
Sobre mim reclinam as primeiras impressões de um dia
Que se anuncia acinzentado.
Uma névoa gélida escoa ao léu,
Antenas entrecortam o céu.
Torres de comunicação disputam espaço com prédios,
Íngrimes realizações erigidas pela altivez do progresso
Com o respaldo da nossa conivência.
Colunas de cimento, ferro, e cabeças curiosas nas janelas
A tecer comentários sobre o que se vê do alto.
Signos do incessante trabalho,
Que afadiga-nos com deveres agonizantes
Nessa recorrente euforia que jamais finda.
O intermitente barulho das máquinas que sulcam o negrume asfaltico,
O ressoar ao longe do canto d'umas aves que não sei o nome (nem saberei),
As intrépidas conversas de segunda-feira,
Conversas galantes,
Conversas fúteis,
Mergulhadas na candura matinal,
Conversas inúteis,
São, pois, coisas típicas
Que só ganham valor em manhãs
Que se anunciam acinzentadas,
Quando o sol não disputa minha atenção
E os contornos do céu nada refletem.
As fulvas da densa névoa me arremessam ao estado
De solidez lúgubre com tudo o que ela envolve,
Com sua fixidez de vapor que não dura mais
Que um sorriso sem destino afogado em seu brancor.
A névoa que preenche o ar e afoga tal sorriso
Faz com que eu me sinta um velho esperando
Os tempos de seca.
Dela emanam prodigiosos espectros,
Que aceitam a composição do silêncio.
Dela me dou conta das casas em ruínas.
Dela me percebo um corpo
Entre os vazios do espaço,
E o medo logo se desfaz num punhado de poeira.
Nela o tempo redimido tem outra duração.
Nela o tempo dura o quanto da luz indecifrável
Agoniza no ar.
Nela o tempo irredimível admite senão
Uma escassa consciência entre o tempo passado
E o tempo presente.
E o futuro é apenas uma ociosa especulação.
Em manhãs como esta poderia eu divagar entre
Milhares de ponderações.
Poderia eu me comportar com sonolência num campo.
Poderia eu, num vórtice fragmentado de rochas
Fazer meu canto de qualquer jeito,
Contanto que fosse entre rouxinóis exíguos,
Onde eu não tivesse receio do dissipar
Dos ares, nem as árvores estivessem mortas.
Num vale ameno e úmido meus pés golpeiam
Meus odres vazios,
E o timbre de reminiscentes sinos
Ecoam em meus arquivos do passado.
Peço a Deus que eu não morra
Antes de poder repetir estes minutos
Que é o quanto tenho de certezas sobre a vida.
Chamados somos não de acordo com a idade.
O final de cada estação é o prenúncio do derradeiro e
Efetivo último gole, último som, último impulso.
A existência inteira é reduzida a um ínfimo último.
Nossos antigos tinham seus último.
Último desejo, última prece, último beijo,
Último gosto, último cheiro, última tarde.
Um último dia tornava-se todo o tamanho da vida.
E ontem era a metade da vida toda, que julgavam
Ter sido medida com honestidade pelo destino.
Ontem eu menino tomava complicadas lições escolares.
Ontem questionava meus mestres a cerca do movimento do mundo.
Ontem pensava estar adquirindo o começo de todas as respostas.
Ontem desistia de conhecer todas as respostas, quando notei que não saíra do começo.
Ontem desiludi da crença na perpetualidade do tempo
Quando o cansaço abriu veios - resultado dos dias e das horas - debaixo dos meus olhos.
Ontem o primeiro de março ganhou o preciso contorno dos anos que desfaço,
E as velas que assopro, prometéicas fagulhas que me custaram não o fígado, mas a vitalidade do coração.
Onde então, a vida que perdi quando jovem?
E as ruivas tardes debruçando sobre campais alhures?
E o cheiro da Dama da Noite enchendo os ares de indormidas noites quentes?
Quando deixei o acolhedor encanto dessas gélidas manhãs pela euforia solicita de um perpétuo depois?
Quando os clássicos me deixaram com sede à beira da plena fonte?
Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre e essência
E a descendência
Tomba a sombra
Do homem forte
Os anos que nos permeiam arrebatando
Aquele tempo que flui entre o sono e a vigília oculta,
São a expressão da tensão entre o nascimento e a morte
Em que aprendemos o desvelo do espírito
E o estar em sossego entre o tempo justo
E algum sítio abençoado
Carregado de significados invisíveis (condição do mundo em sua origem).
