O mito e seu significado de origemNo começo do século XX eruditos ocidentais deram uma guinada na pesquisa dos mitos quando começaram a estudá-los numa perspectiva que se opunha a aceita pela grande maioria dos estudiosos até o século XIX. Estes eruditos aceitaram o mythos como era compreendido pelas sociedades arcaicas, onde designava uma história verdadeira e assaz valiosa por seu caráter sagrado, enquanto seus predecessores trataram-no como sinônimo de "falsidade", "mentira", "ficção", "fábula".
Tornando-se rígidos e repressivos às antigas tradições, cristianismo reformado e espírito científico positivista se encarregaram de fechar o pacote e entregá-lo a nós, que, todavia, fomos privados de apurado senso crítico sob pena de anátema, de parte a parte.
Em nossa atualidade, etnólogos, sociólogos, estudiosos das tradições religiosas, se empenham no resgate do sentido do vocábulo, tratando o mythos como tradição sagrada, revelação primordial, modelo exemplar, admitindo-o em sua definição arcaica, como modelo de representação da verdade. Estabelecendo valor semântico próximo da construção original.
Em essência os mitos arcaicos articulavam estruturas de sentido que davam significado à realidade hostil e misteriosa constatada na existência, sendo fixados no imaginário do homem por meio de símbolos, componentes de todo um complexo sistema de linguagem.
Em seu estágio mais primitivo, longe de ser ficção, fábula, mentira, ilusão, os mitos forneciam modelos arquetípicos, pelos quais os homens regulavam sua conduta de acordo com os modus divinus, o que conferia valor e significado a existência. Estes modelos eram dignos de serem imitados, pois haviam sido estabelecidos pela prática dos deuses no tempo sagrado, fora do tempo profano, in illo tempore, ab origine, “naqueles dias”, para usarmos a expressão de Mircea Eliade.
Assim sendo, a imitação de um arquétipo divino validava a existência e possibilitava certo sentido num cosmo ainda fechado e permeado por deuses. Enquanto estrutura de sentido, os mitos, compreendidos em sua origem, representavam uma tentativa de abarcar uma verdade que por escapar à compreensão anuviada do homem arcaico, só pôde se mostrar em símbolos que não são a totalidade do que representam, mas apenas a tentativa de aproximação de uma realidade maior, tida como verdade primordial.
Uma realidade complexa, estranha, assustadora demais à razão arcaica ainda tateante, mostrada por meio de símbolos de assombro, fascínio e reverência.
É questão de honestidade, admitir a presença do mythos em sua definição arcaica nas Sagradas Escrituras. Honestidade que custa caro à quem se atreve a sugerir que a narrativa bíblica tenha sido edificada com apropriação de arquétipos míticos na construção de seu arcabouço – utilizando como estrutura de sentido –, ainda mais afirmar que num tempo deveras distante um mito se apresentava não como mentira, e sim, expressão de uma verdade.
Em seu estágio mais primitivo, longe de ser ficção, fábula, mentira, ilusão, os mitos forneciam modelos arquetípicos, pelos quais os homens regulavam sua conduta de acordo com os modus divinus, o que conferia valor e significado a existência. Estes modelos eram dignos de serem imitados, pois haviam sido estabelecidos pela prática dos deuses no tempo sagrado, fora do tempo profano, in illo tempore, ab origine, “naqueles dias”, para usarmos a expressão de Mircea Eliade.
Assim sendo, a imitação de um arquétipo divino validava a existência e possibilitava certo sentido num cosmo ainda fechado e permeado por deuses. Enquanto estrutura de sentido, os mitos, compreendidos em sua origem, representavam uma tentativa de abarcar uma verdade que por escapar à compreensão anuviada do homem arcaico, só pôde se mostrar em símbolos que não são a totalidade do que representam, mas apenas a tentativa de aproximação de uma realidade maior, tida como verdade primordial.
Uma realidade complexa, estranha, assustadora demais à razão arcaica ainda tateante, mostrada por meio de símbolos de assombro, fascínio e reverência.
É questão de honestidade, admitir a presença do mythos em sua definição arcaica nas Sagradas Escrituras. Honestidade que custa caro à quem se atreve a sugerir que a narrativa bíblica tenha sido edificada com apropriação de arquétipos míticos na construção de seu arcabouço – utilizando como estrutura de sentido –, ainda mais afirmar que num tempo deveras distante um mito se apresentava não como mentira, e sim, expressão de uma verdade.
Continua...
Alex Carrari
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