
O mythos: vulgarização, rejeição e perda de contato com uma verdade essencial. Sugerir a presença e a validade dos mitos na narrativa bíblica, na maioria dos ambientes teológicos, significa grave distúrbio na fé do sujeito que ousa palpitar tal relevo, e abertura de um perigoso precedente à literalidade e divina inspiração do texto sagrado.
Tratado como termo, o mythos sofreu, além da corrosão impiedosa do tempo a que se expõe qualquer vocábulo, a associação imediata com a mitologia grega popularizada pelas teodicéias e tragédias que até nós chegaram como vultos de um passado obscuro, simulando, sob a coberta de uma crítica severa, caminhos vulgarizados de rejeição a todo tipo de material imagético/simbólico, por tradição nossa herança mental. Na antiguidade Xenófanes (565-470) foi o primeiro a levantar a voz criticando e rejeitando as expressões mitológicas da divindade empregadas por Homero e Hesíodo – crítica até certo ponto justificada quanto à deformação do conteúdo essencial do mythos –, pois estes recontaram a maioria dos mitos gregos modificando e sistematizando-os. Além de Xenófanes, Heródoto, Sólon, Píndaro e Anaximandro – que propunha uma concepção total de universo sem deuses nem mitos – e Eurípedes – que foi influenciado por Xenófanes – se opunham radicalmente aos mitos enquanto modelos de organização e representação da realidade. Bem equipados com uma oratória convincente, esses críticos foram, numa crescente, privando toda representação mitológica de seu valor tanto religioso quanto metafísico. O judeu-cristianismo deu a sua “contribuição” ao banir para o campo da "falsidade", "ilusão", "fábula", tudo o que não tivesse sua validade atestada pelo Antigo ou Novo Testamento. Embora sendo reconhecidas as modificações feitas por Homero e Hesíodo, o caminho mais integro e coerente de preservação e exame do mythos deveria ser o adotado por Nietzsche em O nascimento da tragédia no espírito da música, percebido justamente entre os gregos – antes tarde do que nunca –, que dá um passo à frente quando observa nos mitos gregos e suas reproduções teatrais, não uma decodificação deformada do mundo supranatural com seus deuses amofinados, e sim, uma necessidade essencial desse povo tão excitável em sua sensibilidade, tão impetuoso em seus desejos, tão apto unicamente para o sofrimento: “O grego conhecia e sentia os pavores e sustos da existência: simplesmente para poder viver, tinha de estender à frente deles a resplandecente miragem dos habitantes do Olimpo (...) Para poderem viver, os gregos, tinham de criar esses deuses, pela mais profunda das necessidades (...) Nos gregos a “vontade” queria intuir a si mesma na transfiguração do gênio e do mundo da arte: para se glorificar, suas criaturas tinham de sentir-se dignas de glorificação, tinham de ver-se refletidas em uma esfera superior, sem que esse mundo perfeito da intuição atuasse como imperativo ou como censura”. Enquanto o pretenso especialista, incorporando uma crítica sem verificar as fontes, rejeita o mythos – por preguiça, interesses obtusos ou os dois juntos –, o leigo o faz por falta de acesso as fontes e por confiar cegamente no diagnóstico do pretenso especialista. Sob a atmosfera de emancipação intelectual quatrocentista, enquanto o Renascimento e posteriormente o Iluminismo e positivismo propunham uma idéia de universo aberto, desmitificado, a Reforma começava a desconstrução estética da idéia de mundo permeado pelos mitos, fazendo, contudo, em surdina, a reutilização de certos conteúdos fundamentais dos mesmos arquétipos que em público, do alto da tribuna, seus oradores exoneravam. Entre os protestantes essa reutilização ocorre principalmente pela via dos medos escatológicos e mitos de retorno, implícitos nos discursos, marcando os sermões da época com uma tendência que os hebreus haviam adotado por volta do século VII AEC, com a importação dos apocalipses iranianos ( o medo, como analisa Jean Delumeau em História do Medo no Ocidente, sempre se mostrou um expediente eficaz a serviço da manutenção de padrões específicos de interesse privado ). No imaginário do homem secular europeu a antiga tentativa de construção da realidade dentro de uma concepção mítica de cosmo sobreviveu na precariedade. Se ao homem secular renascentista o universo se apresentava aberto e o intelecto liberto das crenças rudimentares, nos espaços cúlticos reformados a liturgia se mostrava rígida e rigorosa na formatação de uma nova identidade religiosa. O que o cristianismo reformado não compreendeu – talvez de propósito, para atender a novas demandas de monopolização da consciência das massas – e que com isso palmilhou o mesmo chão que o espírito científico positivista, é que os mitos estão na base e origem de todas, absolutamente todas, as civilizações de forma muito incipiente e que o papel de ambos, seria o de capturar seus significados de origem, compreendê-los e ressignificá-los, resgatando seu sentido original. Todavia, tanto um quanto outro, divorciados e em pé de guerra pela partilha das mentes recém “emancipadas” preferiram, através da vulgarização e rejeição dos mitos, ignorar por completo qualquer significado e apontamento de uma verdade essencial, cujo símbolo é apenas sombra.