27 de novembro de 2010

A quase história do singular Rubens Auxiliar



Reservado em seu direito de ficar calado nenhum ninguém ouvira da boca do próprio Rubens Auxiliar qualquer interpretação das curiosas ocorrências entre ele e quem mais adoecesse. Melhor dizendo, jamais tentou se explicar com palavras próprias, preferindo os versos do poeta que mais amava, José Chagas.

Foram estes os versos que segredou em confessionário dois dias antes de sua última internação, ao que tudo indica pela averiguação feita na vila, em conformidade com Ana Angélica, pequena sôfrega, que há cinco anos deu entrada no mundo com o sangue ralo.

Sou mais pela mágoa
em nós diluída,
do que pela água
que nos lava a vida.

Sou mais pelo sonho
que nos leva a nada,
que pelo que ponho
na paz esperada.

Sou mais pelo quanto
guardar não se possa,
do que pelo encanto
da riqueza nossa.

Sou mais pela fome
da alma vazia,
que pelo que come
nossa boca fria.

Sou mais pelo espinho
que nos abre a dor,
que pelo mesquinho
silêncio da flor.

E por ser assim,
não me amo profundo.
Sou menos por mim
do que pelo mundo.


Os de meia idade que com ele fizeram as primeiras séries e praticaram a primeira comunhão declararam sempre ter havido estranhezas nas estações da vida do tal homem. "Sujeito amofinado de hábitos irregulares", diziam a seu respeito.

Nada há que seja mais entregador que uma biografia lida em retrospecto.
E assim é o caso.

Tendenciosa, sua mãe de leite, que consta que deixou a vida arrastada por um câncer, interpretava como casualidade a peculiaridade, do então menino Rubens, raramente ser saudável. "É que ele ganhou de corpo, ainda no ventre, uma estrutura frágil, é menino incomum, quebradiço como os santos", defendia com tenacidade e fé sua genitora.

Das doenças dos doentes da vila não houve uma, desde a infantilidade, contagiosa ou não, que Rubens Auxiliar não tenha apanhado. Curando-se de uma moléstia adoecia-se em outra. De maldade, nessa época, seu vulgar-nome era Para-Raio-de-Coisa-Ruim, e um outro menos importante e que não vingou, Doença-de-Sobra.

O tempo, se bem observado, desfaz o que se assegura ser coincidência.


Reparando nas enfermas detenções de quando Rubens ainda se confundia com a puberdade e nos doentes que se acamavam no mesmo período, Dona Dessas-de-Futrica se apercebeu de que a vistoria clínica de qualquer destes era a mesma daquele. Era só um infeliz acumular-se de dores que o desafortunado Rubens Auxiliar incorporava-se do mesmo mal. Se adoentando por inteiro, não raro era atacado por mais de um flagelo, só dependia de quantos enfermizados se contava nas redondezas.

Quando deram atenção à denúncia dessa Dona, passou a ser reparado e acompanhado quase por uma comissão de avaliação. Foi decretado, sem necessidade de prova científica, que o que se dava era um caso infreqüente de tomar para si doença dos outros, não por hereditariedade nem por contato, mas, só porque ele assim o queria. Curioso é que tanto para quem primeiro manifestava doença como para Rubens que a tomava para si já evoluída, só sarava um quando sarava também o outro. Nem menos nem mais doente ficava um qualquer que tinha assumida por Rubens, sua enfermidade. Em termos práticos não havia finalidade nem benefício algum para quem tinha sua doença assim, inexplicavelmente compartilhada, pois, não se tratava de transferência, mas, de algum tipo de comiseração ainda não classificada pelas ciências humanas.

"Para que moribundar-se voluntariamente a troco de um nada?" Era o que diziam quando sua afinidade com os destinos da generalidade humana fora decifrada.

Quem formulou o caso raro e compreendeu a situação foi o sacerdote local que enobreceu o gesto deste singular espécime. Informado das Sagradas Letras achou nos escritos do Profeta a semelhança da trajetória de Rubens Auxiliar.

"Não é hábito de ficar doente e só, é disposição de incorporar piedade, praticar entranháveis afetos, fazer-se outro carne a carne idêntico ao nosso Senhor que carregou consigo nossas doloridas doenças", expôs o sacerdote por mais de uma vez em seus sermões até que compreendessem a grandeza do evento que se passava entre eles.


Alex Sandro Carrari




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