à mesa, disse Deus: “Sai pelos caminhos e atalhos e obriga a todos a entrar, para que fique cheia a minha casa”. A comida preparada para gente de boa estirpe acabou sendo comida por gente que vivia à margem da sociedade (pobres), gente estigmatizada colocada em desvantagem na vida (aleijados, cegos, coxos). Deus transforma o grande banquete em uma mesa para os excluídos, uma festa de inclusão, com isso Jesus está dizendo que se alguém tinha em mente que Deus mantem certa preferência por gente alinhada, limpa, cheirosa e perfeita, esta ilustração repara essa noção e expõe uma grande verdade sobre Deus; seu desejo é sempre incluir, e mais ainda, incluir os excluídos.

No começo da igreja, em outro banquete, Paulo também é movido pelo espírito de inclusão quando orienta aos que participam da mesa a que façam exame de consciência para perceberem se estão discernindo o corpo, depois comam do pão e bebam do cálice. O exame não é para excluir, como muitos pensam, pelo contrário, é para incluir. Examinem-se, depois comam e bebam!

Jesus vai andando e incluindo no Reino todos os excluídos. É o leproso que ele toca e lhe devolve a dignidade e o convívio social. São as crianças que não contam em seu tempo e que ele diz que são as legítimas herdeiras do Reino. As mulheres que ocupavam lugar inferior na sociedade judaica são valorizadas por ele e tem papel fundamental em seu ministério; não é toa que são as primeiras a vê-lo ressuscitado. Uma estrangeira (cananéia) intercede por sua filha e encontra acolhida em Jesus. Um centurião da guarda romana (estrangeiro) pede por seu criado doente e recebe a atenção de Jesus.  Uma mulher samaritana em pleno meio do dia à beira de um poço é valorizada por ele, deixando seus discípulos encabulados.

*      *      *

Como sinalizadora do Reino a igreja deve ser inclusivista. Contudo, não é tarefa fácil, pois, isso requer duas coisas, primeiro, ter disposição em aceitar e acolher o excluído. Segundo, promover espaços de inclusão. Não há fórmulas para que uma igreja seja acolha o excluído e promova de espaços de inclusão. Porém, existe um caminho para que ambos aconteçam, o caminho da imitação de Jesus. Jesus é o exemplo a ser seguido como alguém que não fez pouco caso dos excluídos e marginais acolhendo-os e abraçando-os nas condições em que se encontravam. A grande barreira que nós, membros de igreja levantamos para acolher o excluído na condição em que ele se encontra, é que ele está em nosso imaginário como o diferente, o deslocado, o ímpio, aquele que não aproveitou as oportunidades que a vida lhe deu, que algo ele fez de errado para estar na condição em que está pagando por suas decisões. Aceitar que ele talvez não vá se tornar alguém à nossa imagem e semelhança, continuando sendo diferente, talvez com suas dificuldades e limitações mentais, físicas, psicológicas, religiosas, suas lutas com a sexualidade, é, para nós, um contra-senso da mensagem que julgamos compreender de Jesus. No entanto, essa barreira que levantamos é decorrência da nossa compreensão de igreja como um lugar para a manutenção de gente certinha, alinhada, cheirosa e resolvida, e não perece que seja essa a ideia que Jesus tem de igreja. A casa do dono do banquete ficou cheia de desalinhados, pobres, coxos, aleijados, vagabundos, ébrios, e de toda a natureza de pecadores. 

Espaços de convívio têm de ser abertos primeiro no coração da comunidade, no centro pulsante da vida da igreja e aqui é preciso que a comunidade se mova e coloque em curso um outro movimento, não para incluir o excluído primeiro, mas o movimento têm de ser da comunidade se incluir na vida do excluído, assim como Jesus se incluía. O paradoxo da aceitação é a comunidade ser aceita e acolhida pelo excluído, só assim diminuem as tensões, as desconfianças de ambas as partes. Não basta incluir o excluído, é preciso que a comunidade se inclua, seja participante dos seus sofrimentos e dificuldades. 
Quando a comunidade se inclui na vida do excluído ela percebe que a tarefa não é simplesmente se esforçar para modificá-lo, mas sim a própria comunidade ser modificada no exercício de acolhimento e aceitação. Com isso, ela aperfeiçoa sua sensibilidade e o excluído pode realizar sua humanidade.



Alex Carrari


5 de março de 2015

A missa de Alberto Caeiro e o que os teólogos chatos fizeram com a onipresença de Deus



As lonjuras em que dizem, Deus habita, me desconcertam, me fazem querer saber dos limites impostos os porquês de tão distante separação. Será que não gosta tanto da gente? Será que não gosta de terra e do seu cheiro e cor? Ele não se dá bem com o efêmero, o transitório, o sensível, o aparente? É bom demais para aqui passear,
como dizem, fazia na época em que o paraíso não estava perdido?
Por causa dessas distâncias os muitos crentes acham que a oração em seu sentido prático serve para fazê-lo chegar perto e escutar o que temos a pedir, que de tão além que ele vive só percebe ecos imprecisos. A oração fica como um mecanismo para atraí-lo e persuadi-lo a resolver assuntos contingenciais, dos mais básicos aos mais complexos, que Jesus já esclareceu que estariam em nossa conta.

Mas na verdade
não foi opção dele ir morar tão longe,
nós é que não o queremos aqui,
e que fique por lá,
lá longe.
Só apareça quando for acionado,
quando precisarmos preencher
alguma brecha da existência,
mostrando-nos toda a sua utilidade,
provando que a vida
na periferia dos céus lhe cai bem,
e só por isso é adorado.

