
Mito e história para o hebreu
Texto escrito a partir da leitura do ensaio de John F. Priest, Mito e Sonho na Escritura Hebraica.
De acordo com a estreita definição de H.Gunkel, mitos são histórias sobre deuses. São distintos das sagas, em que os personagens ativos são humanos. Embora aceita por muitos autores essa definição tem de ser ampliada por necessidade, para se aplicar ao Antigo Testamento, uma vez que a mitologia geralmente pressupõe politeísmo e por isso não encontrou condições favoráveis em Israel (A.Bentzen).
Com forte tendência ao monoteísmo – sendo, por questões pragmáticas politeísta até o último cativeiro (Karen Armstrong) – os hebreus se desinteressam por histórias em que apenas um fala e age, caso dos mitos arcaicos. Voltando a B. Childs que define o mito como uma forma de expressão necessária e universal dentro do estágio inicial do desenvolvimento intelectual humano, quando eventos inexplicáveis eram atribuídos à intervenção direta dos deuses, temos que reconhecer a associação de tais eventos aos fenômenos naturais, predominando assim no imaginário do homem arcaico uma motivação etiológica.
Dentre os clássicos que refletem esse ponto de vista um nome de expressão é o de Edith Hamilton que afirma que, de acordo com a mais moderna idéia, um verdadeiro mito nada tem a ver com religião. É uma explicação de algo na natureza; por exemplo, como toda e qualquer coisa no universo veio a existir. Esse entendimento aplicado do mito é o que se expressa nas primeiras páginas do Gênesis.
Com a investigação sobre a natureza do mito e do ritual no Antigo Oriente Próximo, hoje estudiosos do Antigo Testamento reconhecem que o propósito e função do mito era relativamente uniforme entre os povos do período em que os primeiros nômades hebreus aparecem na história. De forma geral se aderia ao mito por questões práticas e pragmáticas, tendo em vista sustentar a vida e as instituições em um mundo fora do controle e compreensão do homem. Os mitos se referiam a certos problemas práticos e urgentes da vida diária (S.H.Hooke). As atividades de subsistência como, caça, pesca, agricultura, agropecuária, estavam envolvidas em forças fora do controle e entendimento, e por isso precisavam de algum tipo de confronto que habilitasse o homem a, ao menos tornar Deus, ou, os deuses, favoráveis à sua urgente causa.
Com a investigação sobre a natureza do mito e do ritual no Antigo Oriente Próximo, hoje estudiosos do Antigo Testamento reconhecem que o propósito e função do mito era relativamente uniforme entre os povos do período em que os primeiros nômades hebreus aparecem na história. De forma geral se aderia ao mito por questões práticas e pragmáticas, tendo em vista sustentar a vida e as instituições em um mundo fora do controle e compreensão do homem. Os mitos se referiam a certos problemas práticos e urgentes da vida diária (S.H.Hooke). As atividades de subsistência como, caça, pesca, agricultura, agropecuária, estavam envolvidas em forças fora do controle e entendimento, e por isso precisavam de algum tipo de confronto que habilitasse o homem a, ao menos tornar Deus, ou, os deuses, favoráveis à sua urgente causa.
Priest afirma dessa forma que deve ser compreendido que o mito e o ritual associado eram indivisíveis, e, quando o ritual cessou, o mito despiu seu poder e força original, reduzindo-se rapidamente a uma forma de arte literária. Isso só aconteceu devido ao corte que separou mito e ritual, pois, é claro como já vimos em H.Frankfort que o mito não é literatura de entretenimento, nem especulação cosmológica, tampouco mera explicação para inexplicáveis fenômenos naturais. Os mitos eram eventos recontados nos quais os homens se envolviam na medida de sua própria existência.
Podemos aqui fazer referência à mitopoesia que segundo G.Ernest Wright, também citado por Priest, não era uma forma de entretenimento, nem mera explicação de questões que perturbavam o intelecto; era uma narração em forma de história dos fatos universais da vida aos quais o homem devia se adaptar. Dessa afirmação de Wright devemos dar destaque à palavra “universal” sendo que todo mito lida com a totalidade da existência e não com as partes. Aqui James Barr também deve ser citado:
O mito é uma totalidade antes de mais nada porque o pensamento mitológico luta por uma visão total do mundo, por uma interpretação ou significado de tudo o que for relevante. A mitologia não é uma manifestação periférica, nem um luxo, mas uma tentativa séria de integração de realidade e experiência, consideravelmente mais séria do que hoje chamamos casualmente de ‘filosofia de vida’. Seu objetivo é a totalidade do que é significativo para as necessidades humanas, materiais, intelectuais e religiosas. Possui, portanto, aspectos que correspondem à ciência, à lógica, e à fé, e seria errado ver o mito como um substituto distorcido de qualquer uma destas.
