Quando os homens nada sabiam acerca do movimento do mundo e por isso se remoíam em medos justificados, Deus era uma enorme Presença sem uma palavra que lhe desse nome e o colocasse como coisa entre as coisas. Experiência extraordinária e experiência ordinária não se opunham tampouco uma substituía outra, e todo o conhecimento que os homens, grandes ou pequenos adquiriam, caía sempre em Sua esfera de poder e inescapável realidade. Havia metafísica demais em tudo.Com Rilke, aprendi que todas as expressões de todas as línguas se baseiam em convenções sociais. A palavra “Deus”, que em termos de identificação e formalização de Sua essência, não pode pretender dizer coisa alguma, também resultou de uma dessas tantas determinações que afinamos e com empáfia repassamos para o tempo que sempre virá depois de nós. Deus - antes mesmo que alguém, por medo ou descuido, quisesse Lhe capturar por uma palavra qualquer -, continha tudo, de modo que ninguém havia capaz de nomear coisa alguma, nem reconhecer qualquer uma que não fosse um efeito de Seu Ser. E um efeito de Seu Ser era um mistério tão elevado e suficiente que não precisava que alguém pensasse a respeito. À medida que as coisas começaram a ser nomeadas e tudo passou a ser chamado por alguma palavra que pudesse identificar “isso” como “isso” e não como “aquilo”, em passo acelerado as coisas nomeadas começaram a cair para fora de Sua esfera de poder e inescapável realidade.
E Deus também passou a ser uma palavra; a palavra “Deus”. Aos poucos o mundo foi se despossuíndo da enorme Presença por traz dessa palavra. Quanto mais as coisas se tornavam palavra, mais Ele deixava de ser dono da obra de Suas mãos, ficando um pouco desta estranhamente a Seu serviço, como instrumento da educação pela pedra ou pela faca, com a qual ensinava à Suas criaturas o que Dele ia sobrando; a invisível lei moral somente.Este é o início, arrisco dizer, do fim da constituição íntima das coisas e do sentido íntimo do universo, e o começo das dicotomias entre os verdadeiros e os falsos, o sagrado e o profano, o aqui e o acolá, a alma e o pó, a única vida que nos cabe e a que cogitamos ainda nos pertencerá. Neste exato momento decaiu a comunhão com os olhos e pelos ouvidos, de que falou o Pessoa, quando a vida ainda era toda uma oração e uma missa, e não carecia de crença que a justificasse. Quando Deus se transformou na palavra “Deus”, os homens passaram a saber mais Dele do que Ele de Si próprio, e as orações começaram a ser efetuadas à olhos fechados, pois, Ele não estava mais nas flores, nas árvores, nos vales, no sol e no luar, que viraram coisas que distraíam a atenção e nada sabiam a Seu respeito. Um constrangimento colou no espírito humano, fazendo-o deixar de gozar demasiadamente e sem culpa, as aparências e as sensações.Em bem pouco tempo Ele já não possuía quase nada, e Seus predicados e atributos, antes reconhecíveis através do movimento do mundo, começaram a formar parte do acervo de seus antigos feitos, mas nada que acentuasse Sua influente Presença enquanto efeito, a um bom tempo extinta por causa do nome que Lhe deram. Ele começou a desaparecer devido aos pensamentos a Seu respeito. Nietzsche intuiu que os pensamentos sobre Ele o mataram. Não lhe deram crédito e o trataram - e ainda tratam - como um deicida que deveria, ele sim, ter nascido morto.Quando restava muito pouco daquilo que um dia Ele havia sido, estando praticamente irreconhecível, o Estado e a Igreja reuniram para Ele algumas qualidades de utilidade pública que agora ninguém pode tocar, fazendo-O ficar em débito com ambos (Estado e Igreja). Com isso, encheram-No de significados e esvaziaram-No de existência própria, que para não se dissipar por completo permanece sendo invocado como um nome, uma palavra, que é o pouco que Dele pode ainda ser visto, ou lido.
Alex Carrari
E Deus também passou a ser uma palavra; a palavra “Deus”. Aos poucos o mundo foi se despossuíndo da enorme Presença por traz dessa palavra. Quanto mais as coisas se tornavam palavra, mais Ele deixava de ser dono da obra de Suas mãos, ficando um pouco desta estranhamente a Seu serviço, como instrumento da educação pela pedra ou pela faca, com a qual ensinava à Suas criaturas o que Dele ia sobrando; a invisível lei moral somente.Este é o início, arrisco dizer, do fim da constituição íntima das coisas e do sentido íntimo do universo, e o começo das dicotomias entre os verdadeiros e os falsos, o sagrado e o profano, o aqui e o acolá, a alma e o pó, a única vida que nos cabe e a que cogitamos ainda nos pertencerá. Neste exato momento decaiu a comunhão com os olhos e pelos ouvidos, de que falou o Pessoa, quando a vida ainda era toda uma oração e uma missa, e não carecia de crença que a justificasse. Quando Deus se transformou na palavra “Deus”, os homens passaram a saber mais Dele do que Ele de Si próprio, e as orações começaram a ser efetuadas à olhos fechados, pois, Ele não estava mais nas flores, nas árvores, nos vales, no sol e no luar, que viraram coisas que distraíam a atenção e nada sabiam a Seu respeito. Um constrangimento colou no espírito humano, fazendo-o deixar de gozar demasiadamente e sem culpa, as aparências e as sensações.Em bem pouco tempo Ele já não possuía quase nada, e Seus predicados e atributos, antes reconhecíveis através do movimento do mundo, começaram a formar parte do acervo de seus antigos feitos, mas nada que acentuasse Sua influente Presença enquanto efeito, a um bom tempo extinta por causa do nome que Lhe deram. Ele começou a desaparecer devido aos pensamentos a Seu respeito. Nietzsche intuiu que os pensamentos sobre Ele o mataram. Não lhe deram crédito e o trataram - e ainda tratam - como um deicida que deveria, ele sim, ter nascido morto.Quando restava muito pouco daquilo que um dia Ele havia sido, estando praticamente irreconhecível, o Estado e a Igreja reuniram para Ele algumas qualidades de utilidade pública que agora ninguém pode tocar, fazendo-O ficar em débito com ambos (Estado e Igreja). Com isso, encheram-No de significados e esvaziaram-No de existência própria, que para não se dissipar por completo permanece sendo invocado como um nome, uma palavra, que é o pouco que Dele pode ainda ser visto, ou lido.
Alex Carrari
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