8 de janeiro de 2012

O Poeta do Fragmento discorre sobre a esperança do significado que restaura a experiência



No princípio criou Deus as jornadas, então veio a dúvida e a nostalgia
(autor que desconheço)


Eis me aqui na metade do caminho,
Tentando nesse longo tempo que aqui é curto
Aprender a empregar as palavras,
Todas que me escapam rigorosamente ao tino.
Em tudo o quanto vou olhando, em partes vou ficando.
Em tudo quanto vou vendo passar, em partes vou passando.
Vivo de partidas em todas as tentativas.
Uma escassa consciência, é isso o que o tempo,
Passado e futuro, me admite.
Cada qual com uma dada estatura,
Rumando para o fim do futuro num fluido de incerto nexo.

Na metade do caminho a impressão é de que
Tudo é desnecessário ser dito,
Que as palavras não mais carecem de conexão,
Que os requeridos sentidos perdem-se no vácuo do sem fim
Que se apresenta ao insciente destino, posto que esqueço.
À medida que prossigo, o mundo vai se tornando
Mais estranho do que sempre,
E os deuses me dão pouco,
E o pouco que dão é falso.

Tudo o que aprendi acerca dos deuses, esqueci em deslocadas estações,
Mas ainda acredito no rio, esse poderoso ser castanho,
Indomável, hirsuto, inviolável, fiel a si mesmo em sua torrente ira.
Às muitas margens ecoam muitas vozes distintas;
Vagos queixumes que dobram sinos que medem o tempo.
Tempo contado pelos aflitos cronômetros dos tolos aborrecidos,
Que em vigília calculam o futuro inconsútil,
E tratam o passado como fria fraude para nostálgicos devotos.

As seivas da lei para estes é o insolente esquecimento
Dos destinos partilhados.

Vivo na experiência (nesta me afirmo) o risco de perder o significado,
Mas, a esperança do significado restaura a experiência.
Sei que memoro meu passado, e sinto muito além do que me lembro.
Nada de verdadeiro há naquilo que me des-une dos deveres do sentimento.
Não vivo no ressecamento do mundo dos sentidos.
Não acredito na inoperância do mundo do espírito,
E os dois me parecem sempre um.

O sol que há nesses campos onde pago meus tributos,
É sol o bastante para quem espera as chuvas.
A cada hora não se muda somente a hora,
Mas a vida e o que se crê a respeito dela.
A vida passa entre o viver e o ser.
Entre o viver e o ser quase inglório,
E a infâmia de cogitar que as aparências das flores contempladas
Podem ser outras manifestações da verdade,
Algo como uma inaudita música escapando entre
Camélias sobre o musgo do templo, acariciadas
Por uma Luz capaz de suportar toda a realidade.

As sebes do caminho estão verdes desde o início
Dessa força só acompanho e paro por breves intermitências de lucidez estética.
Não sendo avesso às convenções do tempo
Não crio arcabouços lúdicos sobre o fim da jornada.
Não penso em abandonar o áspero caminho.
Amo sua transitória floração, odor da Terra, coisa viva.
Formas que se movem me preservando da tentação de evadir
Para o mundo da fantasia.

Partindo de onde parti numa hora incerta que antecede a aurora,
Deixo minhas memórias em pedra edificadas.
Intranqüilo, porém, não aflito nem desanimado.
Não nego que dormimos docemente em um mundo,
E acordamos brutalmente em outro, ainda assim,
Cultivo paciente a terra, mesmo que seja ela a urdir meus suplícios.
Quero que seja feita Outra vontade e não a minha.
Que seja este o fruto da ação,
Já que para mim o medo não se revela num punhado de pó.


alex carrari

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