
Quase dez instantes de minuto antes de o relógio alarmar, ela salta como de hábito, esfrega o rosto nas palmas das mãos indo dar uma olhada nas pequenas caídas no sono bem ao lado. No apertado cômodo, meio quarto improvisado de uma meia sala, estão em descanso com os anjos os motivos do ânimo para seu arquejar de forja matinal. Antecede-se ao programa do despertador para beirar a cama de suas crias por um curto espaço de tempo, suspensa, absorta, tempo para amar suas faces na claridade friorenta do que sobra da noite que se arrasta à ponta da madrugada.
Gradualmente a mais velha experimenta despertar, seguindo-a com um olhar demasiadamente atordoado de sono e frio, de pronto, com doçura, ela a conduz com agrados ao restante do repouso, enquanto a mais nova, estampando felicidade, resmunga indecifráveis vocábulos, parecendo estar em espraiados sonhos.
Ainda é recente o vácuo deixado na vida pelo cessar do fôlego do amado companheiro, que ajuntava tantas de suas tristezas e mudava seus ânimos com dedicados amores, sem se descuidar dos tratos paternos. Secretamente ela ainda padece daquela, e as pequenas, desta falta. E todas as manhãs tenta suprir ausências revivendo memórias, preenchendo lacunas de saudade se dedicando aos cuidados maternos.
Apressadamente a manhã começa a baixar uma cortina de nuvens cor de chumbo encharcando o ar com uma espessa e gélida garoa.
A rotina do dia em forma de recomendações à mais velha são repassadas com olhos amortizados num choro domado com muito exercício de alma e disciplina facial. Pela ausência quer ser presença numa mal acabada caligrafia num pedaço de papel.
Precede numa curta prece as duas jornadas que no dia a aguarda, uma para manter o básico da casa, comida e roupa, outra, para não perder a dignidade que é básica, a futura educação das meninas. Duas jornadas vagas e incertas.
As horas acumuladas que formam dias e semanas afogam na tácita névoa de lembranças invividas brincadeiras, abraços, cirandas, risadas, beijos, choros, picuinhas de criança, que se avolumam somente na vontade, mas que, a obrigação do pão na mesa não lhe deixa fruir, nem perder-se nos universos de criança que conduzem à outras vidas.
A caçula é docemente embrulhada num sobrante cobertor, ficará na creche ao meio do caminho. A mais velha ganha um afago, que recebe como oferta que acende a alma e dilui os graves silêncios no calor de um pequeno instante bom.
- Amemos este instante - cochicha indistintamente como que deixando escapar verbetes num vôo que conduz para o além que não furta o raro tempo.
Quando a manhã se acende depois da ânsia noturna, ela envereda pela rua cheia de ausências no peito, possuída pelas presenças que lhe caberão na vida inteira, o sopro de Deus numa criança envolta num aquecido cobertor e outra em casa que já ensaia viver tudo quanto ganhou por haver tanto perdido. À esta mãe o que importa é a certeza do que esta por vir, e de que espera pacientemente tantas saudades se resumirem numa manhã qualquer quando serão enchidas todas as auroras do mundo e os orvalhos das madrugadas cairão como um bálsamo sobre a face da terra trazendo quietude ao sono e festa mágica ao despertar.
Alex Carrari
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