
Para encurtar o assunto e evitar complicações dizemos: pecado é errar o alvo (ponto). Por convenção fomos “evangelicamente” formados com proposital simplismo e nos tornamos versados em fuga pela tangente quando o assunto é pontuar nossas mazelas e bizarrices, sem discorrer sobre causas e efeitos, o que pode piorar consideravelmente nossa situação.
A lição é simples, limpa e eficaz
A lição é simples, limpa e eficaz
Temos o alvo = vontade de Deus. E o dardo = nossa vontade, desejos, ambições, etc. Fincar o dardo na periferia senão no centro, de nada vale o esforço. Estreitando. Cravar o centro significa nada menos que acertar com a vontade de Deus. Ambicionar tal feito é o máximo que podemos como pródigos passivos e carolas que somos. É impossível acertar com a vontade de Deus, sentencia com funesto orgulho qualquer partidário dessa embromação. Seja como mau hábito de linguagem (evangeliquês) ou mesmo como mote bíblico, a vida, em resumo se ornamenta em agradar a Deus. Resultado prático do esquema do alvo: somos seres em princípio fadados ao fracasso espiritual (pra quem dicotomiza a coisa), mesmo aos que abraçaram a fé.
Corrijam-me se eu estiver agindo como lerdo. Barnabé ou Apolo, não sei ao certo, declarou que sem fé é impossível agradar a Deus (Hb 11.6). Ora, então o contrário é possível; com fé é possível agradar a Deus.
Nada é tão ruim que não possa piorar
Corrijam-me se eu estiver agindo como lerdo. Barnabé ou Apolo, não sei ao certo, declarou que sem fé é impossível agradar a Deus (Hb 11.6). Ora, então o contrário é possível; com fé é possível agradar a Deus.
Nada é tão ruim que não possa piorar
Cunhada tardiamente por Santo Agostinho, a expressão “pecado original” acabou por enfatizar a decorrência mais dramática dessa, mais tardia ainda, analogia do alvo: a condenação ao inferno da maior parte da humanidade, a chamada massa damnata, ou, os que não acertaram com a vontade de Deus. Histórica e teologicamente o “pecado original” enquanto conceito foi uma vinculação posterior, pois não consta em Gênesis 3, nem nos evangelhos – nas falas de Jesus – tampouco no Símbolo dos apóstolos e no de Nicéia. Dispensando a leitura imagética de Gênesis 3, tratando-o como narrativa história, Lutero e Calvino enegreceram ainda mais a idéia de uma falta primeira. Travando embate com Erasmo – que acreditava que o pecado original fora perdoado pela Redenção, portanto, podendo o homem ascender ao supremo bem – Lutero declarou que desde a “queda” e sem a graça o homem é um cavalo manco que mancará cada vez mais.[1] Não é preciso fazer rodeios para afirmar que a teologia da predestinação arbitraria de uns poucos eleitos se abre como saída de emergência tanto para Lutero quanto para Calvino – para quem depois da queda o homem tornou-se servo do pecado, não conhecendo outra coisa além de cobiça, maldade, iniqüidade, sujeira e perversidade.
Encorpado como crença tradicional, o pecado original alterou totalmente o funcionamento da natureza humana, assim como do universo em torno ao homem. Entendido como literal, o paraíso terrestre, morada do primeiro casal, foi, por causa do pecado original, deformado de sua perfeição, ocasionando um efeito dominó com o restante da criação. Arre, a culpa foi deles, a estupidez particular de Adão e Eva teve dimensões cósmicas. Devo mais uma ao Delumeau
Encorpado como crença tradicional, o pecado original alterou totalmente o funcionamento da natureza humana, assim como do universo em torno ao homem. Entendido como literal, o paraíso terrestre, morada do primeiro casal, foi, por causa do pecado original, deformado de sua perfeição, ocasionando um efeito dominó com o restante da criação. Arre, a culpa foi deles, a estupidez particular de Adão e Eva teve dimensões cósmicas. Devo mais uma ao Delumeau
As ampliações e implicações desse embaraço teológico são basicamente três: 1ª a enormidade pretendida da falta primeira; 2ª a condenação à morte; 3ª culpabilidade hereditária que teria resultado dele.
Deixem-me explicar
Pela ordem. Primeiro nosso imaginário cauterizado pela representação – ausente em Gênesis – de um “jardim das delícias”, qualificado com o conceito grego de perfeição, habitado por um primeiro casal, faz que a falta de ambos tenha conseqüências proporcionais ao que eles estragaram. Não resta outra coisa senão classificar terremotos, tempestades, avalanches, secas, pestes, epidemias etc., como efeito da mordida na maçã que o fraco e insensato Adão deveria ter resistido a dar. Segunda e imediata etapa do dano; a morte física entra em processo como punição divina – também ausente em Gênesis.
Pela ordem. Primeiro nosso imaginário cauterizado pela representação – ausente em Gênesis – de um “jardim das delícias”, qualificado com o conceito grego de perfeição, habitado por um primeiro casal, faz que a falta de ambos tenha conseqüências proporcionais ao que eles estragaram. Não resta outra coisa senão classificar terremotos, tempestades, avalanches, secas, pestes, epidemias etc., como efeito da mordida na maçã que o fraco e insensato Adão deveria ter resistido a dar. Segunda e imediata etapa do dano; a morte física entra em processo como punição divina – também ausente em Gênesis.
