
“E esse desconchavado desse moleque que agora cismou de parar de falar”, trovejou a espaventada mãe de Cícero, que daí pra frente começou a ficar Cícero Calado. Receava havia pouco tempo, que o menino estava se emudecendo em devagarosa escalada, só não sabia que a gravidade era tão séria para o resto de sua acanhada vivência. O primeiro presságio foi sentido quando ele parecia pensar nas falas em anestésicos momentos de trabalhada quietação, dando a entender que perseguia em algum arquivo interior palavras que fizessem a adequada junção entre o que pretendia dizer e o que de fato dizia. “Não somos desses que tanto esperam por uma bobagem à toa, se solta logo infeliz” expurgavam depressa a quietude em exercício do jovenzito. O segundo presságio – que é uma trágica decorrência do primeiro – apareceu aos olhos públicos dos mais chegados quando, ainda que pensasse longamente no que dizer, ao soltar o verbo ficava claro que, mesmo dizendo algo, acanhadamente ausentava-se por detrás dos pronunciamentos.
Cícero foi se embrulhando em quietude, calando-se a olhos vistos, “alinhavando mudos discursos”, era o que todos diziam. Ficando cada vez mais quieto cavava na solidão um túnel cuja tarefa única era, por uma questão de dinâmica, não tornar ocioso seu emudecimento.
Mudo de nascença é ingrata sina, mas emudecer já depois de ter experienciado o custoso jogo da comunicação verbal, da sonoridade das idéias, causava uma aflição que nos desesperava de tanta dó.
Lembro muito vagamente que o mudo-de-depois-da-nascença, manteve por um pouco de tempo um vínculo de comunicação com uns poucos. Mesmo calado de vez por todas, marcava numa brochura com letras vacilantes curtos desejos, pequenas necessidades, breves anseios, depois arrancava a página como quem quer se desfazer de um erro incorrigível, e lançava-a ao ar sem dar devida importância a quem quer que a apanhasse para leitura. Sempre um rubor lhe vestia a cara de vergonha por ainda se submeter em se apoiar no desenho das palavras para ter de se dizer. A esta altura, querer dizer. Contradizer.
Não permaneceu tempo suficiente nesse estágio. As poucas parentais expectativas de reversão do caso, ou que um remorso lhe tomasse de ataque e o fizesse voltar aos normais modos de se comunicar, desarranjaram-se quando gastou mais folhas do que o caderno podia conter e não mais se equipou de outro. A partir de então só econômicos sinais, curtos gestos, ainda sustentaram por breve tempo sua improvável ligação com qualquer possibilidade de entendimento fora de sua incrível afonia.
“Deus, onde desapareceu a doçura da voz desse menino”, protestava a mãe que se conformava ao espírito da coisa, mesmo desconhecendo as origens e os fins do flerte do infeliz com a misteriosa mudez.
Num dia que não foi marcado como data importante – ninguém fazia muito caso de seu caso – Cícero Calado parou, não teve mais fins nem recomeços, seu percurso acabou numa estação de lapidáveis desencontros.
Foi aí que começou a estrear-se legítimo fazedor de silêncios. A voz emigrara da fala, os sinais e gestos desistiram do corpo. Calado em seu retraído recanto desempenhou sua identidade, conservando-se só, no indizível sigilo de uma vasta vontade; recriar-se de outra maneira, audível só em sua desértica extensão.
Elevou tanto seu projeto de silenciar-se de maneira pura, como uma coisa exclusivamente sua, incontaminável de qualquer tentação ideológica, que se deu à grandeza de se explicar abrindo exceção num certo meio-dia quando, acompanhado, cultivava um extenso campo de telhados. Expressou-se espantosamente com palavras: “Sabe por que me calo tanto? (...) Palavras não podem ser negociadas. Palavras são pontes sagradas que, se não se é capaz de cruzá-las nobremente com seu destino às costas, o mais digno é despencar-se voluntariamente no silêncio (...) É um esforço vão, tentar lhes falar”.
E foi só. Nunca mais se ouviu tal coisa, ou qualquer outra de sua boca. O silêncio voltou a ser sua legítima defesa, seu grito fechado, sua parcela de responsabilidade dentro do mundo. Quem lhe fez companhia e ouviu este extremo pronunciamento notou que sua voz já não mais sibilava com os doces acordes da infância quando, até então, se tinha sido ouvido pela última vez.
herdeiro do deserto
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