
Só aquele que espera tudo, que não exclui nada, nem mesmo o mistério, viverá, como fazendo parte da vida (...) indo ao mesmo tempo até à fronteira da sua própria vida (...) Não temos nada a recear. Fomos colocados na vida por ser a vida o elemento que mais nos convém. RAINER MARIA RILKE
Os dias e as horas sempre me foram demasiadamente pesados. A labuta cotidiana se iniciava ainda na penumbra de cobalto que escoava da madrugada entre os poucos astros na imensidão vazia. No vasto campo de chão ocre com resumidas ilhas verdes de plantio de hortaliças, empenhava minhas forças no cultivo do pão do dia, do pão pra vida.
De mãos gastas caídas na enxada conduzia os turnos da lida com a memória toda na tarde a reclinar com dois rostos infantis esperançando por cima do portão do quintal de casa, lugar em que ficava meu coração. Do portão d’onde era recebido com os júbilos da infância, o cheiro da boa comida me alegrava antecipadamente o estômago e me preenchia a alma com os dedicados cuidados de uma esposa cuja beleza de mulher, por ser mãe, fora feita de duas maternidades.
Embora sôfrega, nossa existência jamais se desenhou trágica, tampouco melancólica. A vida que detínhamos era, apesar da rudeza que nos ambientava, de bem-aventurança, pueril bem-aventurança. Saudávamos-nos com as alegrias do convívio, o que fazia com que as penas de tão árdua jornada se amenizassem ao menos quando nos entornos da mesa fazíamos preces pelo pão e dávamos muitas risadas pelas graças da vida.
Certa vez o destino ingrato e traiçoeiro, fez-me do mar da vida, um triste timoneiro e mandou que eu partisse em busca de outras águas. JANSEN FILHO
Numa tarde dentre tantas outras descortinou-se o drama que marca tantas outras existências particulares e que não fazemos caso – embora não sejamos impassíveis a isto –, até que debruce sobre nós com a força de um castigo, por simplesmente existirmos. Sabedor dos casos e desfechos, folclores e fatos da lepra entre nossos antigos, meu íntimo se agitou quando manchas de uma brancura insensível me brotaram no corpo. Qualquer simbologia não é nada perto da des-graça social, real e concreta, que esse infortúnio impõe sobre qualquer miserável que ousa existir sobre este chão de inquietas andanças.
Logo o sacerdote examinaria publicamente a precariedade de minha carne, sentenciaria como imundícia, decretaria meu exílio para o bem do grupo e da saúde coletiva. A Lei é implacável. Seu cumprimento um acontecimento que faz vibrar o mais incólume dos legistas.
Num sábado, o justo dia dedicado ao Senhor, em sua Casa, o Templo, fui examinado, depreciado, sentenciado, desterrado da convivência com as fontes de minha mais cara dedicação.
IMUNDO. Este foi desde então o substituto de meu nome, quase um título, humanamente uma desqualificação completa.
Se pudéssemos pôr o pensamento com a exata visão adentro à vida [?] que haveríamos de ter naquela hora, estranhos olharíamos. FERNANDO PESSOA
Morando nos lugares ermos meu coração tornou-se perdido nas planícies da saudade. As rubras tardes em declínio faziam que meu coração execrado ao isolamento ansiasse longamente por cada aurora, que é a hora em que se diz que a alegria vem. As rubras tardes em declínio me antecipavam o choro da noite quando da memória compunha lembranças dos júbilos das minhas pequenas espiando entre as balaustras do portão e disparando cozinha à dentro onde minha amada se dedicava aos encantos da mesa.
Em breve tempo a distância não se resumia mais ao coração somente, mas, até mesmo o agrado de imaginar aquelas faces abençoadas foi-se apagando, extinguindo, até dissipar-se por completo na paisagem vazia do meu cárcere.
De expectativa em expectativa comparecia ao sacerdote para periódicas avaliações. IMUNDO, declarava ao final de todas as sessões. Fui sendo ninguém, se parecendo com nada, um moribundo empalidecido com membros pendidos na superfície da morte.
Os dias se estendiam à minha frente como infindáveis retas que se afunilavam num horizonte de desesperanças, enquanto o passado como um rio calmamente despejava na bacia do meu peito saudades e solidões.
As tristezas são auroras novas em que o desconhecido nos visita. RAINER MARIA RILKE
Das tardes nos tristes ermos carrego na recordação o instante quando passados alguns anos – que fiz questão de não os contar – rompi as regras do isolamento pela primeira vez, andei por agourentos becos até o lugar em que pude avistar depois de tantas tristes estações, rostos flamejantes, que traziam esperança no porvir. Não contar o tempo foi a maneira que me pareceu sensata para não pensar nos anos que me iam de vida. Vida de um correr vazio. Vida mentida de um futuro morto. Encolhido entre esquecidas pedras onde minha face se escondia do tempo, admirarei como em silenciosa e solitária procissão crianças em despreocupadas brincadeiras.