A morte física é um fato biológico, um processo natural, sem relação com punição divina. A reprodução sexuada gera vida com a morte programada nas células. A morte física como processo natural respeita as leis da própria vida, que prova sua utilidade quando produz indivíduos diferentes dos pais com novo fôlego para ocupar o lugar daqueles que se vão (Le Pichon). Tão ocidentalizados que somos ignoramos o absurdo de se obedecer ao “crescei e multiplicai” sem considerar que fazer acontecer a convocação divina para povoar a terra seja possível sem que o velho deixe espaço para o novo. Aliás, crescer implica certa forma de morrer.
Parece mas não é
Parece mas não é
Em terceiro. Paulo ao fazer paralelo entre o “primeiro” e o “segundo Adão” parece afirmar a culpabilidade hereditária:
Eis por que, assim como por um só homem o pecado entrou no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte atingiu todos os homens: aliás todos pecaram [...] assim como pela falta de um só sucedeu para todos os homens a condenação [...] assim também, pela obediência de um só, a multidão se tornará justa. [...] onde proliferou o pecado superabundou a graça (Rom 5.12-21). François Varillon escreve:
Se o pecado se transmite é porque está na natureza de todo pecado o transmitir-se. O pecado não se transmite como ato de culpabilidade. Quando cometemos uma falta, ela é nossa e não passa para nossos filhos ou vizinhos. A esse respeito, a própria expressão “pecado original” presta-se a equívocos. Pois o pecado original se distingue do pecado pessoal pela ausência de consentimento pessoal. O pecado original em nós não é um ato pecaminoso, mas a conseqüência de todos os pecados cometidos a contar do primeiro[2].
Ao mesmo tempo em que parece afirmar a culpabilidade hereditária, o Apóstolo alega que “todos pecaram”, encerrando a espécie humana em solidariedade, no caso do pecado, com os que pecam.
Eis por que, assim como por um só homem o pecado entrou no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte atingiu todos os homens: aliás todos pecaram [...] assim como pela falta de um só sucedeu para todos os homens a condenação [...] assim também, pela obediência de um só, a multidão se tornará justa. [...] onde proliferou o pecado superabundou a graça (Rom 5.12-21). François Varillon escreve:
Se o pecado se transmite é porque está na natureza de todo pecado o transmitir-se. O pecado não se transmite como ato de culpabilidade. Quando cometemos uma falta, ela é nossa e não passa para nossos filhos ou vizinhos. A esse respeito, a própria expressão “pecado original” presta-se a equívocos. Pois o pecado original se distingue do pecado pessoal pela ausência de consentimento pessoal. O pecado original em nós não é um ato pecaminoso, mas a conseqüência de todos os pecados cometidos a contar do primeiro[2].
Ao mesmo tempo em que parece afirmar a culpabilidade hereditária, o Apóstolo alega que “todos pecaram”, encerrando a espécie humana em solidariedade, no caso do pecado, com os que pecam.
Afirmar que o pecado, em germe que seja, nos tenha sido transmitido pelo primeiro exemplar da espécie humana e que só estamos nessa roubada por sua culpa é sermos ingênuos e orgulhosos em não admitir que se o primeiro não pecasse teria sido o segundo, o terceiro ou o quarto...eu, você. Debitamos na conta de Adão e Eva o início da desordem no mundo como se, qualquer um de nós em seu lugar não crescesse o olho, cobiçasse e mordesse a vistosa maçã. A Septuaginta ao fazer de Adão e Eva nomes próprios, quando na narrativa das origens trata-se de substantivos comuns com significado coletivo, fez de Adão o culpado pelo caos da história. Tudo indica que Paulo fez uso dessa tradução grega do Antigo Testamento e não do texto hebraico. Sem querer limpar a barra do nosso mais distante ancestral. Adão é “o terroso” e Eva “a mãe”, sendo, portanto Adão e Eva a humanidade. Quem pecou? O terroso e a mãe, ou seja, a humanidade. O pecado de Adão e Eva é o pecado da humanidade. A humanidade pecou afirma Paulo.
O mais estranho nisso tudo
O mais estranho nisso tudo
Como vincular a vinda ao mundo de um Salvador sem condicioná-la ao pecado original? Ou uma coisa ou outra. Ou o Adão continuaria santo e estaríamos até hoje desfrutando de uma pueril nudez liberada, e Jesus estaria dispensado da história. Ou Ele só se fez necessário para concertar a besteira – antecipadamente prevista por Deus – cometida pelo primeiro homem. No primeiro caso Jesus é dispensável. Diríamos que podemos nos virar muito bem sem Ele. O espelho seria nossa própria referência de humanidade. No segundo, o pecado da criatura é que pressiona o Criador a por em curso seu plano, organizado entes que houvesse mundo. E, diga-se de passagem, Deus agiu em conivência com o pecado, pois, o prevendo, e podendo, não impediu.
Em suma, um vacilo, uma dentada de um único indivíduo põe tudo a perder, e sujeita criatura e Criador a sofrer por causa de um vício infinitamente menor que ambos.
Continua...
Alex Carrari
[1] JEAN DELUMEAU, À Espera da Aurora, p. 79.
[2] FRANÇOIS VARILLON, Crer para Viver, p. 177.
1 comentários:
Um texto que vale a pena ser lido.
Um tema que não foi ainda devidamente debulhado.
À pergunta "foi seu pai quem pecou?" somos ainda teimosamente tentados a dizer sim, foi seu pai (Adão).
Aguardo a sequencia.
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