
...Então, Tzanga, guia cheio do saber, principiou explicação ao jovem aluno que tateava no aprendizado da prece. Contando uma parábola, falou-lhe:
Dois homens foram para o Templo. Ambos em estado de ânimo muito opostos.
O primeiro de olhar altivo, corpo hirto, exalando confiança, ensaiando falas e corrigindo-se gramaticalmente, se dirigia à orar ao Deus verdadeiro.
O segundo de olhar semi-cerrado, o corpo em declínio, transparecendo dúvida, declarando a si mesmo a incapacidade de colocar-se corretamente em palavras, pretendia orar a outro deus que não o do primeiro, ou seja, um "deus não verdadeiro"
Diante do altar, o primeiro, que orava ao Deus verdadeiro, declamando um credo impecável, relatava suas virtudes como um bom guardador da confissão correta, imperiosa, e mais adequada.
Distanciado do altar, o segundo, que orava ao "deus não verdadeiro", na penumbra de sua modéstia não se valia de um credo, não encontrava em si virtudes, não fora iniciado sequer em qualquer confissão.
Duas posturas com qualidades internas distintas, voltadas para o mesmo pólo.
O primeiro ensimesmado, confiante na crença que trazia de cor, colocava-se em oração ao Deus em que cria com eloquência de palavras e certeza da imunidade que a confissão certa parecia lhe garantir.
O segundo porém, abnegado de si, desconfiado da crença em que cria, era econômico nas palavras, certo de que não participava de imunidade alguma.
O primeiro, estava tranquilizado de que sua alma amargada não sobrepujava o fato de se orar ao Deus verdadeiro. Tendo em vista que se considerava merecedor das bençãos à ele reservadas por caprichoso decreto divino antes que houvesse terra, céu e gaivotas.
O segundo, inquieto em relação às suas fraquezas, não se encorajava em explanar suas virtudes crente que não as tinha. Contudo, arejava o conteúdo de sua prece com uma insistente sentença: Altíssimo, tem compaixão de mim, pois, peco.
Tzanga decretou o fim da parábola complementando o ensino ao jovem iniciado com uma pergunta semântica:
Qual dos dois foi ouvido em sua oração?
alex carrari
0 comentários:
Postar um comentário