3 de abril de 2009

QUERO PERPETUAR OS INSTANTES


Somos encharcados por uma cultura do prático, do funcional, do imediato, a pedido da inclusão no mercado. Seres descaracterizados, mutilados, tornados débeis portadores de uma alegria incubada. A crença religiosa que deveria ser libertária serve como instrumento de castração do riso, do prazer pelo prazer, da apreciação da arte, da beleza; sempre atiçando uma desconfiança de que por traz de cada um destes gestos esteja uma armadilha do tinhoso, para nos tirar do verdadeiro foco e objetivo da vida, seja, a produtividade. Um atentado à vida cometido sob a justificativa de uma nobre missão regula uma vida que poderia ser mais leve e bela, pois para agradar a Deus pensam alguns, qualquer alegria momentânea deve ser negada, sufocada. Um anuviamento do olhar. Um enrijecimento da percepção do belo. Davi, homem de guerra empenhado na expansão do reino, encontrava tempo para, da janela do seu palácio se encantar com a chegada da chuva. Jesus, o Filho do Homem empenhado em salvar o que se havia perdido, frequenta festas onde come com gente e transforma água em vinho do bom, e os inimigos da vida o chamavam de glutão e beberrão. O mesmo Jesus que ensina princípios eternos, como arguto observador da natureza, de onde tira exemplos de amor e cuidado do Pai, olhem os lírios dos campos, as aves do céu, observem a mudança do tempo, diz o Mestre. O tempo é inexorável, implacável. Seria demasiadamente repetitivo dizer que a vida passa sem que a gente se aperceba.

Aquela brincadeira no parque com minha pequena Sofia. O "rolê" de bicicleta com minha não tão pequena Ester. Ficar com minha bela Ada como um bobo apaixonado que desdenha do tempo ao lado da sua encantada. O que de mais produtivo esperar destes gestos senão o simples sorriso lambuzado de sorvete de açaí com areia entre os dedos das minhas meninas e o contemplar do lindo rosto da minha amada? Ouvir o Concerto de Colônia de Keith Jarrett ou a Opus 18 de Sergei Rachmaninov de papo pro ar divagando sobre qualquer coisa que me venha na cabeça. Ficar em frente a um Morandi sem marcar o tempo, sem pressa. O que de mais produtivo posso querer senão o simples prazer em gestos simples?

Sêneca já escreveu: Muito breve e agitada é a vida daqueles que esquecem o passado, negligenciam o presente e temem o futuro. Quando chegam ao fim, os coitados entendem, muito tarde, que estiveram ocupados fazendo nada (Sobre a brevidade da vida).
Não quero chegar como Jorge Luis Borges ao final da vida e repetir estas mesmas palavras:

Instantes

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido;
na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvete e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu
sensata e produtivamente cada minuto da sua vida.
Claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver,
trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feita a vida,
só de momentos;
não percam o agora.
Eu era um daqueles que nunca ia a parte alguma
sem um termômetro, uma bolsa de água quente,
uma guarda-chuva e um pára-quedas;
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres
a brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos
e sei que estou morrendo.


Não se eterniza o tempo, o tempo é irredimível. Mas, se perpetua instantes que somam aquilo de que somos a cada momento feitos e refeitos. Uma das maiores verdades da mensagem cristã é a de que temos uma única vida, e esta não pode ser em hipótese nenhuma negligenciada. Por isso Jesus restituía a vida das pessoas em sua inteireza deixando-as desfrutar de todas as possibilidades que o Pai graciosamente concedeu aos humanos, sendo o verdadeiro pecado privar uma pessoa de viver plenamente a vida com suas delícias.

Quero chegar ao fim da minha caminhada e poder dizer sem culpa, como a Adélia Prado disse à beira da morte: É uma pena ter que deixar este mundo, é tão belo.

Alex Carrari

1 comentários:

Helô disse...

Sem palavras!!! Simplesmente AMEI o seu post!!! Grande abraço!