4 de julho de 2011

Que uma serpente não decida por nós


Adão e Eva são o Todo Homem e Toda Mulher bíblicos, seu pecado é o nosso pecado
Deixemos de lado Adão e Eva como nomes próprios. Não os tratemos como indivíduos sobre os quais pese a total culpa do primeiro delito. Não pensemos que Adão e Eva eram invólucros de pleno purismo interior vivendo em estado de imperturbada perfeição (A perfeição do homem é a perfeição de uma vocação, não de uma situação, como escreve F. Varillon). Desprendamo-nos da idéia de um primeiro casal exemplar e puro sulcando delituosamente a maçã num paraíso primordial. Desconsideremos que a árvore ocultava uma ameaça. Que o mal estava contido no fruto.
No lugar do casto e ingênuo casal das origens, coloquemo-nos a nós mesmos, com seco realismo, abocanhando nossa mais alucinada ganância, nossa mais ostentosa ambição, nosso mais agudo desejo de dominação.
Como Deus sereis. O prêmio é a conquista imediata da alteridade, o completo desimpedimento da percepção. A árvore não é boa nem má, a ciência é neutra, sua manipulação é que a inclina para o bem ou para o mal. Dependendo da vontade daquele que da ciência se apropria, pode ser que seja inventada a cura para o câncer, ou, pode ser que apareça uma bomba mais devastadora do que a de Nagasaki e Hiroshima. A cobiça gerada no coração, de onde procedem os maus desígnios como dizia o Nazareno, é que antecede a fatídica dentada. O gesto consumado só evidencia a mais ativa e sombria potencialidade que se abriga em nosso íntimo, o mal em estado embrionário.
Convidados a tomar parte na vida divina através do humilde acolhimento, inaugurando alvoradas, fruindo crepúsculos dias a fio no mundo, optamos pela via do rompimento; a negação de nossa humana vocação. Colocado em termos que diariamente arrazoamos sobre seus benefícios, nada mais tentador que inventarmo-nos como Deus. Quanto aos encargos de conhecer o bem e o mal fingimos não saber do que se trata, melhor ainda – e isso limpa a nossa barra – dizemos que tanto o bem quanto o mal pertencem a Deus, e que não nos compete arquitetar sobre o caso. O velho determinismo fatalista disfarçado de piedade.
Tapamos o entendimento para a evidência de que a Bíblia não fecha com a afirmação de ser o homem totalmente mau – totalmente depravado como queria o obscuro legista de Genebra – nem totalmente bom – como querem alguns educadores atuais –, mas que é dotado de ambas as tendências. Inclina-se tanto para uma quanto para a outra. Desconversamos quanto ao relato do Gênesis onde queremos ver uma “Queda”, a escritura não classificar, e não dar espaço, para compreendermos o ato de Adão como pecado. Parece que o melhor para nossa disposição ao cinismo é não sabermos que na opinião do Pentateuco o homem é dotado de “impulsos malignos”, quer dizer, há em seu caráter uma tendência para o mal.
Fazemos de conta que nunca ouvimos dizer que a expressão que a Bíblia usa para essa tendência para o mal é yetzer, palavra que deriva da raiz YZR, que significa “formar”, “modelar”, algo como o ceramista que modela o barro para fazer um vaso. Que a palavra yetzer tem como significado “forma”, “estrutura”, “propósito” com referência a imaginação. Yetzer, portanto, significa fantasias, sejam elas boas ou más. Não, não levamos em conta que estes impulsos só são possíveis à base daquilo que é peculiarmente humano: a imaginação. Ser bom ou mal é algo dado somente ao ser humano. A questão problema do bem e do mal surge quando há imaginação[1]. Jesus deixa isso às claras quando alerta para o enraizamento da maldade na profundidade de nosso ser, onde fervilham maquinações que quando colocadas para fora revelam o que realmente vai em nosso interior.
Está certo que o homem só desenvolve seu impulso para o mal após ter rompido sua unidade primordial com a natureza e ter adquirido autoconsciência e aprimorado, com malignidade, sua imaginação. Na concepção judaica – que não leva em conta as neuras de Stº Agostinho e Calvino – o homem nasce com a capacidade de pecar, mas pode também voltar-se para Deus e se redimir alinhando seus passos ao desejo divino, sem que para isso precise ser forçado, ou predestinado. A idéia de escolha é fundamental na mentalidade judaica, pois, ela determina quais impulsos o homem vai seguir se para o bem, se para o mal.
Que uma serpente não decida por nós
Não levamos em consideração que o “pecado original” nos termos em que fomos treinados a acreditar se conforma à nossa ociosa falta de atitude e brio pessoal em nos colocarmos em nosso lugar e arcarmos com os desmazelos próprios do nosso ego avultado. Nossa preguiça, e, pouca ou nenhuma disposição para cingir tudo o que estamos destinados a ser, avoluma o débito impagável que Adão e Eva deixaram em nossa conta. Até polimos a expressão do Bispo de Hipona, não por ser coesa com o Sacro texto, mas por ser coerente com nossa anuência em deixar que uma serpente sempre decida por nós.
