
Devo a iluminação que segue a Jack Miles.
No dia seguinte o Batista, que se acompanhava de dois de seus seguidores, ao ver Jesus passando, lhes disse: “Eis o Cordeiro de Deus”. Indicação simplificada à do dia anterior, que teve o acréscimo de “que tira o pecado do mundo”.
Os dois seguidores foram atingidos tão em cheio pela indicação do profeta dos ermos que, ao que parece, não hesitaram em trocar de mestre, o dado pelo indicado, que é bom que se diga, não os recrutou, apenas os aceitou.
De partida para a Galiléia encontra a Filipe, e este sim é por ele recrutado, com um “segue-me”. Filipe por sua vez encontra a Natanael e toma ele mesmo iniciativa de recrutá-lo. Fazendo menção ao que Moisés e os profetas escreveram na lei a respeito daquele que havia de vir, Filipe referencia e recomenda o novo mestre: “Jesus, o Nazareno, filho de José”.
Como de Nazaré não saía coisa boa, talvez a sugestão para conferir de perto fosse o melhor argumento para o convencimento do desconfiado Natanael. Depois de ter sido elogiado por seu elitismo e pietismo religioso e tendo sido esquadrinhado uma parte de seu passado recente, Natanael desconsidera a má fama de Nazaré que envolvia quem de lá provinha, e as primeiras impressões que tem de Jesus são as melhores:
“Jesus viu Natanael aproximar-se e disse a seu respeito: Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo! Perguntou-lhe Natanael; Donde me conheces? Respondeu-lhe Jesus: Antes de Filipe te chamar, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira” (Jo 1.47,48).
Ao que parece o elogio lhe caiu bem, sendo recebido de muito bom grado. Admirado com a perspicácia daquele vidente, Natanael solta uma exclamação sem saber ao certo a dimensão e o peso do que exclama:
“Então, exclamou Natanael: Mestre, tu és os Filho de Deus, tu é o Rei de Israel!” (v.49).
Abre parênteses
(A semelhança dessa narração com o mandato de Deus a Abraão parece de propósito. O consentimento, a aprovação da intimação tanto a Abraão quanto a Filipe e Natanael são acolhidas sem muitos esforços. Jesus porém, é mais exigente e mais decisivo, e requer que tanto os que foram apenas aceitos, quanto os recrutados, sejam também decisivos em suas posturas diante da grandeza do acontecimento que se avizinha. Jesus requer algo mais, sendo que não lhes oferece os agrados materiais que Deus oferecera a Abraão, “de ti farei uma grande nação” A Filipe, a Natanael e também aos outros nada é oferecido).
Fecha parênteses
Jesus, que sabe bem o que é o gênero humano, segue em conversa com o aceso recém chegado seguidor:
“Ao que Jesus lhe respondeu: Por que te disse que te vi debaixo da figueira, crês? Pois maiores coisas que estas verás. E Acrescentou: Em verdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”(v.50,51).
Quando em algumas ocasiões nos Evangelhos Jesus é aludido como Filho de Deus – como no caso de Natanael – ele parece retroceder rebaixando-se, enfatizando sua humanidade, identificando e afirmando sua identidade, apontando sua missão, referindo-se a si como “Filho do Homem”.
Abre parênteses
(Encontramos nos evangelhos sinópticos cerca de 70 vezes a expressão “Filho do Homem”. O termo é estranho à língua grega e reproduz uma locução corrente no hebraico e aramaico: ben-adam ou ben-enascha, que significa, no ambiente de Jesus “o homem” como integrante de um coletivo humano, ou “um homem” ou “alguém”. Conceituada no ambiente do A.T é usada nos Evangelhos como já fora usada na apocalíptica judaica, como uma designação do mediador escatológico da graça o ho hyios tou antrõpou (o filho do homem), e sempre em declarações do próprio Jesus).
Fecha parênteses
Na virada da era cristã essa expressão ganha adeptos no entendimento seja como expressão idiomática ou como título. Se entendida como título, “Filho do Homem” aponta para Daniel 7.13-14:
“Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como Filho do Homem, e dirigiu-se ao Ancião de Dias, e o fizeram chegar até ele. Foi-lhe dado domínio, e glória, e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem; o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais terá fim”.