Percorremos rumo à porta que jamais abrimos
Que aberta foi há tempos, não sem sacrifícios,
Não sem sangue, não sem carne, não sem a maldição da Lei.
Entre clamores e súplicas, o abandono experimentado no lenho
Propiciou nossa acolhida no seio Eterno da Trindade – cuja constituição
Confunde-nos onde nossa memória naufraga –
E a superfície da terra flamejou no coração da luz.
Um trêmulo fio de sangue elevou-se sobre nossas cabeças,
Convertendo céu e terra num só fim.
Convergindo céu e terra num só Ele.
No silêncio que marca o tempo é onde comungo
Minha religião de esperas, enquanto n’um
Ritual de brancura a névoa me envolve numa camada funda
E leve, tornando mansos meus pensamentos.
No silêncio cultivo todos os devires,
Debruço sobre uma verdade que cai em desuso.
Vou ficando enquanto passo
Prisioneiro e errante.
Rumo para longe de tudo percorrendo o mundo
Sem sair de perto.
E onde não há começo nem fim
É onde todo o horizonte cabe em meu caminho
E a solidão torna ao pó.
Enquanto percorro desertos interiores absorto nas brancuras
Que me invadem, há um breve instante para a poesia
E o meu corpo é um templo cheio do vácuo de expectativas.
Nele exploro minhas tristezas até a exaustão
Para ver em que pocilga as saudades se abrigaram.
Delas não quero me despedir,
Pois, estão plantadas em um terreno só meu,
Em que experimento a ressurreição das coisas,
E o sol não se move contra meu horizonte.
Manhãs como esta são feitas de um sempre
E alongam-se na lenta paisagem onde me recomponho
E me cabe de novo ser criança
Condição que demorei uma vida quase inteira para alcançar.
E eu posso brincar de mim,
Numa infância branca
Solta num jardim que nunca se tranca.
Nestas manhãs a vida é uma ciranda que sempre gira
Pelas mãos da vida que não cansa de brincar de rodar.
Alex Carrari
Uma névoa gélida escoa ao léu,
Antenas entrecortam o céu.
Torres de comunicação disputam espaço com prédios,
Íngrimes realizações erigidas pela altivez do progresso
Com o respaldo da nossa conivência.
Colunas de cimento, ferro, e cabeças curiosas nas janelas
A tecer comentários sobre o que se vê do alto.
Signos do incessante trabalho,
Que afadiga-nos com deveres agonizantes
Nessa recorrente euforia que jamais finda.
O intermitente barulho das máquinas que sulcam o negrume asfaltico,
O ressoar ao longe do canto d'umas aves que não sei o nome (nem saberei),
As intrépidas conversas de segunda-feira,
Conversas galantes,
Conversas fúteis,
Mergulhadas na candura matinal,
Conversas inúteis,
São, pois, coisas típicas
Que só ganham valor em manhãs
Que se anunciam acinzentadas,
Quando o sol não disputa minha atenção
E os contornos do céu nada refletem.
As fulvas da densa névoa me arremessam ao estado
De solidez lúgubre com tudo o que ela envolve,
Com sua fixidez de vapor que não dura mais
Que um sorriso sem destino afogado em seu brancor.
A névoa que preenche o ar e afoga tal sorriso
Faz com que eu me sinta um velho esperando
Os tempos de seca.
Dela emanam prodigiosos espectros,
Que aceitam a composição do silêncio.
Dela me dou conta das casas em ruínas.
Dela me percebo um corpo
Entre os vazios do espaço,
E o medo logo se desfaz num punhado de poeira.
Nela o tempo redimido tem outra duração.
Nela o tempo dura o quanto da luz indecifrável
Agoniza no ar.
Nela o tempo irredimível admite senão
Uma escassa consciência entre o tempo passado
E o tempo presente.
E o futuro é apenas uma ociosa especulação.
Em manhãs como esta poderia eu divagar entre
Milhares de ponderações.
Poderia eu me comportar com sonolência num campo.
Poderia eu, num vórtice fragmentado de rochas
Fazer meu canto de qualquer jeito,
Contanto que fosse entre rouxinóis exíguos,
Onde eu não tivesse receio do dissipar
Dos ares, nem as árvores estivessem mortas.