Dois distantes sorrisos, mais antigos que minhas chagas, se destacaram entre a terra poeirenta e o céu esguio e singular. Meus olhos exaustos no limiar dos gastos umbrais de pedra fizeram meu coração sentir a fundura das dores da saudade.
Eram elas. Eram minhas pequenas Ah, como se pareciam com a mãe. Duas graciosidades em distintas quadras da vida. Para a mais velha a adolescência chegara a tempos enquanto a mais nova cerrava os lábios para conter o sorriso vazado pelos dentes de leite que lhe caíam. Se, saudade é vontade ver de novo, a minha era tão funda que não se acalmava nem com o provisório alívio do olhar.
Espraiado em devaneios entre as lembranças do mundo que me fora tomado e ansioso por algo que ali se realizava, não me apercebi de que fora notado, por justamente, os dois olhares que tornaram graves uma tarde em que, em tudo, se tornara pesada. Preciosos segundos flutuaram numa doída e incoerente expectativa de que os afagos paternos fossem requisitados. Minha pequena caçando abrigo no colo da mais velha descerrou os lábios em chorosos resmungos, engolidos junto com o medo provocado pela visão da meia feição purulenta entre as pedras e a vergonha. Resmungos que escutei não com os ouvidos, mas com emoções feridas. Resmungos de “papai”, “papai”. Firme, a mais velha dominou os gestos e se agitaram em retirada quando outros tantos que por ali também brincavam delataram minha arrastada presença; IMUNDO, IMUNDO, IMUNDO.
A alma, assustada e temerosa cala-se, tudo se afasta, faz-se uma grande tranqüilidade e o incognoscível surge em silêncio. A. J. HESCHEL
Quando ouvi as novidades de que ele estenderia passagem por perto daquele mundo esquecido em que minha doença me fizera habitar, meu coração se inquietou em apreensiva espera. Pouco, quase nada sabia a seu respeito. Dos seus feitos corriam os mais espantosos e surpreendentes relatos, que uns diziam se tratar de lendas, outros de exageros, mas, muitos também garantiam ser ele o Filho de Deus, e que, por isso, atuava com tantos sinais e prodígios.
Do claustro onde foi seqüestrada minha lucidez, sem demora, abandonei o hábito de não contar o tempo. A mágoa foi ficando leve e o tédio ficando breve. Nele, pus a esperança, alberguei sonhos, voltei a sentir minha vida de repente. As planícies outrora nevoentas e afastadas se recompuseram em um horizonte de céu baixo convergindo no perfil de um ser que se dedicava a converter um funeral de apelos em exultantes quintais de contentamento.
Rompi pela segunda vez as regras do isolamento, jogado a seus pés expus minha queixa. Purificação era o que pedia minha carne, minhas emoções, minha réstia de esperança na vida.
Ah, o jeito que ele me olhou, a ternura com que me tocou, as palavras com que me animou. A Lei dizia para não tocar, ele, porém tocou. Quero que fique limpo, disse ele claramente abalado, golpeado, estremecendo ante as duras amarguras da natureza de um destino extremo. Sua fala me encheu o mundo, houve um dia de sol e minha alegria em mim não coube. Senti-o junto a mim, braços ardendo, limpo, sangrante, puro.
Se ele era o Filho de Deus como dizem, e eu o creio, ouve então uma reviravolta no modo como se pensava a compaixão desse Deus por suas criaturas até então. Ele modificou em possibilidade a impossibilidade de tudo o que eu nem chegara a sonhar.
Se havia exageros sobre seus feitos, não sei. Se lendas foram criadas em torno da sua passagem tão marcante por estes prados passageiros, também ignoro por completo. Sei que sua presença era outra. Seus gestos eram de um ser humano de outra classe. Era de uma nobreza no trato, de um cavalheirismo nas palavras, de uma reverência com as vidas que lhe tocavam, de um apego aos dramas da nossa espécie, que o fazia ser o melhor dos homens.
De tudo o que se ouviu a seu respeito, não posso certamente comprovar a veracidade, diz-se que até morto fez viver de novo, e que sobre as águas andou como sobre piso firme.
Do que posso confirmar é que ele parecia sentir demais. Antes de tudo tocar, tudo parecia o tocar. Já chegaram a dizer que o que escreveu o grande príncipe profeta, “Ele tomou para si as nossas dores e as nossas doenças carregou consigo” é uma antecipação de como seria sua conduta com os leprosos.
