22 de fevereiro de 2011

Johann Gütlich, um servo de sua arte





Em 2004 tive a certeza de qual seria o percurso de minhas andanças por estes efêmeros prados. Minha arte, que ainda era muito insipiente e simplificada, porém jamais desapaixonada, seria dali em diante o sinal da minha reverência com a vida. A presença do camponês naquele quadro me afetou definitivamente a alma, me causou uma admiração duradoura e a certeza de que estava diante de uma pintura de verdade. A impressão imediata, que hoje ainda tenho, é de que seu autor era alguém que pertencia à sua arte, não como um escravo angustiado, mas como um servo submisso em acatamento ao seu sagrado ofício, ao seu destino. A ingratidão da cidade de São José dos Campos, uma cidade industrial de mentalidade reducionista, de cultura pequeno-burguesa provinciana, jamais rendeu a Johann Gütlich as devidas honras. Nós, os poucos que admiramos o espírito e não apenas a maneira deste singular expressionista holandês, que não somos privados do contato com sua obra – que o grande público o é por razões políticas escusas - lhe rendemos em silente recolhimento a devida reverência, à medida da nossa sensibilidade.

Segue um texto de Lina Bo Bardi.




Este artista não deixa lugar a dúvidas: é artista em profundidade que não se satisfaz com a superficialidade das criaturas, das coisas nem de si mesmo. Escava até o âmago e reproduz o que viu. O tema é apanhado no momento essencial, na revelação do que tem de mais íntimo.

Poderá ter defeitos, e os tem, sem dúvida, poderá não agradar a todos, mas se impõe. Em primeiro lugar, por ser um artista seguríssimo de si, da sua pincelada forte, incisiva e sem hesitações; uma pincelada que nunca volta atrás, mas segue uma certa evolução histórica com escrupulosa fidelidade (...): fidelidade a si mesmo, à sua inspiração, que naturalmente se ressente do ambiente físico e artístico da terra em que nasceu. Gütlich é holandês.

Não pretendemos procurar nele as influências de outros pintores: não saberemos a quem referir-nos com exatidão. Sem dúvida, os traços de um modo particular de “ver” e de “sentir” a cor, que é peculiar à tradição de sua terra, encontram-se na pintura como transplantação é um bem ou um mal do ponto de vista da arte; não há dúvida porém que confirma a personalidade e independência desse artista singularíssimo. Evidentemente não lhe interessa interpretar um ambiente como exprimir o que tem dentro de si. Como desenhista e como pintor revela a mesma força, quase violenta, e a mesma segurança. E não permite que a idéia tiranize a forma a ponto de suprimi-la ou de relegá-la a um plano secundário, conforme a tendência da pintura de hoje.

Na simplificação dos temas e sobretudo das figuras humana, retratos, paisagens, esgota o que de fresco e infantil conserva a sua alma, como aliás qualquer alma de artista.

Mas de um modo geral a sua inspiração é decididamente séria. Gütlich vê a vida num plano, não diremos trágico (a vida não é trágica) mas extremamente grave, que nos faz lembrar o “Tudo é profundo” de Nietzsche.

De fato tudo aqui é levado a sério; amassado com viril energia num plano realístico dramatizado e humanizado ao máximo. Aquela sua mulher seca e amarga da “Colheita”, até certo ponto transformada em “coisa” na aventura da fadiga cotidiana, aquelas sua paisagens invernais ressequidas e ásperas até no brancor patético das neves e das nuvens; e aquelas suas alucinantes e ressequidas “Cabeças de Camponês”, o “Trágico Palhaço”, representam os extremos de uma concepção do mundo profundamente sofrida, porém não exasperada.

Na natureza, prefere os aspectos menos claros e alegres, e nos homens, as expressões refletidas e severas. No auto-retrato e em certos outros também (não podemos deixar de citar o retrato de D. Carmem Silva de Alvarenga Junqueira e os de Sérgio Cardoso, sobretudo o Esopo), Gütlich é mais livre, mais desapaixonado, no entanto nestes também, como no “Cego” e no “Dois Judeus”, sempre firme numa posição: o respeito extremo à arte, pelo que nunca se deixa levar por veleidades e transpor os limites, de evadir-se daquele que evidentemente é o seu mundo interior, que assim foi sempre desde a origem, e assim permanecerá até o fim.
(...)
Da sua arte, diz que o segredo para ser um bom pintor é amar o próprio trabalho. A arte é fruto do amor e o pintor pinta mais para si próprio do que para o público. O artista deve ser servo da sua arte. Ele, Gütlich, não pinta pra vender, vende para pintar.

Julgamos poder descobrir o segredo dessa pintura justamente nesse amor que é respeito, veneração, auto apreço e também entusiasmo disciplinado, que o próprio pintor indica como primeiro e mais válido impulso à criação artística.

Não há nenhum acento polêmico nem atitude exibicionista, e nada, nem sequer um pormenor, que seja de qualquer modo diletantístico, nesta pintura. A narrativa pictórica procede coerente, cerrada, séria. É uma narrativa feita de superamentos, como deve ser, porém fiel, como dissemos, a uma forma de sensibilidade, ao modo de conceber a vida, a terra, o homem, o animal, com uma afetuosidade um pouco triste que muitas vezes roça pelo trágico, mas sempre volta às posições de um equilíbrio composto, sereno.

Não encontramos em Gütlich as constantes de muita arte atual: angústia, desespero, ansiosa pesquisa. Mas um senso consciente da seriedade, da importância, em suma, do significado da vida.

Lina Bo Bardi
São Paulo, junho de 1957.
Revista Anhembi



1 comentários:

Matheus Juan disse...

Muito bom dia eu sou Matheus Juan de Pindamonhangaba e estudo na escola C. E. SESI que queria que vocês me ajuda-cem a intender um pouco sobre as obras de Johann M. Gütlich. Eu acho muito interessante as obras dele mais não consigo intender sobre elas, vejo que as obras deles são muito de pessoas e ele usa cores bem forte.