27 de julho de 2011

Temos grande urgência em aprender a morrer


Aprender a morrer constitui-se todo o ensino que poderemos alcançar a respeito da vida. A morte maturada, a longevidade arduamente treinada, consequencia de uma vida bem cumprida sinalizada por alguns feitos, uns grandes, outros nem tanto, pede-nos humildade para nos reconhecermos pequenos diante da sua grandeza. E assim quem sabe, ao nos retirarmos do mundo, exausto de tantas presenças, o façamos com nobreza e com a mesma mansidão com que nascemos (talvez a morte seja um outro nascimento como já versou o poeta).
Temos grande urgência em aprender a morrer lentamente após cada entardecer percebido com assombro e reverência. Não digo morrer como quem renuncia à vida ou dela se abdica com devotado abandono, que seria o contrário de qualquer aprendizado, e não haveria aí lição alguma. Renunciar à vida não traz nenhum aprendizado sobre a morte, que é de um valor tão esplêndido e indescritível que até mesmo Deus dela experimentou, sorvendo-a intensamente (talvez com certa curiosidade). Ele, que antes do silenciar de sua carne aprendeu a morrer todos os dias, pôde enfim permitir, sem culpa, que continuássemos a ser afligidos pelo mais absurdo dos medos cultivados, a hora em que a resistência da memória será posta à prova e então, tarde demais, saberemos se o esquecimento se aloja onde a carne silencia, ou se, de acordo com minha educada intuição, preservar-se-á de alguma outra forma até aquele dia.

Aprender a morrer é também ensaiar despedidas.

Despedidas são uma espécie de abertura num mundo de tantas invenções e prodígios como este que particularmente arquitetamos no curto espaço entre um respirar e um espirar divino, instante em que vivemos que designamos como existência pessoal. Todas as despedidas são em si a mesma coisa, apenas lhes damos diferentes nomes para que a experiência pareça sempre outra, e a dor não dê impressão de encher-nos o peito. Essa existência pessoal não teria o devido valor caso não fosse a justeza e o rigor de sua curta duração. O prazo de cada vivência é repleto de desconfianças contra toda dor, e de intermináveis esperas por um tempo que parece se distanciar cada vez mais, que seja mais fecundante e adequado à eternidade que tanto se demora. Uma pulsão sagrada (algo que é peculiar a nós, os que reconhecem por demais o aqui) deita sua arejada sombra sobre tudo o que consideramos digno de que não participe das comuns e inevitáveis partidas, nos impelindo à resistência contra o acúmulo de desconfianças e esperas, alentando-nos o espírito no momento em que a eminência e o prenúncio de tantas perdas se achegam.

Quem, o quanto mais reconheceu o aqui e tanto mais se amasiou dos entardeceres, mais terá de acostumar-se, enquanto aqui, às despedidas que ao longo da vida forçosamente fará, até que a última de todas as despedidas, a sua própria, não terá como acompanhar, já não mais será encontrado entre os vivos.
A morte, essa ocorrência, a mais colossal de todas as ocorrências não esclarecidas, empurra-nos para o mais fundo da vida e exige-nos o cumprimento da mais admirável tarefa; acatar sem hesitação as mais íntimas experiências de perda, ou morte que seja, que se verga sob a gravidade de uma má suspeita. Delimitada com meios e medidas, a morte, formidável e ricamente ilustrada, se encarada com gravidade, nos parece ser a maior parte desse Todo que nos confunde com infinitas transformações necessárias, nos impondo seu ritmo soberano sob a névoa das mudanças, organizadas pela transparente graça que paira onde é decantado o sacro-santo sopro da vida.

Mesmo que tenham direito a existir, as concepções cristãs de um além, junto com outras hipóteses da periferia divina, são consolos que se demoram demais ao coração. O coração esquece pouco, e os consolos nele não encontram abrigo caso estes sejam inalcançáveis para o momento, o instante entre um respirar e um espirar divino, em outras palavras, o aqui.

Supondo que pudéssemos dominá-la – como de praxe supomos em relação a quase tudo – acreditamos que a morte em sua essência mais íntima fosse contrária a nós. Nos esquivamos – como se pudéssemos –, do dever de admirar a organização da vida e seus fundamentos que Deus nos confiou e que decerto sempre esperou que dele nos valêssemos em cada posição provisória dessa trajetória cuja curva vertiginosa seguimos sem contudo nos determos em parte alguma.

Alex Sandro Carrari, data de nascimento: 1 de março de 1974...



2 comentários:

tito disse...

Oi Carrari posso comentar?
A morte é tão certa como o ar que respiramos;convivemos com a morte,
mas não engolimos a morte,nós fomos criados para viver eternamente,mas até esta eternidade chegar de fato,no caminho está a tal MORTE! - inaceitável.Gostei do artigo vou curtir + uma vez.
Ainda somos amigos,do Tito from Brasília.

Chris disse...

Adorei teu blog. Lindo post. Deus abençoe

http://chrisbrandgouv.blogspot.com/