A noção de “pecado original” como enunciado dogmático provoca em nós uma resignação aliviante ao sugerir que entramos na vida com dois pontos a menos em nosso cômputo, ambos perdidos lá no Éden, sem sequer termos tido a chance de protestar – como se por um acaso fosse-nos dada a chance de fazê-lo fossemos mesmo capazes. No início não queríamos, com o tempo, deixamos de ser homens, falidos e descontentes com nossa sorte, porém, relutantes em assumir nossa responsabilidade pelo que fizemos no passado e pelo que faremos daqui em diante. A sublimação voluntária de nossa responsabilidade e consciência evolutiva do mal que nós mesmos gestamos, fizeram florescer imagens de Satãs e Luciferes heróicos como o de Milton ou patéticos como o de Goethe, tornando o pecado mais interessante e o pecador mais atraente que o santo, embora não admitamos publicamente.
Isolando o dogma, a necessidade de redenção pessoal foi arquitetada a partir da noção de “pecado original” e “Queda”, que não constam em Gênesis, mas para todos os efeitos é dito e ensinado que constam, tornando-se pedras fundamentais sobre as quais foi construída a mensagem cristã de salvação.
O pecado de todos nós e o que estamos destinados a ser
Passivos e trêmulos observamos da coxia, Adão, o homem-pecador em cena, homem-insurrecionário, altivo e rebelde tumultuando o céu, instalando com apenas uma dentada a desordem cósmica como efeito do orgulho que lhe penetrou o coração. (Um início caricatural do mundo, em que Deus cria tudo perfeitamente e o homem abala essa perfeição introduzido o caos e a desordem). Daí as imagens de auto-afirmação – a cobiça de Adão no Éden ao pé da árvore da ciência – seguidas de sexo desordenado – fora dele quando foram expulsos – que povoam nossa mente quando pensamos no pontual primeiro delito e em sua extensão; e viram que estavam nus. Não por acaso, no imaginário cristão, o primeiro casal só foi conhecer o sexo após a "Queda" e a expulsão do paraíso. Uma definição prometéica do pecado, que nas obras de T.S.Eliot começou a ser redefinida.
Eliot expôs um mundo de lume fosco acinzentado, habitado por homens ocos e empregados de aparência débil, diagnosticando a verdadeira doença de nosso tempo, enquanto que nossa geração avança manquejando, não para sua realização, mas para o queixume e o tédio. Becket nos apresentou personagens que lançam olhares apreensivos das latas de lixo e dos montes de sujeira, onde chafurdam inertes e impotentes, trocando palavras desconexas e banais. Kafka nos fez apavorar com a parábola do ordinário empregado de escritório cuja primeira reação, ao ver-se transformado num terrível inseto, é calcular se ainda dará pra chegar a tempo ao trabalho. No século XXI a figura prometéica perdeu lugar na cena, que foi ocupada pelos fracos, passivos e trêmulos observadores da coxia.
Ao localizarmos a “Queda” com excessivo rigor na história do fruto proibido, nublamos o entendimento para o verdadeiro gerador do pecado no homem que consta, por exemplo, na paulada criminosa de Caim em Abel, na arrogância religiosa da Torre de Babel, na tentativa de homicídio contra José; a recusa do homem em viver em reciprocidade com seu próximo, compartilhando a terra e dividindo seus frutos e conquistas. O primeiro pecado humano não é um pecado de orgulho, é um pecado de condescendência. A má ação original de Eva – que representa o Todo Homem e Toda Mulher – não foi comer o fruto, pois, antes mesmo de esticar o braço e apanhá-lo seu coração já o havia cobiçado, renunciando a sua posição de domínio sobre si e responsabilidade sobre seus atos. A má ação original de Eva foi deixar que uma cobra lhe dissesse o que fazer.
A meia verdade da mítica serpente, não por acaso fálica, se confirmou, não morreram eles e não morremos nós ao comermos da árvore. Não se trata dessa morte que, acossados, tanto fazemos questão de desconversar. Não se trata desse nosso medo mais acirrado. Trata-se de outro tipo de morte. Da morte antecipada, da morte provocada, da vida abreviada, do fôlego extinto ao meio dia, das primaveras corrompidas. Asseveramos com tanta ansiedade a inauguração da morte física como um castigo divino, que ofuscamos o brilho de nossa mais fulgente virtude, emanar as qualidades invisíveis do Eterno antes que se rompa o fio de prata. Ambicionamos ser iguais a Deus sem acolhe-lho, então negamos, suprimimos, rejeitamos nossa humanidade, nos desumanizamos no processo; deixamos de ser homem. O homem é a criatura que está destinada a realizar seu próprio destino através do acolhimento do divino. Quando cede esse direito de decisão a outrem, e opta por não acolher o dom da reciprocidade divina, deixa de ser homem, se torna desumano.
O pecado que convencionamos chamar de “original” não é o pecado apenas de um, ou dois indivíduos num estranho e longínquo Jardim de Delícias, antes, é o pecado de todos nós na secularidade das nossas vidas, porque todos pecaram. No egoísmo somos solidários em pecado com o genérico Adão, para a morte. Na reciprocidade somos solidários em santidade com o Cristo ressuscitado, para a vida. O apático esquivamento de nossas responsabilidades, nossas decisões pessoais transferidas a outrem, a alienação de uma vida de harmonia com o semelhante, a passividade diante das varias expressões da maldade, a negação da nossa humana vocação; eis o pecado em sua origem. Eis o pecado original.
Alex Carrari

