
Um novo tempo se anuncia, podemos perceber lampejos da sua aurora nos lugares mais inesperados, mesmo nos mais áridos e desconfortáveis recantos do espírito. A inquietação que nos assalta a mente e faz estremecer nossas frágeis estruturas corpóreas ante a complexidade da vida, são os sinalizadores do divino que age em nós, que nos encoraja a lançar o olhar ao desconhecido e a andar na contramão querendo vislumbrar uma história que Lhe renda o devido louvor. Aos pessimistas ingênuos que odeiam tudo o que é humano, tudo o que é da Terra, tudo o que é fenomeno do corpo, os lampejos dessa aurora são vedados, pois, não percebem quando no horizonte, embora sombrio, desponta a possibilidade de se viver uma nova consciência, livre das fábulas e medos que atormentaram nossos antepassados. Lhes é vedado não por um processo seletivo natural, mas por preferirem o consolo anestésico de projeções abstratas que lançam para o post mortem o início da verdadeira vida, nada mais que doses homeopáticas do que Marx chamou de ópio do povo. Poucos são os que estão percebendo a chegada desse novo tempo, menos ainda são os sem-medo que abandonaram um certo prédio teológico sem janelas que ocultam a beleza ímpar de cada manhã, para andarem na calçada junto com outros homens da andança, alguns que inclusive não estão mais entre nós, dos quais somos herdeiros e imitamo-lhes os passos.
Nietzsche anunciou a derrubada desse certo prédio teológico no qual morava um certo "Deus". Prédio que nada mais era que um platonismo para o povo. Derruba-se o prédio mata-se o "Deus". Pregar a morte desse "Deus" inventado, legitimador da corriqueira fuga da realidade, ainda causa furor nos ambientes religiosos que detestam ser gente, como se pecado fosse ser carne, osso e emoções. Sendo esse "Deus" ensimesmado e manhoso, o maior inimigo da vida.
Algumas almas abatidas, temerosas de que seu "Deus" seja deposto do trono caseiro se deleitam na sensação de segurança embutida num ídolo do lar, preferindo o medo à liberdade. Sobre o medo o discípulo amado escreveu: "No amor não existe o medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor" (1 Jo 4.18).
O "Deus" dessa gente está aos poucos se esvaindo da história, pela postura dos fiéis angustiados com a inevitável perda das "muletas", que outrora fora chamada pelos filósofos de "ideia de Deus"
Culpabilizaram a ciência pelo descrétido em que caiu esse "Deus". Mais uma vez ingenuidade, arma displicente dos fideístas de plantão que, acuados na quina do próprio quintal ciscam como galinhas esperando a porção diária de ração, argumento suficiente para se manterem do lado de dentro da cerca, enquanto aos poucos se esquecem de que no projeto original são águias.