Joseph Campbell utiliza o termo mesocosmo – cosmo mediador – para falar do entendimento de uma ordem universal, em que os mitos e rituais são agentes estruturais, que agem para conformar a ordem humana à celestial. Em seu livro Máscaras de Deus, Campbell observa que para o homem desse período a vida na terra serve para espelhar, o mais perfeitamente possível nos corpos humanos, a quase oculta – agora descoberta – ordem do desfile das esferas.
Mesocosmo para Joseph Campbell é o contexto inteiro do corpo social que é portanto um tipo de poema vivo, hino ou ícone de barro, de carne e osso, de sonhos, moldado na forma artística de cidade hierática. Com isso Campbell quer dizer que o mito é a expressão da resposta total do homem a seu encontro com a realidade e o esforço subseqüente para assegurar a própria existência significativamente em face dessa realidade.
Mitólogo comparativo, Campbell serve de referência para pensarmos em mito na Escritura hebraica. Como já foi dito em texto anterior, para o hebreu o que está no centro de seu pensamento é a história e não o mito. Portanto existe uma razão existencial para que esse povo se separe de forma radical do padrão-mito ritual predominante no ambiente do Antigo Testamento.
Podemos aqui fazer referência à mitopoesia que segundo G.Ernest Wright, também citado por Priest, não era uma forma de entretenimento, nem mera explicação de questões que perturbavam o intelecto; era uma narração em forma de história dos fatos universais da vida aos quais o homem devia se adaptar. Dessa afirmação de Wright devemos dar destaque à palavra “universal” sendo que todo mito lida com a totalidade da existência e não com as partes. Aqui James Barr também deve ser citado:
O mito é uma totalidade antes de mais nada porque o pensamento mitológico luta por uma visão total do mundo, por uma interpretação ou significado de tudo o que for relevante. A mitologia não é uma manifestação periférica, nem um luxo, mas uma tentativa séria de integração de realidade e experiência, consideravelmente mais séria do que hoje chamamos casualmente de ‘filosofia de vida’. Seu objetivo é a totalidade do que é significativo para as necessidades humanas, materiais, intelectuais e religiosas. Possui, portanto, aspectos que correspondem à ciência, à lógica, e à fé, e seria errado ver o mito como um substituto distorcido de qualquer uma destas.
Joseph Campbell utiliza o termo mesocosmo – cosmo mediador – para falar do entendimento de uma ordem universal, em que os mitos e rituais são agentes estruturais, que agem para conformar a ordem humana à celestial. Em seu livro Máscaras de Deus, Campbell observa que para o homem desse período a vida na terra serve para espelhar, o mais perfeitamente possível nos corpos humanos, a quase oculta – agora descoberta – ordem do desfile das esferas.
Mesocosmo para Joseph Campbell é o contexto inteiro do corpo social que é portanto um tipo de poema vivo, hino ou ícone de barro, de carne e osso, de sonhos, moldado na forma artística de cidade hierática. Com isso Campbell quer dizer que o mito é a expressão da resposta total do homem a seu encontro com a realidade e o esforço subseqüente para assegurar a própria existência significativamente em face dessa realidade.
Mitólogo comparativo, Campbell serve de referência para pensarmos em mito na Escritura hebraica. Como já foi dito em texto anterior, para o hebreu o que está no centro de seu pensamento é a história e não o mito. Portanto existe uma razão existencial para que esse povo se separe de forma radical do padrão-mito ritual predominante no ambiente do Antigo Testamento.
Entre os hebreus o mito sobrevive devido ao controle exercido pelo senso histórico que regula sua vida. Ao crescer em consciência história o hebreu forja sua compreensão da auto-revelação de Javé como indissoluvelmente ligada à percepção da intencionalidade da história.
Por causa de seu senso histórico o hebreu então faz uma releitura e uma ressignificação dos mitos estruturados em seu ambiente.
Releitura e ressignificação, sugestões que já levaram conservadores a promover fogueiras virtuais para proteger e validar uma cátedra ganha-pão, são, pelos hebreus, efetuadas por uma questão primordial; dar sentido à sua existência coletiva como povo.
Alex Carrari
Por causa de seu senso histórico o hebreu então faz uma releitura e uma ressignificação dos mitos estruturados em seu ambiente.
Releitura e ressignificação, sugestões que já levaram conservadores a promover fogueiras virtuais para proteger e validar uma cátedra ganha-pão, são, pelos hebreus, efetuadas por uma questão primordial; dar sentido à sua existência coletiva como povo.
Alex Carrari
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