
Antes de qualquer coisa deve ficar claro que Vida Eterna é apenas uma construção verbal que significa o mesmo que Salvação, Reino de Deus, Reino dos Céus, Vontade de Deus e Bem-aventurança.
A pergunta é ontológica: Mestre que farei para herdar a vida eterna? O interprete da lei cuja autoridade em seu ambiente possui status de um advogado em outras palavras quer saber qual é o gesto capaz de dar um sentido que se perpetue à sua provisória existência. Não especula sobre quais as suas reais chances em garantir um tipo de sobrevivência deleitosa no além – idéia ocidental de vida eterna –, não, ele fala de herança, para o judeu algo a se desfrutar enquanto homem no tempo e no espaço. O pessimismo em torno da morte não é o fio condutor de sua crença. O judeu, ao menos este, não sofre desse mal utilitário que nos fez adoecer com uma ansiedade crônica por garantir, para depois do último fôlego, um recinto fresco para o eu insubstancial – idéia ocidental de alma –, o que nos torna indiferentes com o destino dos corpos à nossa volta.
O que está escrito na Lei? Como interpretas? Pergunta Jesus com brandura. Como um bom homem de letras sua confissão é alinhada com o ensino do Mestre de Nazaré. Amar a Deus (...) e amar ao próximo (...). Correto, eis a resposta que se espera de um personagem desse quilate, uma admirável confissão de fé. Basta isso e viverás, afirma o Nazareno. Se não tivesse tentado se esquivar alongando o assunto teria passado com louvor no concílio. Se tivesse acreditado que levantar a mão lhe bastaria para garantir seu ócio eternal não teria problemas com as virtudes exigentes do Cristo. Do alto de sua indiferença em relação ao outro o legista quer que Jesus lhe indique quem é digno de receber tamanha dedicação pessoal só comparada à consagrada a si mesmo – de acordo com o segundo mandamento.
O interprete como um bom conservador teológico mantém inalterado em sua confissão aquilo que está escrito. A Bíblia é a palavra de Deus.
O que ele faz com aquilo que é sabido desde que se conhece por judeu, ou, como interpreta sua impecável confissão? Como a Bíblia se torna a palavra de Deus? Pergunta inviável a um bom conservador teológico, cheirando a liberalismo alemão já devidamente expurgado.
Excelente contador de virtudes Jesus prossegue a conversa entoando sua especialidade, a imagética hermenêutica dos fatos:
Um homem qualquer descia de Jerusalém para Jericó, vindo a cair nas mãos de bandidos, que depois de lhe roubarem tudo o surraram, ficando quase morto. Por acaso uma suprema autoridade religiosa descia por ali, e cortou volta. Também por acaso um exemplar e zeloso responsável dos serviços do templo ao perceber o provável cadáver no caminho passou de largo.
Um samaritano, sujeito religiosamente desprezível com uma crença desorganizada é quem passa perto, dedica olhar piedoso e se compadece do homem. Um samaritano dispensa provisão e cuidados com o desconhecido (livre tradução deste que vos escreve).
A pergunta é ontológica: Mestre que farei para herdar a vida eterna? O interprete da lei cuja autoridade em seu ambiente possui status de um advogado em outras palavras quer saber qual é o gesto capaz de dar um sentido que se perpetue à sua provisória existência. Não especula sobre quais as suas reais chances em garantir um tipo de sobrevivência deleitosa no além – idéia ocidental de vida eterna –, não, ele fala de herança, para o judeu algo a se desfrutar enquanto homem no tempo e no espaço. O pessimismo em torno da morte não é o fio condutor de sua crença. O judeu, ao menos este, não sofre desse mal utilitário que nos fez adoecer com uma ansiedade crônica por garantir, para depois do último fôlego, um recinto fresco para o eu insubstancial – idéia ocidental de alma –, o que nos torna indiferentes com o destino dos corpos à nossa volta.
O que está escrito na Lei? Como interpretas? Pergunta Jesus com brandura. Como um bom homem de letras sua confissão é alinhada com o ensino do Mestre de Nazaré. Amar a Deus (...) e amar ao próximo (...). Correto, eis a resposta que se espera de um personagem desse quilate, uma admirável confissão de fé. Basta isso e viverás, afirma o Nazareno. Se não tivesse tentado se esquivar alongando o assunto teria passado com louvor no concílio. Se tivesse acreditado que levantar a mão lhe bastaria para garantir seu ócio eternal não teria problemas com as virtudes exigentes do Cristo. Do alto de sua indiferença em relação ao outro o legista quer que Jesus lhe indique quem é digno de receber tamanha dedicação pessoal só comparada à consagrada a si mesmo – de acordo com o segundo mandamento.
O interprete como um bom conservador teológico mantém inalterado em sua confissão aquilo que está escrito. A Bíblia é a palavra de Deus.
O que ele faz com aquilo que é sabido desde que se conhece por judeu, ou, como interpreta sua impecável confissão? Como a Bíblia se torna a palavra de Deus? Pergunta inviável a um bom conservador teológico, cheirando a liberalismo alemão já devidamente expurgado.