Com freqüência, desapercebidos, não reparamos que Jesus se sente provocado em certas ocasiões nos Evangelhos a usar o título “Filho do Homem”, quando lhe é aplicado, por algum desavisado, o de Rei de Israel ou Filho de Deus. O que deveríamos ter percebido é que Jesus rejeita um título e troca por outro quando nota que honrarias que se ocultam em expressões de certo modo legítimas e por ele merecidas, se aproximam. Quando age assim ele sugere o que é próprio de sua natureza; que é menor do que eles pensam que ele realmente é ao mesmo tempo em que é mais.
Depois de uma demonstração de poder, por ínfima que seja, é natural em seres humanos assustados como Natanael, que Jesus seja saudado como Filho de Deus, mesmo sem considerar sua exalante santidade: “Para o próprio Deus, entretanto, o que é importante no tocante a ser o Deus encarnado, é ele ser o Deus encarnado (...) Na vida de Deus, o Deus encarnado é, em sentido similar, ‘o homem’. O que Jesus diz a Natanael, brincando com a ambiguidade da frase, equivale a dizer: ‘Você me chama de ser divino só porque eu conheço sua mente e posso ler seu passado. Eu lhe digo: eu sou um ser humano, mas você verá o céu se abrir e os anjos juntarem-se sobre a cabeça deste ‘ser humano’”(Jesus: Uma crise na vida de Deus, p 54,55).
Se ele não adere e não se reconhece como Rei de Israel não fazendo conta disso, e troca de expressão ao ser impulsivamente chamado por Natanael de Filho de Deus, é porque sabe que é mais sendo menos, ao tomar de empréstimo e fazer nova aplicação ao termo de Daniel; ele é o imperador de todos os povos.
O Filho de Deus só aceita ser reconhecido como o Filho do Homem e, em sua primeira manifestação pública, é apresentado como “o Cordeiro de Deus”. Se os primeiros seguidores vão até ele por causa da indicação do Batista que o identifica como o Cordeiro de Deus, e ao ser corretamente chamado de Filho de Deus ele corrige seu interlocutor, como equacionar a ambiguidade de um imperador ser um cordeiro e o Filho de Deus ser o Filho do Homem?
Alex Carrari
No dia seguinte o Batista, que se acompanhava de dois de seus seguidores, ao ver Jesus passando, lhes disse: “Eis o Cordeiro de Deus”. Indicação simplificada à do dia anterior, que teve o acréscimo de “que tira o pecado do mundo”.
Os dois seguidores foram atingidos tão em cheio pela indicação do profeta dos ermos que, ao que parece, não hesitaram em trocar de mestre, o dado pelo indicado, que é bom que se diga, não os recrutou, apenas os aceitou.
De partida para a Galiléia encontra a Filipe, e este sim é por ele recrutado, com um “segue-me”. Filipe por sua vez encontra a Natanael e toma ele mesmo iniciativa de recrutá-lo. Fazendo menção ao que Moisés e os profetas escreveram na lei a respeito daquele que havia de vir, Filipe referencia e recomenda o novo mestre: “Jesus, o Nazareno, filho de José”.
Como de Nazaré não saía coisa boa, talvez a sugestão para conferir de perto fosse o melhor argumento para o convencimento do desconfiado Natanael. Depois de ter sido elogiado por seu elitismo e pietismo religioso e tendo sido esquadrinhado uma parte de seu passado recente, Natanael desconsidera a má fama de Nazaré que envolvia quem de lá provinha, e as primeiras impressões que tem de Jesus são as melhores:
“Jesus viu Natanael aproximar-se e disse a seu respeito: Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo! Perguntou-lhe Natanael; Donde me conheces? Respondeu-lhe Jesus: Antes de Filipe te chamar, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira” (Jo 1.47,48).
Ao que parece o elogio lhe caiu bem, sendo recebido de muito bom grado. Admirado com a perspicácia daquele vidente, Natanael solta uma exclamação sem saber ao certo a dimensão e o peso do que exclama:
“Então, exclamou Natanael: Mestre, tu és os Filho de Deus, tu é o Rei de Israel!” (v.49).
Abre parênteses
(A semelhança dessa narração com o mandato de Deus a Abraão parece de propósito. O consentimento, a aprovação da intimação tanto a Abraão quanto a Filipe e Natanael são acolhidas sem muitos esforços. Jesus porém, é mais exigente e mais decisivo, e requer que tanto os que foram apenas aceitos, quanto os recrutados, sejam também decisivos em suas posturas diante da grandeza do acontecimento que se avizinha. Jesus requer algo mais, sendo que não lhes oferece os agrados materiais que Deus oferecera a Abraão, “de ti farei uma grande nação” A Filipe, a Natanael e também aos outros nada é oferecido).