Alex Carrari
Os dias e as horas sempre me foram demasiadamente pesados. A labuta cotidiana se iniciava ainda na penumbra de cobalto que escoava da madrugada entre os poucos astros na imensidão vazia. No vasto campo de chão ocre com resumidas ilhas verdes de plantio de hortaliças, empenhava minhas forças no cultivo do pão do dia, do pão pra vida.
De mãos gastas caídas na enxada conduzia os turnos da lida com a memória toda na tarde a reclinar com dois rostos infantis esperançando por cima do portão do quintal de casa, lugar em que ficava meu coração. Do portão d’onde era recebido com os júbilos da infância, o cheiro da boa comida me alegrava antecipadamente o estômago e me preenchia a alma com os dedicados cuidados de uma esposa cuja beleza de mulher, por ser mãe, fora feita de duas maternidades.
Embora sôfrega, nossa existência jamais se desenhou trágica, tampouco melancólica. A vida que detínhamos era, apesar da rudeza que nos ambientava, de bem-aventurança, pueril bem-aventurança. Saudávamos-nos com as alegrias do convívio, o que fazia com que as penas de tão árdua jornada se amenizassem ao menos quando nos entornos da mesa fazíamos preces pelo pão e dávamos muitas risadas pelas graças da vida.
Certa vez o destino ingrato e traiçoeiro, fez-me do mar da vida, um triste timoneiro e mandou que eu partisse em busca de outras águas. JANSEN FILHO
Numa tarde dentre tantas outras descortinou-se o drama que marca tantas outras existências particulares e que não fazemos caso – embora não sejamos impassíveis a isto –, até que debruce sobre nós com a força de um castigo, por simplesmente existirmos. Sabedor dos casos e desfechos, folclores e fatos da lepra entre nossos antigos, meu íntimo se agitou quando manchas de uma brancura insensível me brotaram no corpo. Qualquer simbologia não é nada perto da des-graça social, real e concreta, que esse infortúnio impõe sobre qualquer miserável que ousa existir sobre este chão de inquietas andanças.
Logo o sacerdote examinaria publicamente a precariedade de minha carne, sentenciaria como imundícia, decretaria meu exílio para o bem do grupo e da saúde coletiva. A Lei é implacável. Seu cumprimento um acontecimento que faz vibrar o mais incólume dos legistas.
Num sábado, o justo dia dedicado ao Senhor, em sua Casa, o Templo, fui examinado, depreciado, sentenciado, desterrado da convivência com as fontes de minha mais cara dedicação.
IMUNDO. Este foi desde então o substituto de meu nome, quase um título, humanamente uma desqualificação completa.
Se pudéssemos pôr o pensamento com a exata visão adentro à vida [?] que haveríamos de ter naquela hora, estranhos olharíamos. FERNANDO PESSOA
Morando nos lugares ermos meu coração tornou-se perdido nas planícies da saudade. As rubras tardes em declínio faziam que meu coração execrado ao isolamento ansiasse longamente por cada aurora, que é a hora em que se diz que a alegria vem. As rubras tardes em declínio me antecipavam o choro da noite quando da memória compunha lembranças dos júbilos das minhas pequenas espiando entre as balaustras do portão e disparando cozinha à dentro onde minha amada se dedicava aos encantos da mesa.
Em breve tempo a distância não se resumia mais ao coração somente, mas, até mesmo o agrado de imaginar aquelas faces abençoadas foi-se apagando, extinguindo, até dissipar-se por completo na paisagem vazia do meu cárcere.
De expectativa em expectativa comparecia ao sacerdote para periódicas avaliações. IMUNDO, declarava ao final de todas as sessões. Fui sendo ninguém, se parecendo com nada, um moribundo empalidecido com membros pendidos na superfície da morte.
Os dias se estendiam à minha frente como infindáveis retas que se afunilavam num horizonte de desesperanças, enquanto o passado como um rio calmamente despejava na bacia do meu peito saudades e solidões.
As tristezas são auroras novas em que o desconhecido nos visita. RAINER MARIA RILKE
Das tardes nos tristes ermos carrego na recordação o instante quando passados alguns anos – que fiz questão de não os contar – rompi as regras do isolamento pela primeira vez, andei por agourentos becos até o lugar em que pude avistar depois de tantas tristes estações, rostos flamejantes, que traziam esperança no porvir. Não contar o tempo foi a maneira que me pareceu sensata para não pensar nos anos que me iam de vida. Vida de um correr vazio. Vida mentida de um futuro morto. Encolhido entre esquecidas pedras onde minha face se escondia do tempo, admirarei como em silenciosa e solitária procissão crianças em despreocupadas brincadeiras.