Deus estava condenado a ficar sem lugar para repousar a cabeça em sua própria casa, mas Baruch Spinoza pôs tudo no lugar, devolveu a Deus sua devida habitação; não lá, aqui. Deus de dentro da imanência, paradoxalmente, não sendo ele uma coisa entre as coisas.
Deus não é tudo, está em tudo. Ser tudo é panteísmo, estar em tudo panenteísmo. Espinoza preparou esta distinção explicativa com cuidado para que, ninguém que acreditasse em suas conclusões incorresse em heresia, mesmo assim não se livrou de ser expulso da sinagoga pelos religiosos chatos refratários à ideia de um Deus de perto.
Deus é substância, aquilo que existe. Deus existe em modo – se entendi direito – que é sua forma temporária, por isso é imanente, por motivos óbvios. Então, cá ele está, não lá, e a minha oração está livre para não puxá-lo até mim, mas para intuí-lo aqui. E se quiser percebe-lo, o procedimento é olhar para o centro da vida. Se abaixar os olhos o encontro no rés do chão entre o labor das formigas e mandruvás. Se repartir o mundo ao meio o avisto no horizonte, em cada entardecer de cobre que me enche o peito de saudade pelos dias que me escaparam. Se para o alto olhar o vejo na luz das estrelas que de tão velhas não mais existem, e ainda que lhes reste apenas uma ilusão de existência, ele as conhece pelo nome de quando ainda estavam vivas.

O apóstolo escreveu que desde que o mundo nasceu, Deus se manifestou tornando visíveis seus atributos incomunicáveis, seu eterno poder, sua divindade; exemplo mais nítido de que ele quer ser visto nas coisas, e que as coisas são sua maneira de aparecer em todos os lugares, ou no mínimo, exemplo de que quer nos envolver para que não haja distâncias entre ele e nós. O nome dessa maneira de Deus se expressar é onipresença, que significa que Deus está em todos os lugares ao mesmo tempo. Os teólogos conseguiram sem muito esforço deixar feia esta linda expressão da manifestação divina, dizendo que nada de sua essência repousa nas coisas, mas paira acima delas e não se relaciona intimamente com nenhuma. Para os teólogos que elaboraram tal feiura, dizer que Deus é onipresente quer dizer que seus olhos estão em todos os lugares vigiando minuciosamente o que fazemos, como “O Grande Irmão” de George Orwell, em 1984. Quer dizer que ele está em todos os lugares para nos pegar em algum vacilo e então dizer: “Aha, não esperavam que eu estivesse olhando não é?” Essa compreensão de onipresença é medonha e produz gente paranoica que se relaciona com Deus sempre na defensiva, gente que só anda na linha – como se isso fosse possível – por causa da sensação desse grande olho em cima.  

Homem de muitas letras e amante da poesia, o apóstolo lembrou-se de Cleanto e Arato, que perceberam: Nele vivemos, e nos movemos e existimos.

O trovão é sua voz.
O vento seu respirar.
A chuva sobre os telhados,
respingos de seu banho.
O cheiro da Dama da Noite,
seu encanto de passagem.
Os céus são seus olhos,
imensos olhos azuis ao dia,
profundos olhos negros à noite.

Estamos em Deus, mas isso nos espanta tanto, que quisemos lhe dar um trono no fim do céu, fora e bem longe, por causa do nosso comportamento estúpido que de tão incompatível com Deus, quisemo-nos fora dele. Mas para não magoá-lo e mantê-lo a nosso favor, criamos uma postura esquiva genial, pensar e falar sobre ele, até construímos estabelecimentos para nos reunirmos aos domingos para nos satisfazermos com digressões a seu respeito. Nada que exija muito contato, sem muita intimidade, ele lá, nós aqui.
Não o percebemos em nada, quando muito dizemos dele que interfere em nossa vida quando o acionamos, quer dizer, quando oramos. Não queremos sua presença, queremos seus benefícios.

Assim como Alberto Caeiro, aceito as aparências. Nas aparências encontro verdades que os metafísicos e teólogos nem desconfiam. Caeiro foi o maior de todos os poetas da natureza, ele a recebia sem pensar nela, e por causa disso não pensava em Deus, simplesmente o aceitava como ele se apresentava nos fenômenos das coisas:

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

[...]

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Como o modo de falar que reparar para elas ensina)

Mas se Deus é as flores e as arvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele a toda hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez para eu o ver,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

Ah, se Espinoza estivesse entre nós percebendo Deus em tudo. Ah, se Nietzsche ouvisse estes versos, seu Zaratustra os plagiaria na cara dura e rindo muito. Ah, o apóstolo vibraria em ler sua tese escrita com outras palavras pela pena de um poeta tão sensível a Deus.

Este meu poeta favorito quer falar mais,
Fala, Caeiro:

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei de Deus que Deus de si próprio?)
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,

E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda hora.

Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos ,
Por isso se não nos mostrou...

Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...

Andando pela natureza com olhos bem abertos e cheios de novidades, não indo à igreja, sem querer qualquer benefício, a não ser ver e amar a frágil beleza das coisas, Caeiro acredita em Deus mais do que os crentes que acreditam em suas intervenções orando de olhos fechados entre as paredes brancas cheias de semgraceza de uma igreja.


   
Alex Carrari