Fecha parênteses
Jesus, que sabe bem o que é o gênero humano, segue em conversa com o aceso recém chegado seguidor:
“Ao que Jesus lhe respondeu: Por que te disse que te vi debaixo da figueira, crês? Pois maiores coisas que estas verás. E Acrescentou: Em verdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”(v.50,51).
Quando em algumas ocasiões nos Evangelhos Jesus é aludido como Filho de Deus – como no caso de Natanael – ele parece retroceder rebaixando-se, enfatizando sua humanidade, identificando e afirmando sua identidade, apontando sua missão, referindo-se a si como “Filho do Homem”.
Abre parênteses
(Encontramos nos evangelhos sinópticos cerca de 70 vezes a expressão “Filho do Homem”. O termo é estranho à língua grega e reproduz uma locução corrente no hebraico e aramaico: ben-adam ou ben-enascha, que significa, no ambiente de Jesus “o homem” como integrante de um coletivo humano, ou “um homem” ou “alguém”. Conceituada no ambiente do A.T é usada nos Evangelhos como já fora usada na apocalíptica judaica, como uma designação do mediador escatológico da graça o ho hyios tou antrõpou (o filho do homem), e sempre em declarações do próprio Jesus).
Fecha parênteses
Na virada da era cristã essa expressão ganha adeptos no entendimento seja como expressão idiomática ou como título. Se entendida como título, “Filho do Homem” aponta para Daniel 7.13-14:
“Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como Filho do Homem, e dirigiu-se ao Ancião de Dias, e o fizeram chegar até ele. Foi-lhe dado domínio, e glória, e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem; o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais terá fim”.
Com freqüência, desapercebidos, não reparamos que Jesus se sente provocado em certas ocasiões nos Evangelhos a usar o título “Filho do Homem”, quando lhe é aplicado, por algum desavisado, o de Rei de Israel ou Filho de Deus. O que deveríamos ter percebido é que Jesus rejeita um título e troca por outro quando nota que honrarias que se ocultam em expressões de certo modo legítimas e por ele merecidas, se aproximam. Quando age assim ele sugere o que é próprio de sua natureza; que é menor do que eles pensam que ele realmente é ao mesmo tempo em que é mais.
Depois de uma demonstração de poder, por ínfima que seja, é natural em seres humanos assustados como Natanael, que Jesus seja saudado como Filho de Deus, mesmo sem considerar sua exalante santidade: “Para o próprio Deus, entretanto, o que é importante no tocante a ser o Deus encarnado, é ele ser o Deus encarnado (...) Na vida de Deus, o Deus encarnado é, em sentido similar, ‘o homem’. O que Jesus diz a Natanael, brincando com a ambiguidade da frase, equivale a dizer: ‘Você me chama de ser divino só porque eu conheço sua mente e posso ler seu passado. Eu lhe digo: eu sou um ser humano, mas você verá o céu se abrir e os anjos juntarem-se sobre a cabeça deste ‘ser humano’”(Jesus: Uma crise na vida de Deus, p 54,55).
Se ele não adere e não se reconhece como Rei de Israel não fazendo conta disso, e troca de expressão ao ser impulsivamente chamado por Natanael de Filho de Deus, é porque sabe que é mais sendo menos, ao tomar de empréstimo e fazer nova aplicação ao termo de Daniel; ele é o imperador de todos os povos.
O Filho de Deus só aceita ser reconhecido como o Filho do Homem e, em sua primeira manifestação pública, é apresentado como “o Cordeiro de Deus”. Se os primeiros seguidores vão até ele por causa da indicação do Batista que o identifica como o Cordeiro de Deus, e ao ser corretamente chamado de Filho de Deus ele corrige seu interlocutor, como equacionar a ambiguidade de um imperador ser um cordeiro e o Filho de Deus ser o Filho do Homem?
Alex Carrari
2 comentários:
Muito bom senhor Carrari.Tem trechos das Escrituras que eu leio,leio e leio e não consigo ver detalhes (esses).
E vc é um facilitador trazendo algo que está lá e eu não ví , mas ví agora o detalhe.Obrigado.
tito from brasília.
Grande Tito,
Que surpresa. Me sinto gratificado.
Abraço.
Alex
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