
Mito e Escritura
Fundamental para a compreensão de um texto é cavar sua origem para encontrar o valor de um termo simbólico nele impresso. Regra de apoio do exegeta bíblico. O roteiro da revelação divina ao sair da tradição oral e passar à escrita só pode ser narrativa sagrada para seus contemporâneos e digna de se perpetuar se falar pela apropriação dos símbolos comuns a um tempo e lugar. Estes têm de ser compreendidos e reinterpretados sem perder de vista a crença do ambiente que recebeu significado a partir do mito.
A linguagem mítica, para estes que vão receber o registro sagrado é imprescindível, pois, é linguagem de sentido que expressa verdade. A questão é que, ao falar em mito presente na Bíblia duas alternativas se apresentam. Uma, tratá-lo como mera idolatria secular. Outra, servir-se da crítica dos literatos gregos e judeu-cristãos primitivos (ver texto Mito I) e condenar logo o assunto. Ambas as alternativas foram usadas recentemente por um dos cabeças do conservadorismo teológico e assalariado do letrismo, para de forma muito simplista, puxar a brasa para sua sardinha. De acordo com a escola desse teólogo, a literalidade suplanta a crença e o imaginário na composição do texto, sendo uma coisa o texto e outra o contexto.
Devido a gafe proposital cometida por este teólogo desconsiderei sua tese, até porque para falar de mito sem considerar literatura secular de peso como Mircea Eliade, Joseph Cambell, Carl Jung, Childs, Barr, etc., é de se desconfiar. Penso que a narrativa bíblica incorpora os mesmos símbolos de outras tradições com seus significados, e, de acordo com a verdade que se quer comunicar, utiliza o símbolo com seu sentido intrínseco na expressão dessa verdade. Contudo, o símbolo não esgota a verdade que expressa, tampouco esta se encerra nele. O símbolo serve apenas como aproximação de uma verdade maior, sendo, portanto, um apontamento da verdade e não a verdade em si.
Uma leitura comparada dos mitos arcaicos demonstra uma repetição dos símbolos e seus significados, que, compartilhadas, seja pelo registro nos livros sagrados de cada povo ou em tradições orais, pictóricas e gráficas, mantém o significado essencial enquanto linguagem de sentido. Árvores, frutos, pedras eretas, postes, paraísos, jardins, águas agitadas, abismos, enormes embarcações, serpentes, arcas sagradas, etc., são símbolos que contém um significado essencial, que comunicam a tentativa de aproximação de uma verdade que de tão elevada torna impossível de ser abarcada, esgotada com meia dúzia de palavras. Não reconhecer que os autores bíblicos se apropriaram dos mitos de seu tempo na construção da rica narrativa bíblica é negar indiretamente sua autenticidade histórico-literária, embora os mais “espirituais” que na maioria são literalistas assalariados do letrismo, dêem de ombros ao reconhecimento da Bíblia enquanto obra literária.
No entanto, ao leitor reverente, o valor da narrativa sagrada enquanto obra histórico-literária impulsiona a hermenêutica à empolgante dinâmica na interpretação que ultrapassa o quase sempre truncado jogo de desvelo da letra fria. Para tanto a exegese da letra não basta, urge uma exegese do ambiente a partir de onde brotou a tradição, muito antes do registro. Os mitos arcaicos nos contam uma história que carece de ser interpretada e compreendida, pois, representa uma verdade que pela própria distância de tempo nos parece estranha demais. Perceber nas Escrituras Sagradas a presença de linguagem mítica é reconhecer que há ainda uma verdade primordial que avança no tempo atualizando a cada novo dia a palavra do Eterno, que em algum momento nos escapou por ignorância e negligência à história. Sendo que, é na história que mito e Escritura se tocam.
O mito para o hebreu e o valor da história
Se pensarmos no mito como uma forma de expressão necessária e universal dentro do estágio inicial do desenvolvimento intelectual humano, quando eventos inexplicáveis eram atribuídos a intervenção dos deuses (B. Childs), temos de tomar senão como ponto de partida, ao menos como principal fonte de pesquisa a Escritura Hebraica. O desenvolvimento ritual dos mitos, embora variasse em detalhes de cultura para cultura, mantinham sua função básica, sendo uniforme em relação ao propósito inicial de seu nascimento.
Potencialmente pragmáticos, os mitos respondiam a necessidades práticas de sustentabilidade e manutenção da vida, num mundo percebido nas forças incontroláveis e incompreensíveis da natureza. A ambiência desse embate entre o homem e as forças da natureza se consolidava no imaginário arcaico por meio do envolvimento dos deuses com essas forças incontroláveis, que, portanto podiam ser dominadas e apaziguadas – ainda que para alguns essas forças pudessem ser provocadas pelos próprios deuses, fosse para punir o gênero humano ou para por em ordem alguma situação de caos.
Nas sociedades pré-científicas, devido à ignorância frente ao cosmo e as demandas do cotidiano agressivo, o mito buscava atender as necessidades mais urgentes do homem, desde a agricultura, pesca, caça, até o anseio diante do mistério da morte. Li em algum lugar uma explicação de H. Frankfort para a função dos mitos em que os negava como literatura de entretenimento e especulação cosmológica, atribuindo-lhes um significado empírico quando recontados pelos homens. Frankfort argumenta que ao recontar os eventos míticos os homens se envolviam com o mito na própria existência. Parece ter sido essa a atitude dos hebreus quando utilizaram os mitos para contar a história, ainda que de um ponto de vista tribal e nacionalista, mas, de alcance universal. Para o hebreu o mito em princípio aspira interpretar e explicar o mundo em sua totalidade, e não apenas alguns aspectos da realidade.
Do ponto de vista hebreu o mythos ganha um sentido novo, não sendo apenas repetição de arquétipos e imitação dos gestos dos deuses em rituais de atualização e significação da realidade. Isso se deve a valorização e a importância da história na mente do hebreu, sendo um divisor de águas entre a ênfase dos mitos na tradição destes em contraste com outras tradições. Podemos dizer que no centro do pensamento hebreu está a história e não o mito, mas que o mito sobrevive em seu imaginário devido ao senso histórico do povo (J.Barr). O susto que causa em alguns espaços de fé a afirmação de que a Bíblia está cheia de mitos, só é compreensível pela falta de informação, pelo acesso muitas vezes negado à literatura de referência aos leigos por aqueles que, ao invés de formar consciências autônomas, preferem formatar mentes para reproduzir modelos de representação e sustentação do status quo, e não a realidade.
Continua...
Alex
1 comentários:
Genial post and this post helped me alot in my college assignement. Say thank you you for your information.
Postar um comentário