
Texto escrito a partir da leitura do ensaio de John F. Priest: Mito e Sonho na Escritura Hebraica.
Com nitidez pode-se ver nos festivais hebreus um exemplo dos mitos controlados pelo senso histórico. Referências anteriores são abundantes nas tradições de outros povos sobre as festas que celebravam a natureza, tendo alinhamento com o ciclo das estações, sempre com a finalidade de afiançar o cuidado dos deuses para com os praticantes dos ritos.
O mito é tornado histórico pelo hebreu quando o símbolo comum que era parte de um arquétipo tão antigo quanto sua breve existência tribal, é reinterpretado com significação e data histórica. Podemos tomar como exemplo de historização dos mitos no imaginário hebreu o registro do profeta Isaías que convoca os exilados a ter esperança na atividade libertária de Iavé: "Desperta, desperta, arma-te de força, braço do Senhor; desperta como nos dias passados, como nas gerações antigas; não és tu aquele que abateu o Egito e feriu o monstro marinho? Não és tu aquele que secou o mar, as águas do grande abismo? Aquele que fez o caminho no fundo mar, para que passassem remidos? Assim voltarão os resgatados dos SENHOR e virão a Sião com júbilo, e perpétua alegria lhes coroará a cabeça; o regozijo e a alegria os alcançarão, e deles fugirão a dor e o gemido". Grifo meu, (Is 51.9-11).Ao proclamar que o alicerce da esperança dos exilados deve se concentrar nas atividades de Iavé, que “abateu o Egito e feriu o monstro marinho” é evidente que se trata de uma referência ao mito do dragão-caos que dominava as águas primordiais e era corrente no imaginário dos povos do antigo Oriente Próximo. O mar e o grande abismo são também alusões mitológicas muito comuns. O que é diferente no caso de Israel é que o profeta se refere a dois símbolos de desordem para aplicá-los ao evento histórico da travessia do Mar Vermelho. Com esse emprego o mito tornado histórico enche a revelação com um intenso e novo significado. O impacto histórico sobre o pensamento mitológico não pode apressadamente, como alguns propositalmente fazem, ser tomado como um processo de desmitologização. A. Bentzen segue esta linha de raciocínio que afirma que a história religiosa de Israel é, em alguns aspectos, uma história de ‘desmitologização’ ao que Priest amplamente discorda e explica por que:
“Se retornarmos à definição de mito como ‘luta por uma visão totalizante de mundo (...) uma interpretação ou significado de tudo que é relevante (...)’, podemos nos justificar com a asserção de que o senso histórico de Israel resultou não em desmitologização, mas antes em uma reorientação do lugar do mito. Isto, para falar nos termos mais crus, pois a história em si de Israel tornou-se o moto ou veículo da mitologia. Não podemos dizer que a história abala ou controla a mitologia, mas que a história é mitologia bíblica. Pois a confrontação e a resposta à realidade foram expressas dentro da moldura histórica”.
Tendo a consciência histórica começado ou não com Israel, o que é discutível, a questão é que a história realmente ocupou um papel mais central para Israel do que para qualquer um de seus contemporâneos.
As inegáveis evidências de que o pensamento e o imaginário hebreu não se separaram tão radicalmente das categorias mitopoéticas são sérios obstáculos para uma fácil aceitação de que há certamente uma desmitologização nos escritos veterotestamentários. Comumente é aceito que para discernir uma mitologia pura o ambiente de seu desenvolvimento deve ser reconhecidamente politeísta, assim aprendemos.Neste caso a objeção que se faz à utilização do mito por parte de Israel é certamente vigorosa, tendo em vista que Israel desde sua infância histórica observa, em tese, um monoteísmo prático, bem dizer teórico. John Priest observa que é justamente esta a questão que fornece a chave para nossa compreensão da categoria da história como mitologia bíblica. Largamente se vê que Iavé não interagia com os outros deuses, não tinha parceiros com quem dividir o encargo de senhorear a história. A isso se junta o fato de Israel reconhecer e registrar que a vida de seu Deus era discernível por causa dos contatos com o povo escolhido. Eis o ponto. A biografia de Iavé e o resultante mito de Iavé ficaram indistinguíveis da própria história de Israel. Pode-se dizer que a história de Israel é a biografia de Iavé e esse insight fornece a justificativa para a alegação de que a história foi, na verdade, o modo israelita de expressar o mito.
Priest dá mais um passo ao dizer que a história como mitologia bíblica é o homem não só tendo história, mas sendo a história. É a história como compreensão de que todas as questões fúteis da vida humana têm um status último. Isto é possível porque através da história cada homem, individualmente, mas, sobretudo em comunidade, pode participar do mito israelita supremo, o mito da vontade de Deus. Nessa participação, o homem pode perceber sua totalidade humana que é, como vimos, a ‘raison d’être’ última do próprio mito.
O pensamento de Israel sobre a natureza tem um significado especial à medida que se relaciona com a perspectiva mitológica. Priest argumenta fortemente que o israelita não ignorou a natureza em conseqüência de sua aparente preocupação com a história, mas que reorientou seu entendimento da natureza para torná-la coerente com sua mitologia reorientada. Israel adiantou-se em “dessacralizar” a natureza para relacioná-la à condição humana e, pelo mesmo motivo, “desmitologizou” a teogonia e a cosmogonia. Assim, a atitude contemporânea em relação ao mito e a correspondente atitude contemporânea em relação à natureza, juntas, nos fornecem evidências para a relevância no pensamento hebreu de uma categoria geralmente ignorada por completo – o humanismo. A natureza nunca deixou de ser um “Isso” externo para Israel, mas se tornou um item da experiência total a ser investigado e avaliado.
De acordo com a argumentação de John Priest a natureza continuou sendo objeto de assombro, porém, não causava mais tanto medo, com isso perdeu seu poder sacro, mitológico. Enquanto o medo da natureza dominava o pensamento do homem arcaico, fazendo-o permanecer na defensiva, a mitologia se destinava a explicar e, sobretudo controlar essas forças que ameaçavam dominá-lo. Contudo, quando o israelita se tornou capaz de redefinir o mito em termos históricos – e este é o ponto ignorado pela maioria daqueles que prendem o pássaro, expressão de Rubem Alves, para alguns tipos de teólogos – e dessacralizar a natureza sem uma perda total da admiração, tornou-se capaz de rumar para a participação no novo mito, o mito da vontade de Deus, que era a articulação das mais elevadas aspirações da humanidade desejosa de arriscar sua desintegração em prol da totalidade.
Em relação à mitologia de seus vizinhos os israelitas diferem expressivamente, pois, estavam dispostos a sacrificar a coexistência harmoniosa com a natureza pela possibilidade de uma harmonia transcendente, que expressavam mitologicamente como vontade de Deus.Dizer que a Bíblia contém mitos é o mesmo que reconhecer que seus autores se expressaram através de símbolos correntes comuns no imaginário de seu tempo. Mito em nada tem a ver com mentira, fábula, ilusão, devaneio, e isso já foi pensado nos primeiros textos sobre o assunto. Mito é expressão de uma verdade, que em Israel ganha um significado supremo ao ser articulado com uma compreensão fundamental, a valoração da história passada como tradição fiel da intervenção Iavé e a orientação da história futura na direção da Sua vontade.
Porque então alguns ambientes que utilizam a Bíblia como objeto de análise científica negam a presença de uma mitologia no texto Sagrado?Bem, isso é uma outra história que nada tem a ver com a verdade do mito.
Alex Sandro Carrari