...no enquanto todos os outros prosseguiam no natural decurso da vida, ou seja, depois de um pouco de tempo começar a ficar velho, ele, de acordo com o que se conta, acriançava-se mais e demais. De nascimento, veio ao mundo como qualquer gente normalmente nasce; rubro, feio, choroso e com fome. Dos pueris primeiros acontecimentos que caracterizam a primeira infância cumpriu com todos, sem falta nem exceção. Acumulou-se de prósperas brincadeiras, sobejou-se de perdíveis inocências, somou-se de inconfessáveis descobertas, juntou-se de fulgentes imaginações. Uma infância com casos e acasos igualmente as outras infâncias. A juventude e a fase adulta procederam de igual modo. Até aí nada consta de admirável que defina o exato dia em que começou o curioso regresso de vida.
Foi meio sem querer que alguém, também não se sabe direito quem, notou que o dito parecia descumprir com as normais regras do acúmulo dos dias sobre a terra, quer dizer, enquanto todos encraquelavam a pele da carne que se flacidava, ele se desenrugava, a pele se aveludava, a carne se amaciava. À medida que os cabelos de todos os outros facilmente se alvejavam, os dele desbranqueavam com rigor.O aprendizado que a experiência dos anos nos imprime, nele começou a ser percebido o contrário, desaprendia de tudo o quanto sabia enquanto avançava ao revés do tempo. Bem antes de o caso ser notado era fato que conhecia os domínios das ciências exatas e humanas, como se tivesse mestrados e doutorados.
Chegou ao estagio de saber de tudo um pouco em alto nível, só que, não se sabe por que cargas, começou intenso regresso tanto no corpo como na cabeça. Regrediu-se desenvelhecendo de pouco em pouco, desaprendendo as informações na mesma proporção. Ao invés de avançar e se aperfeiçoar seguindo uma especialidade, ia regredindo esquecendo os saberes adquiridos desde aquele aprendizado mais prático que não consta em livros, aqueles mais primitivos ligados a sobrevivência e aos nossos requisitos mais simiescos.
Um conselheiro do lugar, sábio respeitado, notando o incomodo geral e o medo estampado na cara de todos, e já de antemão tendo sido avisado em sonho sobre o que ocorreria depois Daqueles Dias, resolveu então se pronunciar. Habilmente argumentou: “O Damasceno está em melhor condição que nós todos, pois, ao retornar às criancices revive tudo de novo, só que de outros modos. Ele tem duas maneiras de vida”. Tomou assento e prosseguiu, “numa primeira fez-se sabedor das ciências e dos naturais conhecimentos fazendo-se por aquilo que se tornou sabedor. Numa segunda, faz-se esquecedor de todos os saberes, científicos e naturais, formando-se no desfazer-se por aquilo que vai se esquecendo no regresso do tempo”. Pausou. Retomou bem depois: “Com isso o que ele está é se salvando mais que qualquer um de nós, caros aflitos cidadãos, pois, sua última condição, ao que tudo indica, será a de total falta de maldade, pois se tornará cada vez mais criança”. Isso asseverou o sábio à um grupo que se dirigiu com lampiões e donativos – pão, leite e hortelã – até seu aperto onde meditava sobre os últimos dias na terra. Como não dissera quase nada, e isso era o que o tornava um respeitado sábio, quer dizer, falar tudo dizendo muito pouco, aborrecido com o alvoroço popular e com a impressão geral de que o curioso caso tivesse uma grande lição a lhes ensinar, resolveu então decodificar a moral da história, mais uma sutil meia explicação:
“Acalmem-se sobre o destino do nosso Prometeu, ele não passará de onde tem de chegar, onde seguramente vai chegar. Desaprendendo de tudo, chegará à fé, rocha em que se estilhaçam as vaidades e os saberes. Mas para que haja essa ocorrência é obrigatório um regressar de vida, um inteirar-se novamente criança, fazer-se como um destes pequeninos”, neste ponto arrastou o braço no ar apontando para um vazio palpável como se adiante estivessem os tais pequeninos de que falou. Ele sabia que a euforia geral não era nem de longe por preocupação com o destino de Júlio Damasceno, mas sim em querer saber se com eles era possível acontecer o mesmo. Provando a designação de profundo conhecedor da humanidade, o sábio encolheu-se porta à dentro em seu soturno recinto.
De um em um, de dois em dois, de três em três, a aglomeração foi se desfazendo, se retirando em falante procissão, buscando convencimentos sobre as dadas explicações. Num bloco que se deslocava à frente um grupo pensava discorrendo sobre os escassos esclarecimentos prestados pelo sábio. Bem no meio do grupo uma fala paralela capturou a atenção dos mais exaltados: “Já ouvi algo assim sobre essa coisa de se tornar como criança, mas não imaginava que era desse jeito”. Um silêncio difuso capaz de incomodar toda vida cobriu o alvoroço e não houve mais nenhum alguém com coragem suficiente para elaborar uma grande pergunta. O ensino estava dado.
Alex Carrari

0 comentários:
Postar um comentário