Num vale ameno e úmido meus pés golpeiam
Meus odres vazios,
E o timbre de reminiscentes sinos
Ecoam em meus arquivos do passado.
Peço a Deus que eu não morra
Antes de poder repetir estes minutos
Que é o quanto tenho de certezas sobre a vida.
Chamados somos não de acordo com a idade.
O final de cada estação é o prenúncio do derradeiro e
Efetivo último gole, último som, último impulso.
A existência inteira é reduzida a um ínfimo último.
Nossos antigos tinham seus último.
Último desejo, última prece, último beijo,
Último gosto, último cheiro, última tarde.
Um último dia tornava-se todo o tamanho da vida.
E ontem era a metade da vida toda, que julgavam
Ter sido medida com honestidade pelo destino.
Ontem eu menino tomava complicadas lições escolares.
Ontem questionava meus mestres a cerca do movimento do mundo.
Ontem pensava estar adquirindo o começo de todas as respostas.
Ontem desistia de conhecer todas as respostas, quando notei que não saíra do começo.
Ontem desiludi da crença na perpetualidade do tempo
Quando o cansaço abriu veios - resultado dos dias e das horas - debaixo dos meus olhos.
Ontem o primeiro de março ganhou o preciso contorno dos anos que desfaço,
E as velas que assopro, prometéicas fagulhas que me custaram não o fígado, mas a vitalidade do coração.
Onde então, a vida que perdi quando jovem?
E as ruivas tardes debruçando sobre campais alhures?
E o cheiro da Dama da Noite enchendo os ares de indormidas noites quentes?
Quando deixei o acolhedor encanto dessas gélidas manhãs pela euforia solicita de um perpétuo depois?
Quando os clássicos me deixaram com sede à beira da plena fonte?
Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre e essência
E a descendência
Tomba a sombra
Do homem forte
Os anos que nos permeiam arrebatando
Aquele tempo que flui entre o sono e a vigília oculta,
São a expressão da tensão entre o nascimento e a morte
Em que aprendemos o desvelo do espírito
E o estar em sossego entre o tempo justo
E algum sítio abençoado
Carregado de significados invisíveis (condição do mundo em sua origem).
Percorremos rumo à porta que jamais abrimos
Que aberta foi há tempos, não sem sacrifícios,
Não sem sangue, não sem carne, não sem a maldição da Lei.
Entre clamores e súplicas, o abandono experimentado no lenho
Propiciou nossa acolhida no seio Eterno da Trindade – cuja constituição
Confunde-nos onde nossa memória naufraga –
E a superfície da terra flamejou no coração da luz.
Um trêmulo fio de sangue elevou-se sobre nossas cabeças,
Convertendo céu e terra num só fim.
Convergindo céu e terra num só Ele.
No silêncio que marca o tempo é onde comungo
Minha religião de esperas, enquanto n’um
Ritual de brancura a névoa me envolve numa camada funda
E leve, tornando mansos meus pensamentos.
No silêncio cultivo todos os devires,
Debruço sobre uma verdade que cai em desuso.
Vou ficando enquanto passo
Prisioneiro e errante.
Rumo para longe de tudo percorrendo o mundo
Sem sair de perto.
E onde não há começo nem fim
É onde todo o horizonte cabe em meu caminho
E a solidão torna ao pó.
Enquanto percorro desertos interiores absorto nas brancuras
Que me invadem, há um breve instante para a poesia
E o meu corpo é um templo cheio do vácuo de expectativas.
Nele exploro minhas tristezas até a exaustão
Para ver em que pocilga as saudades se abrigaram.
Delas não quero me despedir,
Pois, estão plantadas em um terreno só meu,
Em que experimento a ressurreição das coisas,
E o sol não se move contra meu horizonte.
Manhãs como esta são feitas de um sempre
E alongam-se na lenta paisagem onde me recomponho
E me cabe de novo ser criança
Condição que demorei uma vida quase inteira para alcançar.
E eu posso brincar de mim,
Numa infância branca
Solta num jardim que nunca se tranca.
Nestas manhãs a vida é uma ciranda que sempre gira
Pelas mãos da vida que não cansa de brincar de rodar.
Alex Carrari
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