24 de setembro de 2010

Talvez o último

"Pouco te resta para existir", Expôs o médico examinando o ziguezaguear no gráfico do eletro.
"Teu inverno se avizinha burlando o outono" poetizou com despropósito o drama averiguado.
"Não sei o quanto de tempo ainda, sei que achará insuficiente quando te deres conta do autêntico caso".
"Do nada o coração te falhará, cuidados não vão te alongar a existência, não confie", fechou a consulta.

Na botoeira dos trinta quem pode adivinhar que o fôlego vá se extinguir? Quem, no vigor dos anseios, se visualiza frouxo num paletó de madeira depois de tão breve temporada?

Entorpecido, deu por si já em casa. Não repartiu a notícia sequer com Eloísa, nos dez anos finais sua cúmplice companheira.

Despejado no sofá, abatido pela incoerência do fato, abobou-se por completo em reminiscências. Puxou cenas que se sucederam brevemente na idéia. Alçou recordações, foi estender-se no passado cingindo vagas lembranças. O retrospecto pareceu ensaio de despedida se projetando na retina. Escasso foi o resgate dos tempos idos. Pouco mais que alguns cheiros, rostos apagados, chuva, tombo no barro, gelatina e nuvens de bordas prateadas vazadas pelo tímido sol de final de aguaceiro.

Balanceando entre visões, certificou-se de que as obras do passado estavam intactas, salvaguardadas num penoso exílio, a memória. Único lugar em que ainda pode manter-se separado do corpo agora intimidado pela ausência aproximada.

Nessa peregrinação de saudade lhe veio na cabeça Mia Couto, nenhuma memória pode ser visitada. Mais grave: há lembranças que apenas na morte se reencontram.
Não está morrendo, apenas o solícito solo aguardava paciente receber-lhe no ventre. Do pó ao pó, a regra. Não está morrendo, não está se acabando aos poucos, não se exauri em pequenas doses. Confiado está a um súbito instantâneo afastamento, ligadura do destino coletivo.

O destino coletivo vaporiza a quimera da potência nos mais variados contornos e ocasiões. Uns tem na velhice, a fantasiosa sobra de tempo, a chance de mudar seus hábitos. Outros, no auge do vigor, se envaidecem com o sentimento de estar representando bem um papel. Entre outros há aqueles privados de desenvolver o mais básico vocábulo, com o gemido com que entram saem de cena, na mais tímida atuação.

Sem tempo para julgar e interpretar a natureza por causa da mão de ferro do destino, optou por um pertencimento simbólico ao mundo. A lembrança. Esta refestelada com todos os erros já pagos pelo tempo dispensa cuidados conjuratórios, é um fora-do- tempo dentro do tempo. Fração em que se pode sentir como em raras vezes o agradável abandono à serenidade da solidão purificada pelo fusco afeto resgatado em cada turva recordação.

Se fosse o caso de aguardar a morte procuraria construir algo positivo, nobre aspiração de quem pensa em deixar um legado e boas inspirações. Mas o caso é que não se trata de espera, nem de apressada realização de sublimes feitos com prazo de vencimento. Não pensa em penetrar o amanhã com projetos que o tornem digno de continuar a viver para concluí-los, embora reconheça que seja a coisa certa a ser feita.

Seu empenho é superar o tempo resgatando uma forma de eternidade. A eternidade passada. Que a pretensão do amanhã o fez desprezar em nome da pálida sucessão dos dias que consta nos calendários, inutilmente, em papéis, renovado de ano em ano. Assim é que acolhe uma vida que não lhe escapa e que se imobiliza por ser sem futuro nem projetos, do mesmo modo como vai guardando também a ilusão do presente.

Vive ao passo que revive, com a devida medida de imaginação, o tempo que talvez seja o último. Que, aliás sempre fora.


Alex Carrari

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