[1] Erich Fromm, O ESPÍRITO DE LIBERDADE, p 128-131

4 comentários:

Manuela disse...

caramba, não entendi nada. Snif snif

Marcelo Carahyba disse...

Sensacional! Encontrei seu texto pela indicação do Gondim no Twitter. Convido-o a ler a minha perspectiva de Gn 3 em http://www.equilibrio-distante.co.nr/2008/11/certamente-no-morrereis.html

A propósito, seu texto será "roubado" (com a devida referência) e incluído no meu outro blog www.textus-selectus.co.nr

Abraço!

alex carrari disse...

Desculpe Manuela, tentei ser o mais claro possível. Na próxima tento melhorar a didática. Abraço.

Marcelo obrigado, e fique a vontade para usar não só este mais outros textos que quiser, será um prazer.
Vou ler o que vc escreveu, depois nos falamos. Abraço.

Alex

Robson do Carmo disse...

É Lequinho... Que saudades mano!Fico feliz em ler seus textos! Muito bons mesmo, alto nível, mas, entendo o que a Manuela disse, não porque não tenha entendido, mas porque creio que você pode escrever tudo o que disse de maneira mais simples, palavras mais acessíveis a todos, entende? Está escrito como filósofos escreveriam, e não é pra menos, pelo nível de conhecimento que você tem, pelos lívros que lê, etc., mas creio que quem sabe muito pode se fazer entender melhor no nível do "povão". Creio que você consegue escrever tanto para intelectuais como para leigos, uma vez que conhece os dois lados, pois veio de família simples também, mas fico tremendamente feliz por ler seus textos.
Verdadeiramente a porta é estreita e poucos são os que por ela entrarão. Mateus 7. O verdadeiro cristianismo tem dado lugar a projetos mirabolantes e mega eventos e a simplicidade do evangelho tem sido deixado para trás.
Hoje sou pastor de jovens na Comunidade Cristã Ágape de Marília e luto por esse evangelho simples, que o Senhor nos conduza a esse caminho estreito, onde o que importa é morrer para nós mesmos, nossos sonhos e prazeres, fantasias etc. Que diminua eu para que Cristo cresça em mim e em todos quantos desejam esse caminho da cruz.

Muita saudades de você mano! Grande abraço na Ada também!
Espero te ver em breve, aliás estou em São José até o dia 18, vamos tentar nos encontrar para bater um papo edificante sobre o Reino.

Robson.