Excelente contador de virtudes Jesus prossegue a conversa entoando sua especialidade, a imagética hermenêutica dos fatos:
Um homem qualquer descia de Jerusalém para Jericó, vindo a cair nas mãos de bandidos, que depois de lhe roubarem tudo o surraram, ficando quase morto. Por acaso uma suprema autoridade religiosa descia por ali, e cortou volta. Também por acaso um exemplar e zeloso responsável dos serviços do templo ao perceber o provável cadáver no caminho passou de largo.
Um samaritano, sujeito religiosamente desprezível com uma crença desorganizada é quem passa perto, dedica olhar piedoso e se compadece do homem. Um samaritano dispensa provisão e cuidados com o desconhecido (livre tradução deste que vos escreve).
Um samaritano que etnicamente é um mestiço; religiosamente um herege e sincretista; sociopoliticamente um traidor. Um samaritano cuja adoração a Javé destoa estéticamente da lei judaica.
O segundo mandamento é tornado um fato da vida. A Bíblia se torna a palavra de Deus com a decisão efetiva, objetiva do samaritano em cuidar da vida.
Para quem até agora acredita que herdar a vida eterna é fazer parte de um grupo de eleitos (predestinados) escolhidos por capricho divino antes que houvesse mundo para viver num paraíso flutuante com vaporizador e música ambiente depois da morte, o conto de Jesus se traduz numa irônica moral da história.
A que se cuidar e dignificar o outro. Viabilizar e disponibilizar meios mantenedores da vida. Salvar o coletivo.
O triunfo da retórica individualista – alavancada pela tese calvinista de eleição que deixa a política neo-liberal de Ronald Reagan e Margaret Thatcher no chinelo – em cima do discurso comunitário do Cristo, produziu intensa crise de solidariedade no seio da comunidade evangélica-protestante. Ocasionando numa mudança profunda de valores subjacentes à convivência entre os homens e no rompimento com o ethos cultural repassado por Jesus na grande comissão.
Numa sociedade de consumo em que o capitalismo traz em seu bojo uma lógica de exclusão, vida eterna, ou, salvação é assunto estritamente privado, pouco importando quem fica de fora. Nesse espaço os “salvos” sossegam na expectativa de imerecidos privilégios futuros – idéia ocidental de salvação pela graça –, enquanto fazem por merecer o reconhecimento como eleitos pela manutenção e gerenciamento do capital – sinalizador calvinista de pertença ao seleto grupo dos eleitos.
“O mundo rebenta de fome e as belas almas sobem ao céu” (Jean Guehenno).
A resposta de Jesus narrada em forma de parábola traz o inusitado, a vida eterna nasce da experiência cotidiana. Emerge na aridez da vida com gestos acolhedores conduzidos por uma dedicação autêntica ao outro. François Varillon diz que, pecado é recusar-se sistematicamente à busca de eficácia temporal e que certas mentalidades que se ocultam sob uma pseudopreocupação pela pureza evangélica desobrigam-se de compromissos temporais (Crer Para Viver).
Acima de qualquer norma, lei ou rito a solidariedade é a via de acesso à vida que se pretende ter significado suficiente para se perpetuar. O interprete da Lei no domínio da letra faz polida a sua ortodoxia. O samaritano ao querer fazer viver o outro versa a ortopraxia. Em nossas modernas unidades administrativas (igrejas) – termo que emprestei do Paulo Brabo – o pensar correto a fé cristã (ortodoxia) só representa algum sentido caso vida eterna seja a expectativa do prêmio de consolo para quem anda apavorado com a possibilidade de um estágio sem fim no inferno depois da morte. Agir no limite do amor na prática da solidariedade (ortopraxia) significa viver na vida eterna, sendo esta não um benéfico pessoal futuro, mas o conhecer a Deus e a Jesus a quem Ele enviou (Jo 17.3), conhecimento capaz de modificar ambientes que imprimem uma cultura de morte e negação do coletivo. A vida eterna não é a vida futura, é a vida presente (F. Varillon). Aquele que crê tem (que no grego significa em andamento) a vida eterna.
O conceito e o horizonte da vida eterna, ou, salvação ampliados por Jesus são rigorosamente reduzidos e dicotomizados por quem não se satisfaz em praticar a lei do amor. Vida eterna não é o visto no passaporte que garante lugar na janela, ileso e desobrigado com o restante da espécie, na viagem rumo ao céu. Nem salvação. Vida eterna é um jeito de viver daquele que crê, que cria um ambiente de salvação em redor de si. Vida eterna é um gesto eco-solidário de quem se empenha em transformar o mundo, que se nega a querer para si algo que é negado ao outro. Para quem almeja herdar a vida eterna o gesto requerido é de saimento de si renovando suas condutas em acolhimento ao semelhante. Dedicando ao outro o mesmo que deseja para si. Não se contentando com menos que isso.
Alex Carrari
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