Dois distantes sorrisos, mais antigos que minhas chagas, se destacaram entre a terra poeirenta e o céu esguio e singular. Meus olhos exaustos no limiar dos gastos umbrais de pedra fizeram meu coração sentir a fundura das dores da saudade.
Eram elas. Eram minhas pequenas Ah, como se pareciam com a mãe. Duas graciosidades em distintas quadras da vida. Para a mais velha a adolescência chegara a tempos enquanto a mais nova cerrava os lábios para conter o sorriso vazado pelos dentes de leite que lhe caíam. Se, saudade é vontade ver de novo, a minha era tão funda que não se acalmava nem com o provisório alívio do olhar.
Espraiado em devaneios entre as lembranças do mundo que me fora tomado e ansioso por algo que ali se realizava, não me apercebi de que fora notado, por justamente, os dois olhares que tornaram graves uma tarde em que, em tudo, se tornara pesada. Preciosos segundos flutuaram numa doída e incoerente expectativa de que os afagos paternos fossem requisitados. Minha pequena caçando abrigo no colo da mais velha descerrou os lábios em chorosos resmungos, engolidos junto com o medo provocado pela visão da meia feição purulenta entre as pedras e a vergonha. Resmungos que escutei não com os ouvidos, mas com emoções feridas. Resmungos de “papai”, “papai”. Firme, a mais velha dominou os gestos e se agitaram em retirada quando outros tantos que por ali também brincavam delataram minha arrastada presença; IMUNDO, IMUNDO, IMUNDO.
A alma, assustada e temerosa cala-se, tudo se afasta, faz-se uma grande tranqüilidade e o incognoscível surge em silêncio. A. J. HESCHEL
Quando ouvi as novidades de que ele estenderia passagem por perto daquele mundo esquecido em que minha doença me fizera habitar, meu coração se inquietou em apreensiva espera. Pouco, quase nada sabia a seu respeito. Dos seus feitos corriam os mais espantosos e surpreendentes relatos, que uns diziam se tratar de lendas, outros de exageros, mas, muitos também garantiam ser ele o Filho de Deus, e que, por isso, atuava com tantos sinais e prodígios.
Do claustro onde foi seqüestrada minha lucidez, sem demora, abandonei o hábito de não contar o tempo. A mágoa foi ficando leve e o tédio ficando breve. Nele, pus a esperança, alberguei sonhos, voltei a sentir minha vida de repente. As planícies outrora nevoentas e afastadas se recompuseram em um horizonte de céu baixo convergindo no perfil de um ser que se dedicava a converter um funeral de apelos em exultantes quintais de contentamento.
Rompi pela segunda vez as regras do isolamento, jogado a seus pés expus minha queixa. Purificação era o que pedia minha carne, minhas emoções, minha réstia de esperança na vida.
Ah, o jeito que ele me olhou, a ternura com que me tocou, as palavras com que me animou. A Lei dizia para não tocar, ele, porém tocou. Quero que fique limpo, disse ele claramente abalado, golpeado, estremecendo ante as duras amarguras da natureza de um destino extremo. Sua fala me encheu o mundo, houve um dia de sol e minha alegria em mim não coube. Senti-o junto a mim, braços ardendo, limpo, sangrante, puro.
Se ele era o Filho de Deus como dizem, e eu o creio, ouve então uma reviravolta no modo como se pensava a compaixão desse Deus por suas criaturas até então. Ele modificou em possibilidade a impossibilidade de tudo o que eu nem chegara a sonhar.
Se havia exageros sobre seus feitos, não sei. Se lendas foram criadas em torno da sua passagem tão marcante por estes prados passageiros, também ignoro por completo. Sei que sua presença era outra. Seus gestos eram de um ser humano de outra classe. Era de uma nobreza no trato, de um cavalheirismo nas palavras, de uma reverência com as vidas que lhe tocavam, de um apego aos dramas da nossa espécie, que o fazia ser o melhor dos homens.
De tudo o que se ouviu a seu respeito, não posso certamente comprovar a veracidade, diz-se que até morto fez viver de novo, e que sobre as águas andou como sobre piso firme.
Do que posso confirmar é que ele parecia sentir demais. Antes de tudo tocar, tudo parecia o tocar. Já chegaram a dizer que o que escreveu o grande príncipe profeta, “Ele tomou para si as nossas dores e as nossas doenças carregou consigo” é uma antecipação de como seria sua conduta com os leprosos.
Alex Carrari
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