Confissões:Meu último encontro com o profeta do Bairro do Desterro
Não houve uma vez sequer em que eu não tive de me redimir, não sem antes me arrepender, de algumas condutas desagradáveis que costumo guardar em profundas reservas por um tempo que aferradamente acredito ser indeterminado devido à minha sensação de onipotência e controle sobre fatos e feitos que só a mim – ao menos é nisso que confio – dizem respeito. Sempre em débito comigo mesmo e com mais qualquer alguém, dissimulando ser quem poucas vezes eu na verdade sou, evito com todas as forças possíveis qualquer encontro, de qualquer natureza, com o profeta do Bairro do Desterro. Alojado sempre e provisoriamente em Ebenézer*, lugar onde fui – e ainda sou invariavelmente – recuperado de minhas covardias e omissões, ele pacificamente aguarda meus retornos, sem qualquer surpresa, mesmo que me pareçam tardios e descabidos. Para ele não há tensão entre minha demorada volta e os tempos que o Eterno decretou para tais retornos – é nisso que ele confia.Em quatorze anos jamais fomos, nem eu nem ele, confundidos quanto a meus estados de alma e ânimo. Mesmo que se trate de duras inquirições de sua parte na maior parte do tempo, suas perguntas convencionalmente elaboradas com arrojada sutileza de vocábulos, em todos os casos são sempre a resposta que eu deveria ter dado a mais tempo. Desses inadiáveis encontros que, por motivos óbvios, sempre relutei e reluto em ter, o último foi talvez o que, com o menor esforço de seu dom, mais inconvenientes verdades me lançou em face, e mais contrição me arrancou do íntimo. Parecendo estar sempre a minha espera, o profeta, me cumprimentando com a paz do Cristo – costume entre nós – e um afável abraço, não deu prenúncios da chama divina que lhe ardia o peito com as novidades por ele antevistas a meu respeito. Novidades que só são devidamente reveladas caso ele seja divinamente instruído a isso. Sempre me tratando pelo sobrenome, quase esquecido de meu prenome, sabendo que obstinadamente me abstenho do direito de iniciar a conversa, começou com as triviais, mas não despropositadas averiguações, que duraram quase o tempo de beber um chá morno de folha de laranjeira.“Agora fale você de você mesmo Carrari”. Intimou como de costume e com o mesmo tom solene das anteriores averiguações, tom em nada grave.Precavido, avantajei-me na exposição das minhas boas razões para um tão acirrado apego aos modos corretos e maneiras aceitáveis de se portar socialmente. Desfilei sofismas piedosos, ninharias sacrossantas, explicando e garantindo minha utilidade secular. Do jeito que argumentei, dei provas concretas de que eu era indispensável, insubstituível para que a freqüência do mundo das coisas fúteis não se desarmonizasse. Habilmente preparei minha rede de impetuosa ignorância complicando-me por, diante de tão elevado espírito, não saber o momento propício de começar a filosofar com viril maturidade; falar precisamente o mínimo. Não é de hoje que ele sabe que minhas preocupações com as aceitações sociais sempre encontraram, e encontram repouso na garantia tramada por minhas mais ocultas intenções; que eu seja aceito como um pouco mais que um hominídeo primitivo individualista, que o máximo que faz para sair de si é levantar manhã após manhã para acalmar as obrigações biológicas, pelejar pelo pão que perece. Assim festejando o trabalho contínuo com que me fadigo diariamente, em que vou me desfazendo no tempo, onde pago penitência à Cronos recebendo o aplauso de todos e o amor de uns poucos.“Enquanto isso a eternidade te escapa”. Soltou sem rodeios, como se concluísse o que parecia ser apenas minha introdução, como que prevendo a ladainha que eu me ajeitava para desenrolar e me enrolar ainda mais (como sempre). Era um indício de que ele estava farto de meus repetidos pretextos.“Tuas crenças românticas e metafísicas, tuas posições políticas e intelectuais, teu conservadorismo moral com anos de elaboração e rígida educação, imprimiram em você o excessivo desejo – e talvez seja isso que te traga sempre de volta sob inconsciente contragosto – de retomar uma ilusão espiritual que te engrandeça mais que os demais. Tuas lendas criaram forças sobre ti e os gritos de tua fé guardaram bastante sonho e poeira. A poeira se expressa no que você vem sendo, e o que você vem sendo arrasta tua alma inteira sobre uma vasta voragem de desencontros onde deverias te abster da fala e tecer teus silêncios, mas não o faz.O tempo não dura muito a passar. O tempo está sempre prenhe, à espera de quem o descubra como curtida matéria de vida pronta à ressurreição das coisas. Não ceda jamais à idéia exagerada de decretar que tudo o que é aparente, sensível e provisório, seja excessivamente ruim. Receba as tardes que vêem leve sobre as coisas como um agrado do tempo onde naufraga tua memória. Estes são parênteses inefáveis; a contemplação da eternidade no que lhe é próprio, o movimento do mundo. Você Carrari, ainda não aprendeu a perceber essa eclosão da mais pura beleza que burila bem no centro das paixões efêmeras. A eternidade te escapa porque não atentas para suas mutáveis frações que se transfiguram em graus de perfeição aqui e ali, nas coisas mais cálidas e voláteis. Pior que isso, arrasta teus dias como um fardo de sensações proibidas e mortas”.A essa altura resolveu citar um trecho de um poema que disse não se lembrar de quem era, mas que mais tarde fui saber que era do Caeiro. Solícito, pediu-me para repetir com ele no compasso de um credo, prometendo que depois tomaríamos mais um chá:Quem me dera que eu fosse o pó da estradaE que os pés dos pobres me estivesse pisando...Quem me dera que eu fosse os rios que correm E que as lavadeiras estivessem à minha beira...Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio E que tivesse só o céu por cima e a água por baixo...Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro E que ele me batesse e me estimasse...Antes isso que ser o que atravessa a vida Olhando para trás de si e tendo pena...Nesse intervalo desértico de tempo teve início a cunhagem de um elevado diálogo espiritual. Entre nossa grandiosa solidão não havia nenhum pensamento barulhento para me facilitar as coisas. Entre nossas vozes dispersas o vento se erguia estalando os sinos, oscilando entre a vida e o que era quase isso. Era quatro horas da tarde, enquanto os elementos da criação ganiam em alta voz, um eco de uma luta confusa me chegava, banhando minha face em lágrimas.
*Desafio Jovem Ebenézer (casa de recuperação para dependentes químicos onde fiquei internado entre meus 22 e 23 anos)Alex Carrari
1 comentários:
Sem palavras, meu amigo. Seu texto nos avassala a alma. Obrigada por compartilhar conosco, porque isso nos faz crescer.
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