
Manhãs acinzentadas rebaixam as nuvens deixando a impressão de céu confinante, atmosfera palpável, que dá a sensação que o divino asila em seus carinhos quem nelas celebra com acolhedora aceitação os embalos nevoentos. Festejando absoluta a opacidade matinal, foliando nas brumas, reconhecia-se mais.
Das manhãs de céu acinzentado gostava em particular das de ar temperado com frio. Dizia que tal composição remetia ao estado de inicio das coisas. O mundo fora começado numa manhã, céu cinza e brisa gélida predominavam no cenário do começo primordial, era assim que ela acreditava com força. Não era uma crença religiosa, nem insistia nisso como quem defende uma tese, era mais uma necessidade. Necessidade íntima de assim crer. Tinha aparência triste dos pés à cabeça, que casava bem com manhãs de céu acinzentado e ar temperado com frio. Percebido esse acerto enamorou-se, ainda na infância, de atmosferas melancólicas, embaciadas, de claridade modesta filtrada por tufos temporários de vapor condensado.
Escorava em crer nessa idéia de começo do mundo em manhã acinzentada a justificação para sua inegável aparência deprimida e introspecção articulada. Na face figurava-se a própria ausência. O decoro familiar exigia prestação de contas de sua abatida feição. Ainda mais. Que a explicação tivesse, bem ao contrário de sua crença, cunho religioso. Jamais lhe escoara na idéia a intuição de uma prova moral – para ela religião era isso – que beatificasse sua postura apagada. Embora, refinando por si mesma aquilatada educação, não fazia caso das exigências e convenções domésticas quanto ao mantimento de um alegre semblante. Acomodar sua ausência num principio que lhe fosse idêntico ao que guardava no íntimo, e que, nesse princípio o Criador encontrou estalagem imaginativa, era de tudo um alívio bem específico, que não importava a ninguém, senão a si mesma.
Ser acudida em seu pacato temperamento plantaria em seu retiro interior a espécie de convívio que expectava nesse silente recolhimento.
Acurando a tempos sua percepção sobre a disposição familiar, que se resumia a conservação das boas impressões sociais, apagou réstias de esperança de que o acudimento subisse do solo caseiro.
Deu por si que a vontade era mais ampla, mesmo básica, como no primeiro dia do mundo, em que, do caos emergiu organização.
Manhãs de céu acinzentado, quando temperadas com frio, depuram os sentidos, e têm a capacidade de evocar quietude. Manhãs acinzentadas e frias são imóveis. O grande atributo dessa imobilidade é promover paragens aos espíritos incontidos que não cabem nos hábitos de aferrada busca e custeio de primitivos requisitos hierárquicos. Nessas paragens, sentia-se interiormente povoada pelo silêncio, que a bom tempo vinha sorvendo em cada aspecto. Recolhida aos arredores de si mesma achava abrigo na atmosfera enevoada, praticando o clima quieto como alargamento da própria personalidade. A qualidade do que descobria no clima tornou-se argumento a favor de essenciais necessidades, sentimentos que, por falta de argumentos, não existem socialmente, a não ser em obstinada resistência de si só. Sendo só de vontade. Vontade de ser mais que um alguém, ser sem nome, ser espaço, delibar respiros.
Passou a morar em definitivo na aparência de todas as opacas manhãs.
Tornou-se raros momentos, podendo ser vista somente no resumido enchimento de antes do meio-dia.
Existe agora unicamente na presença de ambiente próprio, em breves instantes, o quanto de tempo se tem para durar numa dessas manhãs.
Alex Sandro Carrari
Das manhãs de céu acinzentado gostava em particular das de ar temperado com frio. Dizia que tal composição remetia ao estado de inicio das coisas. O mundo fora começado numa manhã, céu cinza e brisa gélida predominavam no cenário do começo primordial, era assim que ela acreditava com força. Não era uma crença religiosa, nem insistia nisso como quem defende uma tese, era mais uma necessidade. Necessidade íntima de assim crer. Tinha aparência triste dos pés à cabeça, que casava bem com manhãs de céu acinzentado e ar temperado com frio. Percebido esse acerto enamorou-se, ainda na infância, de atmosferas melancólicas, embaciadas, de claridade modesta filtrada por tufos temporários de vapor condensado.
Escorava em crer nessa idéia de começo do mundo em manhã acinzentada a justificação para sua inegável aparência deprimida e introspecção articulada. Na face figurava-se a própria ausência. O decoro familiar exigia prestação de contas de sua abatida feição. Ainda mais. Que a explicação tivesse, bem ao contrário de sua crença, cunho religioso. Jamais lhe escoara na idéia a intuição de uma prova moral – para ela religião era isso – que beatificasse sua postura apagada. Embora, refinando por si mesma aquilatada educação, não fazia caso das exigências e convenções domésticas quanto ao mantimento de um alegre semblante. Acomodar sua ausência num principio que lhe fosse idêntico ao que guardava no íntimo, e que, nesse princípio o Criador encontrou estalagem imaginativa, era de tudo um alívio bem específico, que não importava a ninguém, senão a si mesma.
Ser acudida em seu pacato temperamento plantaria em seu retiro interior a espécie de convívio que expectava nesse silente recolhimento.
Acurando a tempos sua percepção sobre a disposição familiar, que se resumia a conservação das boas impressões sociais, apagou réstias de esperança de que o acudimento subisse do solo caseiro.
Deu por si que a vontade era mais ampla, mesmo básica, como no primeiro dia do mundo, em que, do caos emergiu organização.
Manhãs de céu acinzentado, quando temperadas com frio, depuram os sentidos, e têm a capacidade de evocar quietude. Manhãs acinzentadas e frias são imóveis. O grande atributo dessa imobilidade é promover paragens aos espíritos incontidos que não cabem nos hábitos de aferrada busca e custeio de primitivos requisitos hierárquicos. Nessas paragens, sentia-se interiormente povoada pelo silêncio, que a bom tempo vinha sorvendo em cada aspecto. Recolhida aos arredores de si mesma achava abrigo na atmosfera enevoada, praticando o clima quieto como alargamento da própria personalidade. A qualidade do que descobria no clima tornou-se argumento a favor de essenciais necessidades, sentimentos que, por falta de argumentos, não existem socialmente, a não ser em obstinada resistência de si só. Sendo só de vontade. Vontade de ser mais que um alguém, ser sem nome, ser espaço, delibar respiros.
Passou a morar em definitivo na aparência de todas as opacas manhãs.
Tornou-se raros momentos, podendo ser vista somente no resumido enchimento de antes do meio-dia.
Existe agora unicamente na presença de ambiente próprio, em breves instantes, o quanto de tempo se tem para durar numa dessas manhãs.
Alex Sandro Carrari
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